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A guerra cultural não foi eleitoral: ela veio para ficar

Leiam o excelente artigo de Eduardo Wolf, publicado na edição 2.611 da revista Veja (05/12/2018). Ele mostra por que a guerra cultural não foi apenas um expediente ou truque eleitoral. Como nos USA trumpista, ela veio para ficar no Brasil.

Luta pela alma do Brasil

Bolsonaro é o presidente das guerras culturais: venceu mantendo as bases eletrizadas com um discurso pesado em temas morais e vago em assuntos de governança

Por Eduardo Wolf, Veja, 30/11/2018

Faz pouco mais de um ano que uma matéria do jornal The New York Times afirmou que Donald Trump e alguns de seus principais assessores na Casa Branca reconheciam, nos bastidores, que o presidente americano se via “lutando uma guerra cultural em defesa de sua base”, isto é, o eleitorado branco sem ensino superior, condenado pelas novas configurações econômicas a trabalhos precários — ou ao desemprego. Trump dominou como poucos a gramática do conflito ideológico que politizou cada aspecto da vida americana, e mantém os vínculos com sua base eleitoral não apresentando propostas sobre temas elaborados da grande política, da economia ou da diplomacia, mas sim alimentando o ressentimento dos derrotados da economia globalizada que lhe garantiram um mandato contra as “elites politicamente corretas” — daí o ataque aos jogadores negros de futebol americano que protestam em campo contra o racismo ou as mensagens em rede social contra artistas ou jornalistas. Na “guerra pela alma da nação” — a famosa expressão do republicano extremista Patrick Buchanan que, em 1992, sintetizou a guerra cultural nos Estados Unidos —, a construção de identidades, o controle de narrativas e a manipulação populista são as armas básicas no campo de batalha.

Quem quiser compreender de maneira mais completa como se deu a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil deverá ter em mente, entre outras tantas variáveis, esse cenário americano. Não tenha dúvida: a razão pela qual pouco ou nada se falou na campanha eleitoral do alcance das privatizações, da reforma da Previdência ou das alianças que dariam a cara do futuro governo (todos, é claro, temas essenciais em uma disputa presidencial), mas muito se disse sobre “Foro de São Paulo”, “comunismo” e “ideologia de gênero”, é esta: Jair Bolsonaro é o presidente das guerras culturais no Brasil. Essa constatação em nada diminui a relevância ou a correção de análises centradas em outros aspectos da eleição, como o consolidado sentimento antipetista que hoje marca a sociedade brasileira ou a virada ideológica que vem se desenvolvendo no mínimo desde 2013 e que ajudou a impulsionar a primeira candidatura abertamente de direita a faturar a Presidência em décadas. Antes, tra­ta-se de entender como esses fatores foram componentes de uma nova dinâmica na política brasileira.

A guerra cultural, como outras dinâmicas de disputas políticas, depende de uma polarização política para florescer. Sociedades divididas apenas sobre tópicos específicos — a aprovação desta ou daquela lei particular — dificilmente mergulham em polarizações radicais. Contudo, quando envolve mais amplamente os valores partilhados e a imagem da própria nação, a polarização tende a ser mais intensa e duradoura, e a dinâmica da guerra cultural se instala. Do jogo do “nós contra eles”, que durante mais de uma década foi dominado pelo PT com uma retórica de classe social, emergiu o discurso do resgate da nação ameaçada. “Take our country back” — “tomar nosso país de volta” — foi um slogan entoado por Trump e seus apoiadores. Em versão um tanto improvisada, o mesmo tema apareceu nas frases finais de Bolsonaro em seu primeiro vídeo após a divulgação da vitória, em 28 de outubro, quando anunciou que tinha a missão de “resgatar o nosso Brasil”. Comunistas, socialistas, globalistas ou, mais simplesmente, a “petralhada” são os sequestradores do país, responsáveis por sua ruína. Não são apenas adversários no jogo dos grupos políticos concorrentes, e sim “inimigos da nação”. Assim, a guerra cultural mistura o adversário real — os governos petistas e suas políticas (suficientemente desastrosas para merecer oposição) — com a fantasia retórica poderosa do “inimigo da nação”, que precisa ser “varrido do mapa”. Cria-se um novo “nós contra eles”, distinto daquele estabelecido pelo petismo, mas com lógica semelhante: de um lado, “patriotas” e “cidadãos de bem”; de outro, fantasmagorias várias — a “ameaça comunista”, os “complôs globalistas”, a “ideologia de gênero” etc.

Esse tipo de retórica depende de uma característica fundamental das guerras culturais: a crença de que existe uma essência, uma identidade profunda e inalterável da nação ou da sociedade, e de que ela está sob ataque. Pode ser a América Grande de outrora na retórica de Trump, o Brasil conservador dos discursos triunfalistas dos apoiadores de Bolsonaro, ou ainda o Ocidente cristão, conspurcado por esquerdistas vários, que o novo chanceler brasileiro sonha em restaurar. Nações não têm essências fixas ou identidades imutáveis, mas a crença nisso é indispensável para mobilizar tropas de guerreiros culturais, especialmente quando as batalhas são travadas no confortável terreno das mídias sociais — e Bolsonaro, como Trump, venceu todas nessa seara. A formação em massa de seguidores, o compartilhamento instantâneo de conteúdos, pouco importa se falsos ou verdadeiros, e o acirramento dos ânimos políticos são potencializados por redes como o Facebook, o Twitter e o WhatsApp. Foram o terreno preferido de Bolsonaro durante a campanha, e têm sido seu veículo principal de comunicação após a vitória, com suas lives improvisadas (com cuidado?), nas quais são exibidos os símbolos de seu campo na guerra cultural — como a Bíblia e os livros de Olavo de Carvalho, guru da direita de internet que chega agora ao poder.

Não se trava uma guerra cultural discutindo modelos de câmbio, meta de inflação e tecnicalidades de privatização de estatais. Essa consciência — lição bem aprendida da experiência de Trump — permitiu a Bolsonaro, de um lado, manter-se na superfície em todas as questões relevantes para a economia e o desenvolvimento do país e, de outro, consolidar e ampliar sua campanha em terreno mais propício: o dos valores morais que estariam no centro da identidade do Brasil conservador que ele, em tese, encarna e representa. Daí a estratégia: atacar o politicamente correto, a doutrinação ideológica nas escolas, a sexualização das crianças e a ideologia de gênero, as pautas identitárias caras à esquerda. E atacar a imprensa, que seria manipuladora e conspiratória — exatamente como pregavam os discursos da esquerda, só que com sinal ideológico trocado.

Uma vez utilizada a dinâmica da guerra cultural para vencer a eleição, não há indícios de que o presidente eleito tenha intenção de abandoná-la. Bolsonaro segue fazendo uso dos canais de comunicação direta com suas bases, em detrimento da aceitação das lentes e filtros da imprensa profissional, por exemplo. Se for vitorioso no terreno da política convencional, aprovando seus projetos, ele poderá levar a reboque sua agenda moral, modulando sua importância ao seu gosto; caso acumule derrotas políticas, poderá compensá-las radicalizando as pautas ideológicas e morais. A guerra cultural está aí para manter a base eletrizada, mesmo. Nesse jogo duplo, o presidente eleito pode seguir as regras da política formal exigidas pela democracia com uma mão e atacá-las com a outra. Como o PT fazia com sua retórica de classes, só que agora com os novos avatares dos “patriotas” e “salvadores do Ocidente”.

* Eduardo Wolf é doutor em filosofia pela USP, editor do Estado da Arte e prepara um livro sobre as guerras culturais

Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2018, edição nº 2611.

 


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