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A principal tarefa dos democratas neste período

A honestidade é importante, mas trocar a democracia pela honestidade como valor universal sempre resultou em menos (nunca em mais) democracia

1 – Diz-se que a população está com raiva dos políticos. Sempre esteve, na verdade. Mas sua indignação maior, nos anos 2015 e 2016, era com o PT. Tanto é assim que houve o impeachment de Dilma, que jamais teria ocorrido sem as grandes manifestações de rua.

2 – Não foi a Lava Jato que derrubou o governo do PT (aliás, até hoje, nenhum dos valentes da força-tarefa se incomodou muito em investigar e denunciar os crimes daquela farsante que presidia a República brasileira: nem de Pasadena se fala mais) e ela – a madame Rousseff – está livre e solta por aí, pensando até em se candidatar novamente. A Lava Jato ficou mais ativa e saliente depois que as ruas se calaram e aí o que se viu foi um alinhamento ao Fora Temer originalmente petista. Armaram até uma pantomima, com o auxílio dos Freeboys Joesley-Wesley, com a conivência da ala esquerdista do STF, para dizer que os maiores bandidos do Brasil eram Temer e Aécio. Isso depois da demonização de Cunha (não que Cunha não fosse um mega-corrupto, mas na época isso foi urdido para tirar Lula do foco).

3 – Houve um deslocamento do alvo: do PT para os adversários do PT. De repente os ministros do Temer (muitos que também foram ministros de Lula e até de Dilma, o que raramente era lembrado) viraram os piores vilões da história. Enquanto Mercadante, Mantega e Edinho foram meio esquecidos, Eduardo Alves, Geddel e Moreira Franco foram marcados para morrer. O objetivo, diziam os faxineiros da política, era acabar com toda a corrupção, viesse de onde viesse, “sem corrupto de estimação” (slogan que foi inventado por petistas para uso dos trouxas e repetido sem parar por bolsonaristas).

4 – De repente, porém, igualou-se tudo. Pois tudo é crime, não é mesmo? Aceitar financiamento ilegal de campanha (com ou sem promessa de contrapartida) virou um crime tão grave quanto montar um esquema paralelo de poder para nunca mais sair do governo, estabelecendo uma hegemonia de longa duração sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido, operação que não apareceu até agora para os olhos do grande público. Lula foi condenado por uma merda de triplex, Dirceu, Delúbio e Vaccari por “mera” propina e o que eles fizeram de mais maligno, os crimes políticos contra a democracia que praticaram durante mais de uma década, de forma continuada e organizada, ainda são desconhecidos. Não! Grave mesmo não foi a tentativa de bolivarianizar o nosso regime político e sim Aécio ter pedido dinheiro às empresas (como se boa parte dos políticos não fizesse isso há décadas – ou séculos, em qualquer parte do mundo).

5 – Como resultado dessa operação, que demonizou a política e os políticos de uma maneira geral, quem sobrou? Os oportunistas truculentos, estatistas e autocráticos, especuladores políticos sem qualquer pudor, dispostos a faturar na crise: os populistas ditos de esquerda (como Ciro ou alguém do PT que vier a aparecer) e os populistas ditos de direita (como Bolsonaro). E, se qualquer um deles for eleito, com quem governará? Ora, se não derem um golpe de Estado terão de governar com o parlamento que será eleito em 2018, com os representantes imperfeitos e sujos que forem escolhidos pelo eleitorado (já que, como se sabe, os anjos, os arcanjos, os querubins e serafins andam em falta no mercado eleitoral). E mesmo os novos representantes honestos que forem eleitos, acabarão, em grande parte, mais cedo ou mais tarde, pela própria dinâmica de funcionamento do sistema, enveredando pelos esquemas ilegais de financiamento de campanha, de troca de favores e praticando corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização de quadrilhas e outros crimes. E as grandes empresas que participaram do esquema criminoso de poder do PT também continuarão aí, cumprindo o mesmo papel que sempre cumpriram, agora a serviço dos novos arranjos e dos novos senhores políticos.

6 – Claro que tudo isso que se chama genericamente de “corrupção na política” deve ser combatido permanentemente pelo Estado de direito, onde a lei deve valer para todos e ser aplicada tempestivamente. Mas esse é um processo que deve ser permanente e levará mais de uma geração para ser concluído, não o resultado de um putsch promovido por uma “liga da justiça”, por uma milícia legal, estatal-corporativa, como se fosse uma “revolução francesa” fora de época, que cortará centenas de cabeças e, quando não tiver mais forças para prosseguir, devorará seus próprios filhos e entregará a nação a um Napoleão. Eis aí o resultado do jacobinismo, do restauracionismo antagonista irresponsável e cafajeste que quer jogar tudo no chão para começar do zero (e se é mesmo do zero, com quem vão recomeçar?). Depois de tudo, de todo o carnaval de denuncias, investigações, delações, condenações, prisões e solturas, estamos a um passo de entregar o país a um napoleão de circo (ou de hospício: sim, esses caras são meio malucos mesmo), que nos despachará para um distante lugar do passado.

7 – Não vamos pular da condição de Somália para a de Noruega, nem de República Centro-Africana para a de Nova Zelândia (considerado o país menos corrupto do mundo) por efeito de uma cruzada “saneadora” promovida por um estamento do Estado (organizado corporativamente e sem controle externo efetivo, ainda por cima). Não é assim que funciona. Os níveis de corrupção (na sociedade e na política) são função inversa do estoque ou fluxo de capital social. Não teve Janot, Deltan e Carlos Fernando na Noruega ou na Nova Zelândia, nem articulações eleitorais da Polícia Federal ou dos militares (“da reserva”). O que houve foi, progressivamente, o avolumar de um espírito cívico ou de um “governo civil” (aquele de que falava Tocqueville) que coibiu socialmente esse tipo de comportamento.

8 – Com Ciro (ou qualquer um apoiado pelo PT) ou Bolsonaro, voltaremos em marcha batida ao século 20. E nenhum dos dois tem nada (pessoal ou politicamente) de novo: são oportunistas que há décadas estão na praça pulando de galho em galho para se dar bem na vida, trocando de partido como quem troca de camisa e, o que é pior, cujas cabeças jamais foram violadas pela ideia de democracia. Mas como a política foi transformada num caso de polícia, eles estão com a bola toda (porque não foram denunciados pela Lava Jato), como se ser honesto não fosse uma obrigação de qualquer cidadão, mas uma virtude suprema, capaz de conferir a um candidato a senhor de gente o direito de nos cavalgar.

9 – Dá vontade de dizer: vejam bem a merda que vocês fizeram, moralistas irresponsáveis, ao trocar a democracia pela honestidade como valor universal. Ao longo da história todas as tentativas semelhantes sempre resultaram em menos liberdade e menos democracia.

MAS INÊS AINDA NÃO ESTÁ MORTA

10 – Se nós, os democratas, acharmos que Inês já é morta, ou seja, que vamos cair inexoravelmente no cenário do horror – um estatista-neopopulista (dito de esquerda) x um estatista-populista-autoritário (dito de direita).- restam três alternativas: a) dar um tiro na cabeça; b) fugir pelas fronteiras; c) ir para Dagobah (que é um modo de dizer – para quem assistiu a série Star Wars – que será necessário resistir nas sombras e nos pântanos, preparando uma nova geração de políticos para assumir seu papel no futuro). Não acho que a vaca foi para o brejo, ainda. Por isso, penso que é preciso apostar todas as fichas na formação de um polo democrático e reformista, coligar todas as forças políticas do campo democrático (mesmo as oportunistas, como Alvaro Dias e até, no limite, as que não se desvencilharam do esquerdismo, como Marina) e marcar uma data (mais adiante, não agora – somente em agosto) para definir a chapa. Os melhores colocados, é claro, terão preferência (porque é impossível lutar contra os fatos). Mas todos os demais candidatos, além de fazerem um pacto de não-agressão dentro do campo, devem ser organizadores ativos do movimento democrático, do qual devem participar também os movimentos de rua (não-bolsonaristas, não-olavistas e não-intervencionistas, como o Vem Pra Rua e o MBL) e as personalidades políticas de destaque (como Freire, Cristovam, Gabeira, Eduardo Jorge etc.) e as pessoas comuns que nele queiram se filiar. De qualquer modo, o candidato, quando definido, deve apresentar logo – durante a campanha – seu ministério e demais cargos importantes com todos esses nomes. Sei que os velhos políticos não gostam disso: têm vocação cretina para reinar sozinhos, mas será o jeito. Se não for assim, voltamos para as três alternativas acima.

SE, ENTRETANTO, INÊS MORRER, NÓS CONTINUAREMOS VIVOS: E RESISTINDO

11 – Mesmo que tudo isso (se for feito) vier a ter poucas chances eleitorais, precisamos articular um campo democrático. Até para resistir a uma possível vitória de um estatista populista (dito de esquerda ou de direita). O mundo não vai acabar no final de 2018 e nós, os democratas, continuaremos aqui, fazendo o que sempre fizemos: resistindo à autocracia e atuando como agente fermentadores da formação da opinião pública. E vamos continuar afirmando: trocar a política (suja e imperfeita, feita pelos seres humanos realmente existentes, com todos os seus defeitos) pela justiça e pela polícia (supostamente providenciadas por campeões da moral e dos bons costumes), sempre, sempre, sempre, deu problema do ponto de vista da democracia.

Esta é a principal tarefa dos democratas neste período.


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