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Adeus Michel Temer

O governo Temer já acabou há algum tempo. Quem manda e desmanda no Planalto são os militares bolsonaristas. Eles, para dar um exemplo, é que estão montando a pantomima do maior esquema de segurança da história do Brasil para a posse de Bolsonaro depois de amanhã. Temer, coitado, só assina.

Mas agora, que Temer saiu, convém dizer algumas palavras sobre o seu tão detratado quanto brevíssimo governo. Temos de fazer isso por uma questão de justiça. Quem tem um pingo de honra, não entra na onda da demonização do ex-presidente para não desagradar as maiorias, a turba açulada pelos oportunistas, pelos meliantes políticos de esquerda e pelos moleques bolsonaristas.

Com efeito, todo mundo quis se desvencilhar de Temer – até alguns de seus amigos e auxiliares – quando ele virou alvo de um ataque político especulativo, operado pelos irmãos Joesley-Wesley, da Friboi, comandado por Janot, apoiado por Fachin e divulgado com estridência e persistência pela Rede Globo e pelo jornalismo cafajeste de O Antagonista (ou seria O Bolsonarista?; ou seria o Pravda?).

Claro como a luz do dia que isso veio a serviço da candidatura Bolsonaro, em aliança tácita com o PT (que bolou originalmente o lema Fora Temer). Os bolsonaristas porque envolvidos em uma cruzada de limpeza ética, apresentando o único candidato honesto do planeta (não se conhecia à época as lambanças do arrecadador Queiroz), nadaram de braçada na demonização de Temer, que até virou comunista, para provar que a corrupção globalista comandava o governo. Os petistas porque queriam emplacar a falsa versão de que o impeachment foi golpe, operado pelo traidor Temer (seu vice-presidente duas vezes), para voltar ao poder em 2018. O bolsonarismo levou a melhor (surfou no Fora Temer e fez dele uma espécie de Fora-Establishment populista-autoritário).

Até jornalistas sérios como o Fernando Gabeira e o Merval Pereira, entraram na onda do “joga bosta em Temer”, como se ele, em algum sentido, se destacasse da velha política fisiológica que sempre prevaleceu no país. Mas ninguém respondia claramente à pergunta: qual foi, afinal, o crime de lesa-humanidade ou de lesa-pátria de Temer? Ainda não se sabe. Talvez só fiquem satisfeitos depois que o ex-presidente constitucional for parar na Papuda ou em algum presídio paulista. Para quê? Também não se sabe.

Se Temer cometeu crimes, que seja por eles responsabilizado. Mas o que houve com ele foi uma demonização de caráter político, não um processo legal. Já publiquei vários artigos sobre o tema, na contra-corrente do moralismo reinante. Leiam agora um corajoso artigo do Joel Pinheiro da Fonseca, publicado na Folha no dia de Natal.

Temer entrega o país muito melhor do que o recebeu

Joel Pinheiro da Fonseca, Folha de S. Paulo, 25/12/2018

Fracasso na opinião pública, presidente recolocou o Brasil nos trilhos

Michel Temer recebeu um país atolado e sem rumo. Usando das ferramentas da política tradicional brasileira, recolocou o Brasil nos trilhos e agora o entrega muito melhor do que o recebeu. Este é um bom momento para apreciar seu legado.

Temer assumiu o governo com uma prioridade clara: consertar a economia, desfazendo o estrago dos anos Dilma e endereçando um problema estrutural de nossas contas públicas: a trajetória explosiva de gasto que, se não for controlada, enterrará o país. Para isso, cercou-se de uma equipe econômica de primeira linha.

Com o teto de gastos, colocou um limite legal à expansão do gasto público e conectou as aspirações do Estado à realidade mais elementar: dado uma quantidade finita de recursos, para se gastar mais de um lado é preciso gastar menos do outro.

Acabou com a farra do juro subsidiado do BNDES para grandes empresas (pago, é claro, pelo contribuinte). A nova taxa do banco, a TLP, reduzirá progressivamente os subsídios.

A reforma trabalhista tem reduzido drasticamente a quantidade de novos processos trabalhistas, uma das grandes distorções da economia brasileira, que dificulta o empreendedorismo e mantém o desemprego alto sempre que a economia não está aquecida.

Na educação, a reforma do ensino médio garantirá currículos obrigatórios mais enxutos, dando mais flexibilidade para diferentes casos e necessidades. Além disso, é um passo importante na direção do ensino de tempo integral.

A lei das estatais garante mais profissionalismo e menos aparelhamento político das empresas públicas. E, para fechar com chave de ouro, ainda abriu o investimento internacional em empresas aéreas, o que ajudará a dinamizar um setor muito problemático.

Os resultados são visíveis. Temer entrega um país com inflação e juros baixos, em crescimento econômico. Desemprego e endividamento das famílias estão em queda. Subimos posições no ranking da facilidade de se fazer negócios. Estamos prontos para crescer.

Para isso, Temer jogou o jogo da velha política, mesmo sabendo que ela é vista como o grande mal do país. Soube negociar cargos e verbas para aprovar suas medidas e se manter no poder mesmo com os ataques a que foi submetido. Garantiu o apoio do funcionalismo público com aumentos generosos. Bem-sucedido nos resultados, foi um fracasso na opinião pública.

Os meses de maio lhe foram cruéis: em 2017, a gravação de Joesley. Em maio de 2018, veio a greve dos caminhoneiros. Em ambos os casos, a capacidade de negociar —e não de fazer bravatas junto à opinião pública— o salvou.

Sua grande falha foi não ter aprovado a reforma da Previdência. Mesmo assim, ele deixa o trabalho já pronto para seu sucessor. O projeto não é perfeito, mas faz o essencial: institui uma idade mínima e acaba com o regime de privilégios do funcionalismo. A discussão com o Congresso e com a sociedade já foi feita, as falácias que antes circulavam (por exemplo, que não existe déficit) já foram definitivamente refutadas. Só falta votar.

Para mim, mais do que ser “velha” ou “nova”, a política tem que funcionar. A gestão Temer, dentro dos limites de tempo, opinião pública e pressão política que encontrou, funcionou. Bolsonaro receberá de suas mãos um generoso presente de Natal, e o Brasil, ainda que ingrato, sai beneficiado de seu governo.

É isso aí. A Deus, Michel Temer!


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Sobre o mega-esquema de segurança para a posse de Bolsonaro: segurança coisa nenhuma!

Yuval Harari e O Mito da Liberdade