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A direita que a esquerda queria

A pauta dita conservadora, atualmente abraçada pela “nova direita”, não é apenas conservadora, em termos, digamos, clássicos. É uma pauta reativa (ou reacionária) e retrógrada.

Reativa (ou reacionária) porque é uma reação à emergência de uma sociedade-em-rede, revalorizando os conceitos de ordem, hierarquia, disciplina, obediência, comando-e-controle e fidelidade impostas top down – que são atributos da sociedade hierárquica.

Retrógrada porque tira do arquivo-morto doutrinas que já se imaginava enterradas há muito tempo, tentando justificar comportamentos políticos pré-democráticos e iliberais.

Não é por acaso que tudo isso cheira à naftalina. No Brasil a naftalina tem um odor parecido ao que recendia do casarão da Rua Martim Francisco, 665, em Santa Cecília, São Paulo – sede da organização católica ultra-conservadora TFP – Tradição, Família e Propriedade.

Seria mesmo de se esperar que instituições (e pensadores) de um mundo que está acabando reagiriam ferozmente à sua extinção ou à sua obsolescência.

Por isso ressurgem com tanta força:

1) o nacionalismo (ou o antiglobalismo) que, em termos práticos, significa necessariamente estatismo (e populismo);

2) a reafirmação do unilateralismo e da soberania nacional (que no fundo é a ideia de manutenção do equilíbrio competitivo – quer dizer, a guerra ou o estado de guerra – entre menos de duas centenas de unidades de governança chamadas países ou Estados-nações);

3) os ataques (ou as restrições) à democracia liberal (em nome da governança centralizada e da necessidade de defesa contra os inimigos globalistas que, sob a hegemonia dos grandes capitalistas transnacionais, supostamente associados ao comunismo internacional, querem derruir as identidades nacionais; e também contra os impérios rivais, meio ainda na vibe da guerra fria; e, ainda, contra o islamismo, não raro confundido com o jihadismo-ofensivo islâmico);

4) os muros (físicos ou culturais), as barreiras alfandegárias, o fortalecimento das fronteiras e as demais restrições aos fluxos migratórios (e até às viagens);

5) o monoculturalismo e seu oposto no mesmo plano, o multiculturalismo (contra a ideia de miscigenação cultural);

6) o localismo não-cosmopolita conservador (contra a glocalização); e

7) a reafirmação dos valores de uma (imaginária) “Civilização Ocidental Cristã” (uma construção intelectual postiça para satisfazer a hipótese do choque de civilizações).

Tudo isso é reação e retrogradação. Reação à maior mudança de época que já aconteceu no que convencionamos chamar de história (tomada como história da civilização). Retrogradação ou tentativa de nos exilar em algum lugar do passado, de preferência antes do século 17 (quando os modernos reinventaram a democracia).

É espantoso que muitos jovens, com espírito inicialmente inovador, tenham se deixado colonizar por essas ideias de um mundo que acabou. Para combater a hegemonia cultural da esquerda, em vez de pensarem adiante, resolveram fugir para trás. Por isso abraçaram um ideário dito de direita, mas que nunca se poderá dizer liberal em termos políticos.

Por isso aderiram, tão rápida e saltitantemente, ao trumpismo, ao brexitismo e, em alguns casos, ao lepenismo ou coisa pior (como o iliberalismo declarado de um Viktor Orban – na foto que ilustra este post).

E mesmo quando não se dizem olavistas ou bolsonaristas, os que aderem a esse tipo de pauta acabam repetindo as ideias do autocrata religioso Olavo de Carvalho e não terão como impedir facilmente que as pessoas que influenciam ou com as quais se relacionem passem a apoiar o capitão autoritário e boçal Jair Bolsonaro.

Era tudo que a esquerda queria. Ter uma direita para chamar de sua, para bater nela e para derrotá-la, na sociedade e no Estado. A esquerda ficou anos ansiando por uma direita desse tipo, autocrática, para polarizar com ela. Era o seu caminho, a chance de ouro de se vender como “democrática”. E para (tentar) alijar os verdadeiros democratas da cena pública.


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