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A farsa do Queiroz no Sistema Bolsonaro de Televisão: pizza bolsonarista

Fabrício Queiroz, o ex-paraquedista amigão do peito e de décadas do Jair, PM desviado de suas funções e assessor da família Bolsonaro, além de “motorista” de Flávio (Bolsonaro) – tudo pago com nosso dinheiro, é claro – deu uma entrevista ontem ao SBT. O negócio foi tão escandaloso que a gozação “SBT Sistema Bolsonaro de Televisão” virou logo TT (em primeiro lugar) no Twitter.

Não é pra menos. A entrevista do Queiroz foi feita de encomenda, para não explicar nada. Ele disse que se explicaria ao MP (nunca compareceu e, pelo visto, não vai). Serviu apenas para os nossos honrados generais dizerem que estão satisfeitos com a explicação (que não houve: nem para o MP, nem na TV). Assistam o vídeo, que segue abaixo:

Sobre isso, merecem ser lidos dois posts de Reinaldo Azevedo, publicados em seu blog da RedeTV nesta madrugada. Seguem reproduzidos abaixo na íntegra.

PIZZA PRÓ-BOLSONARO? 1: MP emite nota sobre cirurgia de ex-assessor de Flávio. Só atesta que depoimento é ainda mais urgente

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV, 28/12/2018 – 1:14

Fabrício Queiroz: devemos todos torcer para que se recupere, mas interesse público diz que sua doença torna o depoimento mais urgente

Nunca ninguém havia tido esta suspeita antes, mas agora está confirmado: o Ministério Público tem coração. Ao menos o Ministério Público do Rio — refiro-me ao Estadual. Com a devida vênia, até me corrijo um pouco. Eu já suspeitava disso ao menos excepcionalmente. Ou Sérgio Cabral não teria ido tão longe, não é mesmo? No caso do ex-governador, parece que também o MPF, na seção fluminense, estava um tanto inebriado pelos sucessos e eventos de que aquele político era protagonista. Se a gente acrescentar o adesismo de certa imprensa carioquista ao frenesi cabralino, com Copa do Mundo e Olimpíada então pela frente, temos contada a história do “Rei Caído do Rio”: entre o palácio e Bangu 8. E por que começo este texto apontando o coração mole do MP do Rio?

O órgão resolveu emitir uma nota atestando que Fabrício Queiroz, o ex-suposto motorista de Flávio Bolsonaro, vai passar por uma “cirurgia urgente”. É aquele senhor que estava lotado até outubro no gabinete do deputado estadual e senador eleito e que, em entrevista, declarou uma habilidade que o faria um bom candidato ao cargo de Paulo Guedes: ele disse que sabe “fazer dinheiro”. Já chego lá.

Queiroz faltou a dois depoimentos marcados pelo Ministério Público para explicar como conseguiu movimentar R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. A promotoria informa que ele apresentou atestados que “comprovam grave enfermidade”. E emendou: “Seus advogados informaram ainda que Queiroz estará à disposição para prestar depoimento tão logo tenha autorização médica”. O ex-auxiliar de Flávio Bolsonaro afirma estar com câncer.

Obviamente, não vou duvidar de que esteja doente. E torço para que o tal senhor se recupere, que é o que faço com toda gente. Mas não Jair Bosonaro, por exemplo. Em 2015, indagado se Dilma concluiria seu mandato, ele disparou a seguinte delicadeza: “Eu espero que acabe hoje, infartada ou com câncer”. Não é sentimento decente, que se deva alimentar. Se presente, não é algo que deva ser vocalizado. Voltemos ao ponto.

Pergunta: Queiroz pediu aos médicos, que o proíbem de prestar depoimento ao Ministério Público, autorização para conceder a entrevista ao SBT? Ou, nesse caso, ele atuou por conta própria? Mais: desde que, se necessário, com a devida assistência médica, o que o impede de prestar depoimento?

Eu estou enganado ou, no que concerne ao interesse público passado e futuro — já que o assunto diz respeito, queiramos ou não, àquele que será presidente a partir de 1º de janeiro —, o fato de Queiroz estar sujeito a uma intervenção que comporta algum risco torna seu depoimento ainda mais urgente e inadiável?

A promotoria informa ainda: “Outras diligências já anunciadas estão previstas para ocorrer, entre as quais a possível oitiva do deputado estadual Flávio Bolsonaro, sugerida para o dia 10 de janeiro. No mais, o caso permanece sob total sigilo”. É, permanece mesmo! Até agora, nada de vazamento, não é? O provável é que nem haja o que vazar por falta de investigação.

PIZZA PRÓ-BOLSONARO? 2: Queiroz diz não estar fugindo do Ministério Público do Rio; é preciso ver se MP não está fugindo de Queiroz

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV, 28/12/2018 – 1:08

Flávio Bolsonaro: seu gabinete foi palco de incríveis coincidência. Até Deus duvidaria

Na entrevista ao SBT, Queiroz fez afirmações que são, deixem-me ver como classificar…, inverossímeis. Pronto! Talvez sejam até verdadeiras, mas é difícil de acreditar. Segundo disse, aquela dinheirama toda que movimentou se devia ao comércio de carros usados — que devia ser frenético:

“[Eu ganhava] cerca de R$ 10 mil por mês (como assessor). Ainda tinha da minha ex-função [policial militar], cerca de R$ 10 mil a R$ 11 mil. [Por mês], em torno de R$ 23 mil. Sou um cara de negócios. Eu faço dinheiro. Compro, revendo, compro, revendo, compro carro, revendo carro, sempre fui assim. Gosto muito de comprar carro em seguradora, na minha época lá atrás, eu comprava um carrinho, mandava arrumar, vendia.”

E os depósitos feitos por outros assessores de Flávio Bolsonaro? Bem, isso ele vai explicar quando depuser ao Ministério Público. E o fato de três membros de sua família, lotados no gabinete de Flávio — uma delas migrou depois para o de Jair Bolsonaro, em Brasília, embora nunca tenha se mudado do Rio —, serem depositantes da conta? A resposta é um mimo:

“Esse mérito do dinheiro, eu quero explicar ao MP. São pessoas da minha família. Eu gero o dinheiro da minha família. Minhas filhas trabalham comigo desde os 15 anos. Quando tinha vaga [nos gabinetes], eu pedia para empregá-las. Minha filha que sempre cuidou da mídia do deputado dará esclarecimento.”

Não há dúvida de que os Bolsonaros prezam mesmo a família, não é? Há frases na entrevista de Fabrício Queiroz que têm de entrar para a história: “Eu gero o dinheiro da minha família” só perde em assombro para “eu faço dinheiro”.

Se você ficou com a impressão de que se está tentando varrer essa história para baixo do tapete, saiba que não está sozinho.

Ah, sim: Queiroz é uma máquina de produzir coincidências. Mais da metade dos depósitos em espécie recebidos por ele em 2016 foram feitos no dia do pagamento dos funcionários da Assembleia Legislativa do Rio ou até três dias úteis depois. Estão nesse caso 34 das 59 operações — 15 foram efeituados no mesmo dia. O resto se deu em até uma semana. Efetuados os depósitos, o assessor fazia em seguida os saques em dinheiro. Ninguém sabia até então que o mercado de carros usados se deixava regular pela data de pagamento aos funcionários da Assembleia Legislativa do Rio. E olhem que as datas de pagamentos eram irregulares em razão da crise financeira enfrentada pelo Estado.

Queiroz afirmou sobre sua saúde:

“Tenho uma cirurgia pra fazer no ombro. Estava com problema na urina, tosse. E foi constatado um câncer. É um câncer maligno, indicado sem nem pegar a biopsia. Vou ser submetido a outros exames e [o médico] me disse que temos que operar o mais rápido possível. É um tumor grande no intestino. As fezes passam fininho. Não estou fugindo do MP. Quero prestar esclarecimento.”

Bem, o Interesse público pede que preste depoimento o quanto antes. Queiroz diz não estar fugindo do MP. A esta altura, então, é preciso ver se o MP não está fugindo de Queiroz.


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Como as democracias morrem – 4. Subvertendo a democracia

Todo mundo sabe o que aconteceu no caso Queiroz