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A esquerda autocrática e o fascismo

Um roteiro de oito posts sobre concepções e práticas semelhantes da esquerda contemporânea e do fascismo

Sob certo ponto de vista – fenotípico, vamos dizer assim – a nova estratégia da esquerda de tomada do poder a partir da conquista eleitoral de governos é mais próxima do fascismo do que do socialismo realmente existente, ou seja, do marxismo-leninismo (e das suas variantes, como o stalinismo, os trotskismos, o maoismo, o castrismo etc.) Está mais para essas diversas combinações esdrúxulas de gramscismo com neomaquiavelismo que apareceram com o neopopulismo latino-americano (como os bolivarianismos, o chavismo, o lulopetismo). Não é uma acusação infundada, como pode parecer à primeira vista, já que todo mundo que quer ofender o interlocutor em um debate político acusa-o de fascista (e isso é feito sobretudo pela esquerda dita socialista que, via de regra, reproduz comportamentos fascistas). No entanto…

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Se formos estudar a via de tomada de poder adotada pelos fascismos, sobretudo pelos fascismos italiano e alemão, veremos que Mussolini e Hitler não deram golpes de Estado (eles chegaram ao governo de modo constitucional para, só depois, tomar o poder). Escrevi uma pequena nota sobre isso, comentando e transcrevendo trechos de Robert Paxton (2004) em A Anatomia do Fascismo. Ela está disponível neste link, mas vou reproduzi-la abaixo:

MUSSOLINI E HITLER DERAM GOLPES DE ESTADO?

Como sabem os que leem o que escrevo, sou um releitor contumaz de Robert Paxton (2004) em A Anatomia do Fascismo. Vamos copiar e emendar algumas passagens sobre a questão de como Mussolini e Hitler chegaram ao governo (e, depois, ao poder: não, não foi no mesmo instante, foi um processo, o desdobramento de uma estratégia de tomar o poder a partir do governo). Alguém pode pensar que estou batendo na canga para o boi ouvir. Não estará totalmente enganado.

Como se sabe, ambos – Mussolini e Hitler – adotaram a via eleitoral. Não fizeram uma revolução jacobina ou uma insurreição bolchevique, nem promoveram uma quartelada. Não, eles foram se infiltrando nos parlamentos e governos e esperando condições favoráveis para dar o bote e tomar o poder. Escreve Paxton:

“Nem Mussolini nem Hitler chegaram ao poder por um golpe de Estado. Nenhum deles tomou o poder pela força, mesmo que ambos tenham usado de força antes de tomar o poder, com o fim de desestabilizar o regime existente, e ambos viriam novamente a usar de força, já no poder [ele provavelmente queria dizer, no governo] para transformar seus governos em ditaduras… Até mesmo os autores mais escrupulosos falam de sua “tomada do poder” [Como Adrian Lyttelton (1987) em The Seizure of Power: Fascism in Italy], mas essa expressão descreve melhor o que os dois líderes fascistas fizeram após chegar ao poder, do que a forma pela qual eles lá chegaram.

Tanto Mussolini como Hitler foram convidados a assumir o cargo de chefe de governo por um chefe de Estado no exercício legítimo de suas funções oficiais, e após consultas às autoridades civis e militares. Ambos, portanto, tornaram-se chefes de governo em meio a situações que, pelo menos na superfície, pareciam representar o exercício da autoridade constitucional, pelo rei Victor Emanuel III e pelo presidente Hindenburg. As duas nomeações foram feitas, deve-se acrescentar, em condições de crise extrema, crise essa que os fascistas haviam alimentado… A verdade é que, até hoje, nenhuma insurreição golpista contra um Estado estabelecido levou fascistas ao poder.”

Deixando claro que a via principal foi eleitoral, Paxton esclarece, em outra passagem, que “o sucesso eleitoral de Hitler – muito maior que o de Mussolini – permitiu-lhe uma maior autonomia nas barganhas com os políticos estabelecidos, de cujo auxílio eles precisavam para chegar ao poder”.

Bem… agora vem então a tomada do poder:

“Os conservadores alçaram Hitler e Mussolini a cargos de governo de forma quase constitucional, no âmbito de uma coalizão que os líderes fascistas não controlavam plenamente. Tendo chegado ao primeiro escalão do governo numa situação de quase legalidade, Mussolini e Hitler passaram a deter apenas os poderes outorgados a um chefe de Estado nos termos da Constituição. De maneira mais prática, seu poder, em seus primeiros dias no cargo, era limitado pelo fato de terem que governar em coalizão com seus aliados conservadores. Embora os partidos fascistas tenham ocupado alguns cargos de grande importância nesses governos, eles detinham apenas uma minoria das pastas ministeriais.

Não tardou para que ambos os líderes transformassem esse ponto de apoio em ditadura escancarada. Controlar por completo o Estado, transformando um cargo semiconstitucional em autoridade pessoal ilimitada: essa foi a real “tomada do poder”. Isso era diferente de ascender a um cargo. A principal linha de ação eram os atos maciçamente ilegais praticados pelos líderes fascistas. Os aliados continuavam sendo de importância crucial, mas agora bastava que eles aquiescessem.

Nem mesmo Hitler veio a se tornar ditador da Alemanha de repente. A princípio acreditava que o melhor artifício para conseguir maior independência com relação a seus parceiros de coalizão seria uma nova eleição, na esperança da maioria esmagadora que até então ele nunca alcançaram… O presidente Hindenburg já havia autorizado novas eleições… Mais um passo seria necessário antes que Hitler pudesse fazer o que queria. Os nazistas propuseram uma Lei Capacitadora, que permitia a Hitler governar por decreto por um período de quatro anos, sem ter que responder nem ao Parlamento nem ao presidente, após o qual ele prometia se aposentar… Embora a maioria dos alemães ainda tivesse votado em outros partidos nas eleições de 5 de março, Hitler alcançou a maioria de dois terços a favor da Lei Capacitadora em 24 de março de 1933… Hitler agora estava livre para dissolver todos os outros partidos políticos nas semanas que se seguiram e estabelecer uma ditadura de partido único”.

“A revolução de Mussolini após sua chegada ao poder [leia-se: ao governo] foi mais gradual, e a luta pela preponderância entre os três contendentes – o líder, os fanáticos do partido e o establishment conservador – nunca ficou tão definitivamente resolvida quanto na Alemanha nazista. Durante quase dois anos, Mussolini, aparentemente, conformou-se em governar como um primeiro-ministro comum num regime parlamentarista, em coalizão com nacionalistas, liberais e uns poucos Popolari… Nos anos que se seguiram [sob pressão da Milícia Fascista], o parlamento dominado pelos fascistas, pressionado por diversos atentados contra a vida de Mussolini, aprovou uma série de Leis para a Defesa do Estado, que fortaleciam o poder da administração, substituíam prefeitos eleitos por funcionários nomeados para o cargo (podestà), submetiam a imprensa e o rádio a censura, reinstituíam a pena de morte, davam aos sindicatos fascistas o monopólio da representação trabalhista e dissolviam todos os partidos com exceção do PNF. Em inícios de 1937, a Itália havia se convertido numa ditadura de partido único.”

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Nesse processo (descrito no item anterior), ambos, Mussolini e Hitler, construíram estruturas paralelas antes de tomar o poder. Leiam o original aqui, que também está reproduzido abaixo:

ESTRUTURAS PARALELAS

Vivo relendo o Anatomia do Fascismo de Robert Paxton (2004). De quando em vez reproduzo aqui pequenos trechos. Vejam mais um, muito interessante…

“Um artifício usado pelos partidos fascistas, mas também pelos revolucionários marxistas que haviam pensado seriamente na conquista do poder, eram as estruturas paralelas. Um partido externo à situação que aspire ao poder monta uma organização que copia as agências governamentais. O Partido Nazista, por exemplo, possuía sua própria divisão de política externa que, ao início, logo depois de o partido ter alcançado o poder, tinha que dividi-lo com a agência oficial de Relações Exteriores. Após seu chefe, Joachim von Ribbentrop, ter se tornado ministro das Relações Exteriores, em 1938, a divisão de política externa do partido passou a, cada vez mais, suplantar os diplomatas profissionais do Ministério. Uma “organização paralela” de particular importância foi a polícia do partido. Os partidos fascistas que aspiravam ao poder tendiam a usar suas milícias para contestar o monopólio estatal do uso da força física.

As estruturas paralelas desafiavam o Estado liberal ao afirmar que eram capazes de fazer algumas coisas melhor que ele (como surrar comunistas, por exemplo). Após chegar ao poder, o partido podia substituir as estruturas do Estado pelas suas estruturas paralelas.

Iremos reencontrar as estruturas paralelas em nossa observação dos processos de ascensão ao poder e de exercício do poder. Elas são uma das características definidoras do fascismo. Os partidos leninistas fizeram o mesmo durante a conquista do poder, mas ao chegar lá, o partido único eclipsou por completo o Estado tradicional”.

Cf. PAXTON, Robert (2004). Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

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E depois de chegar ao governo, tanto Hitler quanto Mussolini, criaram Estados paralelos, ao mesmo tempo por fora e por dentro do Estado constitucional. Vejam no link original ou leiam abaixo:

SOBRE O ESTADO PARALELO

Continuo batendo na canga para o boi ouvir

Sou aquele cara que segue à risca – pelo menos em parte – o conselho do Mutus Liber, supostamente de Altus (circa 1676) by Eugene Canseliet (1958): “… lege, lege, lege, relege…” no que tange à A Anatomia do Fascismo de Robert Paxton (2004). Ou seja, sou um releitor compulsivo do livro de Paxton, do qual sempre reproduzo aqui alguma passagem.

Vou costurar alguns trechos sobre o Estado paralelo construído pelas iniciativas fascistas na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini. Abre aspas:

“Os regimes fascistas nunca foram estáticos. Temos que ver seu domínio como uma infindável luta pela primazia interna a uma coalizão, exacerbada pelo colapso das restrições constitucionais e do Estado de direito, e acirrada por um clima de generalizado darwinismo social…

Uma das primeiras e mais sugestivas interpretações do conflito partido-Estado foi a ilustração, fornecida pelo acadêmico refugiado Ernst Fraenkel, da Alemanha nazista como um “Estado dual”. Segundo Fraenkel, no regime de Hitler, um “Estado normativo”, constituído pelas autoridades legalmente constituídas e pelo serviço público tradicional, disputava o poder com o “Estado prerrogativo”, formado pelas organizações paralelas do partido… [cf. Fraenkel, Ernst. The Duas State. Nova York: Oxford, 1941]

De acordo com o modelo de governança nazista proposto por Fraenkel, o segmento “normativo” do regime fascista continuou a aplicar a lei em conformidade com o devido processo legal, e os funcionários desse setor eram selecionados e promovidos com base nas normas burocráticas de competência e antiguidade. No setor “prerrogativo”, ao contrário, nenhuma regra se aplicava, com a exceção dos caprichos do governante, da gratificação dos militantes do partido e do suposto “destino” do Volk, da razza, ou do povo eleito. O Estado normativo e o Estado prerrogativo coexistiam numa cooperação conflituosa, embora mais ou menos competente, conferindo ao regime sua bizarra mistura de legalismo e de violência arbitrária.

Hitler nunca aboliu formalmente a constituição redigida em 1919 para a República de Weimar, e nunca chegou a desmontar por completo o Estado normativo na Alemanha, embora recusasse a se deixar cercear por ele…

Com o passar do tempo, o Estado prerrogativo nazista usurpou as funções do Estado normativo e contaminou seu trabalho, de forma que, mesmo dentro dele, a suspeita da emergência nacional era o bastante para permitir que o regime passasse por cima dos direitos individuais e do devido processo legal. Após o início da guerra, o Estado prerrogativo nazista alcançou algo próximo a um domínio total.

A Itália fascista também pode ser vista como um Estado dual… Mussolini, entretanto, conferia um poder muito maior ao Estado normativo do que Hitler… Mesmo assim, o Estado fascista italiano continha importantes elementos prerrogativos: sua polícia secreta (a OVRA), sua imprensa controlada, seus baronatos econômicos… Em fins da década de 1930, a participação na guerra fortaleceu o Estado prerrogativo italiano”.

Fecha aspas. Lendo passagens como esta podemos entender para quê serve realmente a guerra. E, mais do que isso, podemos entender como o processo de tomada do poder a partir de governos (conquistados constitucionalmente, como foram os casos de Hitler e Mussolini, e não por meio de golpes de Estado) implica na construção de um Estado paralelo, ao mesmo tempo por fora e por dentro do Estado constitucional.

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É claro que, do ponto de vista prático, o fascismo, tal como o socialismo, é um estatismo. Vejam neste link ou leiam o que vai a seguir:

FASCISMO É ESTATISMO

Tantas semelhanças não podem ser meras coincidências

Reproduzo abaixo um trecho (excertos) do livro de Robert Paxton (2004), Anatomia do Fascismo sobre a origem da palavra fascismo e sua entronização no mundo da política. Fascismo é Estado e guerra, mas não teria surgido sem intelectuais anticapitalistas que queriam ensaiar um grande experimento social para transformar a sociedade a partir do Estado e não teria se expandido sem um partido autocrático com enraizamento social (e uma forte base sindical) que tinha como objetivo se fundir ao Estado para cumprir sua missão.

Para Paxton, o fascismo é “uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza”. Esta definição entretanto, considerada excelente pelo poder de síntese do autor, mais nos afasta do que nos aproxima do coração do conceito.

Eis o trecho selecionado (excertos):

“A palavra fascismo tem origem no fascio italiano, literalmente, um feixe ou maço. Em termos mais remotos, a palavra remetia ao fasces latino, um machado cercado por um feixe de varas que era levado diante dos magistrados, nas procissões públicas romanas, para significar autoridade e a unidade do Estado. Antes de 1914, de modo geral, foi a esquerda que se apropriou do simbolismo do fasces romano. Marianne, o símbolo da República Francesa, foi muitas vezes retratada no século 19, portando o fasces, para representar a força da solidariedade republicana contra seus inimigos aristocratas e clericais. Fasces figuram com proeminência no Sheldonian Theater da Universidade de Oxford, de autoria de Christopher Wren, e também no Lincoln Memorial de Washington (1922), bem como na moeda norte-americana de um quarto de dólar cunhada em 1932.

Os revolucionários italianos usaram o termo fascio em fins do século 19, para evocar a solidariedade e o compromisso os militantes. Os camponeses que se insurgiram contra os senhores de terra na Sicília, em 1893-1894, denominavam a si mesmos de os Fasci Siciliani. Quando, em fins de 1914, um grupo de nacionalistas de esquerda, aos quais logo veio a se juntar o pária socialista Benito Mussolini, tentou levar a Itlália a participar da Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados, eles escolheram um nome cujo fim era comunicar tanto o fervor quanto a solidariedade de sua campanha: O Fascio Rivoluzionario d’Anzione Interventista (A Liga Revolucionária da Ação Intervencionista). Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Mussolini cunhou o termo fascismo para descrever o estado de ânimo do pequeno bando de ex-soldados nacionalistas e de revolucionários sindicalistas pró-guerra que vinha reunindo a seu redor. Mesmo então, ele não possuía o monopólio da palavra fascio, que continuou sendo de uso geral entre grupos ativistas de diversos matizes políticos.

Oficialmente, o fascismo nasceu em Milão, em um domingo, 23 de março de 1919. Naquela manhã, pouco mais de cem pessoas, entre elas veteranos de guerra, sindicalistas que haviam apoiado a guerra e intelectuais futuristas, além de alguns repórteres e um certo número de meros curiosos, encontraram-se na sala de reuniões da Aliança Industrial e Comercial de Milão, cujas janelas se abriam para a Piazzza San Sepulcro, para “declarar guerra ao socialismo (…) em razão de este ter-se oposto ao nacionalismo”. Nessa ocasião, Mussolini chamou seu movimento de Fasci di Combattimento, o que significa, aproximadamente, “fraternidades de combate”.

O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de “nacional-socialismo”. Do lado nacionalista, ele conclamava pela consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Balcãs e ao redor do Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na Conferência de Paz de Paris. Do lado racial, propunha [entre outras propostas]… a convocação de uma assembléia constituinte para redigir a proposta de uma nova constituição para a Itália…

O movimento de Mussolini não se restringia ao nacionalismo e aos ataques à propriedade, mas fervilhava também de prontidão para atos violentos, de anti-intelectualismo, de rejeição a soluções de compromisso e de desprezo pela sociedade estabelecida, características essas comuns aos três grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores – veteranos de guerra desmobilizados, sindicalistas pró-guerra e intelectuais futuristas…

Os futuristas eram uma associação livre de artistas e escritores que apoiavam os “Manifestos Futuristas” de Filippo Tomaso Marinetti, o primeiro dos quais fora publicado em Paris, em 1909. Os seguidores de Marinetti repudiavam o legado cultural do passado reunido nos museus e nas bibliotecas e exaltavam as qualidades libertárias e vitalizantes da velocidade e da violência. “Um carro de corrida é mais belo que a Vitória de Samotrácia”. Em 1914, eles haviam ansiado pela aventura da guerra, e continuaram a seguir Mussolini em 1919…

O fascismo recebeu seu nome e deu seus primeiros passos na Itália. Mussolini, entretanto, não era um aventureiro solitário. Movimentos semelhantes vinham surgindo na Europa do pós-guerra, independentes do fascismo de Mussolini, mas expressando a mesma mistura de nacionalismo, anticapitalismo, voluntarismo e violência ativa contra seus inimigos, tanto burgueses quanto socialistas.

Pouco mais de três anos após a reunião da Piazza San Sepolcro, o Partido Fascista de Mussolini ocupava o poder na Itália. Onze anos mais tarde, um outro partido fascista tomou o poder na Alemanha. Não demorou muito para que a Europa, e até mesmo outras regiões do mundo, fervilhassem com aspirantes a ditador e marchas de esquadrões que acreditavam estar trilhando o mesmo caminho para o poder que Mussolini e Hitler. Em outros seis anos, Hitler havia jogado a Europa numa guerra que acabaria por tragar grande parte do mundo.”

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Do ponto de vista teórico (ou talvez melhor, ideológico), marxismo e fascismo são conjuntos de concepções basicamente estatistas (e, por decorrência, autocráticas). Vejam neste link ou leiam abaixo:

MARXISMO E FASCISMO: DOIS ESTATISMOS

A esquerda marxista não deve se surpreender se descobrirmos nas suas concepções e nas suas práticas traços dos mesmos padrões que caracterizaram o fascismo

Quando surgiu o fascismo, os marxistas se apressaram a defini-lo usando seu esquema economicista de interpretação da realidade (tudo que acontece tem por trás algum movimento das forças econômicas que movem a história) e, é claro – infectados pelo malware esquerda x direita = burguesia x proletariado = socialismo x capitalismo = bem x mal – sua mania de imputar ao inimigo a responsabilidade por todo mal que assola a humanidade.

Foi assim que, já em julho de 1924, uma Resolução da Internacional Comunista cravava que o fascismo (que mal havia se instalado no governo na Itália, cerca de dois anos antes) era “o instrumento da grande burguesia em sua luta contra o proletariado, sempre que os meios legais disponíveis ao Estado mostram-se insuficientes para contê-lo”. Stalin “aperfeiçoou” a fórmula: “O fascismo é a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro”. Depois disso, é claro, a esquerda realmente existente entendeu que o assunto estava resolvido e não se fala mais nisso. Mas a definição stalinista é curiosa: o problema não era a ditadura e sim a orientação política de seus promotores. Se fosse a ditadura do proletariado, quer dizer, “a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais revolucionários da classe trabalhadora”, aí não seria problema e sim, pelo contrário, a solução. Nada de democracia: o socialismo vencerá o capitalismo (do qual o fascismo é apenas uma expressão desesperada diante do avanço da classe redentora) quando a ditadura do bem derrotar a ditadura do mal.

O problema é que durante décadas as pessoas acreditaram nessa ficção instrumental. E mesmo depois da queda do Muro de Berlim e da derrocada da União Soviética, os marxistas continuam acreditando nisso. Porque precisam acreditar. Porque seu esquema mental não mudou: se algo é ruim, só pode ser coisa do capitalismo.

O que temos aqui? Temos, simplesmente, estatismo. A luta do socialismo realmente existente contra o fascismo (depois de um breve namoro com o nazismo e da avaliação insana e desastrosa da Terceira Internacional stalinista de que o inimigo principal não era o fascismo e sim a social-democracia), era uma luta entre dois estatismos. Entre duas ideologias que atribuíam ao Estado o papel de agente instaurador de uma nova ordem top down. O problema não era o Estado e sim nas mãos de quem ele está. Se fosse nas mãos do partido do proletariado, mesmo que a administração política desse Estado fosse exercida de modo ditatorial, tudo bem para os socialistas.

Benito Mussolini concordaria totalmente com tal ponto de vista, desde que o Estado estivesse nas mãos do partido fascista. Como ele mesmo definiu: “Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado… O princípio básico da doutrina fascista é sua concepção de Estado, de sua essência, de suas funções e de seus objetivos. Para o fascismo, o Estado é absoluto; indivíduos e grupos relativos”.

Socialista, é claro, não passa de uma denominação equívoca. Os estatistas do proletariado disseram-se socialistas. Os estatistas da burguesia (segundo os estatistas do proletariado) também se disseram socialistas: o nazismo (uma forma do fascismo) se declarava socialista, nacional-socialista. Mas ambos caracterizavam-se por uma visão estadocêntrica do mundo e não sociocêntrica (o que justificaria o termo socialista). Para ambos a sociedade (civil) não existia ou não subsistiria por si mesmo na ausência do Estado (como, aliás, acreditam até hoje muitos liberais-conservadores). A sociedade era um dominium do Estado (no sentido feudal mesmo do termo).

Há mais semelhanças entre as duas ideologias – socialista e nacional-socialista – do que gostariam de admitir os marxistas. Acompanhando o nascimento do fascismo na Itália descobrimos que o fascismo é, basicamente, Estado e guerra, mas não teria surgido sem intelectuais anticapitalistas (como os seguidores de Marinetti) que queriam ensaiar um grande experimento social para transformar a sociedade a partir do Estado e não teria se expandido sem um partido autocrático com enraizamento social (e uma forte base sindical) que tinha como objetivo se fundir ao Estado para cumprir sua missão redentora. Acompanhando o desenvolvimento do socialismo marxista-leninista na Rússia descobrimos… quase a mesma coisa! Se os marxistas fossem realmente honestos deveriam reconhecer que as diferenças de conteúdo das propostas não importam tanto quanto os condicionamentos concretos impostos pela base social e pela configuração das forças políticas.

O fato é que há uma correlação direta entre estatismo, autocracia (ou ditadura) e guerra (quente, fria ou praticada como política na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin: a política como continuação da guerra por outros meios). Por isso, toda ideologia estatista, em alguma medida, namora com o fascismo (que, em si, já é uma expressão não do capitalismo, mas do estatismo).

Na raiz do fenômeno está a cultura patriarcal que surgiu com a ereção do Estado, nas conversações recorrentes da casta sacerdotal-militar que inventou o Estado para se reproduzir como estamento. Essa cultura estava presente no velho Estado-Templo sumeriano, na corte de Dario, na Roma imperial e inclusive na republicana e… dois mil anos depois, também em grupos estatistas que nem Estado formal possuem ainda, como a Irmandade Muçulmana no Egito e na Palestina (o Hamas) ou no Estado Islâmico. Se a construção de um califado universal não é a máxima expressão de uma ideologia estatista, semelhante ao Terceiro Reich, o que seria?

O estatismo não nasce de boas ou más intenções das pessoas e sim de uma perturbação no campo social introduzida, antes de qualquer coisa, pelo que chamamos de Estado e que, em determinadas situações gera uma configuração da rede que favorece certos tipos de conversações patriarcais hard. Essas conversações é que constituem a cultura (ou a ideologia) que chamamos de fascismo lato sensu. Mas – atenção! – ela não predominava na polis ateniense do século 5 (ou na koinonia democrática que se conformou entre 509 e 322 a. E. C.), assim como não predomina hoje, conquanto esteja presente (e estará em alguma medida enquanto houver Estado), em cerca de 30 países que experimentam mais plenamente a democracia reinventada pelos modernos (a democracia representativa), mas continua viva, resiliente que só, em cerca de 60 Estados-nações ditatoriais remanescentes ou florescentes sob os quais vive mais da metade da população do planeta!

O fascismo não existe a não ser como uma deriva do estatismo. É uma ideologia, não um “modo” econômico autônomo (de produção, circulação, intermediação financeira etc.) e nem um modo derivado (do capitalismo agonizante ou triunfante). Assim como todo Estado é autocrático (e permanece sendo autocrático no que tange ao fundamental, quer dizer, nos seus padrões de organização e nos seus modos internos de regulação, a despeito do liberalismo político – felizmente – ter tentado domar o Leviatã com a forma Estado democrático de direito), todo governo é, em alguma medida, oligárquico (a despeito dos avanços dos processos de democratização).

Mas o fascismo não poderia ser enfrentado com outro estatismo (na base de uma luta esquerda x direita), como vimos. Com o fim dos grandes projetos fascistas do século 20, a continuidade dessa guerra (mesmo na forma branda ou de baixa intensidade da política pervertida como arte da guerra) nos dias de hoje só poderá gerar mais estatismo e, no limite, pode enveredar, aqui e ali, por variantes fascistas. E a esquerda marxista não deve se surpreender se descobrirmos nas suas concepções e nas suas práticas traços dos mesmos padrões que caracterizaram o fascismo.

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Talvez por isso seja tão fácil reconhecer os mesmos padrões autocráticos no comportamento político de fascistas e socialistas. Vejam aqui ou leiam abaixo:

ESTRANHAS E REVELADORAS SEMELHANÇAS

Quando se trata de padrões de organização ou comportamento, isomorfismos (lato sensu) são pistas de deciframento. Mas a “ciência” de reconhecimento de padrões está apenas começando

Uso a palavra isomorfismo em sentido figurado (e deslizado do seu sentido matemático original). Na álgebra abstrata, um isomorfismo é um homomorfismo bijetivo. Duas estruturas matemáticas são ditas isomorfas se há um mapeamento um-para-um entre os elementos das suas estruturas matemáticas. Essencialmente, dois objetos são isomorfos se eles são indistinguíveis com base apenas na seleção de suas características correspondentes. Isomorfismo é então o mapeamento entre objetos que mostra um relacionamento entre duas propriedades ou operações. Não sei se a metáfora será bem-entendida, mas vamos lá.

Robert Paxton (2004), em Anatomia do Fascismo, nos conta a seguinte passagem:

“O cabo Adolf Hitler, de volta ao serviço ativo no IV Comando dos Grupos do Exército, em Munique, após se recuperar da cegueira histérica que o acometera ao saber da derrota alemã, foi enviado pelo Serviço de Inteligência do Exército, em setembro de 1919, para investigar um dos muitos movimentos nacionalistas que vinham surgindo na desordem do pós-guerra. O Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei – DAP) havia sido criado ao final da guerra por um chaveiro patriota, Anton Drexler. Encontrando um punhado de artesãos e jornalistas que sonhavam em conquistar trabalhadores para a causa nacionalista, mas que não faziam ideia de por onde começar, Hitler se juntou a eles, recebendo o cartão do partido número 555. Ele logo se tornou um dos oradores mais hábeis do movimento e membro de seu comitê diretor.

Em inícios da década de 1920, Hitler foi colocado no comando da propaganda do DAP. Com o auxílio de oficiais do exército simpatizantes, como o capitão Ernst Röhm, e de alguns partidários ricos de Munique, Hitler ampliou em muito a audiência do partido. Perante quase duas mil pessoas reunidas numa grande cervejaria de Munique, o Hofbräuhaus, em 24 de fevereiro de 1920, Hitler deu ao movimento um novo nome – o National-sozialistische Arbeiterpartei (NSDAP, ou o partido “nazi”, abreviando) – e apresentou um programa de vinte e cindo pontos que misturava nacionalismo, anti-semitismo e ataques a lojas de departamentos e ao capital internacional. No 1 de abril que se seguiu, deixou o exército para se dedicar em tempo integral ao NSDAP. Cada vez mais, ele era reconhecido como seu líder, seu Führer (termo adotado – assim também como a saudação “Heil” – do líder pan-germânico Georg von Schönerer, muito influente na Viena do pré-guerra)”.

Em apenas dois parágrafos temos terabytes de dados para fazer mapeamentos um-para-um (bijetivos). Para quem está trabalhando com reconhecimento de padrões, este é um excelente exercício teórico. Em princípio, tudo é sinal, mas aqui eles abundam. Vamos apresentar, apenas a título de exemplo, algumas pistas:

1) O partido original se chamava Partido dos Trabalhadores (Arbeiterpartei). Por que tanta fixação no trabalho? “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta) foi a frase colocada, duas décadas depois, nas entradas de vários campos de concentração (como em Auschwitz I e Sachsenhausen, que aparece na foto). O novo nome desse partido manteve a denominação original, acrescentada do termo National-sozialistische (nacional-socialista). A introdução do termo nacional é de fácil explicação em razão do caráter nacionalista (e do ressentimento com a derrota alemã) do movimento: o nome original já dizia que o partido era dos trabalhadores alemães. Mas por que também socialista?

2) O programa do partido renomeado como Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, já sob a liderança de Hitler, pregava ataques a lojas de departamentos e ao capital internacional. Não há como não fazer uma correspondência (atenção, apenas formal: estamos tratando de isomorfismo e não de intenções subjacentes ou aderentes a conteúdos) com a tática Black Bloc. É bom repetir: não estamos dizendo com isso que os Black Blocs sejam nazistas, pois as relações aqui não são de conteúdo (e não têm nada a ver com ideologia ou visão de mundo). São disposições estruturais que possibilitam – e mais do que isso: ensejam – comportamentos conformes (não por causalidade, mas por condicionamentos recíprocos).

3) Hitler ascendeu no Arbeiterpartei quando foi colocado no comando da propaganda partidária e iniciou uma vigorosa campanha de marketing financiada com doações das elites econômicas (as pessoas ricas) de Munique. As elites financiavam um partido de trabalhadores.

4) Até o momento em que assumiu a posição de mono-líder (um líder único com alta gravitatem) e de chefe (ou Führer, condutor), Hitler atuava como agente do Serviço de Inteligência do Exército. Ora, mesmo depois de uma “paz celebrada”, inteligência militar continua sendo guerra (essa é a essência característica da construção cultural militar: si vis pacem, para bellum). O paralelo militar na política (que leva à perversão da política como arte da guerra ou como continuação da guerra por outros meios na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin) aparece aqui em estado puro. Hitler era um agente em preparação de conquista de hegemonia no sentido leniniano do termo (que corresponde ao seu sentido original grego de comando de um exército) que exige mesmo a centralização da rede ou a deformação do campo social introduzida pela existência de um Führer.

5) A reunião que simbolicamente marcou a virada do pequeno partido dos trabalhadores (de quadros) em um partido socialista dos trabalhadores (de massa) aconteceu numa grande cervejaria. Os sinais aqui são mais fracos, mas isso não significa que não signifiquem alguma coisa…

Uma infinidade de outros sinais (alguns mais fortes, outros mais fracos) também estão contidos explícita ou implicitamente nos dois parágrafos acima:

– O ressentimento social (e a vontade de revanche) que levou um artesão a criar um partido dos trabalhadores.

– A ligação entre um patriotismo-trabalhador do pós-guerra e a ideologia de um pan-germanismo do pré-guerra.

– A indefinição generalizada (considerada sinal de desordem) sobre “por onde começar” – título de um texto de Lenin (1901) que antecedeu ao seu famoso Que fazer? (1902).

– A fusão de nacionalismo com socialismo (em maior ou menor grau verificada em todos os movimentos para consertar o mundo a partir de grandes experimentos sociais, sejam considerados de esquerda ou de direita: por exemplo, a fusão da figura de José Martí em Cuba com a trinca Marx-Engels-Lenin, criando o quatérnio em que se baseou por décadas a propaganda castrista).

– O papel assinalado à propaganda. Antes de Joseph Goebbels, o propagandista número 1 era o próprio Adolf Hitler (o caminho da conversão de um cabo do exército em Führer foi o caminho da propaganda, do marketing). Os princípios hitlerianos (e depois goebbelianos) da mistificação das massas pela propaganda política são até hoje adotados em ditaduras, protoditaduras e democracias formais parasitadas por regimes neopopulistas manipuladores e autocratizantes (como se viu na propaganda de João Santana à serviço da reeleição de Dilma).

Bem… a “ciência” de reconhecimento de padrões está apenas começando. Ela aqui está identificando padrões de hierarquia e autocracia que são próprios do estatismo.

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Do ponto de vista político, o tratamento que o fascismo dispensava à democracia realmente existente (a democracia reinventada pelos modernos, dita burguesa) é muito parecido com aquele dispensado – até hoje! – pelas esquerdas socialistas. Vejam este discurso, aqui ou leiam abaixo:

SOBRE A DEMOCRACIA

Discurso proferido por um grande líder reformador diante de milhares de trabalhadores em 1940. Adivinhem quem foi o autor.

“Nos mundos inglês e francês existe a chamada democracia. Como se sabe, esta se define como o domínio do povo. Isso significa que o povo deve ter a possibilidade de expressar seus pensamentos e desejos. Se alguém observa esse assunto com atenção se dá conta de que o povo não tem, desde sempre, nenhuma convicção, senão, como acontece em toda parte, quando essa convicção lhe é apresentada por alguém. O decisivo é: quem fixa a convicção de um povo? Quem esclarece o povo? Quem educa um povo?

Nesses países [da chamada democracia] quem governa realmente é o capital. Isso significa que um grupo de algumas centenas de homens, que possuem imensas fortunas, são mais ou menos totalmente independentes. Mas isso depende das condições peculiares daqueles Estados. O que significa que ali temos liberdade, porém com isso estão se referindo a uma economia livre. Eles entendem por economia livre não somente a liberdade de adquirir capital, mas também a reutilização do capital livremente. Querem ser livres do controle do Estado ou do povo na aquisição e uso do capital. Esta é, na verdade, a sua definição de liberdade.

E estes capitalistas criam em primeiro lugar sua própria imprensa. Falam de liberdade de imprensa. Na verdade todos os periódicos têm um dono e este, em todos os casos, é [o detentor do capital] financeiro. É este senhor que determina o conteúdo do periódico, não o redator. Se o redator quiser escrever alguma coisa diferente, que não se encaixe na opinião do dono, será despedido no dia seguinte. Essa imprensa, manipulando a opinião pública, é absolutamente sem caráter e é escrava de seus donos. E essa opinião pública criada será dividida em partidos. Esses partidos não se distinguem entre si. Vocês já conhecem os velhos partidos. É sempre a mesma coisa. São esses partidos com essa imprensa que formam a opinião pública.

Deve-se pensar que, sobretudo nesses países de liberdade e riqueza, o povo tem uma vida folgada. Porém é o contrário. Nesses países a miséria das massas é maior do que em qualquer lugar. A Inglaterra com sua riqueza controla 40 milhões de quilômetros quadrados e centenas de milhões de trabalhadores, vivendo na miséria (por exemplo, na Índia) têm que trabalhar para [sustentar tudo] isso. Deve-se pensar que se a Inglaterra cresce, então pelo menos cada um deve ser participante da riqueza. Mas, pelo contrário, nesses países a diferença entre as classes é imensa. Pobreza inimaginável de um lado e riqueza inimaginável de outro. Eles não resolveram nenhum problema. Esses países possuem a sexta parte do mundo e seus trabalhadores vivem em habitações miseráveis. Países que detêm os recursos minerais do mundo e as massas se vestem miseravelmente. Países que têm abundância de pão e todos os tipos de frutas e milhões das classes baixas não têm o suficiente para matar sua fome. Aqueles que poderiam realmente dar trabalho ao mundo estão vendo que não podem acabar com o desemprego em seus próprios países. Essa Inglaterra rica teve, por várias décadas, dois milhões e meio de desempregados. Estados Unidos, com toda sua riqueza, têm 10 a 13 milhões de desempregados a cada ano. França, oitocentos mil desempregados. Sim, meus companheiros do povo, que dizer então de nós?

Porém é compreensível que nos países com sua chamada democracia o povo nem sequer tenha atenção. O que conta é exclusivamente a existência do grupo de homens que criam a democracia. O que significa a existência de algumas centenas de grandes capitalistas que têm a posse de todas as fábricas e ações e com isso dirigem os povos. As grandes massas não lhes interessa para nada. Interessa a eles somente – e a seus partidos burgueses – quando há eleições, porque precisam dos votos. Em todo o resto são totalmente indiferentes à vida das massas. Além disso há uma diferença de educação.

Não é curioso ouvirmos agora de um deputado inglês do partido trabalhista na oposição, que por certo está financiado oficialmente pelo governo, que pretende fazer várias mudanças sociais quando a guerra terminar? Sobretudo que seja possível, ao trabalhador inglês, também viajar. Que fantástico que ele tenha tido a ideia que viagens não existem somente para milionários, senão também para o povo. Nós já resolvemos esse problema há muito tempo. Nesses estados em que a estrutura de sua economia domina atrás da cortina da democracia, quem domina é o egoísmo de uma camada relativamente pequena. Ninguém controla essa camada nem corrige seu curso. Por isso é compreensível se um inglês diz: “Não queremos que nosso mundo acabe”. Tem razão. Eles sabem exatamente que seu núcleo rico está ameaçado por nós. Por isso dizem com toda razão: “Se essas ideias que estão ficando populares na Alemanha não forem exterminadas e eliminadas, então se consolidarão em nosso povo”.”

Tradução livre do discurso de Hitler sobre a democracia proferido em Berlim, em 10 de dezembro de 1940, para uma plateia de trabalhadores.

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Ademais, está agora evidente que não só pode haver um fascismo de esquerda, como este fascismo está em ascensão (sobretudo no comportamento dos partidos e governos bolivarianos). Vejam no link ou leiam abaixo:

EXISTE UM FASCISMO DE ESQUERDA?

Vamos desenvolver mais um pouco a hipótese de que há elementos comuns a todos os estatismos, sejam considerados “de esquerda” (como o socialismo marxista) ou “de direita” (como o nacional-socialismo fascista).

É claro que todo fascismo é um estatismo. Isso não significa que todo estatismo seja um fascismo. Mas como há muitos elementos comuns a todo estatismo, toda ideologia estatista, em alguma medida, namora com o fascismo.

Quais são tais elementos?

Vamos partir da definição de Robert Paxton (2004), aceita como satisfatória (embora ela tanto revele quanto esconda a natureza do fenômeno designado pelo termo fascismo).

Para Paxton, o fascismo é “uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza”.

Essa definição deve ser completada pelas descrições de Paxton do surgimento e do desenvolvimento dos fascismos do século 20 (constantes do seu livro Anatomia do Fascismo), sobretudo na Itália.

Analisando a definição sintética de Paxton à luz das contribuições mais gerais do seu estudo, vejamos então o que ela revela, acrescentando o que esconde:

1 – Forma de comportamento político | Elemento cultural (no sentido maturaniano do termo = transmissão não-genética de comportamentos por meio de conversações recorrentes ou com circularidades inerentes, de determinados clusters convivenciais): o que significa que não é um modo de produção, um sistema social ou a consequência (ou a determinação) de alguma realidade imanente à história ou transcendente à interação humana (quer dizer, social).

2 – Obsessão com a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima | Elemento mítico: o mito da comunidade (no sentido da grande comunidade seiscentista dos alemães, confundida com o Povo ou com a Nação), da comunidade de destino que foi corrompida pelo contato com elementos alienígenas impuros ou é vítima de forças inimigas (que querem impedir que ela cumpra seu destino). Essa comunidade não é a sociedade (civil) formada pelas diversas comunidades de convivência e sim o Estado, a sociedade política. Não é a comunidade política formada pela livre interação entre as pessoas (iguais enquanto seres políticos, como a koinonia democrática dos atenienses, por exemplo) e sim pela ereção de um tronco gerador de obstruções de fluxos que disciplina top down a interação, transformando a sociedade em dominium do Estado (no sentido feudal mesmo do termo).

3 – Cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza | Elemento sacerdotal-militar: a essência cúltica da religião, a celebração do sacramento – sombra do que virá – refaz a unidade primordial, mobiliza a energia necessária para a guerra contra as forças inimigas e purifica os combatentes limpando-os das aderências estranhas que foram introduzidas pelo contato com o outro-ilegítimo.

4 – Partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados | Elemento hierárquico: um destacamento de combate centralizado – fortemente hierarquizado – é o instrumento necessário e imprescindível à política como guerra e à guerra como política e essa organização de militantes (soldados) animados de ideologia nacionalista, quer dizer, estatista, deve estar enraizada socialmente (deve contar com forte contingente de sindicalistas trabalhadores e com intelectuais reformadores, como ocorreu no surgimento do fascismo na Itália). O nacionalismo não é a expressão cultural combinada das pessoas que compõem uma nação em termos sociais e sim uma ideologia legitimatória da nação criada pelo Estado (há aqui uma retroação, uma volta às origens da forma Estado-nação “antes” de ser domesticado pela democracia, cujo objetivo é desativar os direitos individuais e sociais, ou seja, as proteções dos cidadãos contra seu próprio Estado introduzidas pelo liberalismo político como condição para a reinvenção da democracia pelos modernos, transformando tais cidadãos novamente em súditos). Esse partido só poderá cumprir seu papel se, chegando ao governo, conseguir tomar o poder (ou seja, se fundir ao Estado-nação).

5 – Cooperação (desconfortável, mas eficaz) com as elites tradicionais | Elemento autocrático: a política a ser praticada, baseada em alianças táticas para conquistar um objetivo estranho aos aliados ou até mesmo contrário às suas aspirações, configura plenamente uma adesão sem princípios à realpolitik (autocrática).

6 – Repúdio às liberdades democráticas | Elemento autocrático: a liberdade não é um valor e sim a obediência ao Estado e a conformidade às suas ordenações (antidemocráticas).

7 – Objetivo de limpeza étnica | Elemento mítico (explicitamente sacerdotal): racialismo ou mito da raça que tem um destino que não poderá alcançar enquanto estiver suja pelas impurezas introduzidas pela miscigenação ou pela mera convivência com o outro-ilegítimo (as outras raças ou povos).

8 – Objetivo de expansão externa | Elemento autocrático (explicitamente guerreiro): há um espaço vital a ser conquistado pela guerra (predação, sujeição, invasão, ocupação, neutralização ou aniquilamento do outro-ilegítimo) para a raça predestinada poder desenvolver e realizar plenamente as suas potencialidades e cumprir o seu destino.

9 – Violência (redentora) | Elemento autocrático (explicitamente violento): a violência como parteira da história é legítima porque é capaz de redimir os eleitos salvando-os da decadência e permitindo que alcancem a glória.

10 – Não aceitação de restrições éticas ou legais (de qualquer natureza) | Elemento autocrático: não é que não haja uma ética, pois há uma ética instrumental que consiste em não aceitar restrições éticas impostas pelo inimigo ou pelo outro-ilegítimo, como se existissem duas morais (a deles, da comunidade de destino e a dos outros-ilegítimos), o mesmo valendo para as leis (as únicas leis que valem são as leis promulgadas pela comunidade dos legítimos e, portanto, é legítimo e “legal” violar as leis dos outros-ilegítimos cuja função ou o resultado objetivo é impedir que os eleitos alcancem seu destino glorioso).

Paxton não evidencia suficientemente o elemento que articula ou dá unidade a todas essas características que aponta: o estatismo. Como o próprio Mussolini definiu (repetindo aqui a citação): “Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado… O princípio básico da doutrina fascista é sua concepção de Estado, de sua essência, de suas funções e de seus objetivos. Para o fascismo, o Estado é absoluto; indivíduos e grupos relativos”.

Esses dez elementos que Paxton levantou (e que aqui foram explicitados com a ajuda de acréscimos retirados, em parte, de sua própria investigação), expressam a matriz mítica-sacerdotal-hierárquica-autocrática que caracteriza a cultura patriarcal. Mas essa matriz está presente em todos os estatismos e não poderia ser diferente na medida em que o patriarcado só se reproduziu como modo de vida social por meio da ereção do Estado (como tronco gerador de programas verticalizadores da rede social).

No fascismo (do século 20) essa cultura se apresentou em estado puro, talvez pela primeira vez, numa dimensão ampla (mundial) e explicitamente política. Mas ela também estava presente, em alguma medida, no sionismo de Theodor Herzl, no wahhabismo e na Irmandade Muçulmana de Hassan al Banna e Sayed Outb e na posterior sectarização que gerou o jihadismo islâmico sunita radical (milícia Talibã, Al-Qaeda e Estado Islâmico, dentre vários outros), no xiismo guerreiro do Hezbollah e na teocracia dos Aitolás iranianos – todos estatistas. Do ponto de vista das redes e da democracia, um Califado Universal em nada difere do Terceiro Reich.

Sim, todos esses movimentos são míticos, sacerdotais, hierárquicos e autocráticos e todos, sem exceção et pour cause, são estatistas: não almejam outra forma de organização política para disciplinar a interação humano-social que não seja o Estado autocrático. Não querem domesticar o Leviatã e sim açular ou aumentar a sua potência (se possível com armas atômicas), domá-lo para controlá-lo e usá-lo. Nas mãos dos sacerdotes-combatentes, o Estado autocrático-guerreiro é o instrumento para reconfigurar cosmos sociais. Nada, portanto, de Estado democrático de direito. E, muito menos, de democracia.

Todavia, não são apenas tais organizações e movimentos políticos ou político-religiosos guerreiros que adotam elementos comuns ao fascismo. O socialismo estatista (quer dizer, o socialismo realmente existente no século 20) também apresentou boa parte desses elementos, como se pode facilmente inferir examinando o que foi exposto nos 10 pontos acima. O problema é que isso não ocorreu apenas no século 20. No século atual tais comportamentos políticos continuam se manifestando no âmbito da chamada esquerda, ou seja, dos agrupamentos de militantes estatistas, marxistas (ou marxistas-leninistas).

Pode-se evidenciar mais as correlações para mostrar como a militância dita “de esquerda” tem enveredado para o fascismo nos dias que correm. Por enquanto, apenas alguns exemplos:

Quando milícias partidárias – compostas por militantes estatistas – são organizadas, nos subterrâneos de governos ditatoriais ou protoditatoriais, para reprimir dissidentes, dissolver pela violência manifestações populares (e em alguns casos ferir ou matar opositores), o nome disso é fascismo. Um bom exemplo são os colectivos (milícias paramilitares) chavistas, como La Piedrita organizados e armados pelo governo Maduro (e treinadas por agentes da ditadura cubana) que, além de cometer todo o tipo de crimes, saques e agressões às pessoas nas ruas durante o dia, rondam a noite as favelas de Caracas armados em motocicletas para amedrontar os moradores.

Outro exemplo, quando grupos do MST (e de outros falsos movimentos sociais que são, na verdade, organizações políticas estatistas, hierárquicas e autocráticas, que atuam como correias-de-transmissão do partido do governo) se organizam para impedir aos gritos as palestras públicas da blogueira cubana dissidente Yoani Sanches, o nome disso é fascismo. Quando esses mesmos grupos tentam impedir Maria Corina Machado, deputada venezuelana ilegalmente cassada pela ditadura chavista, de falar no Senado da República brasileira no dia 2 de abril de 2014, o nome disso é fascismo. Quando militantes da juventude socialista do PCdoB depredam a sede da revista Veja, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2014 no Brasil, o nome disso é fascismo. Quando se formam milícias virtuais para intimidar e atacar pessoas que não concordam com os pontos de vista do partido do governo nas mídias sociais, tirando do ar seus posts e inclusive suspendendo ou cancelando seus perfis com base em acusações falsas orquestradas, o nome disso é fascismo.

Ou seja, existe um fascismo de esquerda. Embora ser de esquerda não signifique ser fascista. Mas o fascismo não pode ser superado por qualquer outro estatismo (dito “de direita” ou “de esquerda”) e sim somente pela democracia.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

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