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Apertem os cintos: estamos voltando a jato para os tempos da guerra fria

Bolsonaro tem uma visão peculiar do que é uma ditadura. Para ele só é ditadura se for de esquerda (comunista, como a cubana). Se for de direita, não é.

Depois de conversar (no último dia 20/11/2018, já como presidente eleito) com o líder de extrema-direita da Hungria, o populista-autoritário, i-liberal e majoritarista, Viktor Orban, Bolsonaro declarou que a Hungria “é um país que sofreu muito com o comunismo no passado. É um povo que sabe o que é ditadura. O povo brasileiro não sabe o que é ditadura aqui ainda, o que é sofrer nas mãos dessas pessoas”.

Para ele, portanto, ditaduras são só as comunistas. A ditadura militar no Brasil não foi ditadura porque era anticomunista. Salazar (em Portugal), Franco (na Espanha), Pinochet (no Chile), Videla (na Argentina) e Bordaberry (no Uruguai) também não foram ditadores porque eram anticomunistas. Pelo mesmo critério, Erdogan (na Turquia) não é ditador. Putin (na Rússia) e mais de uma dezena de ditaduras islâmicas também não devem ser ditaduras porque não são comunistas. E protoditaduras como a de Viktor Orban, na Hungria, são bons regimes porque são anticomunistas. Apertem os cintos: estamos voltando a jato para os tempos da guerra fria.

Bolsonaro acertou em nomear Cuba pelo que é: uma ditadura. Vamos ver agora se fará a mesma coisa com relação à China, Rússia, Turquia e a maioria dos países islâmicos, que também são ditaduras. Aliás, se ele quiser a lista completa, ela está aqui (são cerca de 60 atualmente e sob seus regimes antidemocráticos vive a maior parte da população do planeta):

01. Afeganistão
02. Angola
03. Arábia Saudita
04. Argélia
05. Azerbaidjão
06. Barein
07. Belarus
08. Brunei
09. Burkina Faso
10. Burma (Mianmar)
11. Camarões
12. Camboja
13. Cazaquistão
14. Chade
15. China
16. Comoros
17. Congo (Kinshasa | Brazzaville)
18. Coréia do Norte
19. Costa do Marfim
20. Cuba
21. Djibuti
22. Egito
23. Emirados Árabes Unidos
24. Eritreia
25. Etiópia
26. Fiji
27. Gabão
28. Gâmbia
29. Guine
30. Guiné Equatorial
31. Guiné-Bissau
32. Irã
33. Jordânia
34. Kuwait
35. Laos
36. Líbia
37. Madagascar
38. Marrocos
39. Nicarágua
40. Nigéria
41. Omã
42. Palestina (Faixa de Gaza sob controle do Hamas)
43. Qatar
44. República Centro Africana
45. República Democrática do Congo
46. Ruanda
47. Rússia
48. Síria
49. Somália
50. Suazilândia
51. Sudão
52. Sudão do Sul
53. Tajiquistão
54. Togo
55. Turcomenistão
56. Turquia
57. Uzbequistão
58. Venezuela
59. Vietnam
60. Yemen
61. Zimbábue

Provavelmente ele ainda não se deu conta de que a maioria da população do planeta Terra jamais viveu sob um regime democrático. Talvez porque não saiba bem o que é regime democrático. Deve pensar que democracia é eleição. Se for isso… ele tem razão: boa parte das ditaduras da lista acima promovem algum tipo de eleição.

Venezuela e Cuba são ditaduras (uma nova e outra velha). Mas seriam também ditaduras se em vez de comandadas pelos comunistas Maduro ou os Castros fossem comandadas pelos anticomunistas Pinochet ou Figueiredo. Eis o ponto!

Os democratas não criticam o regime cubano porque ele é comunista. Criticariam-no do mesmo jeito se fosse pinochetista, fascista, nazista, erdoganista, militarista, islamista sob sharia ou religioso-fundamentalista de qualquer denominação. Criticariam todos estes porque seriam… ditaduras.

Os democratas não devemos ser contra as ditaduras atuais porque elas, em parte (como Cuba, Coréia do Norte ou China), se dizem comunistas (inclusive porque elas não o são, a rigor). Devemos ser contra ditaduras porque elas são ditaduras (não importando para nada a declaração ou o juízo de que são “de esquerda” ou “de direita”). Devemos ser contra ditaduras porque elas são autocracias (ou seja, anti-democracias). Devemos ser contra ditaduras porque elas são estatistas, no sentido político do termo (regimes políticos baseados em uma visão estadocêntrica do mundo, que descrê da sociedade e da possibilidade dos seres humanos se auto-conduzirem a partir de suas próprias opiniões). Devemos ser contra ditaduras porque elas são horríveis deformações na rede social com o objetivo de reduzir os graus de liberdade das pessoas e espalhar inimizade no mundo (ou seja, a guerra, mesmo que na forma da fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin: a política como continuação da guerra por outros meios).

Ficou clara a diferença entre a posição dos democratas e a dos direitistas que ainda estão na vibe da guerra fria?


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