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A minha posição como democrata

Numa democracia há lugar para bolsonaristas e petistas (não estou falando dos eventuais eleitores de Bolsonaro e de Haddad, mas dos militantes extremistas antidemocráticos ou i-liberais em termos políticos), enquanto eles não violarem as leis e as regras do jogo democrático.

O ideal é que essas forças “religiosas” não ultrapassassem, cada qual, 10% a 15% das preferências da população, ficando nos extremos do espectro político. Isso seria plenamente metabolizável pelo processo democrático.

O problema é quando essas forças antidemocráticas ou iliberais usam a democracia (notadamente as eleições) contra a própria democracia com o objetivo de enfrear o processo de democratização do Estado e da sociedade e conseguem, em virtude da polarização ou da guerra que travam entre si, arregimentar amplos contingentes de pessoas, transformando-as em rebanhos de seus líderes e seguidores de suas propostas. É aí que mora o perigo. E é isso, precisamente, que está acontecendo no Brasil atual.

Por isso pode-se afirmar, sem qualquer exagero, que a democracia está ameaçada e correndo risco no nosso país. Não que a democracia vá ser abolida e substituída por um regime ditatorial, de cunho fascista ou comunista (ou bolivarianista do tipo venezuelano ou nicaraguense). Isso, ao que tudo indica, não vai acontecer; não, pelo menos, nos curto e médio prazos. A questão é que as forças ditas “de direita” ou “de esquerda” são i-liberais (no sentido político do termo, não necessariamente no sentido econômico) e majoritaristas (ou seja, não aceitam a legitimidade das oposições). Elas vincam a sociedade de alto a baixo, seja entre patriotas e traidores ou entre povo e elites.

Não é preciso ser fascista ou comunista para fazer isso: basta ser populista. Hoje estamos diante de dois populismos: o populismo-autoritário bolsonarista e o neopopulismo lulopetista. Ambos subvertem a democracia. Se algum deles se tornar majoritário, os democratas serão irrelevantes e acabarão alijados da cena pública.

Ora, sem democratas (liberais, no sentido político do termo) a democracia perderá sua substantividade, virando apenas uma mera casca formal (um regime eleitoral com déficits de liberdade, pouca transparência e alternância e a legalidade e a institucionalidade serão derruídas, pervertidas ou degeneradas).

Com Bolsonaro no governo e o PT liderando (e hegemonizando) a oposição, não há como a nossa democracia não se tornar mais flawed e de mais baixa intensidade. Por isso os democratas, mesmo que estejam, neste momento, em reduzida minoria, não podem escolher entre os dois nas eleições de 28 de outubro e devem se colocar em resistência a ambos nos próximos mil dias.

Sim, porque o pior ainda está por vir. Existem os que vão votar em Bolsonaro porque não querem a vitória do PT em 2018. Isso é uma coisa. Considerando tudo que o PT fez de ruim para o país, seria até explicável (se o PT tivesse chances reais de voltar agora ao governo). Mas… e depois? Será que estes, que amanhã (28/10/2018) votarão em Bolsonaro, não vão se sentir obrigados (ou serão vulneráveis à coação bolsonarista e se porão) a defender o governo Bolsonaro, mesmo não concordando muito com suas medidas? Vão virar militantes chapa-branca, pelegos, propagandistas oficiosos do governo e se converterão em correias de transmissão, na sociedade, das diretivas do Planalto – tudo sob a justificativa de que o PT não pode voltar em 2022 ou em 2026? Isso já é outra coisa.

O pior para a democracia brasileira será se essa massa votante em Bolsonaro cair na mesma armadilha em que muitos eleitores de Trump caíram nos Estados Unidos, virando trumpistas. Já que elegemos o homem agora temos de defendê-lo (pois os comunistas e os esquerdistas, mesmo tendo perdido a eleição, ainda não foram exterminados da face da Terra).

Eu estou fora de projetos de extermínio. Este é um mundo ao qual renuncio.

Uma pessoa me disse hoje no Facebook: “Vou votar em Bolsonaro porque quero que Lula apodreça na cadeia”. Ora, em primeiro lugar há um equívoco: não cabe a presidentes da República (e sim a um poder judiciário independente) condenar alguém à prisão nem determinar a duração da pena (só se essa pessoa imaginar que está elegendo um ditador).

Em segundo lugar, a pena de prisão não é uma vingança e sim um meio de evitar que o criminoso continue delinquindo e prejudicando a sociedade. Quando o poder judiciário avalia que ele não oferece mais perigo, não há porque mantê-lo preso.

Em terceiro lugar, nenhum ser humano deve apodrecer, seja em cativeiro, seja em liberdade. Quando uma pessoa apodrece em razão de maus tratos, toda a humanidade é afetada e apodrece um pouco também. Em democracias mais plenas, como a da Noruega, mesmo um monstro como Anders Breivik, que massacrou impiedosamente 77 jovens em um campo de férias na ilha de Utøya em 2011, foi condenado a apenas 21 anos de prisão e não vai apodrecer na cadeia (pode ser solto quando completar 54 anos). Claro que, por decisão do tribunal de Oslo, a sentença é prorrogável e pode se estender indefinidamente caso a justiça norueguesa entenda que o réu continua a representar um perigo para a sociedade. Mas este é o sentido da pena.

Eu renuncio a um mundo regulado por pessoas que acham que outras pessoas devem apodrecer. Eu quero distância de pessoas que pensam assim. Por isso, as seitas bolsonaristas me causam repugnância.

Não quero que ninguém se engane comigo. E há um engano, muito comum – inclusive entre meus amigos e leitores regulares – sobre as razões pelas quais me oponho ao lulopetismo.

Sim, fui um dos primeiros a desvelar e a revelar publicamente a estratégia do neopopulismo (e o lulopetismo é um neopopulismo, assim como os bolivarianismos). Abri o código dessa estratégia revelando o seu passo-a-passo. Tudo isso está no artigo Decifrando a via neopopulista, onde resumi, em uma página, o que já vinha revelando, desde 2005, na grande imprensa e em todo lugar.

No entanto, o engano a que me refiro é o seguinte: algumas pessoas acham que sou contra o PT em nome da ordem (ou de suas decorrências, como a hierarquia, a disciplina, a obediência, o comando-e-controle, a fidelidade imposta top down). Não sou. Quem é contra o PT por tais motivos são os autocratas e os populistas-autoritários.

Sou um democrata, quer dizer, tomo o sentido da política como a liberdade (e não como a ordem). Assim, não resisto ou me oponho ao PT pelo seu viés, digamos, libertário, de defesa de direitos humanos ou dos direitos das chamadas minorias sociais. Não quero defender nenhuma ordem pregressa, herança da cultura (ou da civilização) patriarcal. Quem quer fazer isso são os antiglobalistas-conspiracionistas (que vivem dizendo que a esquerda quer destruir uma suposta civilização ocidental cristã), os militaristas-intervencionistas, os monarquistas-tradicionalistas e os religiosos-conservadoristas. Eu não quero.

Sou contra o PT porque o projeto do partido é estatista (no sentido político do termo, ou seja, não reconhece a sociedade como modo de agenciamento com racionalidade própria, autônomo e subsistente por si mesmo). Não acho que seja papel do Estado conduzir ou educar a sociedade ou tratá-la como seu domínio.

Sou contra o PT porque sua estratégia é conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo.

Sou contra o PT não em razão do que ele possa ter de democrático, mas no que tem de antidemocrático, i-liberal e majoritarista, que usa a democracia contra a democracia tendo por objetivo ganhar eleições sucessivamente para acumular forças suficientes para alterar o DNA da democracia.

Assim, reconheço que o PT aceita o jogo democrático e não quer, de pronto, dar um golpe de Estado em termos clássicos e sim fazer uma revolução “por dentro” das instituições, degenerando homeopaticamente o caráter e a natureza dessas instituições do Estado de direito.

Ou seja, minha oposição ao PT não tem nada a ver com a oposição bolsonarista, que luta contra o PT por alguns motivos corretos e, no geral, pelos motivos errados: porque o partido seria um agente do comunismo internacional, aliado ao globalismo, para destruir os valores da civilização ocidental, desconstituir a família monogâmica, abalar a autoridade do pai-patrão, envenenar a moral normativa legada pela religião e pelos costumes tradicionais, atentar contra a religião cristã (que identifica como um instrumento do plano de deus para redimir e salvar os seres humanos), desfibrar a pátria, diluir a nação e, nas versões mais insanas, criminalizar as forças armadas e policiais e proteger os bandidos, transformar nossas crianças em gays, promover a pedofilia e a zoofilia, praticar a corrupção para corroer, de propósito, as bases da vida civilizada.

Devo dizer claramente que não valorizo nada disso. Acho que tudo isso é puro lixo da Matrix e as instituições tão valorizadas pelos reacionários não passam de provedores da cultura patriarcal: mítica, sacerdotal, hierárquica e autocrática (ou seja, antidemocrática).

Portanto, nada me liga aos que se opõem ao PT por tais motivos. De certo modo e em suma, sou contra o lulopetismo pelos mesmos motivos que sou contra os que se opõem ao PT por razões autocráticas (como os bolsonaristas).


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