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A mistificação de Lula e a substituição do partido e do povo pelo Führer

Causou alvoroço no Twitter a frase de Lula, publicada em 21 de fevereiro de 2018, quando o líder ainda estava solto.

Não, não é fake. Confiram o link.

É apenas uma expressão metafísica do caráter populista do caudilho. Mas merece ser analisada. O Führer (líder monocrático) como uma espécie de síntese da raça. De certo modo, é o anti-simbionte social: em vez de cada pessoa – qualquer pessoa – ser uma espécie de prefiguração fractal do que chamamos de humanidade, quando consumada; ou seja, ao invés de expressar uma ideia benigna, como a da máxima zulu de que ‘uma pessoa é uma pessoa através das outras pessoas’, o tweet de Lula verte a crença maligna de que uma pessoa especial (diferente, não igual) tem o condão de sintetizar e coagular, unitariamente, as mônadas das demais por algum tipo de predestinação extra-política e, a rigor, extra-humana. Lula, provavelmente sem o saber, revelou as raízes ocultas da insanidade autocrática que criou deuses sobrenaturais à imagem e semelhança dos sistemas de dominação… E é fácil reconhecê-lo examinando a frase: ele disse EU SOU. A máscara, afinal, se incorporou: se fez carne no mascarado…

Foi um aviso do que viria.

LULA SUBSTITUINDO O PT

Após a prisão do capo, quase todos os jornalistas e analistas repetiram: Lula foi preso e não houve nenhuma rebelião das massas no país. É verdade. Mas o problema é outro.

O próprio PT passou, ainda que momentaneamente, a ser conduzido pelos seus adversários à esquerda. Os neopopulistas lulopetistas, iliberais, tiveram de ceder lugar aos rudes antidemocratas (os que acham que é concessão inaceitável aos inimigos de classe fazer o que Lula fez: usar a democracia contra a democracia: eles querem, simplesmente, acabar com a democracia). Sinal de que a organização política criminosa que comanda o PT, a despeito de continuar praticamente intacta (sim, a Lava Jato não chegou a incomodar nem 10% do seu núcleo duro dirigente), virou um aparelho, perdendo capacidade de mobilização da militância. Diante disso, só restou Lula como ativo operacional.

É por isso que ele, Lula, está substituindo o partido e até a direção nacional do PT se transferiu para Curitiba. A esperança é que Lula agora, a par de substituir o partido, possa substituir também o povo brasileiro. O mito, porém, não está tão enraizado e distribuído assim no inconsciente coletivo: no máximo vai tentar contribuir, com 20% dos votos, para alçar um preposto ao segundo turno. Mas isso é igualmente incerto. Num clima de normalidade democrática, dificilmente será alcançada essa taxa de transferência. Só na confusão generalizada a fabricação do santo, do injustiçado, do perseguido, do mártir, conseguirá comover as pessoas comuns e voltar a galvanizar multidões. Por isso a aposta no caos. Mas o problema é a mistificação.

COMEÇOU A PERIGOSA MISTIFICAÇÃO

Só agora as pessoas começam a se dar conta da dimensão do problema. Um bom exemplo de mistificação é o artigo de um delinquente psicanalítico chamado Aldo Zaiden. Os mistificadores do lulismo – como esse Zaiden – entram em cena para “sublimar” o coagulador-mor. Engendra-se uma espécie de canonização em vida do tamásico Lula: a praia dele  é charuto, cachaça e terreiro. Mas o terreiro, aqui, evoca potencias sobre-humanas, não-humanas. É uma espiritualidade antissocial, justamente porque operação feita sobre o povo-rebanho e não com as pessoas, uma-a-uma: por isso precisa ser celeste, não pode ser terrestre. Se existisse o mal (separável do bem) estaríamos bem perto dele.

A presença do mistério ontem em São Bernardo

Aldo Zaiden, Facebook, 08/04/2018

Eu não sei, foi a paixão. Foi épico. Foi tragédia diante dos olhos mesmo. Foi de bambear as pernas. De ficar tatuado. Não se esquecerá.

Ele se atomizou e implodiu a todos. Repito, a ele e a todos. A energia foi gigantesca. Imanência e emanência nuclear. E tudo vibrava mesmo, de tocar e dar choque. Energia nuclear. Eu não sou místico, mas alguma coisa muito mística, muito além do Lula, aconteceu em São Bernardo ontem.

Atravessou um trem no meio da cidade, que atravessou a cada um ali. Um pau-de-arara vindo do sertão, que virou uma locomotiva carregada de minério, pra depois ser aço e carro no corpo de todos os presentes. Metalúrgica. E foi de verdade. Foi uma mistura de sentimentos, um bololô em ondas fortes, peitos batendo e vozes que não saiam das gargantas. Simplesmente não saiam. Era assim, foi assim.

Daí berros, berros cortantes e vigorosos como de recém nascidos. E, no fim, era ele quem estava, desde o inicio, ao mesmo tempo acalmando a turba e chamando pra luta, pra briga. Dali, daquele palco, iria pra cadeia, coisa de minutos. Um preso falando. Passei a entender porque algumas vozes não saiam mais, estavam presas já. Desceria a escada do caminhão, e, pêi, xilindró.

Era morte e era vida. E era alí. Não tinha texto grego. Não tinha Homero, Shakespeare, Marlowe. Até pensei no Leon Hirszman e no Gianfrancesco Guarnieri encenando o drama das greves do ABC nos palcos e no cinema. Nada dava conta. Afora a política toda e suas inconfessáveis negociações, algo muito maior estava sem qualquer máscara ou era encenação. Estava acontecendo uma verdade. Era a esposa sendo chorada pelo Padre operário, a homilia pensada pelo irmão Gilberto Carvalho e ele, Lula, querendo uma musica apenas, Asa Branca, canção do casal.

Do casal??? Um hino do Brasil dos Lulas. “Quando o verde dos teus olhos/ Se espalhar na plantação”. Lembrei de meu pai, que acha essa estrofe uma das mais lindas e pensei na minha avó, pai do meu pai, baiana de Santa Rita de Cássia, que nos deixou há 2 anos. Lembrei também que tivemos um dia um Ministro da Cultura que dizem que é um orixá, o Gilberto Gil. Quis cerveja nessa hora. Achei.

Era ele indo pra cadeia. Eram os medíocres, eram os fascistas fazendo isso. Era a mentira operando. Estávamos todos lá associados à escória. Eu, que nem batizado quando nasci fui, via a Cruz na batina do Padre operário e na pregação da Pastora, e escutava os berros de recém-nascido das pessoas pedindo pra ele resistir, com olhar temente à Deus. Olhava pro Suplicy sendo atendido por médicos, olhava pro Haddad e para o cenário paradoxal do apocalipse que fazia morrer e, ao mesmo tempo, nascer algo.

Acho que todos viraram Lula mesmo em São Bernardo ontem. Estamos todos indo pra cadeia, todos estamos nos sentindo muito mal, injustiçados. Empatia, entender o sofrimento do outro, simpatia, sofrer junto do outro. Missa-Culto-Comunhão. Mãos dadas.

Não existe parto sem dor, nem vida sem parto. Era dramático como é um trabalho de parto. Sangue, placenta, berros e dor. Havia risco. Foi à fórceps!

Olhava pra sede, antes barracão. O útero-sindicato estava lá. Dali nasceu algo. Dali nasceu muita coisa que foi inscrita na Constituição. Dali nasceu o EU do homem mais potente que este Brasil produziu. E ele, frágil e forte, correu pro ninho, pra debaixo da asa dos amigos, pro boteco onde bebia com eles. Somente da fonte sairia pra escuridão. E a polícia, os algozes carcomidos, os Pôncio-Moro, lá, babando, no cio.

Começo a olhar pro céu. Começo a achar que o Épico está lá mesmo. Questiono minha psicose. Questiono minha individualidade. Pergunto se estou dissociando. Deixo me ir? É possível mesmo isso estar acontecendo assim? Não seria um palco grego? Uma tourada? Quem escreveu esse enredo? Se eu pego, vai ter que apanhar! Juro vingança. Blasfemo. Retiro. Peço perdão. Começo a entender o processo de morte e vida ali. Começo a ver algum tempo e alguma transitoriedade neste lugar.

– Corte – Hoje, domingo, São Paulo.

Sigo descerebrado. Drummond, “domingo descobri que Deus é triste. É infinita a solidão de Deus sentado ao lado de….si”. Um pai totêmico que se vai, deixando o trono vazio, solitário como um elevador quebrado hoje, no dia de domingo. São vários cantores de lamento e a Mercedes Sosa cantando Balderrama desde cedo. E o Gonzaga, Assum Preto – pássaro na gaiola.

Uma cela em Curitiba e fogos por Sao Paulo.

Foguetório do desprezo.

A saudade antes trazia fogos, uma canção antiga lembra. Era assim que se comemorava quando alguém voltava em muitos lugares Brasil afora. “A barulheira que a saudade tinha”. Maria Bethânia cantando ao lado da mãe. Agora é a barulheira do desamor. Foguetório do desprezo.

– Corte – Voltamos ao Sábado, São Bernardo

Mas sim, sim, houve transe ontem… Muitos desmaios. Após falar, dizer que viraria ideia, Lula vai carregado pelos recém-nascidos até o sindicato-útero, fazendo-se carne para o banquete dos filhos. Se faz alimento e deixa vago o trono. Tragédia absoluta! Luz e terror! Eu tremia, não conseguia foco para as fotos que tentei deste deleite antropofágico. Me preocupei em me alimentar, vejo. Ainda bem.

Findo o banquete, um berro vem de dentro ao fecharem as portas do sindicato! – MÉDICO! MÉDICO para o Presidente! Era um pico de pressão. Era o Mercadante desesperado. E foi um pico de pressão. Minha pernas não seguraram. Ajoelhei sem querer, minhas pernas bambearam mesmo. Uma mulher me ajudou a levantar. Ela estava fraca de lagrimas. Nos abraçamos muito órfãos. Somos Lula. Ele se deixou devorar.

UMA SEITA RELIGIOSA?

Fernando Martins, em artigo na Gazeta do Povo, reproduzido abaixo, captou bem a tentativa de mistificação de Lula.

Lula está transformando o PT numa seita religiosa em que ele é “deus”

Fernando Martins, Gazeta do Povo, 10/04/2018

O ex-presidente Lula está transformando o PT numa espécie de seita religiosa em que ele é o “deus” a ser venerado. A imersão de Lula no messianismo não é de hoje. Mas se intensificou desde janeiro, quando ele foi condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) e ficou cada vez mais próximo de ser preso. Desde então, ele vem dizendo que não é mais um ser humano. Que virou uma ideia. Que vai viver nos outros, mesmo morto ou preso.

Ao que tudo indica, trata-se de uma estratégia de comunicação muito bem pensada para estimular em seus seguidores algo que pode mover montanhas: a fé. Além disso, um “deus” não pode ser questionado pela razão; ele é o portador da verdade revelada.

Caravana pelo Nordeste explorou a estética religiosa do “pai” Lula

Em agosto do ano passado, o PT já havia buscado construir uma imagem de Lula associada à santidade durante a caravana do ex-presidente pelo Nordeste. Lula era tratado no material de divulgação do partido como o “pai” dos nordestinos. E a produção das imagens da caravana abusou da estética religiosa. Várias fotos da turnê de Lula mostravam o petista sendo “tocado” pelo povo – tal qual os fiéis buscam tocar na imagem de santos nas procissões.

Um mês depois, em setembro, o ex-ministro Antonio Palocci, preso pela Lava Jato, cantou a bola.  “Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?”, questionou Palocci em sua carta de desfiliação do PT.

Lula: “Eu não sou eu. Eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”

Desde então, o próprio Lula assumiu o discurso messiânico, que tem sido cada vez mais comum nos seus pronunciamentos. Chama a atenção que ele insistentemente tem repetido que é um ser humano diferente. Ou mesmo que não é mais um ser humano, pois agora transcende seu próprio corpo e a mortalidade para viver, mesmo preso ou morto, em cada um de seus “fiéis” – numa comunhão mística com seu povo escolhido.

“Eles [os adversários do PT] estão lidando com um ser humano diferente. Porque eu não sou eu. Eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”, disse Lula à militância petista num inflamado discurso em Belo Horizonte (MG), em fevereiro.

A “divindade” inevitável: o rio que corre para o mar. E mais: “Não sou mais um ser humano”

Em março, no encerramento de sua caravana pela Região Sul, num discurso em Curitiba (PR), o ex-presidente até reconheceu ser uma pessoa comum. Mas logo depois, se contradisse, e voltou a se colocar na posição de divindade. Uma divindade inevitável: o rio que corre para o mar.

“Eles acham que sou eu o problema desse país. Eles não sabem que o Lula é apenas um ser humano, feito de carne e osso – igual a vocês. O que eles não sabem é que já tem milhões e milhões de mulheres que pensam como o Lula e de homens que pensam como o Lula (…). Nós não somos iguais a um punhado de osso e de água e um pouquinho de carne. Nós somos uma ideia. Eles não conseguirão prender as ideias e não conseguirão prender os sonhos. E quando eles acharem que eu não posso mais andar para fazer política, eu andarei pelas pernas de vocês por esse país. O que eles não sabem é que, quando vão tentar fazer com que as minhas ideias não viajem por esse mundo, eu pensarei pela cabeça de vocês pelo Brasil inteiro. Quando eles acharem que vão me calar, eu falarei pela boca de vocês no mundo inteiro. Então a melhor coisa que pode acontecer é eles deixarem o rio tranquilamente correr para o mar. E o rio correr para o mar é eles aceitarem a derrota que nós vamos impor a eles em outubro deste ano.”

No sábado passado (7), antes de se entregar para a Polícia Federal, Lula voltou ao misticismo em seu discurso em São Bernardo do Campo (SP). “Não adianta achar que tudo vai parar no dia que o Lula tiver um enfarte. É bobagem porque o meu coração baterá pelo coração de vocês e são milhões de corações. Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare. Eu não pararei. Porque eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com a ideia de vocês.”

Os dois objetivos do discurso messiânico de Lula

O discurso messiânico de Lula atende ao mesmo tempo a dois objetivos do ex-presidente e do PT. O primeiro é engajar os militantes e apoiadores numa causa maior. O sofrimento de Lula, por meio da “comunhão mística” deles com o ex-presidente, passa a ser a dor de todos. A consequência inevitável de quem aderiu a essa relação é pensar: “Mexeu com ele, mexeu comigo”. Pronto: assim Lula constrói uma legião de fiéis prontos a defendê-lo – muitas vezes com fanatismo. As agressões de petistas a jornalistas que cobriam a prisão de Lula é um exemplo disso.

O segundo objetivo é, ao estimular a fé e a emoção, tirar o foco da razão. Do ponto de vista racional, não há como fechar os olhos para o gigantesco esquema de corrupção que funcionou nos governos do PT descoberto pela Lava Jato. Pode-se discutir (racionalmente) se há provas contra Lula e se ele deveria ter sido condenado. Mas é impossível negar a corrupção e, no mínimo, que ele tem responsabilidade política pelos desvios de recursos que ocorreram na sua administração.

Mas admitir isso não interessa ao PT. O problema é que, com poucas armas racionais à disposição e com uma inabalável postura de negar o inegável, o que restou ao partido e a Lula? O irracional, o místico, o religioso, o emotivo. Afinal, como disse o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855): “A fé começa precisamente onde acaba a razão”.

Outro artigo que aborda o mesmo problema foi publicado ontem (13/04/2018) na revista Isto É.

Um partido transformado em seita

O PT deixou de lado programas, propostas e ideologia para venerar seu líder a qualquer custo

Germano Oliveira e Tábata Viapiana, Isto É, 13/04/18

Uma das características marcantes das seitas é a idolatria cega aos seus líderes, elevados a seres especiais com autoridade divina e liderança existencial. Quando o fanatismo invade o terreno político, os programas e as bandeiras partidárias se tornam descartáveis. Cedem lugar à adoração e à reverência, típicas de culto. Os militantes se transformam, então, em indivíduos abnegados, desprovidos de espírito crítico e freios morais. Ao acreditarem na infalibilidade dos caciques por eles venerados, a ponto de incluírem a alcunha deles em seus nomes, mesmo quando condenados e presos por corrupção, os “fiéis” exibem traços de fundamentalismo. Foi o que o Brasil testemunhou nos últimos dias, em meio ao espetáculo deprimente em que se transformou a prisão de Lula e os dias que a sucederam. No domingo 8, com o petista já encarcerado na sede da PF em Curitiba, a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, parecia cumprir uma liturgia ecumênica. Como se exortasse o rebanho a adorar seu “deus”, ela pronunciava frases repetidas como um mantra. “Não vamos sair daqui”, ditava Gleisi. “Não vamos sair daqui”, copiavam eles. “Ocupar e resistir”, ordenava. “Ocupar e resistir”, assentia a turba. Até o bordão final, entoado em uníssono: “Eu sou Lula”. Semelhante ao cortejo de uma seita, a dispersão se deu vagarosamente.

O líder adorado tinha dado o tom no dia anterior. Segundo ele, a polícia havia prendido seu corpo, não sua mente, como se ele fosse a reencarnação de Jesus Cristo. “Não sou mais um ser humano, sou uma ideia”, pregou Lula durante discurso feito horas antes de ser conduzido à cadeia. Ato contínuo, os militantes choravam, gritavam, se embriagavam, literalmente, e transformavam os momentos de tensão da prisão do morubixaba petista num ato de auto-imolação. Enfim, compunham uma atmosfera de histeria coletiva. Dois dias depois de dizerem “Eu sou Lula” em frente à PF, Gleisi e mais 36 políticos virariam Lula na prática. Acrescentaram o nome do ex-presidente, outrora apelido, em seus registros parlamentares. Assim, Gleisi passou a se chamar “Gleisi Lula Hoffmann”, Paulo Pimenta, “Paulo Lula Pimenta” e assim sucessivamente. Impressionados com a reação dos petistas, agentes da PF local chegaram a compará-los a seguidores de seitas radicais, como a de Jim Jones, um pastor do Tempo Popular, com orientação socialista, que no auge de sua insanidade ordenou que seus 918 discípulos cometessem o suicídio coletivo em Jonestown em 1979, depois de submetê-los a um intenso processo de lavagem cerebral.

A história da humanidade está repleta de exemplos de que sempre quando a política se mistura com o fanatismo, o resultado é desastroso para a democracia. Quase sempre levam ao totalitarismo. Aconteceu em Cuba, com Fidel Castro, e na Venezuela, com Hugo Chávez, agora replicado por seu herdeiro Nicolás Maduro. Lá, a manipulação popular acabou empurrando o país ao caos social. Na Europa, o fanatismo aliado à política descambou no fascismo de Benito Mussolini na Itália e no nazismo de Hitler, na Alemanha da década de 40. O saldo não poderia ter sido mais funesto: milhões de judeus foram asfixiados em câmeras de gás por discordarem de um louco varrido. Daí o perigo desse comportamento tão alucinante quanto oportunista.

Os dirigentes petistas parecem não se importar com isso. A ordem é manipular as massas na tentativa de regressar ao poder a todo custo, nem que seja para levar o País ao abismo econômico e social, como ocorreu durante o governo Dilma Rousseff. Por isso, nos últimos dias, fizeram de tudo para ampliar a atmosfera mística em torno da prisão de Lula, que em carga de dramaticidade e holofotes lembra em muito o episódio da detenção do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson, televisionada ao vivo para todo País. Para manter a toada de culto ao personagem, pela manhã, liderados por Gleisi Hoffmann, os mil manifestantes que acampavam nas imediações da PF, passaram a gritar: “Bom dia companheiro Lula”. As saudações se repetiam à tarde e à noite, antes do repouso do petista. O PT também deslocou o QG do partido para Curitiba. A sigla anunciou que estava transferindo sua sede nacional, que funciona em São Paulo, para a capital paranaense na segunda-feira 9. No mesmo dia, aproveitou para promover uma reunião da Executiva Nacional para reafirmar que “Lula será o candidato do PT a presidente”, mesmo preso, mesmo à revelia da lei da Ficha Limpa. Ao abandonarem seus gabinetes em Brasília e se instalarem permanentemente na cidade, senadores, como Roberto Requião (MDB), além de Gleisi e Lindbergh, praticamente passaram a dar expediente na porta da cadeia. Como cada senador custa para a União R$ 1,2 milhão por ano, segundo levantamento da Transparência Brasil, se eles ficarem um mês por lá, como prometem, o País estará desperdiçando uma verdadeira fortuna.

Na terça-feira 10, o PT ainda atraiu para Curitiba nove governadores da oposição, entre os quais quatro da legenda: Camilo Santana (Ceará), Rui Costa (Bahia), Wellington Dias (Piauí) e Tião Viana (Acre). Tudo para reverenciar o preso Lula. Eles chegaram a exigir que pudessem visitar o petista na cela especial, onde passa os dias vendo TV, lendo livros, comendo marmita, pão com manteiga e tomando café preto, mas bateram com a cara nos portões da PF de Curitiba. O pedido foi negado, por contrariar a legislação. Gleisi ainda tentou ludibriar o juízo ao incluir seu nome na lista de visitantes na condição de advogada.

Ocorre que, além de não exercer o ofício há mais de uma década, Gleisi está com a carteira da OAB suspensa. Segundo a PF, além dos causídicos, até quatro parentes de primeiro e segundo graus podem fazer visitas aos presos às quartas-feiras, em um período pela manhã e outro à tarde. A Lei de Execução Penal diz que cônjuges, companheiros, parentes e amigos podem visitar presos “em dias determinados”. Apesar da insistência, o juiz Sergio Moro negou condições especiais para visitas ao ex-presidente. O magistrado determinou que Lula se submeta às mesmas condições de outros condenados – nada mais do que justo.

No final da semana, um grupo de senadores conseguiu driblar Moro: aprovaram na Comissão de Direitos Humanos da Câmara uma diligência à sede da PF em Curitiba para visitar as instalações da carceragem, incluindo a cela onde o petista está preso.

Dez senadores compõem a lista. Os chefes dos Executivos estaduais, no entanto, seguem impedidos de entrar na carceragem. Barrados no baile, os governadores deixaram uma carta escrita de próprio punho, que chamaram de “registro de indignação”. O curioso é que ninguém se indignou quando Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, encontrava-se na mesma situação. Palocci permanece preso, sem regalias, sem que ninguém do PT chore por ele e em tratativas avançadas para uma delação premiada, mas essa é outra história. Enquanto os petistas ensaiavam mais um discurso de vítima, o braço armado da legenda, o MST, promovia mais uma de suas arruaças. Desta vez, com indícios de crime. Na quarta-feira 11, por volta das 18h, centenas de militantes do movimento Sem-Terra invadiram o Call Center da Riachuelo, em Natal (RN), anunciando que a ação acontecia em nome da liberdade de Lula. O empresário Flávio Rocha, dono da empresa e pré-candidato a presidente da República pelo PRB, já havia sido alvo de outra invasão semelhante numa fábrica da empresa no Rio Grande do Norte, ocasião em que disse tratar-se de atos “de terroristas e baderneiros”.

Sempre quando a política descamba para o fanatismo, o resultado é desastroso para a democracia. Venezuela é um exemplo.

A verve messiânica de Lula vem de longe. Em 2010, logo que deixou o governo, o petista usou a imagem do filho de Deus para dizer que foi vítima de traições no governo. “Se eu pudesse exibir uma imagem das punhaladas que levei e pudesse tirar a camisa, meu corpo apareceria mais destroçado do que o de Jesus”. Em 2005, no auge do mensalão, ele declarou ser “um homem sem pecados”, tentando eximir-se da lama em que outros dirigentes petistas se meteram. Depois, se descobriu que Lula tinha sim ciência do esquema. Em depoimento à Justiça em 2017, ele se saiu com essa heresia: “De vez em quando, eu fico pensando que as pessoas tinham de ler mais a Bíblia para não usar tanto meu nome em vão”. Mas Lula não se restringe a se considerar um ser divino. Não raro, o ex-presidente refere-se a ele mesmo na terceira pessoa, como se fosse uma entidade superior, acima do bem e do mal. “O Lula não é o Lula. O Lula é uma idéia, assumida por milhões de pessoas. E eles não sabem que o Lula já renasceu em milhões de mulheres e homens”. Num evento em Belo Horizonte, classificou ele próprio como um ser distinto dos demais: “Eles estão lidando com um ser humano diferente. Porque eu não sou eu. Eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”. Em agosto do ano passado, o PT já havia cimentado uma imagem de Lula ligada à santidade durante a caravana do ex-presidente pelo Nordeste. No material de divulgação do partido, Lula era tratada como o “pai” dos nordestinos. As imagens da caravana abusavam da estética religiosa, ao exibir Lula sendo “tocado” pelo povo – como os fiéis tentam fervorosamente alcançar a imagem de santos nas procissões.

Um mês depois, em setembro, o ex-ministro Antonio Palocci, que conhece como as coisas funcionam no seio do PT, sapecou. “Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?”, questionou ele em sua carta de desfiliação do PT. O ex-ministro sabe como ninguém que o petismo cooptou os chamados movimentos populares e acenou para os pobres com um outro mundo possível, fazendo tabula rasa das dificuldades que outros governantes enfrentaram, atribuindo-as à falta de competência ou de vontade. Pelo receituário petista, só o “deus” Lula seria capaz de levá-los a terra prometida, com desenvolvimento econômico, igualdade social e oportunidade de trabalho para todos. Uma farsa, por óbvio, cujos pilares desmoronaram como um castelo de cartas durante os anos do PT no poder e foram de vez aniquilados com a descoberta da corrupção institucionalizada.

O ex-deputado, ex-militante de esquerda e jornalista Fernando Gabeira foi um dos primeiros a relacionar a política a aspectos sectários. Em seu livro de memórias Onde Está Tudo Aquilo Agora? – Minha Vida na Política, ele narra as desventuras da militância de esquerda como se relatasse os descaminhos de uma seita primitiva. Em trechos da obra, Gabeira associa o engajamento político ao fanatismo de crentes. “Minha experiência tinha um ardor religioso”, disse ele sobre o período em que mergulhou na clandestinidade. Herbert José de Sousa, o Betinho, não raro usado como bandeira em programas eleitorais do PT da década de 90, também já falava sobre o irracionalismo que permeava a militância partidária fanática. “É equívoco pensar que a esquerda (àquela altura representada pelo PT) é antirreligiosa. A tendência é ser religiosa. Porque ela deriva de um padrão dogmático”. Mesmo sendo cristão, o filósofo e pai do liberalismo John Locke já dizia, no século XVII, que a assistência moral era mais importante para o povo do que os dogmas. O lulopetismo preferiu o segundo, agora sabemos por que.

Nos discursos proferidos por Lula, ele se compara a Jesus Cristo.

“Sou um homem sem pecados”

“Se eu pudesse mostrar uma imagem das punhaladas que levei e tirar a camisa, meu corpo apareceria mais destroçado do que o de Jesus”

“Não sou mais um ser humano, sou uma ideia”

“Não tem viva alma mais honesta do que eu”

“De vez em quando, eu fico pensando que as pessoas tinham de ler mais a Bíblia para não usar tanto meu nome em vão”

“O Lula não é o Lula. O Lula é uma idéia, assumida por milhões de pessoas. E eles não sabem que o Lula já renasceu em milhões de mulheres e homens”

“Eles estão lidando com um ser humano diferente. Porque eu não sou eu. Eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”

Regalias sem fim

Lula está preso na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba desde sábado 7, mas ainda não viu o sol nascer quadrado, como se diz no jarguão policial. Afinal, sua suíte, com 15 metros quadrados, banheiro privativo, chuveiro quente, quarto com cama e colchão macio, mesinha, não tem grades. No primeiro dia, exigiu também um aparelho de televisão para ver o jogo do Corinthians, time do coração. No domingo 8, pôde comemorar o título na companhia do advogado Cristiano Zanin. Lá, come bem. O cardápio é variado: café com leite, pão com manteiga às 6h. Almoço às 11h, com arroz, feijão, macarrão, carne, salada. O mesmo no jantar, servido às 17h. Não satisfeito com as mordomias, fez uma série de outras exigências: um cozinheiro de sua confiança; a participação dos oito seguranças da PF que ele ainda desfruta por ser ex-presidente na guarda de sua cela e que ele tivesse uma academia de ginástica para se exercitar. A juíza federal Carolina Lebbos autorizou a benesse. Terá também água gelada. No final da semana, o juiz Sergio Moro bateu o martelo: nada mais será autorizado. Se comparadas as mordomias de Lula com a situação dos demais presos da Lava Jato, que já são especiais, o petista vive num hotel cinco estrelas. Já frente à realidade dos 720 mil presos do sistema penitenciário brasileiro, era como se Lula estivesse num SPA de luxo.

CONCLUSÃO

É improvável que Lula fique preso em regime fechado por longo tempo. Mais cedo ou mais tarde – e, ao que tudo indica, ainda durante a campanha eleitoral – vão enviá-lo para casa (com tornozeleira ou não), onde ele montará o seu bunker para teleguiar o ungido (do PT ou de outro partido) e continuar vampirizando o PT, os setores sociais que apoiam o PT e o eleitorado simpático ao lulismo em geral.

Lula continua sendo o centro da questão em razão de uma falha genética do neopopulismo. A via neopopulista escolhida pela esquerda não funciona muito bem sem um líder carismático, com alta gravitatem, capaz de deformar o campo social. As FARC, que viraram uma espécie de PT colombiano, estão agora sentindo na pele a falta que faz um líder de massas.

Mas a mistificação dificilmente dará certo. Não porque o povo que apoia o lulopetismo acordará de repente do transe e sim porque os próprios petistas que se converteram em políticos tradicionais, que querem apenas ser eleitos e reeleitos para continuar usufruindo das benesses associadas à profissão, não vão se suicidar para viver do mito. Estão dispostos a morrer abraçados com Lula os desesperados, os que sabem que, mais cedo ou mais tarde, serão também condenados e os dirigentes do núcleo duro da organização política criminosa que comanda o PT. Os outros vão arrumar um jeito de tocar a bola pra frente. A vida continua.

O problema é o mal que tudo isso fará à sociedade brasileira enquanto o projeto de mistificação de Lula, que não dará totalmente certo, está ainda em andamento.


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