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1984 de Orwell

George Orwell escreveu em 1948 o livro 1984 (Nineteen Eighty-Four). O livro foi publicado em 1949 e representou, talvez, a distopia definitiva do século 20, escrita no dealbar da guerra-fria (mas que, de certo modo, ainda remanesce no século 21). Por isso é uma viagem no tempo: o livro até hoje é proibido em algumas ditaduras. Há menos de três anos surgiu um movimento de desobediência civil na Tailândia, onde pequenos grupos se reúnem nas ruas e praças da cidade para ler a obra proibida pelo regime em pleno ano de 2014!

1984 narra a história fictícia de um Estado totalitário fundido a um partido autocrático. O Partido – que conquistou hegemonia sobre a sociedade (em termos leninianos e gramscianos) – é dirigido por um Partido Interno, comandado pelo Grande Irmão (Big Brother: o chefe supremo, o líder, o führer) que congrega ou representa 2% da sociedade ou sua camada superior. As camadas médias compõem o Partido Externo, representando 13% da sociedade. Todos os 85% restantes compõem a camada baixa (os Proles). Ou seja, o Partido não apenas representa o Estado (ao qual se fundiu), mas estrutura hierarquicamente a própria sociedade. De sorte que toda a sociedade vira assim, na distopia de Orwell, uma organização privada.

A novela que serve de veículo para a crítica de George Orwell é centrada no personagem Winston Smith, que é (segundo o sofrível verbete da Wikipedia) “um homem com uma vida aparentemente insignificante, que recebe a tarefa de perpetuar a propaganda do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura a fim de que o governo sempre esteja correto no que faz. Smith fica cada vez mais desiludido com sua existência miserável e assim começa uma rebelião contra o sistema”.

Em 1984 a guerra é o fundamento de tudo. Mas não a guerra quente, a guerra de facto, e sim a guerra que era simulada como engendramento para construir e manter inimigos como pretexto para reproduzir cosmos sociais estruturados segundo padrões autocráticos e regidos por dinâmicas autocráticas. Ou seja, o estado de guerra. No livro, o membro do Partido Interno O’Brien descreve a visão de futuro do partido:

“Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre… não se esqueça, Winston… sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo vencido. Se quer uma imagem do futuro, pense numa bota pisando um rosto humano – para sempre”.

Vale a pena ler algumas passagens, em especial sobre a guerra e sobre o duplipensar.

SOBRE A GUERRA (excertos)

“A guerra não é mais a luta desesperada e aniquiladora que costumava ser nas primeiras décadas do século vinte. É uma luta de objetivos limitados entre combatentes incapazes de destruir um ao outro, sem causa material para guerrear e mesmo sem qualquer genuína divergência ideológica. Isto não significa que as operações de guerra, ou a atitude em relação a ela, se tenham tornado mais cavalheirescas ou menos sanguinárias. Ao contrário, a histeria guerreira é contínua e universal em todos os países, e atos como estupros, pilhagens, matança de crianças e escravização de povoações inteiras, e represálias contra prisioneiros que chegam a incluir a morte pela água fervente e o enterramento de seres vivos, são considerados normais, e até meritórios, quando cometidos pelos amigos, e não pelo inimigo…

Com efeito, a guerra mudou de aspecto. Mais exatamente, mudaram de ordem de importância as razões pelas quais se faz a guerra. Os motivos já parcialmente presentes nas grandes guerras do início do século vinte tornaram-se, dominantes e são agora reconhecidos conscientemente, e levados em consideração...

O objetivo primário da guerra moderna (segundo os princípios do duplipensar, essa meta é simultaneamente reconhecida e não-reconhecida pelos cérebros orientadores do Partido Interno) é usar os produtos da máquina sem elevar o padrão de vida geral. Desde o fim do século dezenove, foi latente na sociedade industrial o problema de dar fim ao excesso de artigos de consumo. Atualmente, que poucos seres humanos têm bastante para comer, esse problema evidentemente não urge, e assim poderia vir a ser, mesmo sem a intervenção de um processo destruidor artificial…

Também tornou-se claro que o aumento total da riqueza ameaça destruir – com efeito, de certo modo era a destruição – de uma sociedade hierárquica. Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivessem bastante que comer, morassem numa casa com banheiro e refrigerador, e possuíssem automóvel ou mesmo avião, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de desigualdade. Generalizando-se, a riqueza não conferia distinção. Era possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal de bens e luxos, fosse igualmente distribuída, ficando o poder nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos fruídos, a grande massa de seres humanos, normalmente imbecilizada pela miséria, aprenderia a ler e aprenderia a pensar por si; e uma vez isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza e da ignorância.

Regressar ao passado agrícola, como imaginaram alguns pensadores no começo do século vinte, não era solução praticável. Entrava em conflito com a tendência para a mecanização, que se tornara pouco menos que instintiva em quase todo o mundo; e além disso, qualquer país que permanecesse industrialmente atrasado ficaria indefeso militarmente e estaria fadado a ser dominado, direta ou indiretamente, pelos rivais mais progressistas. Tampouco era solução satisfatória manter as massas na miséria restringindo a produção de mercadorias. Isto aconteceu, em grande parte, durante a fase final do capitalismo, mais ou menos entre 1920 e 1940. Permitiu-se que estagnasse a economia de muitos países, a terra deixou de ser arroteada, o maquinário básico permaneceu na mesma, grandes setores da população foram impedidos de trabalhar e mantidos semivivos por meio de caridade estatal. Mas isto também provocava debilidade militar, e como eram evidentemente desnecessárias as privações, tornavam inevitável a oposição.

O problema era manter em movimento as rodas da indústria sem aumentar a riqueza real do mundo. Era preciso produzir mercadorias, porém não distribui- las. E, na prática, a única maneira de se fazer isso é pela guerra contínua.

O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas dos produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que doutra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e portanto, com o passar do tempo, inteligentes.

Mesmo quando as armas de guerra não são destruídas, sua manufatura ainda é um modo conveniente de gastar mão de obra sem produzir nada que se possa consumir. Uma Fortaleza Flutuante, por exemplo, contém trabalho suficiente para construir várias centenas de navios cargueiros. Depois de algum tempo é desmantelada, por ter se tornado obsoleta, sem ter trazido benefício material a ninguém, e com novo e enorme esforço, constrói-se outra.

Em princípio, o esforço bélico é sempre planejado de maneira a consumir qualquer excesso que possa existir depois de satisfeitas as necessidades mínimas da população. Na prática, as necessidades da população são sempre subestimadas, e o resultado é haver uma escassez crônica de metade dos essenciais mas isto é considerado vantagem. É uma política consciente manter perto do sofrimento até os grupos favorecidos, já que o estado geral de escassez aumenta a importância dos pequenos privilégios e assim amplia a distinção entre um grupo e outro. Pelos padrões do início do século vinte, até mesmo um membro do Partido Interno leva vida austera e laboriosa. Não obstante, os poucos luxos de que goza, o apartamento espaçoso e bem mobiliado, a melhor qualidade da sua roupa, a superioridade da sua comida, bebida e fumo, seus dois ou três criados, seu automóvel ou helicóptero particular, o colocam numa esfera diferente de um membro do Partido Externo, que por sua vez tem vantagens semelhantes em comparação com as massas submersas a que chamamos “proles”. A atmosfera social é de uma cidade sitiada, onde a posse de um pedaço de carne de cavalo diferencia entre a riqueza e a pobreza. E, ao mesmo tempo, a consciência de estar em guerra e portanto em perigo, faz parecer natural a entrega de todo o poder a uma pequena casta: é uma inevitável condição de sobrevivência.

Veremos que a guerra não apenas realiza a necessária destruição como a efetua de maneira psicologicamente aceitável. Em princípio, seria bastante simples gastar o excesso de mão de obra construindo templos e pirâmides, cavando buracos e tornando a enchê-los, ou mesmo produzindo grandes quantidades de mercadorias e queimando-as. Mas isso só daria a base econômica, mas não a emocional, de uma sociedade hierárquica. Trata-se aqui não do moral das massas, cuja atitude não tem importância, contanto que sejam mantidas no trabalho, mas do moral do Partido. Espera-se que até mesmo o mais humilde membro do Partido seja competente, industrioso e inteligente, dentro de estreitos limites, Porém é também necessário que seja um fanático crédulo e ignorante, cujas reações principais sejam medo, ódio, adulação e triunfo orgiástico. Em outras palavras, é necessário que tenha a mentalidade apropriada ao estado de guerra. Não importa que de fato haja uma guerra e, como não é possível uma vitória decisiva, pouco importa que a guerra vá bem ou mal. O que importa é que possa existir o estado de guerra.

A divisão intelectual que o Partido exige dos seus membros, e que é mais fácil de obter numa atmosfera de guerra, é agora quase universal, porém, quanto mais se sobe nos quadros, mais nítida se torna. É precisamente no Partido Interno que a histeria de guerra e o ódio ao inimigo são mais fortes. Na sua posição de administrador, muitas vezes é necessário a um membro do Partido Interno saber se esta ou aquela notícia de guerra é falsa, e muitas vezes, ele pode perceber que a guerra inteira é espúria e que, ou não está sendo travada, ou está sendo travada por objetivos diferentes dos declarados; mas essa consciência é facilmente neutralizada pela técnica do duplipensar.

Entrementes, nenhum membro do Partido Interno hesita, por um instante que seja, na sua crença mística de que a guerra é real, que está fadada a terminar pela vitória, ficando, a Oceania senhora indisputável do mundo inteiro.

Todos os membros do Partido Interno creem, como num artigo de fé, nessa vitória futura. Será obtida quer pela aquisição gradual de território e, consequentemente, acúmulo de esmagadora preponderância de força, quer pelo descobrimento de uma nova arma invencível…

As duas metas do Partido são conquistar toda a superfície da Terra e extinguir de uma vez para sempre qualquer possibilidade de pensamento independente. Há, portanto, dois grandes problemas que o Partido deve resolver. Um deles é descobrir o que pensa outro ser humano, e o outro é matar várias centenas de milhões de pessoas em alguns segundos, sem dar aviso prévio. Este é o assunto da pesquisa científica que ainda subsiste. O cientista de hoje ou é uma mistura de psicólogo e inquisidor, estudando com extraordinária minúcia o significado das expressões faciais, dos gestos, e tons de voz, e verificando os efeitos reveladores das drogas-da-verdade, terapia de choque, hipnose e tortura física; ou é químico, físico ou biólogo só interessado pelos ramos da sua profissão ligados à supressão da vida. Nos vastos laboratórios do Ministério da Paz, e nas estações experimentais ocultas nas florestas brasileiras ou no deserto australiano, ou nas ilhas perdidas da Antártida, os grupos de peritos continuam sua missão, infatigáveis. Alguns se ocupam, simplesmente, de planejar a logística de futuras guerras; outros de inventar maiores e ainda maiores bombas-foguete, explosivos cada vez mais poderosos, blindagens mais e mais resistentes; outros buscam novos gases, mais letais, ou venenos solúveis, capazes de ser produzidos em quantidades tais que destruam a vegetação de continentes inteiros, ou culturas de germes maléficos imunizados contra todos os anticorpos possíveis; outros se esforçam para produzir um veículo que abra caminho sob a terra como um submarino por baixo d’água, ou um avião tão independente da base como um navio de vela; outros ainda exploram possibilidades mais remotas, tais como focalizar os raios do Sol através de lentes suspensas a milhares de quilômetros da Terra, ou provocar terremotos e maremotos artificiais pela alteração do calor no centro do planeta. Mas nenhum desses projetos jamais se aproxima da realização…

É necessário repetir o que já dissemos: que a guerra, tornando-se contínua, mudou fundamentalmente de caráter.

A julgar pelos padrões das guerras passadas, a guerra de hoje é, portanto, uma impostura. É como os combates entre certos ruminantes, cujos chifres são dispostos em ângulo tal que não podem ferir um ao outro. Entretanto, apesar de irreal, ela tem sentido. Devora os excedentes dos artigos de consumo, e ajuda a conservar a atmosfera mental especial que uma sociedade hierárquica exige.

A guerra, como veremos, é agora assunto puramente interno. No passado, os grupos dominantes de todos os países, não obstante pudessem reconhecer seu interesse comum e, em consequência, limitassem o poder destruidor da guerra, de fato combatiam, e o vencedor sempre saqueava o vencido. Em nossos dias, eles não combatem uns aos outros. A guerra é travada, pelos grupos dominantes, contra os seus próprios súditos, e o seu objetivo não é conquistar territórios, nem impedir que os outros o façam, porém manter intacta a estrutura da sociedade. Daí, o se haver tornado equívoca a própria palavra “guerra”. Seria provavelmente correto dizer que a guerra deixou de existir ao se tornar contínua.

A pressão que se exerceu sobre os seres humanos entre a Idade Neolítica e o começo do século XX desapareceu e foi substituída por algo bem diferente. O efeito seria mais ou menos o mesmo se os estados ao invés de se guerrearem, concordassem em viver em paz perpétua, cada qual inviolado dentro das suas fronteiras. Pois nesse caso ainda seria um universo contido em si próprio, para sempre livre da influência moderadora do perigo externo.

Uma paz verdadeiramente permanente seria o mesmo que a guerra permanente. Este – embora a vasta maioria dos membros do Partido só o compreendam num sentido mais raso – é o significado profundo do lema do Partido: Guerra é Paz”.

.SOBRE O DUPLIPENSAR (dois trechos)

“Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.”

“Duplipensar quer dizer a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas. O intelectual do Partido sabe em que direção suas lembranças devem ser alteradas; portanto sabe que está aplicando um truque na realidade; mas pelo exercício do duplipensar ele se convence também de que a realidade não está sendo violada. O processo tem de ser consciente, ou não seria realizado com a precisão suficiente, mas também deve ser inconsciente, ou provocaria uma sensação de falsidade e, portanto, de culpa. O duplipensar é a pedra basilar do Ingsoc (Socialismo Inglês), já que a ação essencial do Partido é usar a fraude consciente ao mesmo tempo que conserva a firmeza de propósito que acompanha a honestidade completa. Dizer mentiras deliberadas e nelas acreditar piamente, esquecer qualquer fato que se haja tornado inconveniente, e depois, quando de novo se tornar preciso, arrancá-lo do esquecimento por tempo suficiente à sua utilidade, negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo perceber a realidade que se nega – tudo isso é indispensável. Mesmo no emprego da palavra duplipensar é necessário duplipensar. Pois, usando-se a palavra admite-se que se está mexendo na realidade; é preciso um novo ato de duplipensar para apagar essa percepção e assim por diante, indefinidamente, a mentira sempre um passo além da realidade. Em última análise, foi por meio do duplipensar que o Partido conseguiu – e, tanto quanto sabemos, continuará, milhares de anos – deter o curso da história”.

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