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A distopia da esterilização e a prisão arbitrária de Temer

Consequências nefastas da antipolítica da terra arrasada

1 – O lavajatismo militante, quer dizer, a instrumentalização política da operação Lava Jato, levou Bolsonaro ao governo. Há uma evidência incontrastável. O apoio popular ao combate à corrupção virou campanha política: mais de 90% de todos os grupos que se formaram para apoiar a Lava Jato e endeusar Moro e Deltan (como as tais “repúblicas de curitiba”) viraram comitês eleitorais de Bolsonaro.

2 – Em retribuição, Bolsonaro levou a Lava Jato para dentro do governo, misturando tudo perigosamente e revelando que havia um projeto de poder animando os jacobinos restauracionistas.

3 – A extrema-direita, necrófila, aproveitou a ocasião para levantar da tumba e ocupar o cenário político, pegando uma carona nas cruzadas de limpeza ética promovidas por estamentos corporativos do Estado, por cima das instituições regulares e ao largo do seu metabolismo normal. Este é o quadro.

4 – A turbamulta vil de bolsonaristas e os analfabetos democráticos que acham que estão fazendo a revolução francesa (com 200 anos de atraso) festejam cada guilhotinada como se fosse uma vitória do bem contra o mal.

5 – Pessoas sem experiência política, cativas da Matrix, que acham que não são boas o bastante, que se sentem sujas, vivem seu momento de (falsa) glória projetando psicologicamente seus recalques sobre as “maçãs podres”. É como se compensassem todas as suas frustrações ao se limpar nos outros (os abatidos pela cruzada de limpeza).

6 – Tudo isso vai alimentando um emocionar desumanizante, baseado em vingança em vez de justiça, em ressentimento social e vontade de revanche em vez de colaboração em prol de projetos consistentes para melhorar as condições de vida e convivência social das populações.

7 – E os que se alimentam do prazer pela desgraça alheia ficam dependentes dos rituais macabros de prisões e humilhações: acabam precisando sempre de mais uma dose da droga, de que uma nova cabeça role para poder gozar.

8 – Por isso, o processo é intermitente: cada operação deve ser seguida de outra operação, numa sucessão sem fim (até que, imaginariamente, o mundo fique limpo de toda sujeira, inteiramente purificado, sanitizado: é uma distopia da esterilização).

9 – No entanto… comandos de caça a corruptos nunca melhoraram a posição de nenhum país nos rankings de corrupção. A prova é a Mani Pulite, na Itália: um Berlusconi estava esperando na próxima esquina.

10 – E aqui também os nossos cortadores de cabeças parecem que já acharam o seu Napoleão provisório (e agora esperam substituí-lo pelo Napoleão dos seus sonhos).

11 – Lá (na Itália da Mani Pulite), como aqui (no Brasil da Lava Jato), os agentes do “destino limpo” revelaram que tinham, in pectore, projetos políticos: o juiz Antonio Di Pietro, abandonou a toga para fundar um partido; Moro também largou a magistratura para virar auxiliar de Bolsonaro.

12 – A questão é que por mais lavajatistas que queiramos introduzir na Somália, ela não virará uma Nova Zelândia (respectivamente os países mais corrupto e menos corrupto do mundo) da noite para o dia. Isso depende dos estoques de capital social da sociedade somalesa e neozelandesa (que são muito diferentes), não do ativismo de destacamentos corporativos estatais.

13 – A vitória da antipolítica robespierriana da terra arrasada tem apenas uma consequência certa: a terra ficará arrasada, enfreando, por anos, o processo de democratização (e de acumulação de capital social).


UMA NOTA SOBRE A PRISÃO ARBITRÁRIA DE TEMER

A Lava Jato prendeu Temer hoje (21/03/2019). Não se sabe se ele é culpado ou inocente. O que sabemos é que ninguém deve ser preso sem julgamento.

É justificável a prisão após condenação em segunda instância (pois esta é a determinação vigente do Supremo Tribunal Federal). Por isso foi correta a prisão de Lula. Mas não se pode entender prisão sem condenação. E no caso não há nem mesmo condenação em primeira instância. A não ser que o acusado, ficando solto, possa prejudicar terceiros, destruir provas, fugir, se recusar a depor. É a chamada prisão preventiva.

Mas se Temer não se enquadra em nenhuma das condições que justificam a prisão preventiva, então, qual era mesmo a necessidade de prendê-lo? A não ser afirmar o lavajatismo, agora consolidado como bolsolavajatismo.

E quais foram as razões apresentadas para a prisão? Leiam aqui o despacho do juiz Bretas: Marcelo-Bretas-ordena-prisao-de-Michel-Temer Quem ler com atenção o documento não encontrará, honestamente, uma razão legal.

Bretas prende para investigar. Inverte o processo. Estupra o Estado de direito.

O bolsolavajatismo é necrófilo. Sua continuidade cavará um buraco negro que pode engolir a nossa democracia.


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Measuring Polyarchy Across the Globe, 1900–2017

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