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A chamada direita

No artigo Cartografando a chamada direita comecei a explorar os setores (organizações, grupos e pessoas) de direita no Brasil, tomando o cuidado de incluir apenas os que se dizem de direita e não os que são chamados – pela esquerda – de direita. Para a visão ladista, simplificadora, da esquerda, são de direita todos os que não são de esquerda. Em termos práticos, todos os que não são do PT e dos partidos aliados (ou melhor, alinhados ideologicamente) são de direita. A adotar a pesquisa feita nas urnas de 2016, a esquerda representaria uma parcela reduzidíssima dos munícipes brasileiros. Para a esquerda, todos os que se manifestaram a favor do impeachment são de direita (e golpistas): o que é uma burrice, pois – a rigor, se isso lhes fosse perguntado – incluiria-se na direita a maioria esmagadora da população brasileira.

É difícil saber, usando os critérios da esquerda, quem é de direita. Por isso fiz um levantamento preliminar no Facebook, encontrando cerca de 100 grupos e páginas que contêm no nome a palavra ‘direita’. O resultado está publicado no artigo Os que se dizem de direita não são a direita? 

Pois bem. Agora nos deparamos com um artigo de José Fucs, no Estadão de 26 de março de 2017, que tenta fazer um levantamento da direita que interage na internet. O resultado não é bom. Coloca, por exemplo, como direita, o Vem Prá Rua e João Dória. Não creio que o movimento ou o prefeito se definam como sendo “de direita” (ainda que o PT queira assim rotulá-los). Vamos reproduzir o artigo e ao final fazer breves considerações.

A ‘máquina’ barulhenta da direita na internet

Após ‘sair do armário’, a direita conquista trincheiras importantes nas redes sociais

José Fucs, O Estado de S.Paulo, 26 Março 2017 | 05h00

Não faz muito tempo, era difícil ver alguém se declarar “de direita” no Brasil. Por receio de ser identificado com o regime militar e estigmatizado por amigos, colegas de trabalho e familiares, mesmo sem ter qualquer inclinação pelo autoritarismo, poucos se arriscavam a assumir seus pendores em público. Cair na “malha fina” das “patrulhas ideológicas” podia representar uma mancha irreparável na reputação de qualquer cidadão e até mexer com a sua autoestima.

De repente, parece que o jogo mudou. Depois de quase sumir do mapa político do País desde a redemocratização, nos anos 1980, a direita, como Fênix, está renascendo das cinzas. Hoje, muita gente ainda se incomoda de ser chamada de “reacionária”, “conservadora” e “neoliberal”. Mas, cada vez mais, parece que a turma da direita decidiu “sair do armário” e fazer ouvir a sua voz, sem se preocupar com o que considera como “bullying” ideológico da esquerda.

Mapa Direita

Impulsionada pelo sucesso das manifestações em favor do impeachment, pelo antipetismo, pela indignação com os escândalos de corrupção e pela crise na economia, essa “nova direita” agora defende suas ideias à luz do dia e está conquistando trincheiras importantes na guerra de comunicação travada com a esquerda nas redes sociais.

Antes um território quase exclusivo das esquerdas, as redes sociais têm sido invadidas por uma série de páginas consideradas de direita. Mais que isso, a direita está conseguindo algo que parecia improvável há alguns anos: impor a sua narrativa, não apenas para uma audiência de mais idade, mas também para os mais jovens.

“A internet desempenhou um papel muito importante para o crescimento da direita no País”, diz a cientista política Camila Rocha, uma das precursoras no estudo do tema. “Com a internet, vários grupos de jovens, que se sentiram órfãos de uma explicação para a crise e decepcionados com a corrupção nos governos do PT, passaram a acessar um conteúdo liberal, que antes era de alcance restrito.”

Segundo uma pesquisa realizada no início de março pela ePoliticSchool (EPS), o número de interações (curtidas e compartilhamentos) em páginas de direita chegou a 14,7 milhões no período, mais que o dobro dos 7,1 milhões registrados em páginas de esquerda. A pesquisa, realizada em 150 páginas de influenciadores, mídia, políticos e partidos, apontou também que 60,5% dos fãs das páginas analisadas eram ligados a correntes de direita.

Embora a contrapropaganda da esquerda ainda procure caracterizar a direita como militarista, os grupos que defendem uma intervenção militar são pouco representativos. O SOS Forças Armadas tinha só 5.546 seguidores no Facebook na quinta-feira passada. Os demais dizem defender a democracia e rejeitam qualquer solução que leve a um rompimento institucional. Nem o deputado Jair Bolsonaro, considerado como o representante com viés mais autoritário depois do SOS, apoia tal proposta.

A rigor, não se pode falar em direita, mas em direitas, no plural, em razão das inúmeras correntes de direita existentes no País. Dos ultraliberais, que defendem a globalização e a interferência mínima do Estado na economia e na vida dos indivíduos, aos nacionalistas e defensores de um Estado forte e interventor, há variações para todos os gostos (veja o quadro com as posições das principais correntes de direita). Ao contrário do que muita gente pensa, porém, o PSDB não pertence ao círculo. Apesar de ser considerado “de direita” pelo PT e outras organizações de esquerda, o PSDB é visto pelas diferentes correntes de direita como um partido social-democrata, que pouco tem a ver com suas propostas para o Brasil.

Mapa Direita 2

Entre as páginas mais populares da “nova direita” na internet, de acordo com um levantamento feito pelo Estado em quase 200 perfis no Facebook e no Twitter, destacam-se as dos movimentos responsáveis pelos protestos a favor do impeachment, com quase 4 milhões de seguidores. Também fazem parte da lista o Partido Novo, com 1,32 milhão de seguidores no Facebook, e o PSL, por meio de sua corrente ultraliberal Livres, que pretende ganhar o controle da sigla (veja o gráfico acima).

A “máquina” de comunicação da direita inclui centros de estudos e pesquisa, como o Instituto Millenium, o Instituto Liberal e o Instituto Mises Brasil, com 250 mil seguidores no Facebook. “Os brasileiros se deram conta de que as ideias de esquerda não funcionaram e agora estão buscando uma opção mais liberal”, diz o financista Helio Beltrão Filho, presidente do Mises Brasil, uma organização dedicada ao estudo da obra do economista ultraliberal Ludwig von Mises, da Escola Austríaca.

No grupo dos que seguem carreira solo, brilham políticos como Bolsonaro, com 3,9 milhões de seguidores no Facebook, o prefeito de São Paulo, João Doria, que, mesmo sendo do PSDB, é encarado como um aliado pela direita, e o senador Ronaldo Caiado, do DEM.

Entre os ativistas e blogueiros, sobressai o nome de Kim Kataguiri, o coordenador do MBL, um dos organizadores dos protestos pelo impeachment, com quase 380 mil seguidores no Facebook. Também têm popularidade notável os filósofos Luiz Felipe Pondé e Olavo de Carvalho, o economista Rodrigo Constantino, o publicitário Alexandre Borges e as jornalistas Joice Hasselmann, ex-âncora do canal de TV online da revista Veja, e Rachel Sheherazade, âncora do telejornal SBT Brasil, com 2,4 milhões de seguidores no Facebook. “Estamos ocupando um espaço que nunca foi nosso”, afirma Constantino.

A tropa de choque da “nova direita” produz ainda uma série de páginas de conteúdo e notícias, como Folha Política, com 1,5 milhão de seguidores, Socialista de iPhone e Implicante, entre outras menos cotadas. Merece crédito também o site Brasil Paralelo, criado em 2016 por uma dupla de empreendedores de Porto Alegre, para produzir documentários em vídeo e contribuir para a melhoria da educação e da formação em política e história, sem o viés de esquerda que, na opinião deles, predomina nas escolas do País. Já colheram 88 depoimentos com influenciadores da direita e na semana passada lançaram um filme sobre o impeachment, como contraponto à versão produzida com apoio do PT, focado na ideia do “golpe”.

O toque de purpurina vem de celebridades como os músicos Lobão e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, o apresentador Danilo Gentili, e Ana Paula Henkel, ex-jogadora da seleção brasileira de vôlei. “Como a esquerda é barulhenta, é muito difícil dizer que ela está errada, mas resolvi dar a cara a tapa assim mesmo”, diz Roger, que recentemente compôs, em parceria com Lobão, uma música em ritmo de rock’n roll, intitulada O bobo, na qual eles ironizam os revolucionários de butique.

“A guinada à direita é a nova contracultura”, diz Ana Paula. Ela vive há quase dez anos em Los Angeles, nos Estados Unidos, e estuda arquitetura e design na UCLA, mas acompanha de perto os acontecimentos no Brasil e costuma publicar comentários engajados no Twitter, para 125 mil seguidores. “As pessoas estão cansadas do politicamente correto.”

Por considerar que a imprensa trata a direita com preconceito, uma das atividades preferidas da brigada direitista é criticar a grande mídia, como faz o presidente Donald Trump, nos Estados Unidos. Surgiu até uma página chamada Caneta Desesquerdizadora, que já tem quase 500 mil seguidores no Facebook, só para expor, segundo seu criador, Marcelo Faria, presidente do Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp), o viés de esquerda na mídia. Com uma caneta vermelha, a página destaca notícias consideradas enviesadas dos principais veículos, inclusive do Estado, com as devidas correções.

Apesar da atividade frenética nas redes, quase ninguém consegue pagar suas contas com isso. Talvez o caso de maior sucesso seja o do pessoal do site Brasil Paralelo, que vendeu milhares de assinaturas do conteúdo que produz. Segundo informações não confirmadas pelos fundadores, a empresa teria amealhado R$ 1,5 milhão em seis meses. É sinal de que, ao menos para alguns, a onda da direita na internet pode ser sustentável.

Fim do artigo

Bem… há uma grande mistificação nisso tudo. Ao contrário do que imaginava Bobbio (1994), a distinção entre esquerda e direita não pode ser exclusivamente política: é impossível fazê-la sem uma boa dose de doping ideológico. A esquerda inventou a esquerda e, no mesmo ato, a direita. Os que caem no truque, dizendo-se de direita, assumem, por uma espécie de enantiodromia, um comportamento simétrico ao da esquerda e viram militantes. De sorte que nada mais parecido com um esquerdista militante, do ponto de vista do modo como pretende regular conflitos (pois é disso, afinal, que trata a política), do que um direitista militante.

Na verdade esse é um debate para velhas cabeças conservadoras, sejam de esquerda ou de direita. Inovadores não se encaixam no sistema de dicotomias que são apresentadas pelos chamados cientistas políticos para ver quem é de esquerda ou de direita. Reproduzo abaixo algumas delas, já publicadas no artigo Cuca Velha:

Cuca velha

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo…

CUCA VELHA 1

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo. Se você aponta os limites da democracia representativa, o cara acha que você defende alguma forma de democracia participativa direta, assembleísta ou soviética. Não lhe ocorre que você pode estar falando de uma democracia interativa, mais compatível com uma sociedade-em-rede. Porque ele nem desconfia que existe uma diferença brutal entre participação e interação.

CUCA VELHA 2

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo. Se você aponta os limites do individualismo (inclusive do chamado individualismo metodológico), o cara acha que você defende algum tipo de coletivismo. Não lhe ocorre que você pode estar falando que o social não é um conjunto de indivíduos e sim o que acontece entre eles para dar origem à pessoas. Porque ele nem desconfia que existe uma diferença brutal entre indivíduo e pessoa.

CUCA VELHA 3

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo. Se você critica uma visão mercadocêntrica do mundo, o cara pensa que você defende um ponto de vista estadocêntrico (estatista). Não lhe passa pela cabeça que você pode estar falando a partir de uma perspectiva sociocêntrica. Porque ele nem desconfia que a sociedade existe como forma de agenciamento autônomo, não é um epifenômeno, não é sinônimo de população, não é a coleção dos indivíduos e sim as configurações móveis que podem se conservar ou se modificar dependendo do modo como as pessoas interagem entre si.

CUCA VELHA 4

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo. Se você diz que se pode ser contra o comunismo sem ser anticomunista, o cara acha que você ainda está culturalmente impregnado por uma cultura comunista (ou de esquerda). Porque ele nem desconfia que o anticomunismo foi uma ideologia da guerra fria, que é uma cultura de guerra, não de paz. E que a guerra não é o confronto violento para destruir inimigos e sim um engendramento estatista que – mesmo sem usar a violência – constrói e mantém inimigos como pretexto para reorganizar cosmos sociais sob padrões hierárquicos regidos por dinâmicas autocráticas. Na guerra fria, a democracia dança (talvez até mais rapidamente do que num conflito armado com uma ditadura). Mas vá-se lá dizer-lhes.

CUCA VELHA 5

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo. Se você diz que é contra a esquerda, o cara acha que então você deve ser de direita. Se você retruca que não é de direita (nem de esquerda), o cara que tem a velha cabeça da direita pensa que você, no fundo, deve ser um pouquinho de esquerda (mas não quer confessar). E o cara que tem a velha cabeça da esquerda avalia que você é, na verdade, de direita (porque, para ele, dizer que não existe esquerda e direita, não passa de um truque da direita). Não lhes ocorre, a ambos, que é o padrão interpretativo que divide o mundo sempre em dois lados em eterno confronto que reproduz continuamente a bipolarização esquerda x direita. E muito menos – conquanto aí já seria exigir demais de mentes tão rudes – que foi a esquerda que inventou a esquerda e, pelo mesmo movimento, a direita.

CUCA VELHA 6

Ficar debatendo com velhas cabeças é cansativo. Se você diz que a esquerda é autocrática, o cara que tem a velha cabeça da direita concorda e bate palmas. Mas se você acrescenta que combater a esquerda não significa necessariamente estar correto, do ponto de vista da democracia, ele desentende. Para “desenhar”, você então lembra que Franco, Salazar, Pinochet, Videla, Bordaberry e Médici também combatiam a esquerda e foram ditadores cruéis e sanguinários. E ai… ou ele fica mudo e desconversa, ou retruca que essas ditaduras foram um mau menor em relação às ditaduras comunistas (e é até capaz de justificar a quebra do Estado democrático de direito como necessária para afastar o verdadeiro perigo). O cara está tão impregnado pela ideologia anticomunista da guerra que sequer desconfia que não pode haver atalho autocrático para a democracia. Ou está mesmo convencido de que a democracia não é viável diante da inexorável guerra que deve ser travada “contra os demônios ruivos que habitam o outro lado da montanha” (para usar uma feliz expressão de Carl Gustav Jung).

A propósito, não seria má ideia que a velha cuca fosse se tratar com um profissional junguiano.

Fim da transcrição

Agora me digam: é possível classificar como sendo “de esquerda” ou “de direita” alguém que problematize as questões da maneira como foi feito nas seis diatribes contra o ladismo expostas acima?

 

 

 

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