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A nova utopia

Jerome K. Jerome (1859-1927) escreveu em 1891 o pequeno conto A Nova Utopia. Jerome era um humorista e escritor inglês que acabou ficando mais famoso pela sua novela cômica Three Men in a Boat (Três homens num barco) publicada em 1889.

A Nova Utopia de Jerome Klapka Jerome (1891) talvez possa ser considerada o berço do gênero que utiliza as distopias como cenário. É provável que o conto tenha sido a inspiração para o livro Nós de Zamyatin (1921), para O Admirável Mundo Novo de Huxley (1932) e para o 1984 de Orwell (1949).

Jerome era amigo de H. G. Wells, Rudyard Kipling e Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes). Seu pequeno conto inspirou Wells para a criação de Little Wars (1913).

José Leonardo Souza Buzelli, da Universidade Estadual de Campinas, traduziu em 2013 A Nova Utopia de Jerome Klapka Jerome para o português e aduziu uma pequena introdução ao texto. Disponível neste link

É uma sátira profética. O mundo totalmente ordenado, geometricamente reto, completamente limpo, sem sociedade civil (sim, só havia Estado) do sonho distópico de Jerome, era um mundo de pessoas sem almas e sem nomes (as pessoas eram designadas por números). Eis um trecho do livro em que Jerome descreve a cidade utópica socialista:

“A cidade era toda limpa e muito quieta. As ruas, que têm números em vez de nomes, saem umas das outras em ângulos retos, e todas tinham exatamente a mesma aparência. Não havia cavalos, nem carruagens em volta; todo o tráfego era feito por carros elétricos. Todas as pessoas encontradas por nós tinham a mesma expressão grave e quieta, e se pareciam tanto umas com as outras que era como se fossem membros da mesma família. Assim como meu guia, todos vestiam calças cinzas e uma túnica cinza abotoada até o pescoço e presa por um cinto. Todos os homens estavam perfeitamente barbeados e tinham cabelos pretos”.

Sim, havia um “regulamento capilar” (tal como hoje na Coréia do Norte do ditador Kim Jong-un). Eis o relato:

“O que seria da igualdade se um homem ou uma mulher pudesse se vangloriar por aí de seu cabelo dourado, enquanto um outro parecesse uma cenoura? Os homens não devem ser só iguais nestes dias felizes, eles também devem ter a mesma aparência, tanto quanto possível. Fazendo com que todos os homens estejam bem barbeados, e com que todos os homens e mulheres tenham cabelo preto, e cortado no mesmo comprimento, a gente remedia, até certo ponto, os erros da Natureza”.

Para quem quer exercitar o reconhecimento de padrões autocráticos esses dois parágrafos (reproduzidos acima) têm material suficiente para um longa e profunda investigação sobre as tentativas antidemocráticas de consertar o mundo. Mas é melhor ler o conto todo. Para baixar uma versão em PDF clique: JEROME, Jerome K (1891) A Nova Utopia

A Nova Utopia

por Jerome K. Jerome

EU tinha passado uma noite extremamente interessante. Tinha jantado com alguns amigos meus muito “avançados” no “Clube Nacional Socialista”. Nós tivemos um excelente jantar: o faisão, recheado com trufas, era um poema, e quando eu digo que o ’49 Chateau Lafitte valeu o preço que tivemos que pagar por ele, eu não vejo o que mais poderia adicionar em seu favor.

Depois do jantar, e sobre charutos (devo dizer que eles sabem como fazer para estocar bons charutos no Clube Nacional Socialista), nós tivemos uma discussão muito instrutiva sobre a igualdade do homem e sobre a nacionalização do capital.

Eu não fui capaz de tomar muita parte na argumentação, porque, tendo sido deixado quando garoto em uma posição que fazia necessário que eu ganhasse meu próprio sustento, eu nunca desfrutei do tempo e da oportunidade para estudar essas questões.

Mas eu escutei muito atentamente enquanto meus amigos explicavam como, pelos milhares de séculos que já existiram antes deles surgirem, tudo vinha acontecendo de forma errada no mundo, e como, no curso dos próximos poucos anos, mais ou menos, eles pretendiam endireitá-lo.

A igualdade de toda humanidade era o seu lema — a igualdade perfeita em todas as coisas — igualdade de posses, igualdade de posição e influência, igualdade de direitos, resultando em igualdade na felicidade e contentamento.

O mundo pertencia a todos igualmente, e deveria ser igualmente dividido. O trabalho de cada homem era a propriedade, e não para si mesmo, mas para o Estado que o alimentou e vestiu-o, e deve ser aplicado, não para o seu próprio engrandecimento, mas para o enriquecimento da espécie.

Riqueza individual — a corrente social com a qual poucos tinham obrigado a muitos, a pistola do bandido pela qual um pequeno bando de ladrões tinha roubado — precisava ser tomada das mãos que por muito tempo a seguraram.

As distinções sociais — as barreiras pelas quais a crescente onda de humanização até então tinha sido afligida e contida — deviam ser varridas de lado para sempre. A raça humana deve pressionar o seu destino para frente (qualquer que seja este), e não como atualmente, como uma horda dispersa, lutando cada um por si, sobre o chão quebrado da desigualdade de nascimento e fortuna — a relva macia reservada para os pés dos mimados, as pedras cruéis reservadas para os pés dos amaldiçoados, mas como um exército ordenado, marchando lado a lado sobre a planície da equidade e igualdade.

O grande seio da nossa Mãe Terra deve nutrir todas as suas crianças igualmente; ninguém deveria ter fome, ninguém deveria ter demais. O homem forte não deveria agarrar mais do que o fraco; o inteligente não deveria esquematizar para aproveitar mais do que o simples. A terra era do homem, em sua plenitude, e entre toda humanidade ela deveria ser repartida em partes iguais. Todos os homens seriam iguais pelas leis do homem.

Com a desigualdade vem a miséria, crime, pecado, egoísmo, arrogância e hipocrisia. Em um mundo no qual todos os homens fossem iguais não haveria nenhuma tentação para o mal, e nossa nobreza natural afirmaria a si mesma.

Quando todos os homens forem iguais, o mundo seria o Paraíso — liberto do despotismo degradante de Deus.

Nós levantamos nossos copos e bebemos à IGUALDADE, à sagrada IGUALDADE; e, em seguida, ordenamos ao garçom para nos trazer Chartreuse Verde e mais charutos.

Fui para casa muito pensativo. Eu não consegui dormir por muito tempo; fiquei acordado, pensando sobre essa visão de um mundo novo que tinha sido apresentada a mim.

Que maravilha seria a vida, se apenas o esquema dos meus amigos socialistas pudesse ser realizado. Não teríamos mais desta luta e esforço de um contra os outros, não mais inveja, não mais decepção, não mais medo da pobreza! O Estado tomaria conta de nós da hora em que nascêssemos até nossa morte, e proveria todos os nossos desejos, desde o berço ao caixão, ambos inclusive, e não deveríamos sequer pensar no assunto. Não haveria mais trabalho duro (trabalho de três horas por dia seria o limite, de acordo com nossos cálculos, isso seria o que o Estado exigiria de cada cidadão adulto, e a ninguém seria permitido fazer mais — a mim não deveria ser permitido fazer mais) — não mais pobres à miséria, não mais ricos para invejar — ninguém para olhar para baixo para nós, ninguém de nós para olhar de baixo para cima (não tão agradável esta última reflexão) — toda a nossa vida ordenada e provida para nós — nada a pensar exceto o destino glorioso (qualquer que seja) da Humanidade!

Então o pensamento se arrastou para longe no caos, e eu dormi.

QUANDO eu acordei, encontrei a mim mesmo deitado embaixo de uma redoma de vidro, em um nível elevado, numa sala entristecedora. Havia um rótulo sobre a minha cabeça, eu me virei para lê-lo. Dizia o seguinte:

ESTE HOMEM FOI ENCONTRADO ADORMECIDO EM UMA CASA EM LONDRES, APÓS A GRANDE REVOLUÇÃO SOCIAL DE 1899. DO RELATO FORNECIDO PELA PROPRIETÁRIA DA CASA, PARECE QUE ELE JÁ TINHA ESTADO, QUANDO DESCOBERTO, DORMINDO HÁ MAIS DE DEZ ANOS (ELA TINHA ESQUECIDO DE CHAMÁ-LO). DECIDIU-SE ENTÃO, PARA FINS CIENTÍFICOS, NÃO DESPERTÁ-LO, MAS APENAS OBSERVAR QUANTO TEMPO ELE DORMIRIA, E ELE FOI ASSIM TRAZIDO E DEPOSITADO NO ‘MUSEU DAS CURIOSIDADES’, EM 11 DE FEVEREIRO DE 1990.

Aos visitantes pede-se para não jogar água através dos furos para respiração.

Um velho cavalheiro com um olhar inteligente, que estava organizando alguns lagartos empalhados em uma redoma ao lado aproximou-se e retirou a redoma que estava sobre mim.

“Qual é o problema”, perguntou ele, “alguma coisa está perturbando você?”

“Não”, eu disse: “Eu sempre acordo assim, quando eu sinto que eu dormi o suficiente. Que século é esse?”

“Este,” ele disse, “é o século vinte e nove. Você esteve dormindo por apenas mil anos.”

“Ah! Bem, por isso eu me sinto melhor,” eu respondi, descendo da mesa. “Não há nada como colocar o sono em dia.”

“Acho que você está indo fazer a coisa usual”, Disse o velho cavalheiro para mim, quando eu continuei a colocar minhas roupas, que estavam postas ao meu lado na redoma. “Você vai querer que eu o acompanhe ao redor da cidade, e explique todas as mudanças para você, enquanto você faz as perguntas e comentários bobos?”

“Sim”, eu respondi, “Eu suponho que é o que eu deveria fazer.”

“Acho que sim”, ele murmurou. “Vamos lá, vamos acabar com isso”, e ele liderou o caminho para fora da sala.

Quando descemos as escadas, eu disse:

“Bem, está tudo certo, agora?”

“O que está certo?” ele replicou.

“Ora, o mundo”, eu respondi. “Alguns amigos meus estavam planejando, pouco antes de eu ir para a cama, de fazê-lo em pedaços e consertá-lo novamente da forma adequada. Eles fizeram tudo certo até agora? Está todo mundo vivendo em igualdade, e o pecado e tristeza e esse tipo de coisa foi posta de lado?”

“Ah, sim,” respondeu o meu guia; “Você vai encontrar tudo bem. Nós estivemos trabalhando duro nas coisas por aqui enquanto você esteve dormindo. Nós fizemos este mundo quase perfeito agora, eu diria. Ninguém esta autorizado a fazer nada errado ou tolo; e quanto à igualdade, os girinos ainda não estão conosco.”

(Ele falou de forma bastante vulgar, eu pensei, mas eu não gostaria de reprová-lo.)

Saímos para a cidade. Estava tudo limpo e muito tranquilo. As ruas, que eram designadas por números, corriam de uma para outra em ângulos retos, e todas tinham exatamente a mesma aparência. Não havia cavalos ou carruagens, todo o tráfego era feito por carros elétricos. Todas as pessoas que encontramos usavam uma silenciosa expressão séria, e pareciam tanto uma com as outras que davam a ideia de que todos eram membros da mesma família. Todos estavam vestidos, assim como também estava o meu guia, em um par de calças cinza, e um túnica cinza, abotoada apertada no pescoço e presa em volta do cintura por meio de um cinto. Cada homem estava barbeado perfeitamente, e cada homem tinha cabelo preto.

Eu disse:

“São todos gêmeos?”

“Gêmeos! Céus, não!” respondeu o meu guia. “De onde você tirou essa ideia?”
“Ora, todos eles são muito parecidos,” Eu respondi; “e todos tem cabelo pretos!”

“Ah, isso é a cor regulamentar para o cabelo,” explicou meu companheiro: “nós todos temos o cabelo preto. Se o cabelo de um homem não é preto naturalmente, ele tem que tingi-lo de preto.”

“Por quê?” Eu perguntei.

“Por quê?” retrucou o velho cavalheiro, um pouco irritado. “Ora, eu pensei que você tinha entendido que todos os homens eram iguais agora. O que seria da igualdade se fosse permitido a um homem ou mulher a arrogância de possuir cabelos dourados, enquanto outros tivessem que aturar cabelos negros? Homens não apenas precisam viver em igualdade nesses dias felizes que vivemos, mas devem parecer iguais, tanto quanto puderem. Fazendo com que todos homens tenham a barba raspada, e que todos homens e mulheres tenham o cabelo preto cortado no mesmo comprimento, nós evitamos, em certa medida, os erros da natureza.”

Eu disse:

“E por que preto?”

Ele disse que não sabia, mas que era a cor pela qual tinham decidido.
“Por quem?” Eu perguntei.

“Pela MAIORIA,” ele respondeu, erguendo seu chapéu e baixando seus olhos, como se estivesse fazendo uma prece.

Nós caminhamos mais, e passamos por mais homens. Eu disse:

“Existem mulheres nesta cidade?”

“Mulheres!” exclamou meu guia. “É claro que existem. Nós passamos por centenas delas!”

“Eu pensei que reconheceria uma mulher quando visse uma”, eu observei; “mas eu não lembro de ter percebido qualquer uma.”

“Ora, lá se vão duas agora”, ele disse, chamando minha atenção para uma dupla de pessoas próximas à nós, ambas vestidas com calças e túnicas cinza regulamentar.

“Como é que você sabe que elas são mulheres?” Eu perguntei.

“Ora, você vê os números de metal que todos usam em sua gola?”

“Sim: Eu estava pensando que era um número que policiais usam, e imaginando onde todas as outras pessoas estariam!”

“Bem, os números pares são mulheres; e os números ímpares são homens.”

“Como é simples,” eu comentei. “Eu suponho que depois de um pouco de prática você poderia distinguir um sexo de outro quase num piscar de olhos?”

“Oh sim,” ele respondeu, “se você quiser.”

Nós caminhamos em silêncio por algum tempo. E então eu disse:

“Por que todo mundo tem um número?”

“Para ser distinguido por ele,” respondeu meu companheiro.

“As pessoas não tem nomes, então?”

“Não.”

“Por quê?”

“Oh! Havia tanta desigualdade nos nomes. Algumas pessoas eram chamadas de Montmorency, e eles olhavam para baixo para os Smiths; e os Smiths não gostavam de se misturar com os Joneses: assim, para economizar mais incômodos, foi decidido abolir completamente os nomes, e dar para todos um número.”

“Mas os Montmorencys e os Smythes fizeram objeções.”

“Sim: mas os Smiths e os Joneses eram a MAIORIA.”

“E por que não os Uns e Dois olharem para baixo para os Três e Quatros, e assim por diante?”

“No começo, sim. Mas com a abolição da riqueza, os números perderam o seu valor, exceto para fins industriais e para acrósticos duplos, e agora o nº 100 não se considera de forma alguma superior ao nº 1.000.000.”

Eu não tinha me lavado quando levantei, e não havendo instalações para fazê-lo no Museu, eu estava começando a me sentir um pouco quente e sujo. Eu disse:

“Posso me lavar em algum lugar?”

Ele disse:

“Não, nós não estamos autorizados a lavar-nos. Você precisa esperar até às quatro e meia, e então você será lavado para o chá.”

“Ser lavado!” Eu chorei. “Por quem?”

“O Estado.”

Ele disse que eles descobriram que não podiam manter sua igualdade quando as pessoas tinham permissão para lavarem a si mesmas. Algumas pessoas lavavam-se três ou quatro vezes ao dia, enquanto outras nunca tocavam água e sabão do fim do ano ate o outro, e como consequência lá se iam duas classes distintas, os Limpos e os Sujos. Todos os velhos preconceitos de classe começaram a ser revividos. Os Limpos desprezavam os sujos, e os Sujos odiavam os Limpos. Então para acabar com a dissensão, o Estado decidiu lavar à todos ele mesmo, e cada cidadão agora era lavado duas vezes ao dia pelo funcionários do governo; e a lavagem privada foi proibida.

Notei que não passávamos por casas à medida que avançávamos, apenas por blocos depois de blocos de grandes edifícios, semelhantes a quartéis, todos do mesmo tamanho e forma.

Às vezes, em uma esquina, nos deparamos com um prédio menor, rotulado como “Museu”, “Hospital”, “Sala de Debates”, “Banho”, “Ginásio”, “Academia de Ciências”, “Exposição da Indústria”, “Escola da Fala”, etc, etc, mas nunca por uma casa.

Eu disse:

“Não vive ninguém nessa cidade?”

Ele disse:

“Você faz perguntas tolas; garanto que você faz. Onde você pensa que eles vivem?”

Eu disse:

“Isso é justamente o que eu estava tentando imaginar. Eu não vejo nenhuma casa em parte alguma!”

Ele disse:

“Nós não precisamos de casas — não de casas como você esta imaginando. Nós somos socialistas agora; nós vivemos juntos em fraternidade e igualdade. Vivemos nestes blocos que você vê. Cada bloco acomoda mil cidadãos. Ele contém mil leitos — cem em cada quarto — e salas de banho e vestuários em proporção, um refeitório e cozinha. Às sete horas de cada manhã, um sino é tocado, e todos se levantam e arrumam a cama. Às sete e meia todos vão para as salas de banho e são lavados e barbeados, e tem seu cabelo feito. Às oito horas o café da manhã é servido no refeitório. É composto por uma caneca de mingau de aveia e metade de um copo de leite morno para cada cidadão adulto. Nós somos todos estritamente vegetarianos agora. O voto pelo vegetarianismo aumentou enormemente durante o último século, e sua organização tem sido muito perfeita, sendo escolhido em todas eleições nos últimos cinquenta anos. À uma hora outro sino e tocado, e as pessoas voltam para o almoço, que consiste em feijão e frutas cozidas, com rocambole duas vezes por semana e pudim de ameixa aos sábados. Às cinco da tarde é servido o chá, e às dez as luzes são desligadas e todos vão para a cama. Nós somos todos iguais, e todos vivemos igualmente — escriturários e limpadores, funileiros e boticários — todos juntos em fraternidade e liberdade. Os homens vivem em blocos deste lado da cidade, e as mulheres na outra extremidade da cidade.”

“Onde as pessoas casadas ficam?” Eu perguntei.

“Oh, não há casais,” ele respondeu: “nós abolimos o casamento duzentos anos atrás. Veja, a vida de casado não funciona bem com nosso sistema. A vida doméstica, nós concluímos, era completamente antissocialista em suas tendências. Os homens pensavam mais em suas esposas e famílias do que no Estado. Eles desejavam trabalhar para o benefício de seu pequeno círculo de entes queridos, em vez do que seria melhor para a comunidade. Eles se importavam mais com o futuro de seus filhos do que com o destino da humanidade. Os laços de amor e sangue uniam os homens rapidamente em pequenos grupos no lugar do grande todo. Antes de considerar o avanço da raça humana, os homens consideravam o avanço de seus amigos e parentes. Antes de lutar pela maior felicidade do maior número, os homens se esforçavam pela felicidade dos poucos que estavam próximos e eram queridos para eles.”

“Em segredo, homens e mulheres armazenavam riqueza gerada pelo trabalho, para assim, secretamente, dar algum presente para seus amados. O amor mexia com a ambição nos corações dos homens. Para ganhar os sorrisos das mulheres que amavam, para deixar um nome para que seus filhos pudessem ter orgulho de ter, os homens buscavam elevar-se acima do nível geral, buscavam fazer algum ato que fizesse o mundo olhar para eles e honrá-los acima de seus semelhantes, para deixar pegadas profundas sobre a estrada poeirenta da época. Os princípios fundamentais do Socialismo estavam sendo faustosamente e diariamente desprezados. Cada casa era um centro revolucionário para a propagação do individualismo e da personalidade. Do calor de cada coração doméstico cresceram víboras, companheirismo e independência, para picar o Estado e envenenar as mentes dos homens.”

“As doutrinas da igualdade foram abertamente contestadas. Homens, quando amavam uma mulher, consideravam-na superior a todas outras mulheres, e dificilmente se esforçavam para disfarçar sua opinião. Esposas amorosas acreditavam que seus maridos eram mais sábios e corajosos que todos os outros homens. Mães riam da ideia de seus filhos não serem superiores às outras crianças. Crianças assimilavam a hedionda heresia de que seu pai e sua mãe eram os melhores pais do mundo.”

“De qualquer ponto que você olhava para isso, a Família fincava o pé como nossa inimiga. Um homem tinha uma esposa charmosa e duas crianças dóceis e de bom temperamento; seu vizinho era casado com uma megera, e era pai de onze barulhentos, mal dispostos pirralhos — onde estava a igualdade?

“Novamente, onde a Família existisse, ali pairava, sempre argumentando, os anjos da Alegria e da Tristeza; e em um mundo onde a alegria e a tristeza eram conhecidas, a Igualdade não podia viver. Um homem e uma mulher, durante à noite, chorando ao lado de um pequeno berço. Na casa ao lado, um jovem casal, de mãos dadas estava rindo e fazendo travessas caretas tolas para um bebê. O que a pobre Igualdade fazia?”

“Tais coisas não devem ser permitidas. O amor, nós vimos, era nosso inimigo sempre. Ele fazia a igualdade impossível. Ele trazia alegria e tristeza, paz e sofrimento em sua esteira.”

“Ele perturbava as crenças dos homens, e ameaçava o Destino da Humanidade, então nós abolimos ele e tudo o que ele produzia.”

“Agora não há casamentos, e, portanto, não existem problemas domésticos; Sem cortejos, portanto sem dores do coração, sem amor, portanto sem sofrimento, sem beijos e sem lágrimas.”

“Nós todos vivemos juntos em igualdade livres da alegria e da dor.”

Eu disse:

“Isso deve ser muito tranquilo, mas, diga-me — e eu faço a pergunta apenas a partir de um ponto de vista científico — como vocês mantém o fornecimento de homens e mulheres?”

Ele disse:

“Oh, isso e bastante simples. Como é que você, no seu dia a dia, mantém o fornecimento de cavalos e vacas? Na primavera, muitas crianças, conforme o Estado exige, são planejadas e cuidadosamente produzidas, sobre supervisão médica. Quando elas nascem, são levadas para longe de suas mães (a quem, caso contrário, podem vir a amá-las), e trazidas até os berçários e escolas públicas ate os quatorze anos. Em seguida, são examinadas pelos inspetores designados pelo Estado, que decidem a vocação deles, e seguindo essa vocação eles tornam-se aprendizes. Aos vinte eles recebem a posição de cidadãos, e direito de votar. Nenhuma diferença é feita entre homens e mulheres. Ambos os sexos desfrutam de iguais privilégios.”

Eu disse:

“Quais são os privilégios?”

Ele disse:

“Ora, tudo o que eu venho lhe dizendo.”

Nós vagamos por alguns quilômetros, mas por nada mais passamos além de ruas após ruas com esses enormes blocos. Eu disse:

“Não existem lojas ou armazéns nessa cidade?”

“Não,” ele respondeu. “O que nós poderíamos querer com lojas e armazéns? O Estado nos alimenta, veste, abriga, cuida, lava, corta nosso cabelo, provê nossa comida e nos enterra. O que poderíamos querer com lojas?”

Eu comecei a me sentir cansado com aquela caminhada. Eu disse:

“Nós podemos ir a algum lugar para tomar um drinque?”

Ele disse: “Um ‘drinque’! O que é um ‘drinque’? Nós recebemos uma caneca de chocolate com o nosso almoço. É isso que você quer dizer?”

Eu não me senti com vontade de explicar o assunto para ele, e ele evidentemente não me entenderia, então eu disse:

“Sim; Eu foi o que eu quis dizer.”

Nós passamos por um homem de muito boa aparência um pouco mais adiante, e notei que ele tinha apenas um braço. Eu tinha notado dois ou três homens grandes com apenas um braço no decorrer da manhã, e isso me pareceu curioso. Eu comentei isso com meu guia.

Ele disse:

“Sim, quando um homem está muito acima do tamanho e força médios, cortamos uma de suas pernas ou braços, de modo a tornar as coisas mais iguais; nós o nivelamos um pouco, como você pode ver. A natureza, como você pode perceber, deixa um pouco a desejar, mas nós fazemos o possível para endireitar as coisas.”

Eu disse:

“Eu suponho que vocês não podem aboli-la?”

“Bem, não completamente,” ele respondeu. “Nós bem que gostaríamos. Mas,” ele acrescentou depois, com orgulho perdoável, “nós fazemos um bom trabalho.”

Eu disse:

“Que tal um homem excepcionalmente inteligente. O que vocês fazem com ele?”

“Bem, nós não estamos muito preocupados com isso agora,” ele respondeu. “Nós não cruzamos com nada perigoso no que diz respeito a capacidade intelectual já há um bom tempo. Quando isso acontece, nós realizamos uma operação cirúrgica na cabeça, que suaviza o cérebro para o nível mediano.

“Às vezes eu pensei,” ponderou o velho cavalheiro, “que seria uma pena não podermos subir o nível algumas vezes, no lugar de sempre nivelar para baixo, mas, é claro, isso é impossível.”

Eu disse:

“Você pensa que é certo vocês cortarem essas pessoas, e nivelá-las por baixo, desta forma?”

Ele disse:

“É claro que é certo.”

“Você parece bem certo sobre esse assunto,” Eu retorqui. “Por isso o ‘é claro’ certo?”

“Porque isso é feito pela MAIORIA.”

“Como é que isso faz com que seja a coisa certa?” Eu perguntei.

“A MAIORIA não pode fazer errado,” ele respondeu.

“Oh! É isso que essas pessoas que estão decepadas pensam também?”

“Eles!” ele respondeu, evidentemente surpreso pela pergunta. “Oh, eles são a minoria, você sabe.”

“Sim; mas mesmo a minoria tem o direito aos seus braços, pernas e cabeça, não é?”

“Uma minoria NÃO tem direitos,” ele respondeu.

Eu disse:

“Parece bom pertencer a Maioria, se você pensa em viver aqui, não e?”

Ele disse:

“Sim, a maioria do nosso povo pensa assim. Eles parecem achar isso mais conveniente.”

Eu estava achando a cidade um tanto desinteressante, e perguntei se nós não poderíamos ir para o campo para uma mudança.

Meu guia disse:

“Oh, sim, certamente”, mas não acho que deveríamos nos importar muito com ele.

“Oh! Mas costumava ser tão lindo no campo,“ eu insisti, “antes de ir para a cama. Havia grandes árvores verdes e gramíneas, prados acariciados pelos ventos, pequenas casas com varandas enfeitadas, e —”

“Oh, nós mudamos tudo isso,” interrompeu o velho cavalheiro; “agora é tudo um grande canteiro, dividido por estradas e canais cortados em ângulos retos ligando um aos outros. Não existe beleza no campo agora. Nós abolimos a beleza; isso interferia com a nossa igualdade. Não era justo que algumas pessoas pudessem viver em um cenário tão adorável, e outros em pântanos estéreis. Então nós fizemos tudo praticamente igual em todos os lugares agora, e nenhum lugar pode ser superior a outro agora.”

“Um homem pode emigrar para outro país?” Eu perguntei; “não importa que país — qualquer outro país serviria.”

“Oh, sim, se ele desejar,” responde meu companheiro; “mas por que ele deveria? Todas as terras são exatamente as mesmas. O mundo inteiro é o mesmo povo agora — uma língua, uma lei, uma vida.”

“Não há variedade, nenhuma mudança em qualquer lugar?” eu perguntei. “O que você faz por prazer, para se divertir? Existem teatros?”

“Não,” respondeu o meu guia. “Nós abolimos os teatros. O temperamento histriônico parecia ser absolutamente incapaz de aceitar os princípios da igualdade. Cada ator se considerava o melhor ator do mundo, e superior, na verdade, à maioria das outras pessoas, não era o mesmo no seu tempo?”

“Exatamente o mesmo,” eu respondi, “mas nós não ligávamos para isso.”

“Ah! Nós ligamos,” ele respondeu, “e, por consequência, fechamos todos os teatros. Além disso, a Sociedade Vigilante Faixa Branca disse que lugares de diversão eram perversos e degradantes, e sendo bastante enérgicos e prolixos, eles ganharam logo A MAIORIA sobre seus pontos de vista, e então todos os divertimentos são proibidos agora.”

Eu disse: “Vocês tem permissão para ler livros?”

“Bem,” ele respondeu, “não há muitos escritos. Como pode-se ver, devido a todos viverem vidas tão perfeitas, e não havendo nada errado, ou sofrimento, ou alegria, ou esperança, ou amor, ou dor no mundo, não há realmente nada para se escrever — exceto, é claro, o Destino da Humanidade.”

“É verdade!” eu disse, “Eu vejo isso. Mas o que dizer dos antigos trabalhos, os clássicos? Você tinha Shakespeare, e Scott, e Thackeray, e uma ou duas coisas minhas que não eram de todas ruins. O que vocês fizeram com esses?”

“Oh, nós queimamos todas aquelas obras antiga,” ele disse. “Elas eram cheias de antigas, incorretas noções dos maus tempos, quando homens eram meros escravos e animais de cargas.”

Ele disse que todas as pinturas antigas e esculturas também foram destruídas, parcialmente pela mesma razão, e em parte porque foram consideradas impróprias pela Sociedade Vigilante Faixa Branca, que tinha grande poder agora; enquanto toda nova arte e literatura foram proibidas, pois tais coisas tendiam a minar os princípios da igualdade. Elas faziam os homens pensarem, e os homens que pensam ficavam mais inteligentes que aqueles que não desejavam pensar, e aqueles que não desejavam pensar naturalmente se opuseram a isto, e sendo a MAIORIA, opuseram-se a este propósito.

Ele disse que, a partir dessas considerações, não eram permitidos esportes ou jogos. Esportes e jogos causavam competição, e competição levava a inigualdade.

Eu disse:

“Quanto tempo é que seus cidadãos trabalham a cada dia?”

“Três horas,” ele respondeu; “depois disso, todo o restante do dia pertence à nós mesmos.”

“Ah! isso era exatamente onde eu estava chegando,” eu observei. “Agora o que vocês fazem durante as outras vinte e uma horas?”

“Oh, nós descansamos.”

“O quê! Por inteiras vinte e uma horas?”

“Bem, descansamos, e pensamos e falamos.”

“Sobre o que vocês pensam e falam?”

“Oh! Oh, sobre como a vida deve ter sido miserável nos velhos tempos, e como nós somos felizes agora, e — e — oh, no Destino da Humanidade!”

“Vocês nunca ficam cansados disso, do Destino da Humanidade?”

“Não, não muito.”

“E o que você entende por isso? Qual é o Destino da Humanidade, em que você acredita?”

“Oh! — Por que — para continuar a ser como somos agora, ainda mais — todos mais iguais, e mais coisas feitas por eletricidade, e todos terem direito a dois votos em vez de um, e —”

“Obrigado. Isso já é suficiente. Existe alguma coisa em que você acredite? Você tem uma religião?”

“Oh, sim.”

“E você adora a Deus?”

“Oh, sim.”

“Como você chama ele?”

“A MAIORIA.”

“Só mais uma pergunta — Você não se importa se eu perguntar-lhe todas essas coisas, por sinal, não é?”

“Oh, não. Isso é parte das minhas três horas de trabalho para o Estado.”

“Oh, eu fico contente com isso. Eu não gostaria de sentir que estava invadindo o seu tempo de descanso, mas o que eu queria perguntar era, não existem muitas pessoas aqui que cometem suicídio?”

“Não, tais coisas nunca lhes ocorre.”

Eu olhei para os rostos dos homens e mulheres que estavam passando. Havia uma paciente, quase patética, expressão em todos eles. Eu perguntei onde tinha visto aquela expressão antes, ela parecia familiar para mim.

Subitamente eu me lembrei. Era só a silenciosa, imaginativamente turva expressão que eu sempre percebi nas faces dos cavalos e bois que nós usávamos para produzir e mantínhamos no velho mundo.

ESTRANHO! Como ficam fracos e indistintos os rostos que estão à minha volta! E onde está o meu guia? E por que eu estou sentado na calçada? E — Escute! Certamente é a voz da Senhora Biggles, minha velha senhoria. Será que ela também esteve dormindo há mil anos?

Ela diz que é doze horas — apenas doze? E eu não estou para ser lavado até às quatro e meia, e eu me sinto muito abafado e com calor, e minha cabeça está doendo. Hulloa! Por que eu estou na cama! Teria sido tudo um sonho? E eu estou de volta ao século XIX?

Através da janela aberta, ouço a pressa e rugido da batalha da vida. Homens estão lutando, lutando, conquistando cada um sua própria vida com a espada da força e da vontade. Os homens estão rindo, sofrendo, amando, fazendo coisas erradas, fazendo grandes obras — caindo, lutando, ajudando uns aos outros — vivendo!

E eu tenho um bom trabalho com mais de três horas para fazer hoje, onde eu deveria estar às sete horas, oh não! Eu gostaria de não ter fumado tantos charutos fortes ontem à noite!

FIM


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