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A guinada autoritária pode vir depois

Em seu recente livro, How Democracies Die (Como as democracias morrem), Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018) observam que “nem sempre os políticos revelam toda a plenitude do seu autoritarismo antes de chegar ao poder. Alguns aderem a normas democráticas no começo de suas carreiras, só para depois abandoná- las. Pensemos no primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. Orbán e seu partido Fidesz começaram como democratas liberais no final dos anos 1980; e em seu primeiro mandato como primeiro-ministro, entre 1998 e 2002, Orbán governou democraticamente. Sua guinada autoritária depois de retornar ao poder em 2010 foi uma genuína surpresa”.

Depois de dar uma guinada autoritária Orbán atuou contra a liberdade de imprensa, contra a independência do Judiciário e contra a livre manifestação das oposições. Interviu nas escolas e fechou universidades. Abusou tanto que o país pode ser punido pelo Parlamento Europeu por violar regras básicas do Estado democrático de direito. E só agora começa a enfrentar as oposições.

Fareed Zakaria, em artigo do último dia 20 (de dezembro de 2018), no Washington Post – intitulado Is the West’s future really so gloomy? – observa que “os últimos passos autoritários do primeiro-ministro Viktor Orbán – mudando a lei trabalhista e a autoridade judicial – desencadearam protestos generalizados, unindo como nunca antes as forças de oposição. A rebelião de rua representa uma oposição generalizada ao partido no poder, que previsivelmente usou gás lacrimogêneo contra os mais pacíficos manifestantes, condenou-os como anticristãos e acusou George Soros de organizar todo o caso”.

Soros, como sabemos, é o Emmanuel Goldstein dos antiglobalistas, o Inimigo Público Número 1 da espécie humana, ao qual devemos aqueles dois minutos de ódio catártico descrito por George Orwell em 1984.

Mas ninguém melhor para registrar a mudança de visão de Orbán do que ele mesmo. Em discurso na 29ª Universidade Aberta de Verão de Bálványos e Acampamento de Estudantes, proferido em 28 de julho de 2018, em Tusnádfürdő (Băile Tuşnad), ele ensinou:

Democracia cristã

As próximas eleições são, portanto, da maior importância. Nessas eleições, devemos demonstrar que existe uma alternativa à democracia liberal: ela é chamada de democracia cristã. E devemos mostrar que a elite liberal pode ser substituída por uma elite democrata cristã. É claro que na Europa Central há muitos equívocos relacionados ao cristianismo e à política, e por isso devo fazer uma observação incidental. A democracia cristã não tem a ver com defender artigos de fé religiosos – neste caso, artigos de fé religiosos cristãos. Nem os estados nem os governos têm competência em questões de condenação ou salvação. A política democrática cristã significa que os modos de vida que nascem da cultura cristã devem ser protegidos. Nosso dever não é defender os artigos da fé, mas as formas de ser que cresceram deles. Estes incluem a dignidade humana, a família e a nação – porque o cristianismo não procura alcançar a universalidade através da abolição das nações, mas através da preservação das nações. Outras formas que devem ser protegidas e fortalecidas incluem nossas comunidades de fé. Isto – e não a proteção de artigos de fé religiosos – é o dever da democracia cristã.

Democracia iliberal

Tendo chegado a este ponto, existe apenas uma armadilha – uma única armadilha intelectual – que devemos evitar. Faz parte da natureza humana relutar em sair da zona de conforto e entrar em disputas; e por isso estamos dispostos a fazer concessões aos nossos oponentes. Mas em questões intelectuais isso faz mais mal do que bem. A isca para essa armadilha está bem diante de nossos narizes: é a afirmação de que a democracia cristã também pode, de fato, ser liberal. Sugiro que permaneçamos calmos e evitemos ser apanhados nesse gancho, porque se aceitarmos esse argumento, então a batalha, a luta que temos lutado até agora perderá seu significado, e teremos trabalhado em vão. Declaremos com confiança que a democracia cristã não é liberal. A democracia liberal é liberal, enquanto a democracia cristã, por definição, não é liberal: é, se preferir, iliberal. E podemos especificamente dizer isso em conexão com algumas questões importantes – digamos, três grandes questões. A democracia liberal é a favor do multiculturalismo, enquanto a democracia cristã dá prioridade à cultura cristã; este é um conceito não liberal. A democracia liberal é pró-imigração, enquanto a democracia cristã é antiimigração; isso é novamente um conceito genuinamente iliberal. E a democracia liberal toma partido de modelos familiares adaptáveis, enquanto a democracia cristã repousa sobre os fundamentos do modelo de família cristã; mais uma vez, esse é um conceito não liberal.

Ou seja, a guinada dos populistas-autoritários pode vir – e em geral vem mesmo – depois. A Hungria, hoje, já deixou de ser uma democracia liberal (é uma democracia apenas eleitoral em marcha batida para se transformar numa autocracia eleitoral). Bolsonaro, por algum motivo, logo após ter sido eleito, fez questão de conversar com esse autocrata húngaro (de certo orientado por seus filhos, por Steve Bannon, por Olavo de Carvalho ou por Ernesto Araújo – é tudo a mesma coisa).

É bom ficar de olho.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Como as democracias morrem – 3. A grande abdicação republicana

Como as democracias morrem – 4. Subvertendo a democracia