in

Algumas lições básicas de democracia às vésperas de uma bifurcação maligna

Estamos diante de uma bifurcação maligna para a democracia. Os competidores mais bem colocados, a 24 horas do pleito, representam duas forças políticas adversárias da democracia: o populismo-autoritário de Bolsonaro e o neopopulismo lulopetista de Haddad.

A rigor, nem Bolsonaro é fascista, nem Haddad é comunista (isso já faz parte do anacronismo do discurso de quem quer nos levar para algum lugar do passado). Bolsonaro e Haddad são populistas e os populismos i-liberais e majoritaristas são hoje, no mundo e no Brasil, os principais adversários da democracia. Ou seja Bolsonaro não é Hitler e Haddad não é Stalin. Mal-comparando, estão mais para Viktor Orban e Daniel Ortega, respectivamente.

Não há saída democrática nesta bifurcação. Não há opção “menos pior”. Não há “mal menor”. Tudo isso é imaginário. Não podemos saber qual desastre seria mais nocivo ao regime democrático. Mesmo porque o desastre já aconteceu. A campanha já deformou o campo social e o que temos hoje é guerra – não política – entre dois contingentes que se deslegitimam mutuamente.

Sobre isso, publiquei ontem, no grupo aberto Dagobah, do Facebook, algumas lições básicas de democracia que chamei de “Democracia para jardim de infância”

DEMOCRACIA PARA JARDIM DE INFÂNCIA

Não existe democracia sem oposição. Nas democracias representativas os eleitores não escolhem apenas a situação, mas também a oposição. Ambas são legítimas, quando aceitam a legitimidade da vitória e da derrota. E quando se dispõem, terminado o pleito, a regular seus conflitos pacificamente (quer dizer, de modo não-guerreiro).

Quando há polarização e um dos polos ou os dois polos não acatam o critério democrático da aceitabilidade da derrota, mas praticam a política como continuidade da guerra por outros meios contra seu adversário, que tomam por inimigo, então a democracia fica comprometida.

Se a força política derrotada, terminada a eleição, não aceita o resultado e pede a deposição do vitorioso por meios extra-institucionais (por exemplo, organizando um movimento Fora Fulano) temos um problema que denota que as eleições foram usadas apenas como um meio de chegar ao governo (ou de tomar o poder), quer dizer, que a democracia está sendo usada contra a democracia.

O mesmo ocorre se a força vitoriosa, em vez de conversar e negociar com o força derrotada, aproveita sua situação de poder e usa o Estado para destruí-la.

Eis a situação em que estamos.

Menos de uma hora depois li, no site O Antagonista, insuspeito por sua adesão a Bolsonaro, a seguinte notícia:

O general Hamilton Mourão disse a Crusoé que seu cabeça de chapa, Jair Bolsonaro, só não ganhará no primeiro turno se houver fraude no processo de totalização de votos no TSE.

Pareceu-me uma confirmação. Está clara a deslegitimação do opositor – e do processo – caso Bolsonaro não seja eleito (e em primeiro turno). O mesmo se verifica do lado do lulopetismo, que já declarou, inúmeras vezes, que Eleição Sem Lula é Fraude (a não ser se Haddad ganhar).

Uma pessoa, chamada Rosenvaldo Simões de Souza, postou então o seguinte comentário (no grupo Dagobah):

Se a direita quisesse tomar o poder sem o uso do voto, bastaria colocar os tanques nas ruas em qualquer dia do ano e pronto, tem-se o poder pela força das armas. Sem legitimidade internacional, é claro, mas teriam o poder de fato.

Já a esquerda bem que gostaria, mas não tem esse meio. Se tivesse, não hesitaria em usá-lo. Assim, foi obrigada a chegar ao poder pelo voto. Uma vez no poder, não hesitaria em usar a força para manter-se no poder (Maduro e os Castros que o digam). Mas não controlam as forças armadas, ao menos aparentemente.

Mas as urnas estão nas mãos da esquerda. Por que acreditar que não seriam usadas para a permanência da esquerda no poder?

Para quem usou gulags, campos de concentração e de extermínio, e promoveu genocídios diversos para manter-se no poder, o que são meras urnas fraudadas?

A direita poderia fraudar as urnas, se pudesse, mas não pode. Poderia usar as armas? Poderia, mas não quer.

A direita, se não ganhar, pode tentar novamente daqui a quatro anos, se houver eleições até lá.

A esquerda, publicamente corrompida e sujeita ao fim do foro, sabe que se perder, irá para a cadeia. Então, diante da decisão entre morrer preso e fraudar urnas, por que achar que um corrupto optará pela prisão?

Seria muita ingenuidade da direita não se precaver contra uma eventual possibilidade de fraude nas urnas.

Sem dúvida, foi outra confirmação.

Respondi assim:

Não existe “a esquerda” e “a direita”. Existem forças políticas que se dizem “de esquerda” e “de direita”. O comentário dá a impressão de que existe uma (única) direita, mítica, que tem as forças armadas ao seu lado e que só não dá um golpe porque não quer. Sinceramente, isso é uma tolice sem tamanho.

Outra bobagem deste comentário é dizer que “a esquerda” tem as urnas nas mãos? Como assim? Todo o TSE é composto pela “a esquerda”? Os últimos presidentes do tribunal faziam, todos, parte de “a esquerda”, inclusive o Gilmar?

E que ideia é esta de que “a esquerda… se perder, irá para a cadeia”? Quem irá para a cadeia? Os que estão na esquerda estão na cadeia?  Cabral, Cunha e Geddel são “a esquerda”? Temer faz parte da esquerda? Bolsonaro colocará a esquerda na cadeia?

É nisso que dá a ideologia olavista-bolsonarista. Numa visão de guerra entre duas entidades imaginárias que dominariam o mundo na base de “a esquerda” x “a direita”. Lamentável.

Pois é. O analfabetismo democrático é, em grande parte, o culpado por estarmos na situação atual: sem saída propriamente política e sem esperança para a democracia, pelo menos no curto prazo.

Amanhã vão acontecer eleições – ditas democráticas – no Brasil. Por certo a eletividade é um dos critérios democráticos, conquanto não seja o único: do contrário ditaduras não promoveriam eleições. Mas eleições podem ser usadas contra a democracia quando a política é tomada como continuidade da guerra por outros meios.

É o caso.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Quando se cede ao argumento do “mal menor” é porque já se transigiu com o mal

A catástrofe não vai acontecer: ela já aconteceu