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A antipolítica do #ForaFulano – além de hipócrita – desconsolida a democracia

Toda política anti-qualquer coisa degenera em guerra. O anti-petismo levou ao bolsonarismo. O anti-renanismo levou ao alcolumbrismo (temerário e, talvez, nefasto). Os democratas somos contra o PT e contra Renan. Mas ser contra em política é diferente de fazer guerra (anti-algo).

Sim, o “coronel” Renan tinha de sair mesmo. A questão é o método. Um novato suspeito, se amarrando na cadeira, teleguiado pelo chefe da Casa Civil, não é um bom método. Se investirmos no vale-tudo nossa democracia será, cada vez mais, de baixa intensidade. Nos próximos rankings dos dez principais institutos que monitoram a democracia no mundo, cairemos. Não duvide: aposte. O autor aceita apostas.

Autoritários e moralistas gostam de gritar “Fora Fulano”. Mas se todos os que você julga serem seus inimigos forem colocados para fora, você fará política (democrática) com quem? Só com os iguais a você? Neste caso é melhor mesmo uma ditadura.

A IRA SANTA SELETIVA DOS MORALISTAS É IMORAL

Os bolsonaristas imitam os petistas. Sua facção moralista remeda o PT levantando sempre a palavra de ordem Fora X. O PT lançou o Fora Temer. E aí os instrumentalizadores políticos da Lava Jato copiaram (aliás, quase todos estes viraram, em seguida, bolsonaristas: mais de 90% dos grupos organizados para combater à corrupção e apoiar Moro e a Lava Jato viraram comitês eleitorais de Bolsonaro).

O PT, lá atrás, lançou o Fora Gilmar. Os jacobinos repetiram. Em seguida inventaram o Fora Renan e agora o Fora Toffoli.

Grupos despolitizados e oportunistas, que vivem da exploração do moralismo popular, como MBL e Vem Pra Rua, adoram esses lemas. Mas isso é uma renúncia à política, que pressupõe conversar com os diferentes, não deslegitimá-los na base da gritaria e do abafa. Isso não é inovação: é regressão ao espírito dos sans-culottes da Revolução Francesa, é adesão ao linchamento e à sanha mutilatória dos cortadores de cabeças.

Se você não entender que o contrário da guerra não é a paz (dos impérios ou dos cemitérios), mas a política, jamais poderá ser um democrata. O vale-tudo para excluir da política quem você não gosta leva à degeneração da democracia.

Se você acha que é a polícia e a justiça que vão resolver os problemas para você, eliminando seus inimigos, por fora ou acima da política, isso é sinal de que você não entendeu nada da democracia.

Se você substitui o diálogo em prol do entendimento e as alianças para selar acordos, pela gritaria de uma turbamulta açulada pelo Fora Fulano (Fora Sarney, Fora FHC, Fora Lula, Fora Temer, Fora Renan, Fora Gilmar, Fora Toffoli) isso significa que você não aposta na democracia.

Repita-se. Se todos os que você julga serem seus inimigos forem colocados para fora, você fará política (democrática) com quem? Só com os iguais a você? Neste caso é melhor mesmo uma ditadura.

Mas é mais grave.

Se esse pessoal levasse mesmo a sério sua política de terra-arrasada, para criar o Homem Novo a partir das cinzas, estariam errados, mas ainda assim poderiam ser considerados. O problema é que seu espírito de vingança, sua vontade de revanche, seu ressentimento social, são seletivos. Contra os bolsonaristas, sua ira santa se aquieta. Mesmo depois das revelações escabrosas das relações da primeira família com as milícias, não se viu nenhum deles tentando subir a hashtag #ForaFlávioBolsonaro ou #ForaBolsonaros. Pelo contrário, fecham os olhos, fazem ouvidos moucos e passam pano.

A ira santa seletiva dos moralistas é imoral. E a antipolítica do #ForaFulano – além de hipócrita – desconsolida a democracia.


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