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A falência da análise política no Brasil

Eis então que fica clara a estratégia do Fora Temer: não aplicar, senão evitar, as saídas constitucionais

Os indicados pelo PT – Janot e Fachin – montaram a maior armação jurídica de deposição de um presidente constitucional que já se viu na história do Brasil. Quem viu o Fantástico ontem (11/06/2017) deve ter percebido que a Globo continua engajada na operação “incinera Temer”.

Que os jornalistas tenham entrado na orquestração, até se entende (por motivos ideológicos – já que a maioria deles foi deformada em cursos universitários aparelhados pelo PT – , por medo, alguns, de perder o emprego, por falta de alfabetização democrática, por arrogância ou burrice pura e simples). Mas que a maior parte dos analistas políticos também não tenha percebido nada de estranho em tudo isso, aí já é muito estranho.

Não há razões propriamente políticas que expliquem tal comportamento. Janot está na iminência de denunciar Temer por chefiar a organização criminosa. É espantoso. Segundo o ministério público – naquele famoso power point de Dallagnol – não era Lula o chefe de tudo? Não é mais?

Atenção. Não se trata aqui das possíveis culpas de Temer. A armação Janot-Fachin, à qual se associou na primeira hora a Globo, não é para depor Temer seguindo o que reza a Constituição: impeachment por crime de responsabilidade ou processo no STF por crime comum. Não! A armação é para incinerar Temer via vazamentos programados, retirar-lhe a base de apoio e, destruindo politicamente a figura do presidente, obrigá-lo a renunciar.

Questões jurídicas à parte, o que não se entende é a posição dos analistas políticos. Por acaso, agora, eles se guiam pelos lemas plantados para o PT para uso dos trouxas de que todos devem ser punidos, são farinha do mesmo saco? O que Temer fez de tão diferente da maioria dos presidentes da República?

Do ponto de vista político, não há alternativa boa a Temer, por exemplo, um candidato joia com condições de ser eleito pelo atual Congresso. Não há um nome para substituí-lo – aceito pela maioria do parlamento, base de Temer – que não seja horroroso. Como ninguém acredita em eleições diretas (um truque do PT para instalar o caos e livrar Lula da cadeia – além de tudo um golpe contra a Constituição), não há um substituto para Temer que possa dar mais estabilidade ao país nesta transição até 2018.

Ah! Mas Temer é culpado e não pode permanecer no governo. Não pode? Então que sofra processo de impeachment e seja tornado réu pelo Supremo Tribunal Federal. Eles, todavia, não gostam da solução constitucional. Dizem que vai demorar muito e que o Congresso não vai aprovar o impeachment, nem dar licença para Temer ser processado pelo STF. Então apostam na orquestração para tornar impossível a sua permanência na presidência e obrigá-lo a renunciar.

Eis então que fica clara a estratégia do Fora Temer. Não aplicar, senão evitar, as saídas constitucionais. Temer tem que sair já. A qualquer preço. Por qualquer meio, legítimo ou ilegítimo. Quais são as táticas para isso? Continuar o bombardeio diuturno, a partir de vazamentos feitos pela Polícia Federal (que está sendo obrigada a cumprir um vergonhoso papel nisso tudo) a mando de Janot e Fachin. Novas denúncias, delações, “furos” preparados para jornalistas amigos revelando que Temer (não importa quando) viajou em aeronaves suspeitas, comprou perfumes caros para a mulher com dinheiro sujo, pegou um produto no supermercado e colocou no bolso para não pagar no caixa… vai saber! Vale tudo.

O curioso é que os analistas políticos, pretextando preocupações com a estabilidade das instituições e do país, não têm vergonha de apostar na instabilidade – desde que seja para tirar Temer. Assim, não parecem estar muito preocupados com as reformas, que sempre defenderam. Aliás, desde o início da armação, vêm dando declarações de que as reformas já estão mortas, que não vão acontecer. Entre as reformas e a cabeça de Temer, ficam com a segunda. Mas qual a razão?

Vamos refrescar a memória. Em 10 analistas conhecidos pelo menos 8 apostaram que Temer cairia em uma ou duas semanas. Alguns, já prevendo que ele não renunciaria, aventaram a “solução TSE” como um meio de encurtar o caminho legal para depô-lo.

A orquestração – à qual aderiram sem qualquer vergonha – era criar uma gritaria para que ele renunciasse ou que o TSE fizesse-lhes o serviço sujo de tirar as castanhas do fogo. Como também nada disso aconteceu, lamentaram a decisão do TSE porque não se comportou como um tribunal penal, como queriam. E agora? Agora, como estão sem caminho, não lhes resta senão continuar na mesma tática de retirar as condições de governabilidade de Temer, fazendo pressão sobre o PSDB para que abandone o governo, repercutindo qualquer vazamento industriado por Janot e executado pela PF.

E se Temer se segurar na cadeira, não lhes restará senão tornar o ambiente político insuportável. O Brasil viverá, nos próximos meses, um clima de guerra civil surda, onde nada de bom pode acontecer. A ordem é destruir o atual governo, custe o que custar. Alguns estão até pressionando a equipe econômica para que abandone o barco, com a promessa de reconduzi-la logo que Temer caia. Convenhamos: é muita irresponsabilidade.

Muita estranha essa maneira de fazer análise política. Não é análise: é a falência da análise. Não importa o que acontecer, Temer tem que sair por força de uma espécie de linchamento público. Virou um imperativo e ponto.

Há um problema porém. O povo não aderiu ao Fora Temer.

O povo – as pessoas comuns, aquelas que vêm lotando ruas e praças Brasil afora desde 2013, não os militantes acarreados – não compareceu ao Fora Temer. Nem ao Fora Temer do PT, nem ao Fora Temer do recente “partido dos jornalistas e analistas” por mais que este último esteja tentando instrumentalizar a opinião pública. É preciso entender as razões pelas quais isso aconteceu.

Sabemos os motivos do Fora Temer do PT. Vender a narrativa de que o impeachment foi golpe, investir na confusão geral para melar o processo constitucional e, sobretudo, tentar livrar Lula da cadeia oferecendo-lhe a tábua de salvação de um palanque. As pessoas não caíram nessa.

Não sabemos ainda os motivos do Fora Temer do “partido dos jornalistas e analistas”. Eles, na verdade, nunca explicaram por que tirar Temer do governo imediatamente virou um imperativo, algo assim mais importante do que denunciar um ataque com armas químicas contra uma população civil indefesa. A conversa de que é por paixão irrefreável pela moralidade pública não cola muito. Durante os dois governos Lula e o primeiro governo Dilma – inclusive durante o mensalão e em quase uma centena de outros escândalos – ninguém assistiu a grandes irrupções dessa ira santa contra a corrupção. As pessoas também não caíram nessa.

No segundo dia do julgamento no TSE, o Antagonista – membro da comissão de frente do “partido dos jornalistas e analistas” – gralhava que a praça do tribunal estava vazia e perguntava: onde estão os manifestantes Fora Temer? Pois é. Eles não foram. Revoltados, esses jacobinos perguntaram em outro post se o novo nome do Vem Prá Rua era agora Fica Em Casa. Pois é. Este site de torcedores é um primor de coerência: antes enchiam a bola do Dória, Mas como o prefeito, que não é idiota, não aderiu ao Fora Temer, passou a hostilizá-lo. Há dois dias (10/04/2017) publicou a seguinte pérola: “João Doria é um dos principais aliados de Michel Temer dentro do PSDB. Se até outro dia ele representava o novo, agora envelheceu uns trinta anos”. Pois é.

Se dependesse dos jornalistas e analistas que agora, por algum motivo, resolveram fazer (ou atuar como) um partido, não teria havido junho de 2013, nem março, abril e agosto de 2015, nem março de 2016. Quando aconteceu o primeiro (17J), eles não souberam explicar (e a maioria, até hoje, ainda não sabe). Quando, depois (15M, 12A, 16A e 13M), os enxames adotaram uma pauta explicitamente política (o impeachment), muitos deles não acreditaram que ia acontecer o que aconteceu. Provavelmente eles acham que têm algum poder de fazer a cabeça do grande público, via broadcasting. Que por muito repisar uma versão e um repetir o que diz o outro, vão conseguir forjar uma versão, uma narrativa universal, às vezes falsificando abertamente os fatos. E devem ficar meio decepcionados ao constatar que as pessoas não estão prontas para comprar sua narrativa.

O fato é que não é mais assim que as pessoas se mobilizam, conduzidas pela emissão de mão-unica um-para-muitos. Deve ser uma decepção para quem achou que podia fazer política de modo disfarçado, usando a profissão de jornalista ou analista político.


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