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A democracia diante da bifurcação

Os regimes democráticos enfrentam um gravíssimo problema no período atual. Não é certo que poderemos superá-lo a contento no curto prazo. Trata-se do seguinte.

Como todo o sistema político foi pensado e desenhado para a intervenção de poucas pessoas no debate público, o aumento vertiginoso dos interagentes políticos (proporcionado, entre outras coisas, pela internet, pelas mídias sociais e pela telefonia celular) revela as suas limitações, aguçando a crise da representação política e as defasagens das formas tradicionais de verificação da vontade política coletiva. Se, há trinta anos, não muito mais do que cinco mil pessoas participavam regularmente do debate público no Brasil e, agora, mais de um milhão de pessoas interagem politicamente, não tendo havido, neste período, nenhuma modificação significativa do sistema capaz de absorver tal avalanche interativa, é quase óbvio que toda a estrutura jurídico-política ficará obsoleta em pouco tempo, não conseguindo mais expressar ou responder à dinâmica da sociedade.

É mais ou menos como ocorreria com uma cidade, cujos sistemas de habitação e transporte, educação e saúde, água e saneamento, fornecimento de energia e coleta de lixo, emprego e assistência social, desenhados para atender a poucos milhares de pessoas, fosse de repente invadida por milhões de novos habitantes. Por exemplo, é como se Pouso Alto, uma pequena cidade mineira com 6.185 habitantes, tivesse de abrigar toda a população de Campinas (em São Paulo), com 1.080.113 habitantes. Colapso na certa.

Mas há outro problema, mais grave para a democracia – posto que mais urgente – além do previsível colapso.

Se, há trinta anos, os agentes que intervinham diretamente na formação da opinião pública, eram poucos, eles detinham, por outro lado, certo conhecimento prático da vida política. Havia algumas regras, um código de civilidade, uma compreensão moral sobre o que é ou não é valido, assumidos tacitamente pelos incluídos na política. Esses códigos não eram, em geral, violados. Por exemplo, um agente político dificilmente poderia proferir, no espaço público, a opinião de que “bandido bom é bandido morto” ou dar declarações a favor de linchamentos (ainda quando, intimamente, concordasse com essas posições abomináveis). Havia luta política, sim, mas não hordas de odiadores – completamente jejunos na política e sem qualquer noção do jogo democrático – intervindo no espaço público. Tudo isso, se havia, era coisa de pequenos grupos sectários marginais.

Claro que tudo isso era excludente (mantendo a política nas mãos de um oligopólio, uma espécie de condomínio fechado dos incluídos). E claro que nada disso valia para a maioria da população, que reproduzia uma cultura autoritária, excludente e avessa à democracia. Mas a maioria da população – as chamadas “grandes massas” – não era composta por atores políticos. E, como tal, não participava organicamente do processo de formação da vontade política coletiva, sendo apenas chamada a votar periodicamente e a comparecer em comícios eleitorais.

É preciso entender que as opiniões preconceituosas e antidemocráticas da maioria da população eram opiniões privadas, mas não opinião pública. Por exemplo, em pleno governo Médici, na ditadura militar, boa parte do povo apoiava os sonhos delirantes de Brasil grande ou não se importava com o caráter autocrático do regime, mas essas eram opiniões privadas que, se somadas, podiam perfazer uma maioria, porém não uma opinião pública. A soma das opiniões privadas da maioria da população não é a mesma coisa que a opinião pública. A opinião pública não é a opinião majoritária (totalizada ex post, a partir da sua coleta, uma a uma), ao contrário do que pensam os que ainda não entenderam o processo emergente pelo qual opiniões privadas se convertem em opinião pública. Na primeira metade da década de 1970, uma minoria da população queria derrubar a ditadura militar (ou queria um governo civil) e, no entanto, isso acabou se tornando uma opinião pública.

Como eram poucos, os agentes políticos tinham uma oportunidade de aprender por meio da interação recorrente entre seus pares. A interatividade era menor, quer dizer, as pessoas estavam menos vulneráveis à interação fortuita. Elas tinham mais tempo para consolidar seus pontos de vista e selecionar os seus interlocutores (o que permitia a continuidade de conversações que firmam tendências de opinião). Além disso, os clusters de incluídos na política, de certo modo, se autorregulavam. Havia, até mesmo, uma espécie de cortesia entre os agentes políticos que se digladiavam nas arenas do debate público. O chamado povo, é claro, não frequentava essa “escola” de política.

De repente (de repente mesmo, em termos históricos) centenas de milhares, talvez milhões de pessoas, analfabetas do ponto de vista político (e, mais ainda, democrático), passaram a ter a oportunidade de intervir no debate público diretamente, sem qualquer regulação (e, sobretudo, sem qualquer autorregulação emergente de um processo coletivo). Não precisaram entrar em movimentos (como o movimento estudantil, o movimento sindical e os ditos movimentos sociais) e em partidos para fazer isso (e os movimentos organizados e os partidos, por piores que sejam, são escolas de política). Não tiveram a oportunidade de saber como funciona uma reunião (ou seja, nunca experimentaram uma atividade participativa). Não aprenderam, nem mesmo, que se deve calar quando outra pessoa estiver falando, a pedir uma questão de ordem ou de encaminhamento, a acatar as normas de convivência praticadas em um debate político, a respeitar uma mesa diretora dos trabalhos, a apresentar uma proposta ou, mesmo, a pedir a palavra educadamente. Milhões de pessoas nesta condição, tendo a sua disposição meios interativos (sem pedir licença a ninguém e estimuladas por populistas de esquerda ou de direita que querem arrebanhá-las), passaram então a influir diariamente na formação da opinião pública.

Ora, não se pode exigir que, depois de milênios de autocracia, as pessoas entendam o valor universal da democracia, assim como não se pode exigir que preconceitos fundeados no subsolo da consciência (e da inconsciência) social sejam favoráveis à tolerância, à liberdade e aos direitos humanos. Como mostram todas as pesquisas sobre valores (ou anti-valores) arraigados na maioria da população, as pessoas, privadamente – em sua maioria – têm posições horríveis sobre tudo que diga respeito aos valores exalçados (ou, pelo menos, pressupostos) pela democracia. Vejamos três exemplos, obtidos por uma pesquisa recente:

1 – Mais de 8 em cada 10 brasileiros concordam total ou parcialmente com as seguintes afirmações:

[] O que este país necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, é de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar a sua fé

[] A obediência e o respeito à autoridade são as principais virtudes que devemos ensinar as nossas crianças

[] Não há nada pior do que uma pessoa que não sente profundo amor, gratidão e respeito por seus pais

[] Nenhuma pessoa decente, normal e em seu são juízo pensaria em ofender um amigo ou parente próximo

[] O policial é um guerreiro de Deus para impor a ordem e proteger as pessoas de bem.

2 – Mais de 6 em cada 10 brasileiros (portanto, a maioria) concordam total ou parcialmente com as seguintes afirmações:

[] A maioria de nossos problemas sociais estaria resolvida se pudéssemos nos livrar das pessoas imorais, dos marginais e dos pervertidos

[] Se falássemos menos e trabalhássemos mais, todos estaríamos melhor

[] Deve-se castigar sempre todo insulto à nossa honra

[] Os crimes sexuais tais como o estupro ou ataques a crianças merecem mais que prisão; quem comete esses crimes deveria receber punição física publicamente ou receber um castigo pior

[] Os homossexuais são quase criminosos e deveriam receber um castigo severo

[] Às vezes, os jovens têm ideias rebeldes que, com os anos, deverão superar para acalmar os seus pensamentos

[] Hoje em dia, as pessoas se intrometem cada vez mais em assuntos que deveriam ser somente pessoais e privados

3 – Mais de 7 em cada 10 brasileiros (portanto, a maioria) concordam total ou parcialmente com as seguintes afirmações:

[] A ciência tem o seu lugar, mas há muitas coisas importantes que a mente humana jamais poderá compreender

[] Os homens podem ser divididos em duas classes definidas: os fracos e os fortes

[] Um indivíduo de más maneiras, maus costumes e má educação dificilmente pode fazer amizade com pessoas decentes

[] Todos devemos ter fé absoluta em um poder sobrenatural, cujas decisões devemos acatar

[] Pobreza é consequência da falta de vontade de querer trabalhar

Ora, se o espaço público fosse regido por essas crenças e opiniões privadas, a democracia dificilmente teria lugar. Ou seja, se a opinião pública fosse a soma das opiniões privadas da maioria, não poderia haver democracia, nem aqui, nem na Atenas dos séculos 5 e 4 AEC.

Mas houve democracia, aqui e lá, o que é sinal de que os agentes políticos que atuam como fermentadores do processo de formação da opinião pública têm alguma noção – aprendida na prática política, quer dizer, na interação política com seus pares (independentemente das suas propensões ideológicas) – de como deve se organizar e funcionar um regime político para que não decaiamos na barbárie.

Essas crenças avessas à tolerância com quem pensa diferente, à liberdade e aos direitos humanos, sempre estiveram presentes no fundo do poço, mas não foram decisivas para a ereção de modos de vida políticos coletivos considerados aceitáveis por sua civilidade. Elas são parte do lodo da civilização patriarcal, hierárquica e guerreira. O diabo é que parte desse lodo está vindo à tona.

A democracia convive com esse lodo, desde que ele permaneça como convicções privadas, mesmo compartilhadas pela maioria da população. Mas quando tais crenças conseguem ser refratadas como opiniões políticas e assomam ao espaço do debate público, elas configuram um ambiente avesso à continuidade do processo de democratização da sociedade, do Estado e do padrão de relação entre sociedade e Estado. Se elas inspiram projetos políticos e programas governamentais excludentes, se dão base para a aprovação de novas leis que favoreçam à separação dos diferentes e se passam a normatizar o comportamento dos agentes públicos (inclusive do ministério público e do judiciário) com base no punitivismo ou, ainda, se elas contaminam as principais instituições da sociedade colocando-as a serviço do Estado, então temos um enorme problema para a democracia. Provavelmente o que virá pela frente é pena de morte, redução da maioridade penal, discriminações à culturas consideradas alienígenas ou prejudiciais à nação (seja lá o que se entenda por nação), afirmação de supostos valores da civilização ocidental cristã, facilitação do armamentismo popular, ingerência do Estado nos conteúdos do ensino e da pesquisa e das manifestações artísticas, restrições da liberdade de imprensa, redução de direitos e garantias individuais ou coisa ainda pior. Por que podemos afirmar isso? Ora, porque a maioria da população (maioria obtida pela totalização do que as pessoas pensam individualmente) aprova tais medidas.

Não é, como acreditam os conservadores, que tenha de haver uma elite esclarecida para disciplinar a turbamulta vil possibilitando a democracia. Não é que o povo tenha de ser protegido de si mesmo. O que tem de haver é um processo de formação da opinião pública que modifique, organicamente, as opiniões privadas existentes na sociedade, em todas as suas camadas, não apenas nos estratos considerados inferiores da “massa ignara”. Esse processo é o que devemos chamar propriamente de democracia: é o processo de democratização, que vem sempre acompanhado do processo de publicização das opiniões privadas.

O problema é que esse processo fica impedido de se auto-organizar quando são incluídos, de chofre, no debate público, milhões de opiniões privadas que antes não eram variáveis relevantes da equação política. Isso equivale, mal comparando, à dinâmica de um linchamento no terreno das ideias, capaz de acabar com toda racionalidade, espancando noções como as de tolerância, diversidade e legitimação dos diferentes.

Claro que tudo isso não acontece somente em razão da dinâmica social. Há, por certo, influências políticas que devem ser consideradas. O populismo, seja na sua versão de esquerda, neopopulista (como o lulopetismo), seja na sua versão autoritária de direita (como o bolsonarismo), contribuiu para invalidar as ideias liberais de que é normal que a sociedade esteja dividida entre muitas — e às vezes transversais — clivagens, de que a melhor maneira de lidar com essas clivagens é por meio de um debate aberto e livre, sob uma cultura política que valoriza a moderação e busca o consenso e de que o Estado de direito e os direitos de minorias precisam ser respeitados. Ao contrário, ele – sobretudo o neopopulismo – reforçou ideias avessas à democracia, como a de que a sociedade está dividida por uma única clivagem, separando a vasta maioria (o povo) do “establishment” (as elites), a de que a polarização (elites x povo) deve ser encorajada e os representantes do povo (que são os atores legítimos ou mais legítimos) não devem fazer acordos (a não ser táticos) ou construir consensos (idem) com os representantes das elites (posto que estes são ilegítimos ou menos legítimos) e sim buscar sempre suplantá-los, fazendo maioria em todo lugar (majoritarismo), a de que minorias políticas (antipopulares) não devem ser toleradas (e devem ser deslegitimadas) quando impedem a realização das políticas populares e a de que a legalidade institucional (erigida para servir às elites) não deve ser respeitada quando se contrapõe aos interesses do povo.

O uso que o populismo vem fazendo das novas possibilidades de interação política (ensejadas pela internet, pelas mídias sociais, pelo WhatsApp e assemelhados, de fácil acesso com a disponibilidade universal dos dispositivos móveis de comunicação) é instrumental. Aquilo que deveria representar uma possibilidade de inclusão de novos atores no debate público acabou sendo deformado, num primeiro momento, como meio de criar novos tipos de exércitos militantes, verdadeiras hordas de haters, sem qualquer civilidade e imunes à qualquer racionalidade. Mas mesmo que não houvesse tal manipulação deliberada (por parte das forças políticas neopopulistas e populistas-autoritárias, de esquerda ou de direita), a própria alteração da dinâmica do sistema, com a entrada repentina de milhões de interagentes, levaria a alguma desorganização do debate público e a uma perturbação do processo de formação da vontade política coletiva.

A inclusão política de novos atores não é ruim em si. É desejável pela democracia. A questão é que o sistema não estava desenhado para absorver a avalanche interativa resultante da exponenciação do número de interagentes. E que, tal como se deu essa inclusão, não houve tempo de adaptação (ou seja, de aprendizagem da política e da democracia) por parte desses novos atores. Eles vieram em estado bruto, imaginando que a política seria uma espécie de religião ou de guerra religiosa (como uma cruzada), querendo impor suas crenças aos demais na base do abafa e da exacerbação da inimizade política e do espírito adversarial.

Os democratas apostamos que, a longo prazo, a democracia terá condições de metabolizar tudo isso. Mas, no curto prazo, não. Não existem novos mecanismos de interação política capazes de absorver e viabilizar a influência política de multidões nos assuntos comuns exercida cotidianamente e não apenas de quatro em quatro ou de dois em dois anos. As instituições políticas que temos foram pensadas para, no máximo, centenas de pessoas. Por exemplo, temos um Congresso que comporta menos de 600 representantes e não adiantaria aumentar o número de suas cadeiras, pois os novos atores não querem mais delegar ou alienar o seu poder para representantes – sejam 600, 6 mil ou 60 mil – que não serão capazes de representá-los, ou seja, não querem se restringir a ser apenas eleitores chamados periodicamente a depositar um voto na urna sabendo que suas vontades políticas não serão defendidas por esses representantes (que tenderão a cuidar dos seus próprios interesses econômicos e políticos). Isso leva à uma crise da representação, não há como negar. Sociedades altamente interativas não cabem mais dentro de instituições predominantemente representativas, delegativas ou participativas.

Na falta de tais mecanismos – mais interativos – instituídos e reconhecidos pelo próprio sistema político, toda a energia, boa ou ruim (em geral ruim) acumulada pelos excluídos da política (acarreados para fazer número em comícios e tangidos como gado para as urnas apenas durante os períodos eleitorais) flui diariamente pelos caminhos disponíveis. Quando esses caminhos de proferimento de opiniões capazes de interferir no debate público não estavam disponíveis, as crenças e convicções privadas da imensa maioria das pessoas permaneciam aprisionadas, contidas pela escassez fabricada artificialmente pelo próprio sistema para se proteger da suspeita vontade popular e do humor variável das massas. Mas agora, que existem múltiplos caminhos para intervir, as pessoas intervêm e o fazem, é claro, com as cabeças que têm. O fluxo quer fluir e escorrerá por onde puder. Eis o ponto. Não se pode – nem é papel do Estado – educar as multidões para que elas tenham condições de interagir politicamente com ideias mais conformes à democracia. Só o próprio processo político poderá fazer isso, do contrário não estaremos mais em uma democracia.

O aprendizado da democracia, entretanto, não é imediato. Leva algum tempo até uma pessoa aceitar que sua ideia não prevalecerá, que ela será modificada incontáveis vezes e que o resultado final dessas múltiplas polinizações é imprevisível. Jihadistas, por exemplo, nunca aceitam e por isso não têm o conceito de liberdade de opinião (ou seja, não podem aderir à democracia), porque não chegam sequer a ter o conceito de opinião (uma noção que não é trivial, pois pressupõe a valorização em princípio de qualquer opinião e a não-aceitação de uma orto-doxa ou da prevalência da opinião de um líder). Analfabetos democráticos, quando se metem na política, não raro se comportam como jihadistas, atuando mais como militantes religiosos (o primeiro emprego da palavra militante, aliás, foi no contexto religioso da expansão da cristandade). Não é por acaso que petistas e bolsonaristas se comportem como se fossem cruzados de uma causa, que não se disponham a analisar argumentos do ponto de vista do outro e que, consequentemente, estejam protegidos contra qualquer divergência (e protegidos até mesmo contra a verdade). O mesmo tipo de comportamento se verificou na militância popular – instrumentalizada pelo populismo – da campanha eleitoral de Trump ou da campanha do Brexit. É como tentar discutir com um fiel do Hamas. Será inútil. Não há espaço para a persuasão, para o convencimento mútuo, para o diálogo esclarecedor, para a conversação. É uma guerra. E a guerra, qualquer guerra, violenta ou não, é o contrário da democracia.

Como o sistema político não se preparou para essa eventualidade, ficou vulnerável à irrupção das crenças antidemocráticas e do emocionar destrutivo que as acompanha (sobretudo quando instrumentalizado por forças políticas populistas que usam a democracia contra a democracia). Isso se constitui como uma importante ameaça à democracia no curto prazo. Não tem nada a ver com a alegação de que a internet, as mídias sociais e o mundo digital em geral, estão destruindo a democracia. Tais tecnologias de informação e comunicação apenas acompanharam mudanças ocorridas nos fluxos interativos da convivência social. Elas não vieram de Marte e não teriam sido inventadas se não houvesse a possibilidade social da sua utilização. As tecnologias não são culpadas, as mudanças sociais que ensejaram a sua criação e utilização não são culpadas e as pessoas que a elas aderiram e as empregam como instrumentos do seu inédito fazer político também não são culpadas. A questão é que a política não acompanhou a sociedade e ainda não se deu conta de que está avançando velozmente em direção a um muro. Sem uma reforma da política (algo muito mais abrangente do que as insossas e inócuas propostas de reforma política que entram e saem aborrecidamente das pautas parlamentares), a catástrofe – no sentido matemático do termo, atribuído por René Thom (nada de catastrofismo aqui) – é inevitável. Haverá uma mudança de estado do sistema e ninguém pode garantir (conquanto os democratas apostem nisso) que a democracia conseguirá sobreviver.

Eis o momento crucial em que estamos. No curto prazo, não virá, do sistema político, nenhuma mudança para melhor na política. Enquanto a borra estiver turvando a água viveremos numa espécie de “barata-voa”, cada força política tentando escapar do tsunami. Mas o tsunami, a despeito de provocar o efeito da inclusão de milhões no debate público, não é democratizante, pelo contrário. Espírito de vingança, vontade de revanche, ressentimento social e inconformidade com a nova situação do mundo que desaloja de seus papéis tradicionais miríades de atores (como os chamados “perdedores da globalização”), não são emoções criativas e podem ser facilmente manipuladas por salvadores da pátria, por condutores de rebanhos, por iliberais de todos os matizes (venham da esquerda ou da direita) que adotem comportamentos políticos populistas. Os populismos – visto que não há só um na contemporaneidade e sim, pelo menos, três: o neopopulismo (dito de esquerda), o populismo autoritário (dito de direita) e o populismo não-autoritário, mas demagógico, que toma a política como um negócio privado (da maioria da chamada “classe política”) – viraram dutos pelos quais o lodo autoritário que estava decantado no poço está subindo à superfície, muitas vezes com a violência dos gêiseres ou das erupções vulcânicas.

A única possibilidade de não tomarmos o ramo da bifurcação que nos levará à catástrofe é a própria sociedade se auto-organizar ou se auto-reorganizar com base na nova fenomenologia da interação que já está se manifestando neste século. Não será um líder, um partido, uma ideologia, uma doutrina, que poderão fazer isso. Somente a própria sociedade poderá modificar a natureza das correntes subterrâneas que estão neste momento em atividade. Não haverá, é óbvio, uma mágica conversão dos indivíduos à democracia. Mas as pessoas, envolvidas em nuvens de alta interatividade, se aglomerando e se espalhando ao sabor do vento interativo, sem uma diretriz ou uma ordem ditada por alguém, enxameando em grandes multidões (swarmings) e clonando os comportamentos alterados dos seus vizinhos, poderão configurar ambientes propícios à rápida mudança do comportamento coletivo. Uma a uma, as pessoas não vão mudar suas convicções mais íntimas. Só haverá aprendizagem – quer dizer mudança – diante de um processo emergente, auto-organizador, sistêmico. Quando se diz isso, a mente primária do liberal de manual, tem uma espécie de convulsão, posto que confunde coletivo com coletivismo, social com coleção de indivíduos e sociedade com população. Então é sempre necessário explicar com exemplos.

Se a um 11 de fevereiro de 2011 (que derrubou Mubarak), suceder um 30 de junho de 2013 (que depôs o jihadista eleito da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi) e, em futuro próximo, um outro, que retirará o poder dos militares; se eventos como a Primavera Síria, de janeiro de 2011, não forem neutralizados, como ocorreu, pela guerra desencadeada por Assad para matar a rede social; se a Tunísia não voltar a ser uma ditadura; se alguma coisa como o 15 de maio de 2011, dos Indignados de Espanha, não for capturada pelas armadilhas de fluxos da velha política, gerando partidos populistas como o Podemos; se movimentos como o Occupy Wall Street, em 19 de setembro de 2011, no Zuccotti Park, não se estiolarem em levantes Black Blocs contra a globalização; se a vibe do junho de 2013 no Brasil não for desvirtuada (ou sabotada) por contra-protestos partidarizantes e se as grandes manifestações do impeachment de 2015 e 2016 não acabarem servindo apenas de plataforma de lançamento de seus pretensos líderes, da planície para o planalto, ou para gerar correntes de pensamento retrógradas que se alimentam daquele mesmo lodo do fundo do poço; se revoluções como a dos Guarda Chuvas, em setembro e outubro de 2014, em Hong Kong, não acabarem melancolicamente em candidaturas de seus líderes – ou seja, se a fermentação social que esteve presente em todos essas movimentações orgânicas da sociedade continuar fermentando, poderemos ter esperanças. Sim, dependemos agora não da inteligência artificial, mas do que foi chamado de inteligência coletiva, porém tipicamente humana: amistosa, sintônica ou simpática, sinérgica e simbiôntica. Rigorosamente falando, isto também será uma catástrofe, que mudará o estado do sistema, mas não no sentido retrógrado que se anuncia e que se consumará caso não tomemos a outra perna da bifurcação. Mas o único fator que pode decidir se vamos para um lado ou para outro virá da sociedade. Ou não virá.

O velho sistema político não vai se auto-reformar. Mesmo que queira fazer isso, para não entrar em colapso, não conseguirá. Não tem a visão, nem o entendimento do problema (a sociedade mudou e os velhos agentes políticos que compõem esse sistema não viram ou não entenderam a mudança). Não tem os instrumentos para tanto. É composto por poucas pessoas, crentes ainda na sua capacidade de enganar e conduzir suas clientelas. Basta examinar o exemplo do junho de 2013 no Brasil, que não foi compreendido nem pelos políticos tradicionais, nem por partidos como o PT, que imaginavam possuir o monopólio das ruas (e nem desconfiaram que o haviam perdido). E como seus agentes são poucos (apresentando a dinâmica quase de uma casta), sua interatividade é baixa, suas formas de organização são rígidas, opacas e imunes à influência do meio, é um sistema incapaz de aprender, quer dizer, de mudar com o fluxo, pelo menos na velocidade que seria necessária.

Essa incapacidade de aprender tempestivamente explica porque os agentes do velho sistema político não tenham se dado conta de que o (seu) mundo da política está sendo invadido por uma parte significativa daqueles que acreditavam representar (e que pretendiam manter bem longe do seu fazer político) – e não para apoiá-los e sim para demiti-los. As pessoas não estão dispostas a ficar longe se têm em seus mãos os meios de encurtar caminhos. Desgraçadamente, num primeiro momento, essa invasão – que é e só poderia ser bárbara – está sendo instrumentalizada pelos diferentes populismos que constituem, hoje, no plano explicitamente político, as maiores ameaças à democracia.

Sábado de Carnaval de 2018


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