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Anatomia do bolsonarismo

Um resumo em 11 pontos da desfaçatez, da hipocrisia e da covardia dos bolsonaristas

1 – São antipetistas radicais, sim, mas de undécima hora. Os bolsonaristas, em sua maioria, não conseguem dizer onde estavam (e o que faziam em relação ao domínio petista) em 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010… Só se animaram a colocar a cabeça para fora do pântano quando o governo Dilma já estava se esfacelando. Muitos foram lulistas que, desiludidos, procuraram um outro líder salvador para lhes mesmerizar. O próprio Bolsonaro, como oportunista-eleitoreiro que é, permaneceu caladinho durante 10 anos na base do PT (e no partido mais corrupto dessa base, o PP). Embora se diga liberal (“para inglês ver”), sua folha corrida parlamentar registra que, em quase 30 anos de mandato, votou sempre errado do ponto de vista da democracia liberal: 1) contra o Plano Real; 2) contra a flexibilização do monopólio do petróleo; 3) contra a quebra do monopólio da Telebras e sua privatização; 4) contra a reforma da Previdência no governo Lula; 5) pelo fim do fator previdenciário (medida vetada que elevaria brutalmente o rombo na Previdência); 6) a favor de um trem da alegria de isenção tributária (2011); 7) contra o projeto que renegociava dívida dos Estados em troca de um programa de privatizações e reforma das aposentadorias estaduais; e 8) contra o cadastro positivo.

2 – Acusam os meios de comunicação de serem parciais, e de defenderem comunistas e bandidos, mas organizam ataques de fake news (como o kit gay e a mamadeira com bico de pênis) manipulando as mídias sociais e usando verticalmente grupos de WhatsApp para criar redes centralizadas onde os hubs são apenas replicadores de intrigas e mentiras.

3 – Defendem uma suposta “civilização ocidental cristã”, mas não se espelham na mensagem de vida de Jesus de Nazaré, querendo voltar ao velho testamento do “olho por olho” ou às cruzadas de limpeza ética (e, inevitavelmente, religiosa) e privilegiar o culto da religião da cristandade, da religião associada ao Estado, ainda pregando que alguns humanos (os seres humanos direitos) devem ter mais direitos do que outros (os tortos, os pecadores) – em clara contradição com os evangelhos.

4 – Condenam o MST e o MTST como grupos terroristas, mas apoiaram o locaute de grandes proprietários bolsonaristas de veículos de transporte de carga que obstruíram as estradas (violando o direito de ir e vir das pessoas), causando desabastecimento de itens vitais para a população e prejuízos de R$ 15,9 bilhões ao país, derrubando o crescimento do PIB nacional (de 2,3% para 1,8%).

5 – Censuram e condenam – antes de qualquer julgamento – os acusados de praticar corrupção ou de terem recebido doações eleitorais não registradas (a não ser que sejam dos seus, como Onyx e outros), e ainda fizeram marketing eleitoral de que são os únicos honestos, denunciando a corrupção dos outros, enquanto – ao que tudo indica – organizavam uma quadrilha familiar de parlamentares para sequestrar e embolsar parte dos salários de assessores (pagos com dinheiro público) e, descobertos, acabam justificando a prática, como fazia o PT, com a alegação de que, já que todo mundo faz, isso não é corrupção (ou é um erro desculpável diante do volume muito maior de dinheiro roubado pelo PT).

6 – Defendem a escola sem partido de esquerda, mas querem implantar uma escola com partido de direita. Criticam a doutrinação marxista no ensino, mas acham que as narrativas ideológicas de uma espécie de “religião da pátria” ensinadas nos colégios militares, na Escola de Sargentos das Armas e na Academia Militar das Agulhas Negras, são legítimas porque corretas e verdadeiras – e ainda sonham expandi-las para toda a rede pública escolar.

7 – Defendem irresponsavelmente armar a população, flexibilizar as leis que regulam a aquisição e o porte de arma, e posam para fotos exibindo suas armas ou praticando tiro, mas nunca participaram de um enfrentamento armado. Alguns, com mais picardia, até dizem que o fortinho bolsonarista de academia que defende isso provavelmente é um covarde que fugiria com o rabo entre as pernas diante de qualquer ameaça armada (mesmo que estivesse armado).

8 – Elogiam as ditaduras de direita e seus torturadores (alegando que elas erraram por terem matado poucos comunistas), mentindo descaradamente que “toda ditadura é de esquerda” (como se Salazar, Franco, Pinochet, Videla, Bordaberry e Médici não tivessem sido anticomunistas), mas – em sua imensa maioria – nunca viveram sob uma ditadura, sendo que nem sabem do que se trata pois são analfabetos democráticos.

9 – Acham que agora a sociedade brasileira lhes pertence e deve estar sob seu comando, alegando que Bolsonaro teve 58 milhões de votos (exatamente como faziam os petistas, com a cantilena dos 54 milhões de votos de Dilma), e tentam deslegitimar as oposições argumentando que as minorias devem obedecer à maioria ou deixar o país, mas esquecendo sempre de dizer que 90 milhões de eleitores não votaram em Bolsonaro. Defendem o majoritarismo (sem saberem que democracia não é o regime da maioria, mas o das múltiplas minorias, que devem ser respeitadas e têm todo direito de fazer oposição legal ao governo).

10 – Dizem-se liberais, mas não o são no significado político do termo (aquele que toma a liberdade como sentido da política) e sim apenas no seu sentido econômico (como os Chicago Boys de Pinochet ou de Paulo Guedes). Em política, são i-liberais e majoritaristas. Dizem-se conservadores, mas não o são e sim reacionários, retrogradadores e antidemocráticos.

11 – Defendem uma política externa não-ideológica mas nomeiam para comandar o Itamaraty justamente um ideólogo olavista, trumpista e conspiracionista, um religioso meio maluco que diz cultuar o “Deus de Trump” e quer alinhar automaticamente (e subordinar) a diplomacia brasileira aos interesses dos Estados Unidos, podendo causar enormes prejuízos econômicos ao Brasil e isolá-lo das demais nações democráticas do mundo.

Ou seja, essas criaturas não são sérias, não são honestas e não são corajosas. São apenas “isso aí” que estamos vendo. Bolsonaro – seu Cavalo de Troia – entretanto, foi legal e legitimamente eleito. Como dizia Ralf Dahrendorf, quando os caras errados são eleitos só a sociedade civil pode corrigir o problema. Se a sociedade brasileira não arrumar um jeito de – atuando sempre dentro das leis – colocar esses caras para correr até 2022, vamos mergulhar numa escuridão profunda que pode durar várias décadas.


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