in , ,

A resistência democrática e os próximos 1000 dias

Há 4 anos foi fundado, no Facebook, após a reeleição fraudulenta de Dilma Rousseff, o grupo público Dagobah (que chegou a contar com aproximadamente 4 mil integrantes). No início de 2016 surgiu o site Dagobah. O objetivo do grupo e do site mantém-se basicamente o mesmo: exercer a resistência democrática a qualquer projeto autocratizante, diga-se de esquerda ou de direita. Agora, porém, será necessário um upgrade, pelas razões expostas a seguir.

“Como a Verdade, o Erro adoradores conta. O filósofo aprova, ou adverte com calma. E, se o Erro triunfa, ele se afasta, e espera”. Este conselho está nos chamados Versos de Ouro de Pitágoras, provavelmente escritos por Lisis de Tarento (falecido por volta do ano 390 a. C.). Como democratas, recusamos o título de filósofos (e para entender isso é necessário estudar os sofistas), mas estamos chegando a uma situação em que o conselho pitagórico se aplica (pelo menos no que tange ao triunfo do erro). Claro que não vamos simplesmente esperar. Se tivermos um segundo turno Haddad x Bolsonaro (ou se algum deles vencer no primeiro turno), nossa tarefa principal vai ser ajudar a articular uma vigorosa resistência democrática no Brasil (uma resistência em rede mais distribuída do que centralizada).

Se houver uma avalanche de voto útil contra o PT, Bolsonaro pode, sim, vencer no primeiro turno. Será um voto inútil do ponto de vista da democracia. Para os democratas, não significa nada. Se houver segundo turno contra Haddad, também não teremos alternativa. Dá praticamente no mesmo. Os democratas somos contra o PT. Mas ser contra o PT por razões democráticas não é a mesma coisa que ser antipetista bolsonarista. Esse antipetismo está pouco ligando para a democracia. É contra o PT por razões antidemocráticas, i-liberais, populistas-autoritárias e moralistas. Portanto, estamos fora do cenário.

Já devemos pensar agora nos próximos 1.000 dias que serão dedicados à articulação de uma ampla resistência democrática, seja qual for o desfecho do pleito. Mesmo que, por uma fato extraordinário (hoje quase um milagre), um candidato do campo democrático venha a crescer nos últimos três dias, passar para o segundo turno e, como é o mais provável neste caso, vencer as eleições, mesmo assim teremos de resistir às oposições antidemocráticas e desestabilizadoras que serão impulsionadas pela esquerda e pela direita. A catástrofe já aconteceu: seja qual for o eleito, teremos mais instabilidade política e uma década de guerra civil fria pela frente.

Os democratas, porém, não devemos ficar desanimados. Somos – sempre formos mesmo – minorias. Mas somos muitos, mais do que a quantidade necessária de levedura para fermentar grandes massas. Mais do que a quantidade necessária de enzima para catalisar muitas reações em cadeia. Pois isto é o que somos: agentes fermentadores ou catalisadores da formação da opinião pública. E agora estamos aprendendo a nos reconhecer e a nos conectar. Ainda que sobrevenha a mais espessa escuridão, as redes de resistência democrática podem crescer escondidas, como clones fúngicos (uma imensa floresta subterrânea).

A saída, necessariamente de longo prazo, passa – ao que tudo indica – pela formação de clusters democráticos, sempre temporários, altamente interativos (intensamente tramados por dentro) e abertos, com muitos atalhos (ou ligações para fora). A democracia terá de ser encarada por nós não mais apenas como modo político de administração do Estado, mas como modo-de-vida e exercida em todos os lugares em que for possível desconstituir autocracia (nas famílias, nos grupos de amigos, nas escolas e universidades, nas igrejas, nas organizações da sociedade, nas empresas).

Nossa resistência, portanto, não pode ser apenas negativa, reativa. Ela deve ser criativa, proativa. Daqui para frente nossa pauta será a seguinte. Como sobreviver, viver, conviver e inovar numa época de desconsolidação democrática, de declínio do capital social e de reação exacerbada do velho mundo hierárquico à emergência da sociedade-em-rede? Qual o formato possível para novos empreendimentos sociais e empresariais distribuídos e democráticos num mundo que retrograda? Quando se abrirá uma nova “janela” e como devemos nos preparar para aproveitá-la?

Se você entendeu tudo isso de pronto, como que num estalo, num glance ou num blink, sem necessidade de fazer qualquer pergunta, saiba que estamos sintonizados e que, provavelmente, nos encontraremos em breve na rede: ou diretamente, ou por meio de nossos amigos, dos amigos de nossos amigos ou dos amigos dos amigos de nossos amigos (ou seja, com até três graus de separação).


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Seis teses furadas do bolsonarismo

Os que decidem não escolher entre PT e Bolsonaro, não estão falando sozinhos