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A situação está dramática para a democracia

A situação está dramática. O pior dos cenários tem grande chance de se configurar: uma polarização entre esquerda x direita, ambas autocráticas. Os democratas devem se preparar para resistir, por longo tempo.

Estamos neste momento diante de uma bifurcação perigosa. Entre a ousadia petista (que está se lixando para o Estado democrático de direito) e a titubeação tucana. Se Bolsonaro se mantiver estável e Haddad crescer, um pouquinho que seja, não é impossível que os tucanos pensem em namorar o segundo para evitar o desastre que seria a eleição do primeiro (sobretudo porque, sem conhecer Haddad, que nos seus escritos chegou até a elogiar o estalinismo, impressionados com sua polidez e aparente moderação, avaliam que ele é um mal menor).

Eles não veem que Haddad é o PT e que o PT não é menos perigoso do que Bolsonaro. A esquerda autocrática não é menos perigosa do que a direita autocrática. Para a democracia, Stalin não era menos perigoso do que Mussolini. Mao não era menos perigoso do que Hitler. Fidel, Maduro e Ortega não foram (ou estão sendo) menos perigosos do que (foram) Pinochet, Videla ou Medici.

Todos os projetos autocráticos são perigosos para a democracia. Quem foi (ou é) de esquerda (em alguns casos mesmo que tenha se convertido à democracia) tende a achar que a direita é sempre mais perigosa. Quem é de direita acha que todos os males do mundo vêm da esquerda. Por isso esse esquema interpretativo (esquerda x direita) é tão problemático. Ele toma como referencial ideologias e não a democracia.

Segundo se lê na imprensa, Fernando Henrique disse ontem (15/08/2018) à Jovem Pan que não descarta uma aliança entre PT e PSDB para derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno:

“Espero que o PSDB vá para o segundo turno e acho que o PT espera a mesma coisa, mas dependendo das circunstâncias, eu não teria nenhuma objeção a isso”.

Mas não é do segundo turno que se trata neste momento e sim da sinalização dada no primeiro. Se FHC disse isso mesmo, é mais um erro capital. Esta poderia ser até uma saída pensada por ele num eventual segundo turno, mas jamais deveria ser declarada agora, no primeiro turno.

É simples. Ao dizer que apoiaria Haddad num segundo turno contra Bolsonaro, FHC faz, objetivamente, a campanha de Bolsonaro no primeiro turno. Aliás, Bolsonaro já está deitando e rolando na fala insensata do ex-presidente. Veja o que ele tuitou hoje:

Alguns analistas, como Carlos Andreazza, também perceberam a trampa:

O petismo conseguiu realizar seu sonho dourado. Achou em Bolsonaro um Inimigo Público Número 1 (o seu Emmanuel Goldstein da distopia 1984 de George Orwell). Os tucanos, como sempre, estão caindo na esparrela. Mas o PT é tão perigoso para a democracia quanto Bolsonaro.

O PT partiu, definitivamente, para deslegitimar a justiça, quer dizer, o Estado de direito. Como dissemos desde o impeachment, vai investir no caos e, se preciso, desestabilizar o processo democrático durante o as eleições e depois. Não vai parar. Quer instalar um clima de guerra civil fria no país, se preciso durante uma década. Ao contrário do que alguns analistas estão dizendo, esta não é uma opção política válida em uma democracia.

O respeito às leis democraticamente aprovadas é o esteio do Estado de direito. Mas isso é uma condição necessária, não suficiente, para a continuidade do processo de democratização. O legalismo – a prevalência de uma interpretação literal da lei sobre as demais – pode acabar conspirando contra a democracia. Segundo a visão legalista, Lula foi preso sem provas, não deveria estar inelegível (já que a lei da ficha limpa, ela própria, não se harmoniza com a Constituição) e, mesmo preso, deveria ter o direito de fazer campanha, como se os prazos estabelecidos por um tribunal eleitoral se sobrepusessem às decisões da justiça penal em duas instâncias.

Se Lula aparecer no horário eleitoral a indignação será tanta que corre-se o risco de eleger Bolsonaro. Se Lula aparecer no horário eleitoral, aumentam em muito as chances de transferir votos para o seu poste (no caso, Haddad) e corre-se o risco de ter uma polarização PT x Bolsonaro. O cenário do horror.

Sim, estamos a um passo do cenário do horror. Em que nós, os democratas, vamos ficar falando meio sozinhos (ou quase). Somos (e sempre fomos) minoria mesmo. Mas, em várias ocasiões, conseguimos atuar como fermento na massa para evitar o pior. Agora o pior está se aproximando velozmente e ameaçando cair sobre nossas cabeças.

A situação está dramática. O pior dos cenários tem grande chance de se configurar: uma polarização entre esquerda x direita, ambas autocráticas. Os democratas devemos nos preparar para resistir, por longo tempo.


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