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A aliança entre bolsonaristas e economistas-liberais quer fazer a transição inversa

O governo Bolsonaro, como qualquer governo, é um campo de disputa. Com a diferença de que o grupo governante de facto (Bolsonaro, sua família, seu guru e sua legião de seguidores – ou seja, o chamado bolsonarismo ou a persona coletiva Jair Carlos Eduardo de Carvalho) não quer governar e sim usar o governo para operar uma mudança de regime. O objetivo desse núcleo duro é converter a nossa democracia eleitoral em uma autocracia eleitoral. Não sendo possível fazer tal mudança, eles se contentam em tornar a nossa democracia ainda menos liberal (no sentido político do termo, é claro, não no econômico).

Na classificação do V-Dem (Department of Political Science, University of Gothenburg), podemos ter democracias eleitorais liberais, democracias eleitorais (não-suficientemente-liberais ou apenas eleitorais), autocracias eleitorais e autocracias fechadas (não-eleitorais). O Brasil está classificado no ranking internacional como uma democracia eleitoral. Pode – e ao que tudo indica vai – decair para uma democracia eleitoral menos liberal. O risco é cair tanto que vire uma autocracia eleitoral, como querem os bolsonaristas (que são i-liberais).

Os bolsonaristas são, no Brasil, a mesma coisa que os apoiadores e seguidores de Orbán, Erdogan e Salvini, que agora Steve Bannon quer articular numa grande internacional populista-autoritária (e, portanto, i-liberal).

Há muita confusão quando se usa o termo ‘liberal’. Em geral as pessoas entendem que se trata de ser liberal em economia. Mas não é disso que se fala aqui. Esses tais liberais-econômicos podem, sim, adotar comportamentos autoritários. Embalados pelo fundamentalismo de mercado esses novos religiosos não pensam duas vezes em servir a um Pinochet ou a Xi Jinping. E também a um Erdogan, a um Orbán, a um Salvini ou a um… Bolsonaro. E fazem isso sem perder o sono. Porque eles não tomam a democracia como um valor universal e como o principal valor da vida pública. E porque eles perceberam que a democracia não é mais o único caminho para a prosperidade.

Como se sabe, países autocráticos estão se aproveitando dos mecanismos e processos econômicos liberais, próprios do capitalismo, sem adotarem, entretanto, instituições e procedimentos políticos liberais, ou seja, sem percorrerem a transição para a democracia. E já que é assim, por que não admitir que países democráticos possam fazer a transição inversa, se isso representar ganhos econômicos?

Tornar nossa democracia i-liberal ou menos liberal exige medidas que tornem a economia mais vigorosa obtendo um aval da sociedade para tornar a política mais autoritária. Se um governo autoritário consegue melhorias significativas nas condições de vida da população (mais crescimento, mais emprego e melhorias na saúde, na segurança, na educação, na nutrição, no transporte e na moradia) adquire um “crédito maligno”, quer dizer, um crédito para tornar nossas condições de convivência social piores (que é a matéria própria da democracia: melhorar as condições de convivência social e não, como se acredita, “dar casa, comida e roupa lavada” para todos – isso o sultão de Brunei, que é um ditador, também faz).

Temos assim uma aliança perversa (muitas vezes tácita) entre liberais-econômicos (cujas cabeças não foram violadas pela ideia de democracia ou que não acham que seja necessário dar continuidade ao processo de democratização) e populistas-autoritários. É o caso do Brasil.

A turma que troca a Nova Zelândia por Singapura sem pensar duas vezes ou que, se fosse possível, acharia melhor ser uma China do que uma Noruega, é um perigo para a democracia. Mas ela está, neste momento, no comando da nossa economia. Sem ela, o núcleo bolsonarista do governo se desfaz, porque não conseguirá fazer nada que possa manter a sua base de sustentação na sociedade. Apenas guerra cultural (a especialidade do bolsonarismo) não enche barriga e ainda empesteia o ambiente.

Enquanto não aparecem os resultados da economia e em condições normais de temperatura e pressão – quer dizer, sem um fato extraordinário – esse governo vai continuar ladeira abaixo. Ele precisa – porque é da sua natureza – tornar nossa política menos liberal (ou seja, mais autoritária), mas o que seria esse fato extraordinário, capaz de causar uma comoção na população criando um clima para a aprovação de leis e outras medidas autoritárias?

Bolsonaro está como Bush no início do mandato. Bush tomou posse em 20 de janeiro de 2001 já em declínio. Até que veio o 11 de setembro e salvou o seu mandato. Nada de conspiração, mas que calhou, calhou. Não se sabe bem se essa comparação tranquiliza ou apavora ainda mais os democratas.

Um atentado terrorista de amplas dimensões (como o do WTC) é improvável. Uma catástrofe natural – tipo uma “enchente amazônica” ou uma “explosão atlântica” – é, ademais, imponderável. Uma guerra com um país vizinho ou uma tentativa de golpe de Estado desferida pelo “inimigo interno” precisariam do apoio dos militares ou do tal inimigo interno disposto a fazer isso – o que também é para lá de incerto.

Sobrou o quê? A tentativa de provocar uma crise institucional seguida de colapso. Como colonizar a consciência da maioria (ou de parte significativa) de mais de 200 milhões de brasileiros que votaram ou não votaram em Bolsonaro, via guerra cultural, tweets do ET da Virgínia e filmetes do Brasil Paralerdos, não é algo que se possa fazer em menos de uma geração, não há saída para quem quer usar o governo para alterar o regime (como querem a família Bolsonaro, seu guru e suas “macacas de auditório”: os 5 milhões de bolsonaristas e bolsonarizáveis), restou apenas a última hipótese. Mas ela é de difícil implementação e também leva algum tempo.

Tudo indica, portanto, que os reacionários (ou revolucionários para trás) que hoje nos governam vão ter de se contentar com o “maior ganho possível”: instalar uma guerra civil fria no país para tornar a nossa democracia menos liberal. Enquanto esperam o “crédito maligno” de Paulo Guedes – que pode vir ou não vir – é isso que farão. Porque é isso que sabem fazer. E porque é isso que são.

É um baita problema. Vejamos por que.

O bolsonarismo, de um ponto de vista teórico, não pode ser categorizado como fascismo. Mas o comportamento das hordas bolsonaristas é fascistoide, disso não há dúvida. Eles agem como um cardume de piranhas, com a diferença fundamental de que não é shoaling (um swarming, uma fenomenologia da interação em redes distribuídas) e sim ações comandadas (com topologia de árvore, quer dizer, descentralizada).

As “piranhas” bolsonaristas atacam acatando imediata e acriticamente às ordens recebidas. Não conversam, não ponderam, não discutem. Simplesmente atacam qualquer coisa: uma instituição como o STF porque é independente do Executivo e não aceita as orientações do bolsolavajatismo, uma rede de cinemas que se recusa a passar uma propaganda de falsificação histórica sobre o golpe de 64, uma socióloga nomeada para um cargo consultivo só porque não é bolsonarista, um presidente da Câmara que não se sujeita a agir como líder de Bolsonaro, veículos de comunicação que publicam matérias críticas ao governo e atacam até generais que não se curvam às diretrizes de Jair Carlos Eduardo de Carvalho (esse complexo estranho que se formou por compactação de taras para dirigir a revolução para trás contra a democracia brasileira que está em curso neste momento).

Não, não é fascismo, stricto sensu (e sim apenas um populismo-autoritário), mas não se pode deixar de ver que há muitos isomorfismos, no que tange ao comportamento dos seus sequazes, entre bolsonarismo e fascismo. Se parecem um pouco com aqueles soldados das Sturmabteilung (tropas de assalto nazistas que ficaram conhecidas pela sigla SA) que percorriam as ruas de cidades alemães depredando e fechando as lojas de judeus e espancando seus proprietários. A dinâmica é a de gangue, de milícia e curiosamente é a mesma dos colectivos chavistas treinados por militares cubanos. As pessoas ainda não tomaram consciência do perigo que é deixar uma coisa assim prosperar. É um monstro antissocial (no sentido maturaniano do termo) em formação. Quando as pessoas acordarem, já poderá ser muito tarde.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

O nome disso é resistência: a carta dos 40 diplomatas que criticam Bolsonaro

The winter is coming? No. The winter is here.