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Algumas razões para os que não gostam de política se ocuparem com a política

Uma reflexão dedicada a meus amigos e amigas inovadores que não gostam de se meter em política

Muitos amigos e amigas, pessoas inovadoras com as quais me relaciono e trabalho, nunca entenderam bem por que me ocupo tanto da velha política, sobretudo da política conjuntural do Brasil dos últimos anos. Por que me meto nessa barafunda de acusações, delações, prisões que promoveram à condição de atores políticos – e eleitorais – procuradores e juízes. Por que gasto tanto tempo denunciando que a organização política criminosa que comanda o PT está praticamente intacta, apesar das cruzadas de limpeza promovidas por uma espécie de “liga da justiça” em que se transformou parte da Lava Jato. E, enfim, por que estou tão apreensivo com o resultado eleitoral de 2018?

Vou tentar explicar. Penso que corremos sérios riscos de retrocesso no processo de democratização do Estado e da sociedade brasileira. Estão presentes no cenário político atual do país forças políticas estatistas autocratizantes, ditas de esquerda, de direita, ou apenas moralistas-autoritárias (insufladas por ideias de pureza, mas igualmente estatistas). Ora, como sou um democrata, não posso fechar os olhos para esses perigos. Desistir de resistir à autocracia é desistir da democracia.

Não adianta ficar sonhando com um regime futuro ideal de plena liberdade. A democracia é sempre a liberdade que se pode ter hoje e não um reino da liberdade que se poderia ou deveria alcançar amanhã.

Muitas pessoas – inclusive minhas amigas de longa data – acham que não vale a pena se meter nessa confusão. Mas a democracia é a confusão, não a ordem. Quem quer ordem, previsibilidade, tranquilidade para encontrar sempre cada coisa no seu lugar, deve almejar regimes comandados por bons senhores, honestos e sábios – imaginando que eles não se meterão muito nas suas vidas privadas. É isso, aliás, o que almeja a maioria das pessoas que não se importam com a política.

Nós, os democratas – que sempre fomos minoria, até mesmo no berço ateniense da democracia, há cerca de 2.500 anos e continuamos sendo minoria hoje – não podemos pensar assim. A democracia foi a principal – e, mais do que isso, talvez a única – brecha aberta na cultura patriarcal, na civilização dos predadores e senhores na qual viveu e ainda vive a maior parte da humanidade. A democracia não é apenas um modo político de administração do Estado e sim a possibilidade de um emocionar não-guerreiro (diferente do modo guerreiro, que constrói e mantem inimigos como pretexto para erigir padrões hierárquicos de organização regidos por modos autocráticos de regulação de conflitos) que desencadeia comportamentos colaborativos, amistosos, humanizantes. Esse emocionar também permitiu a expansão do pensamento e o que chamamos de filosofia e ciência, tais como as conhecemos, não teria podido se desenvolver em regimes onde há apropriação da verdade por parte de poderosos imbuídos de doutrinas, religiosas ou laicas, que funcionam como filtros para transformar caos em ordem, mas não ordem emergente e sim uma ordem pregressa, prefigurada antes da interação.

O pensamento humano – ou o que chamo de inteligência tipicamente humana – precisa de liberdade, mas não da liberdade utópica, anunciada para um amanhã que canta, e sim da liberdade hoje. Qualquer restrição da liberdade hoje significa menos espaço para a criatividade e a inovação hoje (e, afinal, só temos o hoje). Assim, não é irrelevante, para quem se dedica a experimentar novos modos de vida e convivência social ou a formular conceitos sobre mundos mais humanos ou a investigar alternativas ao velho mundo em que ainda vivemos, se há ou não há retrocesso nas liberdades políticas e civis que temos hoje. Ou seja, os inovadores, em todos os campos, não podem achar que esse assunto (a chamada velha política) não é com eles, que tudo isso é apenas remanescência de um mundo que imaginam que já passou apenas porque não desejam mais viver nele.

Não! Infelizmente todos ainda vivemos, em grande parte, nesse velho mundo e não é a mesma coisa se o Brasil vai ser governado de novo por um neopopulista (dito de esquerda), por um populista-autoritário (dito de direita), por um estatista iliberal ou por um democrata-formal (mesmo extraído da velha política). As três primeiras opções significam enfreamento, em alguma medida, do processo de democratização e, consequentemente, restrições à liberdade.

E não é também a mesma coisa se no mundo atual vai ou não vai recair na guerra fria, ensejando o crescimento do neoexpansionismo russo (e o neoeurasianismo) de Putin e do jihadismo ofensivo islâmico e das ditaduras. Essas coisas afetarão, inevitavelmente, a nossa vida cotidiana, inclusive a vida daqueles que não gostam de política e não querem perder tempo com isso porque acham que se trata de algo velho, que já morreu, e eles querem antecipar futuros melhores.

O que estou dizendo é que não é assim. Estou afirmando que os seus pensamentos, as suas pesquisas, as suas criações artísticas, científicas, filosóficas e, inclusive, os seus relacionamentos, são e serão afetados por essas coisas. Que não adianta fechar os olhos para elas desaparecerem. Que não resolve nada não opinar sobre esses assuntos para não ficar mal na rodinha, para não criar desavenças com antigos amigos, porque a geração de inimizade depende de um campo social que não é configurado por um sujeito ou por um grupo selecionado com um bom propósito e sim pelo entrechoque de miríades de opiniões, campo sobre qual não se pode operar a não ser pela política. Seu desejo de escapar da política não é suficiente para que a política não afete tudo que você faz. Ou seja, você pode sair da política, mas a política não abandonará você, nem lhe deixará escapar para qualquer mundo imaginário imune à sua influência.

Vamos, no entanto, dar um passo além na nossa reflexão. O que é, realmente, que chamamos de política? É um tipo de interação entre seres humanos por meio da qual pode-se construir socialmente a esfera pública (o commons, no sentido político do termo, não apenas no seu usual e restritivo sentido econômico). Se os seres humanos não forem livres para interagir, para conversar entre si em escala ampliada, polinizando mutuamente suas opiniões, não há política. Por isso a política propriamente dita é apenas a política democrática: aquela que é feita por seres humanos na ausência de um senhor. Quando há um senhor, a rigor, não há política e as pessoas são súditas, não cidadãs. Súditos não são seres políticos. E por isso a “utopia” da democracia é a política (e não o inverso).

Entretanto, a autorregulação societária ensejada pela democracia (ao contrário da heterorregulação, típica das autocracias), não pode acontecer se os assuntos comuns são privatizados por algum autocrata e fica extremamente dificultada se o campo social é deformado pela presença de atores com poderes regulatórios aumentativos em relação às pessoas comuns por razões extrapolíticas; por exemplo, por um líder (um ditador, um déspota, um tirano, um duce, um führer ou mesmo um mero candidato a condutor de rebanhos, neopopulista ou populista-autoritário) com alta gravitatem. Quando isso acontece há uma espécie de colapso nas conexões da rede, diminuindo a sua distribuição ou aumentando a descentralização (pela multiplicação do número de intermediários obrigatórios, quer dizer, expandindo a burocracia), desmanchando ou reduzindo os espaços comuns (que passam a ter “donos”: sejam formais, legais ou informais, partidários ou seguidores do líder). Isso não acontece somente nos ambientes nominalmente públicos, mas também nos privados. Todas as organizações do Estado e da sociedade ficam menos permeáveis aos fluxos interativos da convivência social. Dos órgãos governamentais, passando pelas demais instituições estatais, pelas universidades e escolas, pelas organizações da sociedade civil, pelas empresas, até chegar às formas de sociabilidade mais básicas como as famílias e os grupos de amigos.

A política pervertida como arte da guerra (ou continuação da guerra por outros meios) altera a configuração do campo social de maneira global, alcançando também as configurações particulares das numerosas formas de convivência, das comunidades de vizinhança, de prática, de aprendizagem e de projeto. O fazer científico, o ensaiar filosófico, as aventuras desnecessárias do lazer, do brincar e o ócio criativo, os diferentes modos de contemplação e devoção, o trabalho, o empreendedorismo e a inovação – tudo isso é afetado com a perturbação do campo social introduzida pela guerra (e não apenas pela guerra quente, quer dizer pela violência com derramamento de sangue, mas igualmente pela guerra fria e pela política exercida como guerra).

Como constataram os que vivem em sociedades em transição autocratizante (para citar exemplos recentes de países sob esse processo: a Rússia, a Turquia e a Venezuela) o “clima” é alterado, não apenas nas ruas e praças, mas no interior das organizações e, inclusive, nas casas. O “clima” da Rússia sob Putin, da Turquia sob Erdogan e da Venezuela sob Chávez-Maduro se alterou. E até em países que não podem ser considerados ditaduras, mas protoditaduras ou regimes democráticos parasitados por forças populistas manipuladoras, o mesmo acontece em alguma medida. O “clima” da Nicarágua após a volta de Ortega se alterou, assim como o da Bolívia sob Evo e do Equador sob Correa-Moreno, assim como o da Hungria sob Viktor Orban, como o da Eslováquia com a presença do Smer de Robert Fico, como o da Polônia sob a atuação do partido Lei e Justiça (PiS) dos irmãos Jaroslaw e Lech Kaczynski e assim como o do Brasil durante a ascensão e enraizamento do PT em vários ambientes sociais e com o comando do governo nas mãos de Lula-Dilma.

As alterações do que estamos chamando aqui de “clima” (mais ou menos no sentido de “clima organizacional”, até há pouco grande preocupação das empresas que faziam pesquisas de clima interno) se fazem sentir em todos os lugares, não apenas no aparelho de Estado, mas também na sociedade. Não é coisa da política institucional, que só deve preocupar os políticos profissionais. O primeiro lugar onde elas se fazem sentir é, talvez, a universidade, mas elas também são sentidas nas escolas, nas organizações não-governamentais e nas associações civis, nas corporações sindicais e assemelhadas e nos chamados movimentos sociais, nos meios de comunicação, nos setores artísticos e culturais et coetera. Seu aparelhamento por parte de partidários ou fiéis, assim como a influência desses militantes no funcionamento cotidiano de todas essas instituições e entidades, modifica necessariamente o tom do emocionar social, introduz novas circularidades nas conversações correntes e, inevitavelmente, altera comportamentos e fluxos recorrentes de pensamentos. Pessoas são aproximadas ou afastadas do convívio – e até deslegitimadas – com base em uma “nova cultura” que passa a ser aceita como a única válida. Isso não é uma divagação ou uma especulação: qualquer professor não-marxista da área de humanas de uma universidade federal no Brasil pode atestar – em geral, com algum sofrimento pessoal – o triste fenômeno.

Onde há restrições à liberdade, por menores que sejam e independentemente de sua proveniência – seja da parte de governos ditatoriais de esquerda ou de direita, seja pela presença de líderes iliberais (no sentido político do termo, quer dizer não-democratas ou anti-democratas), sobretudo, nos dias que correm, por atores neopopulistas ou populistas-autoritários – é porque houve deformação do campo social. O problema é que a configuração do que chamamos aqui de ‘campo social’ não pode ser alterada a não ser pela política. O campo é imune a qualquer tipo de reengenharia social, é resistente à mudança pelo exemplo de pequenos grupos e pela contracultura gerada em comunidades alternativas e não se abala com a ação, conspirativa ou propagandística, de sociedades e fraternidades mais ou menos esotéricas. Também não adianta travar guerras culturais, nem empreender cruzadas de limpeza se nada disso não desembocar na política (não na política ideal, desejada como futuro, e sim na política realmente existente). Por isso até mesmo os jacobinos que surgiram no Brasil, na esteira da Lava Jato, sabem que deverão apostar, oculta ou abertamente, num candidato nas eleições de 2018 (mesmo que seja este o iliberal Joaquim Barbosa ou a neopopulista que remanesceu nas franjas do PT chamada Marina Silva).

Resumindo, espero que vocês entendam essas razões para os que não gostam de política se ocuparem com a política, mas quero ainda fazer um alerta final para aquelas almas sensíveis que odeiam desacordos e não querem que a política atrapalhe suas vidas privadas. Vocês não vão perder amigos se passarem a ser atores políticos: vocês já perderam, antes, ao não se importarem com a política. Pois se seus amigos são capazes de lhes discriminar ou de não retribuir o mesmo reconhecimento social, que vocês a eles dedicam, por razões políticas, pelo simples fato de vocês estarem proferindo opiniões políticas contra-majoritárias, destoantes daquelas que são hegemônicas nos meios onde eles (e vocês) vivem, então é sinal de que o campo, a vibe, o “clima” já foi alterado. Não adianta mudar de assunto ou não tratar do assunto, porque o mal – e mal, para a democracia, é tudo que nos faz menos livres – já está presente. É um alerta para que vocês resistam.


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