26 03 Dagobah

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26/03: um sinal de que a sociedade está viva!

Se as ruas não tivessem falado, não teria havido o impeachment. Se as ruas não tivessem falado, a Lava Jato já teria sido domesticada pelo establishment. Alguém duvida?

Ora, o impeachment aconteceu, mas o PT quer voltar ao poder. A Lava Jato continuou, mas o velho sistema político trama dia e noite artimanhas para cerceá-la, seja aprovando uma lei contra o abuso de autoridade, seja ameaçando anular as provas em caso de vazamentos. Além disso, os políticos que cometeram crimes querem aprovar uma absurda lei para se auto-anistiar, ou seja, anistiar quem praticou corrupção (disfarçada com o nome de caixa 2). E querem manter como está o foro privilegiado, para escapar da justiça (na prática é isso, pois o STF e o STJ não vão conseguir julgar centenas de criminosos em menos de uma década). Por último, estão tentando transformar a democracia em uma espécie de partidocracia, via financiamento exclusivamente estatal de campanha e da lista fechada e pré-ordenada pelos caciques partidários. Alguém duvida que, diante desse quadro, as ruas não devem falar novamente?

Só pensam assim os legalistas, aqueles que acham que se obedecermos as leis tudo irá bem. Eles recomendam que devemos pendurar as chuteiras e ir para casa, sentar no sofá e ficar em frente da TV torcendo para que as instituições cumpram seu papel. Mas o legalismo, como sabemos, é apenas mais uma ideologia conservadora, que acaba sempre maltratando a democracia.

Se fosse pelos legalistas, não teria havido impeachment, pois as instituições sozinhas não teriam peito, nem condições objetivas, para remover Dilma da cadeira presidencial. Se fosse pelos legalistas, Dirceu, Palocci, Duque, Vaccari, Cabral, Cunha e Marcelo Odebrecht estariam todos soltos e tramando contra a Lava Jato, pois eles (antes de ser condenados – e não o foram todos ainda) sofreram prisões provisórias. E os legalistas consideram que a prisão provisória é um crime de lesa-divindade, maior do que todos os demais que já foram cometidos na história e que ainda serão. Só não se importavam muito quando os presos provisórios – que somam centenas de milhares no Brasil – eram pessoas comuns.

Se fosse pelos legalistas, as pessoas não teriam ido às ruas no último domingo, 26 de março de 2017. Mas os legalistas – talvez a versão moderna daqueles que um homem comum de Nazaré chamou, há dois mil anos, de “sepulcros caiados” – não têm razão.

As manifestações de 26/03 foram o que foram e o que podiam ter sido. Mobilizaram pessoas que estão vendo mais claramente que se as ruas não falarem, o velho sistema político vai tentar domesticar a Lava Jato, se auto-anistiar e aprovar medidas antidemocráticas como a lista fechada e o cerceamento dos que investigam os crimes comuns praticados pelos velhos atores políticos e os crimes políticos que foram cometidos por partidos autocráticos como o PT.

As manifestações de 26/03 em todo o país, com muita ou pouca gente, foram um sinal de que a sociedade democrática está viva. Ao contrário do que previam os legalistas, não foram instrumentalizadas pela esquerda nem pela direita. Nelas não predominaram – e nas maiores, como a da Paulista, quase não se ouviram – as palavras de ordem insanas de “Fora Temer”, “Olavo Tem Razão”, “Bolsonaro Presidente” ou contra as reformas trabalhista e previdenciária.

É claro que não ocorreram swarmings (enxameamentos que constelam multidões) como os de junho de 2013, os de março, abril e agosto de 2015 e o de março de 2016 (que, aliás, são singularidades que jamais haviam acontecido em nossa história).

Mas é assim mesmo: o papel dos que convocam é convocar, não “organizar as massas”, “conduzir o rebanho”, “liderar o povo” e, muito menos, produzir fenômenos de alta interatividade (que, aliás, independem de pauta detalhada e refletem sempre um determinado momento de sensibilidade e disposição para a ação da sociedade, seja em termos de insatisfação ou de desejo coletivos). E ninguém conhece, a priori, o tipping point  – aquele ponto de virada na curva a partir do qual o crescimento torna-se exponencial. Na verdade, ninguém sabe como desencadear esses fenômenos, que são próprios de rede (não de mídias, como confundem alguns): eles não podem ser fabricados antecipadamente e nem obedecem a vontade de grupos centralizados.

O máximo que se pode fazer é convocar. Algumas vezes a coisa vai enxamear, outras não – mesmo que os temas sejam justos.

Comparar manifestações sociais como a de domingo, 26/03, com arrebanhamentos promovidos por organizações hierárquicas (sindicatos, centrais e partidos que alugam manifestantes, acarreiam gente em ônibus e caminhões e distribuem sanduíches de mortadela) é uma tolice (mas os tolos, infelizmente, não andam em falta).

Em ambientes de livre interação, pode-se sempre dizer: aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido. Os que querem medir tudo pela quantidade (imaginando que uma manifestação sempre tem que ser maior do que a anterior – ou ser gigante – para ter dado certo) se enganam redondamente.

Como bem lembrou O Antagonista: “Os protestos de 13 de dezembro de 2015 foram um fracasso. Os petistas comemoraram muito. Alguns meses depois, quatro milhões de pessoas foram às ruas, no maior ato da história, e Dilma Rousseff foi chutada do Palácio do Planalto”.

Não, a sociedade não está morta. As ruas falaram. Pode não ter sido um grito ensurdecedor. Mas pelo menos balbuciaram, murmuraram, quebraram o silêncio, indicando que não vamos aceitar passivamente a volta a um passado em que éramos reféns das elites corruptas que, à direita ou à esquerda, nos transformavam em meras clientelas legitimadoras dos seus negócios escusos ou dos seus projetos criminosos de poder.


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