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A quinta mentira: os militares deram o golpe de 64 atendendo ao clamor da maioria da população

Em dois artigos publicados no site Dagobah – As mentiras dos idiotas que se dizem “de direita” e A quarta mentira: a guerra civil de 1964-1977 no Brasil – listei (e comentei) quatro mentiras sórdidas que estão circulando. São elas:

1) A de que não houve ditadura (o que equivale, mais ou menos, a negar o Holocausto).

2) A de que a ditadura no Brasil foi uma “ditamole” (já que matou menos gente do que as ditaduras de esquerda).

3) A de que houve ditadura, sim, mas que foi o único meio que os militares patriotas encontraram de evitar uma ditadura marxista ou comunista (e que foi bem feito ter perseguido, prendido, exilado, torturado, ferido e matado terroristas).

4) A de que o que houve foi uma guerra entre duas forças armadas.

Mas há, ainda, uma quinta mentira (não comentada nos citados artigos anteriores):

5) A de que os militares deram o golpe de 64 atendendo ao clamor da maioria da população.

Ao que se saiba a população brasileira nunca implorou por uma intervenção militar. Quem viveu aquela época – como eu vivi – não constatou nada disso. Claro que muitas pessoas estavam preocupadas com a instabilidade do governo João Goulart. Em alguns setores havia de fato um temor da radicalização à esquerda, sobretudo depois do célebre comício da Central do Brasil, em 13 de março.

Setores conservadores quiseram então dar uma resposta menos de uma semana depois, em 19 de março de 1964, fazendo uma grande marcha em São Paulo, batizada com o estranho nome de Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Esse movimento foi organizado pelo clero, por setores ruralistas e industriais (incluindo a FIESP) e outras articulações de mulheres católicas, tudo sob a orientação de um tal Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), dirigido pelo general Golbery do Couto e Silva, que centralizava uma verdadeira conspiração para derrubar o presidente Goulart por meio de um golpe de Estado.

Havia também outro aparelho, chamado IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), financiado com capital nacional e, sobretudo, dos USA, para combater o avanço do comunismo no Brasil (e este, sim, ao que tudo indica, com ligações com a CIA). Foi o IBAD que criou e sustentou a tal Ação Democrática Popular (ADEP), que tinha por missão recrutar, formar e lançar candidatos anticomunistas. Uma constelação de entidades fajutas, como a CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) e a UCF (União Cívica Feminina) – movimentos que usavam as mulheres, mas na verdade eram antifeministas – estiveram por trás das tais marchas pela família e com deus, que continuaram mobilizando setores conservadores das classes médias depois do golpe (passando então a ser chamadas de Marchas da Vitória) para tentar dar legitimidade popular à grave violação do Estado de democrático de direito que acabara de acontecer.

Tinha muita gente nas tais marchas pela família, com deus e, depois, nas marchas da vitória? Tinha, mas e daí? Marcha por marcha, Mussolini também marchou sobre Roma, em 1922, liderando uma multidão de crápulas para implantar o fascismo na Itália.

Dizer que isso representava a maioria da população brasileira é uma falsificação sem-vergonha. Expressava, sim, o incômodo de setores médios da sociedade brasileira com a esquerda, por certo, mas sem qualquer apreço pela democracia. Se prezassem a democracia escolheriam uma via legal e não um golpe de mão. O fato dos grupos marxistas e populistas de esquerda que os militares e civis aliados combatiam serem antidemocráticos, não lhes conferia nenhum caráter democrático (a despeito de usaram a palavra democracia para nomear suas entidades e iniciativas). E vice versa. Combater forças políticas autocráticas não é suficiente para se qualificar como democrata. A esquerda que combateu a ditadura, também não era democrática só por isso. Se os militares (e civis aliados) fossem democráticos e respeitassem o Estado de direito, defenderiam, por exemplo – como fizeram as grandes manifestações de 2015 e 2016 (muito maiores, aliás, do que as desses intervencionistas) -, o impeachment de Goulart. Ou tentariam lançar candidatos alinhados às suas visões às próximas eleições regulares (que não existiram porque o golpe militar aboliu a democracia).

Sim, a Constituição Federal vigente na época, a de 18 de Setembro de 1946, previa no seu Artigo 89:

“São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição federal e, especialmente, contra: I – a existência da União; II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e dos Poderes constitucionais dos Estados; III – o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; IV – a segurança interna do País; V – a probidade na administração; VI – a lei orçamentária; VII – a guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos; VIII – o cumprimento das decisões judiciárias.”

Se a avaliação dos descontentes com o governo Goulart era a de que essas disposições constitucionais estavam sendo desrespeitadas, deveriam ter feito uma mobilização (legal) para impedir o presidente e não depô-lo pela força (manu militari).

Não deixa de ser curioso constatar que o modus operandi dos conspiradores de 64 era muito parecido com o das organizações de esquerda que combatiam: construir aparelhos para mobilizar e conduzir as massas em prol de objetivos antidemocráticos. Claro que, depois, do lado dos que se consideravam anticomunistas, entraram também em cena os tanques e canhões, desequilibrando definitivamente o confronto. Mas, atenção! Não havia grupos armados de esquerda em atuação quando o golpe preemptivo dos militares foi desfechado. Não havia nem a guerra civil que, depois, tentou-se inventar para justificar a quartelada (a guerrilha do Araguaia só começou em 1967 e a maioria dos grupos da luta armada não tiveram atuação significativa antes do AI-5, já no final do ano seguinte).


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