in

A execução de Marielle indica tempos ainda mais sombrios para a democracia brasileira

Marielle Franco, vereadora e militante do PSOL, ex-assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, foi morta a tiros no dia 14 de março de 2018, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. Foi uma execução. Provavelmente das milícias, contrariadas com a intervenção federal na área de segurança do governo do Estado do Rio de Janeiro.

Seguindo os passos do seu chefe Freixo, Marielle era militante socialista (quer dizer, comunista), agente da via neopopulista, militante da área de Direitos Humanos que foi colonizada no Brasil pela esquerda (sim, não foi a toa que o principal assessor estratégico de Lula, o marxista-leninista Paulo Vannuchi, foi nomeado Ministro dos Direitos Humanos e, em seguida, destacado para a mesma área da OEA, com o objetivo de impedir a reprovação internacional à ditadura de Maduro, na Venezuela).

Como Freixo, o PSOL e o PT, Marielle era contra a intervenção federal que, supostamente, iria criminalizar os pobres e os pretos favelados. Como Freixo, o PSOL e o PT, Marielle alimentava a farsa de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe. Como Freixo, o PSOL e o PT, Marielle dizia que vivíamos num regime autoritário. Como Freixo, o PSOL e o PT, Marielle agitava a bandeira Fora Temer. Como Freixo, o PSOL e o PT, Marielle preferia denunciar a Polícia Militar do que os narcotraficantes que diuturnamente tocam o terror e ditam as leis nas chamadas comunidades pobres (curioso nome carioca para designar as favelas).

Nada disso justifica o assassinato bárbaro da militante e do seu motorista pelos milicianos que lucram com o crime organizado em associação com a banda podre da polícia carioca, justamente contra os quais se decretou a intervenção federal.

As vítimas do crime organizado no Rio de Janeiro (incluindo os narcotraficantes, as milícias e seus cúmplices no aparato de segurança, no parlamento e em outras instituições do Estado) são muitas. O número de homicídios no estado, em 2017, alcançou a cifra de 6.371 mortos dos quais 1.124 como consequência de ações policiais. Mas o que Marielle, Freixo, o PSOL e o PT nunca disseram foi que, só em 2017, foram assassinados 134 policiais militares, uma taxa proporcionalmente muito maior do que a de todas as outras mortes.

Estes são os fatos. Vamos agora à análise.

A primeira pergunta que a análise política deve fazer é a seguinte: a quem interessa a morte de Marielle neste exato momento?

A QUEM INTERESSA A MORTE DE MARIELLE?

A resposta é quase óbvia. É claro que interessa a todos os adversários da intervenção federal. Aos narcotraficantes, às milícias (que provavelmente executaram a vereadora), à banda podre das polícias e das demais instituições do Estado envolvidas com o crime e à esquerda em geral (incluindo o PSOL e o PT) que precisava desesperadamente de uma bandeira para soerguer a militância acabrunhada com a perda do monopólio das manifestações de rua desde 2013, com a rejeição da população aos seus líderes e, sobretudo, com a encruzilhada eleitoral em que se meteu após os escândalos do mensalão e do petrolão, com a impossibilidade legal de Lula ser candidato (e a possibilidade de ele ser preso a qualquer momento por ladroagem) e com a falta de lideranças destacadas para dar continuidade ao seu projeto neopopulista para o Brasil.

O assassinato de Marielle, em si, não teria o efeito de reverter o quadro negativo da esquerda. Para tanto seria necessário ensejar exatamente o que está acontecendo: a instrumentalização do cadáver da militante. Como diz o cartaz que ilustra este post, o luto é apenas um pretexto para reativar a luta sórdida, sem quartel, contra a democracia brasileira.

A esquerda é useira e vezeira dessa prática. Recordo um fato marcante, do qual participei pessoalmente nos idos de 1968.

O CADÁVER COMO BANDEIRA

Sim, eu estava lá, de corpo presente, nos protestos pela morte do Edson Luís de Lima Souto (vejam a foto abaixo), estudante secundarista brasileiro assassinado por policiais militares que invadiram o restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro, no dia 28 de março de 1968, durante uma manifestação estudantil.

Edson, como eu, nasceu em 1950, tinha quase a minha idade: 18 anos (era apenas 3 meses mais velho). Curiosamente fui prestar minha homenagem ao cadáver do Edson, velado na Assembléia Legislativa, na companhia de um general da ativa, que era meu professor de álgebra: ele disfarçado para não ser reconhecido pelos manifestantes e eu disfarçado dele (que não sabia quem eu era àquela altura). Dois meses depois fui preso pela Interpol no Hotel Glória e entregue nas mãos do General Dulcídio Arruda, do DOPS, na Rua da Relação (mas essa é outra história, que não vou contar agora).

Quero contar agora que lembro bem das reuniões do movimento estudantil sobre o que fazer diante da morte do Edson. Alguns colegas estavam mesmo eufóricos. Era o pretexto, diziam eles, de que precisávamos para escalar a denuncia contra a ditadura (que tinha de ser denunciada mesmo, embora tudo isso de nada tenha adiantado, pois o que houve foi mais repressão: oito meses depois veio o AI5).

Naquele fatídico março de 68, nada poderia ser mais oportuno, para nós, do que um cadáver. A esquerda sempre foi viciada nesse tipo de necrofilia.

A esquerda é necrófila. Adora uma morte para fazer proselitismo político-ideológico sobre o cadáver. Se a morte é natural, eles atribuem as causas indiretas à ação dos inimigos, como fez Lula ao transformar o velório de Marisa em um palanque contra a Lava Jato. Se a morte é consequência da violência criminosa, eles atribuem igualmente a culpa aos seus inimigos, como estão fazendo agora o PT e o PSOL, tentando responsabilizar a intervenção militar na área de segurança do Rio de Janeiro pelo assassinato da militante socialista Marielle Franco. Pior, estão dizendo que a bala que matou Marielle foi azeitada pelo golpe contra Dilma. Este foi o discurso, ontem (15/03/2018), da deputada petista Erika Kokay, na Câmara dos Deputados.

Por isso, o objetivo de toda manifestação de massa que parte para o confronto com a polícia é “produzir” um cadáver.

Um cadáver é uma bandeira inigualável. Um cadáver é capaz de causar aquela comoção social que dificilmente é alcançada com palavras de ordem, discursos e panfletagens. Um cadáver é capaz de transformar mentira em verdade (como o PT e o PSOL estão fazendo agora, para insinuar que a morte da militante-vereadora Marielle é consequência do imaginário golpe contra Dilma), embora a sua instrumentalização político-ideológica possa, inclusive, ser expressão da verdade (como no caso do Edson e em numerosos outros casos de assassinados pela ditadura militar).

Ocorre que não vivemos, no Brasil de 2018, sob uma ditadura, muito longe disso – e todos os centros de pesquisa internacionais que monitoram a democracia no mundo, aplicando os mais diversos indicadores, são unânimes em atestar nossa condição de regime democrático. A esquerda, entretanto, continua perdida em algum lugar do passado, exatamente 50 anos atrás.

OS CANALHAS INSTRUMENTALIZADORES DE CADÁVERES

Os instrumentalizadores de cadáveres aproveitam a morte da militante Marielle para propagar a farsa de que houve um golpe contra Dilma e vivemos numa ditadura no Brasil. Demétrio Magnoli, que tem mais paciência do que eu para tratar com esses canalhas, já desmontou a farsa em um parágrafo do seu artigo de 11/03/2018 em O Globo:

“No Brasil, estão ausentes todos os traços clássicos dos regimes autoritários. As liberdades públicas não foram tocadas. A separação de poderes ficou comprovada pelo próprio impeachment e, no governo Temer, pelo fracasso do projeto de reforma previdenciária, dois lances de confronto do Congresso com o Executivo. A independência do Judiciário é atestada pelos inquéritos e denúncias contra Temer. O voto de Gilmar Mendes decidiu o habeas corpus a favor de José Dirceu. Lula está solto; Eduardo Cunha, preso. Apesar do que se propaga falsamente a partir do PT e do PSOL, os militares não são (nem poderiam ser) usados para reprimir manifestações políticas”.

MAIS MORTES À VISTA

Sem grandes chances eleitorais e sem forças para promover uma ruptura institucional, o PT e a esquerda em geral, vão precisar de mais cadáveres. A morte de Marielle pode insuflar uma onda de protestos, mas que tende a arrefecer em um ou dois meses. O PT vai tentar surfar nessa onda até onde der. Dará pouco, entretanto. Ainda estamos muito longe das eleições de outubro.

Se os petistas e criptopetistas presentes nos tribunais superiores, no ministério público e no parlamento não conseguirem dar um (verdadeiro) golpe institucional, viabilizando a candidatura de Lula contra as leis, o projeto neopopulista de usar a democracia contra a democracia, quer dizer, de tomar o poder desde o governo conquistado eleitoralmente para instalar uma hegemonia de longa duração sobre a sociedade brasileira a partir do Estado aparelhado pelo partido, terá poucas chances de prosperar nos próximos anos. A única saída para o PT é radicalizar o discurso e fabricar uma revolta popular. Ora, isso não pode ser feito sem sangue.

Se a morte de Marielle, trágica para a democracia e para o Estado de direito, não estava planejada, mas foi aproveitada e instrumentalizada, isso não significa que não se possa ensejar voluntariamente outras oportunidades. Uma manifestação de militantes que parta com violência para cima das forças de segurança, talvez não mais no Rio – para não dar tanta bandeira – mas, quem sabe, em São Paulo ou outra grande capital, provocando nova tragédia, pode reacender a chama. Não é difícil que um policial armado, acuado por uma multidão que o apedreja, dispare um tiro letal contra um manifestante. Isso poderá ocorrer às vésperas do pleito e, a rigor, nem precisa ser urdido, arquitetado por ninguém. Basta criar o clima de radicalização para aumentar as chances do infortúnio.

O ambiente de polarização é favorável à ocorrência de eventos sinistros. Infelizmente, a chamada direita, antipetista, só contribui para isso.

TEMPOS SOMBRIOS PARA A DEMOCRACIA

Pensemos no que pode acontecer durante o segundo semestre deste ano, com petistas e bolsonaristas radicalizando o discurso e tentando polarizar a disputa, criando um clima adversarial na sociedade brasileira, praticando a política como continuação da guerra por outros meios e, com isso, dilapidando o que nos restou de capital social.

Mesmo que seus candidatos não vençam a disputa (o que se espera), a alteração no emocionar social que uma campanha mais suja, mais intolerante, mais belicosa ainda do que foi a campanha Dilma 2014 provocará, já terá feito um estrago incalculável.

E como o eleito, seja quem for, conseguirá governar sobre os escombros? Quem conterá o ressentimento social e a vontade de revanche que brotarão da parte dos petistas derrotados (com Lula preso ou solto, mas impedido de concorrer) e dos bolsonaristas frustados (sem ter o que fazer – pois odeiam a política – com seu mito recolhido à sua insignificância)?

Se não surgir uma nova onda democratizante, emergente da sociedade, podemos nos preparar para enfrentar anos, talvez décadas, de retrocesso e escuridão, seja qual for o resultado da próxima disputa eleitoral. O chamado “centro” não dá (pelo menos até agora não deu) mostras de que vai conseguir barrar – fazendo mais do mesmo – as investidas populistas autocratizantes ditas de esquerda ou de direita. A continuidade da democracia dependeria hoje mais da inovação democrática, da experimentação de novas formas de interação política, do que dos aborrecidos discursos legalistas dos defensores do velho Estado de direito (que, ainda quando necessários – como agora, quando a barbárie da criminalidade ameaça as instituições – não são mais suficientes para inspirar novas alternativas democráticas). Desgraçadamente, porém, estamos aqui no terreno dos futuríveis.

É claro que os democratas continuaremos resistindo ao neopopulismo (de esquerda) e ao populismo-autoritário (de direita) que usam a democracia contra a democracia. O problema é que, se nada de extraordinário acontecer, faremos isso cada vez mais nas sombras.

A morte da neopopulista Marielle Franco não causa o menor arranhão na via neopopulista da esquerda brasileira, tendo no comando o PT e como linhas auxiliares o PSOL, o PCdoB, o PDT e, quem sabe, o PSB. Pelo contrário, renova suas esperanças. E diminui as chances de uma renovação democrática das nossas instituições. Ao que tudo indica – se nada de extraordinário acontecer, vindo da sociedade – viveremos tempos ainda mais sombrios para a democracia no Brasil.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

A esquerda na encruzilhada

Sobre o conceito de “Ativista de Direitos Humanos”