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A Venezuela não pode ser um pretexto para a guerra cultural contra o comunismo

É incoerente se opor ao regime vigente na Venezuela porque se trata de uma ditadura de esquerda. A Venezuela deve ser condenada porque é uma ditadura, não porque se diga socialista ou comunista. Do ponto de vista da democracia, todas as ditaduras devem ser condenadas, inclusive as que não são de esquerda e combatem o socialismo e o comunismo (como, por exemplo, as islâmicas).

Se o governo brasileiro quisesse condenar regimes porque não são democráticos teria de condenar não apenas a ditadura de Maduro, mas todas as cerca de 60 ditaduras sob as quais ainda vive a maior parte da população do planeta.

Sim, se queremos condenar ditaduras, a lista é grande. Em ordem alfabética: Afeganistão, Angola, Arábia Saudita, Argélia, Azerbaidjão, Barein, Belarus, Brunei, Burkina Faso, Burma (Mianmar), Camarões, Camboja, Cazaquistão, Chade, China, Comoros, Congo (Kinshasa | Brazzaville), Coréia do Norte, Costa do Marfim, Cuba, Djibuti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Eritreia, Etiópia, Fiji, Gabão, Gâmbia, Guine, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Irã, Jordan, Kuwait, Laos, Líbia, Madagascar, Marrocos, Nicarágua, Nigéria, Omã, Palestina (Faixa de Gaza sob controle do Hamas), Qatar, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Rússia, Síria, Somália, Suazilândia, Sudão, Sudão do Sul, Tajiquistão, Togo, Turcomenistão, Turquia, Uzbequistão, Venezuela, Vietnam, Yemen e Zimbábue.

Como o Brasil não pode fazer isso, por razões de realpolitik, sobretudo geopolíticas e econômicas, então deve deixar claro que se trata, neste caso, de uma questão humanitária em país de fronteira, que afeta diretamente o nosso país.

Assim, é correta a posição brasileira de condenar a ditadura de Maduro e reconhecer Guaidó. Mas é incorreto tratar um assunto de política externa como se fosse guerra contra um suposto comunismo (o regime venezuelano é, na verdade, apenas uma narco-ditadura militar) e é irresponsável criar condições para confrontos bélicos na fronteira. Nada de seguir as maluquices de Trump, nem cair nas suas armadilhas.

VAMOS SER UM POUCO MAIS RESPONSÁVEIS

A Venezuela é uma ditadura. Deve ser condenada. Mas os Bolsonaro estão aproveitando a chance para emplacar sua guerra anticomunista. O regime venezuelano é uma narco-ditadura militar e toda pressão pacífica de política externa é necessária para acelerar sua queda. Mas não guerra!

Irresponsáveis, os bolsonaristas apostam no confronto. E veículos de comunicação jacobinos – como O Antagonista – não deveriam entrar nessa vibe, animando uma torcida pela reação violenta do Brasil. Qualquer ator político responsável deve jogar água fria nessa fervura.

O Brasil está presente (com força militar) na fronteira por vários motivos legítimos: 1) obviamente, porque a Venezuela faz fronteira com nosso país e a situação do vizinho tem impacto em Roraima e em outros estados brasileiros, 2) porque lá há uma crise humanitária que requer nossa solidariedade e 3) porque somos uma democracia e, assim, condenamos qualquer ditadura (não apenas as de esquerda, como gostariam os delinquentes ideológicos ligados ao trumpismo). Mas deve evitar ter sua ação confundida com provocação.

Se o governo Maduro não tivesse apoio interno já teria caído. Ah! Mas ele é apoiado pelos militares, dirão alguns. Ué! Acreditando no discurso de Bolsonaro, achei que era apoiado pelos comunistas. Os mais de mil generais venezuelanos não são comunistas?

Repita-se. O governo da Venezuela é uma narco-ditadura militar com discurso socialista. Os militares de lá, que sustentam o regime, também dizem prezar, como excelsos valores, não o igualitarismo, a sociedade sem classes, o reino da liberdade e da abundância que alcançaremos no paraíso comunista, mas a ordem, a hierarquia, a disciplina, a obediência, a família, a religião e a pátria. Os militares daqui, que exaltam os mesmos valores, dizem que os de lá mentem, porque são corruptos. Os militares de lá dizem que os daqui mentem, porque são fantoches do imperialismo. Entendeu, caro leitor?

A coisa já começou a ficar ridícula. A tal ajuda humanitária, que seria justificável – sobretudo se a quantidade de alimentos, medicamentos e outros itens de primeira necessidade fossem volumosos o suficiente para, pelo menos, amainar a situação de carecimento da população venezuelana – acabou virando uma escaramuça, uma provocação ao regime de Maduro.

Querem uma prova? O conteúdo dos caminhões que saíram do Brasil chegou aos seus destinatários? Não? Então como a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência pode afirmar o êxito da “ajuda humanitária”?

DESVELANDO A IDEOLOGIA MILITAR

Não deixa de ser irônico ver alguns democratas pedindo uma intervenção militar interna na Venezuela para depor Maduro e alguns autocratas pedindo intervenção militar externa com o mesmo propósito. Ora… qual a lição disso tudo? É óbvia: os militares não devem se meter em política! Mas eles não aprendem e se metem.

Pode-se argumentar que não há solução democrática para a Venezuela porque o regime não é uma democracia e sim uma narco-ditadura militar. É verdade. Mas isso significa que os venezuelanos têm de derrubar a sua ditadura militar e é desejável que, no bojo desse movimento, muitos militares acabem desertando.

Mas vejam que curioso. Ao fazerem isso os militares desertores estarão rompendo com todos os valores militares, como a ordem, a hierarquia, a disciplina, a obediência, a fidelidade à religião da pátria.

Os militares brasileiros, que agora esperam uma sublevação dos militares venezuelanos, em afronta aos seus excelsos valores da caserna, concordariam com uma sublevação – em nome da democracia – dos seus comandados na época da ditadura militar que foi instalada no Brasil pelo golpe de 1964? Parece que não! Reafirmariam os valores da ordem, da hierarquia, da disciplina, da obediência e prenderiam ou matariam os revoltosos ou desertores, considerando-os traidores da pátria.

Isso significa que, por trás (ou acima) desses valores exalçados ad nauseam pela mentalidade militar, existe uma ideologia, uma visão de mundo, que não é democrática.

Desenhando. Vamos pegar alguns exemplos históricos de ditaduras. Se os militares cubanos, coreanos-do-norte, angolanos, soviéticos, chineses, cambojanos, dessem um golpe para depor o ditadores Castro, Kim Il-sung, Agostinho Neto, Brejnev, Mao, Pol Pot, estaria valendo. Se os militares portugueses, espanhóis, chilenos, argentinos, uruguaios e brasileiros dessem um golpe para depor os ditadores Salazar, Franco, Pinochet, Videla, Bordaberry e Médice, ôpa!, aí não estaria mais valendo. Ou seja, contra ditaduras comunistas vale a intervenção militar, mas contra ditaduras anticomunistas não vale.

Os militares brasileiros não têm problema com ditaduras e tanto é assim que instalaram uma no Brasil. Eles têm problemas com ditaduras comunistas, mas – em geral – absolvem as anticomunistas. Ora, do ponto de vista da democracia, não interessa se a ditadura é comunista, fascista, nazista, militarista-secular, religiosa-fundamentalista ou anticomunista e sim que não é uma democracia.

P. S. COMO QUERÍAMOS DEMONSTRAR

Publiquei hoje cedo trechos do artigo acima no Facebook, mostrando que o regime atual da Venezuela é uma narco-ditadura militar, que deve ser condenada pelas democracias, mas que isso não pode ser pretexto para reeditar uma guerra cultural anticomunista. Aí veio um gaiato e fez o seguinte comentário:

Marcelo Morais – “O Sr. devia ter vergonha de apoiar estes governos que vive oprimido a sua população e proibindo de serem livres. O Sr, e um imoral. Nem deveria ter a liberdade de se pronunciar”.

Respondi assim:

Augusto de Franco – “Você sabe ler? Está parecendo que não. Vou deixar aqui seu comentário. Ele pode ser o conteúdo para um programa inteiro de aprendizagem sobre a democracia”.

Comento agora.

Segundo o tal Marcelo Morais eu “nem deveria ter a liberdade de [me] pronunciar”. Ou seja, o comentário do sujeito comprova o que disse no artigo: que os reacionários bolsonaristas que agora se levantam contra a Venezuela não o fazem por prezar a democracia e sim porque são autocratas anticomunistas. A democracia é, fundamentalmente, liberdade de opinião, de ter e proferir opiniões.

C. Q. D.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Clipping de 24/02/2019 – A intervenção militar legal no Brasil

Décima reflexão terrestre sobre a democracia