in

A posição dos democratas diante da polarização entre dois projetos autocráticos

Comecemos com uma frase brilhante de Baruch Spinoza:

“O fim do Estado não é transformar os homens razoáveis em animais ou em máquinas, mas, ao contrário, fazer com que seu espírito e seu corpo cumpram em paz as suas funções, façam uso da razão livre, sem rivalidades de ódio, de cólera ou de astúcia, sem violências injustas. O fim do Estado é a liberdade”. 

É isto aí. Esta deve ser, a meu ver, a posição dos democratas diante de agentes autocráticos que queiram abolir ou restringir a democracia ou usar a democracia contra a democracia para subvertê-la:

O PT e Bolsonaro se enfrentam para se afirmar mutuamente. São opostos que se alimentam da contraposição belicosa e da perversão da política como continuação da guerra por outros meios. Ambos sabem que seus principais adversários somos nós, os liberais-políticos, quer dizer, os democratas, que não aceitamos que a política deva servir para a construção de inimigos e defendemos que ela seja, em vez de arte da guerra, a arte da paz.

Nós, os democratas, que prezamos a liberdade acima de tudo, somos contra qualquer atentado à vida e contra qualquer imposição voluntária de sofrimentos aos semelhantes, mesmo que estes semelhantes sejam agentes autocráticos; por exemplo, mesmo que tais adversários da democracia sejam Lula ou Bolsonaro.

Repudiamos qualquer violência praticada ou sofrimento imposto a Lula ou a Bolsonaro. A prisão de Lula não pode ter como objetivos colocar a sua vida em risco ou fazê-lo sofrer e sim impedir que ele continue praticando atos criminosos, pelos quais foi legalmente condenado. A vida de Bolsonaro é um bem supremo e é intolerável que seja colocada em risco por qualquer tipo de violência ou que ele seja vítima de sofrimento imposto, seja de caráter político ou não.

QUANTO A BOLSONARO

Não há, pelo menos até agora, nenhuma evidência sólida de que Bolsonaro foi vítima de um atentado político. Atentado político pressupõe sempre uma articulação de agentes, orientada por objetivos de natureza política, para eliminar a condição de ator político de alguém ou dificultar a sua atividade política. Até agora as todas as evidências apontam que ele foi vítima de uma violência injustificável, de um indivíduo com motivações pessoais, contrariado com Bolsonaro, não importa se religiosos ou políticos.

Mas se restar provado que Bolsonaro foi vítima de um atentado político, de crime com propósitos políticos, tramado ou encomendado por um grupo, organização ou partido político, os democratas, embora nada tenham a ver com isso, repudiaremos o crime. Como condenamos o ataque de que foi vítima, condenaremos ainda mais veementemente a ação político-criminosa, exigiremos medidas duras contra os autores do atentado político (se for um partido, deve ter seu registro cassado, se for um grupo informal ou uma entidade, seus responsáveis devem ser presos, processados e a organização extinta). Não obstante, continuaremos nos opondo a Bolsonaro em razão da natureza antidemocrática do projeto que ele encarna e representa.

QUANTO À LULA

Não há, pelo menos até agora, nenhuma evidência sólida de que Lula seja inocente dos crimes pelos quais foi acusado e condenado. Mas seja Lula condenado ou absolvido em última instância, esteja preso ou solto, continuaremos nos opondo a ele em razão da natureza antidemocrática do projeto que ele encarna e representa.

Nada disso significa torcer para que Lula e Bolsonaro sejam eliminados ou passem por sofrimentos. Lula e Bolsonaro devem ser derrotados politicamente pela democracia, quer dizer, pacificamente, não pela guerra.

Esta deve ser a posição dos democratas. Mas, significativamente, não está sendo a posição de petistas e bolsonaristas.

QUANTO AOS PETISTAS E BOLSONARISTAS

Os democratas estamos tomando o maior cuidado para não instrumentalizar politicamente o ataque violento contra Bolsonaro. E condenamos quem procede assim (seja do PT, do PSOL ou de qualquer partido). Enquanto isso, porém, bolsonaristas estrelados, como o tal General Heleno, até ontem da alta cúpula do Exercito, faz um pronunciamento solerte em que diz que o ataque foi um atentado político cometido pela esquerda, insuflando o clima de guerra. E o general Mourão, vice da chapa, chegou a dizer que o atentado foi, sem dúvida, cometido pelo PT.

Não vamos cair nesse truque da polarização. Não temos nada a ver com Bolsonaro e seus generais, nem com o ataque violento que sofreu. Mesmo se tiver sido um atentado político (não há evidências disso, até agora), não temos nada a ver com o petismo e não temos nada a ver com o bolsonarismo.

Nós, os democratas, não custa repetir, somos contra qualquer violência. Nos solidarizamos com Bolsonaro pelo brutal ataque que sofreu. Mas não achamos – como querem nos empulhar os bolsonaristas – que uma facada pode tornar corretas as ideias erradas de Bolsonaro. Se fosse assim, os atentados que sofreram, ao longo da história, vários ditadores (inclusive Hitler) teriam tornado corretas suas ideias desumanizantes ou teriam avalizado seus projetos antidemocráticos.

Os bolsonaristas, em especial – inclusive os filhos de Bolsonaro – estão tentando faturar politicamente com uma tragédia. Isso é sórdido. Isso é baixo. Isso é o fim da picada. O ataque a Bolsonaro foi um ataque à democracia, porque qualquer violência é antidemocrática, não porque Bolsonaro seja um democrata.

Como dissemos acima, há uma ética implícita na democracia: não atentar contra a vida e não infligir voluntariamente sofrimentos aos semelhantes. Isso vale para todos, até para os autocratas, sejam ditos de esquerda ou de direita: vale para Stalin e vale para Hitler, vale para Maduro e vale para Erdogan, vale para Lula e vale para Bolsonaro.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Como o petismo criou o bolsonarismo

A narrativa olavista-bolsonarista em 7 pontos, seguidos de breves contestações