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Apostando na desestabilização democrática

Neste momento existem duas forças políticas no Brasil – o lulopetismo e o bolsonarismo – apostando abertamente na desestabilização democrática. É grave. Em primeiro lugar porque não são forças marginais e irrelevantes: em todas as pesquisas de opinião, até agora, Lula (mesmo que não possa ser candidato) aparece na frente, seguido por Bolsonaro.

Mas o fundamental aqui a perceber é que a destabilização não virá por eventuais vitórias de Bolsonaro ou do candidato do PT (seja ele qual for) e sim, pelo que é mais provável, em razão da derrota de ambos ou do primeiro. Vejamos por quê.

O PT NÃO ESTÁ MORTO

Com a inelegibilidade de Lula, algumas pessoas dizem que agora Bolsonaro é o grande perigo. É verdade, mas não é o único: ambos – Bolsonaro e o PT – são igualmente perigosos para a democracia. Muitos argumentam que o PT não tem condições de dar um golpe de Estado. Mas o erro dessa análise é imaginar que o PT queira dar um golpe de Estado. Ele não quer (a não ser em doses homeopáticas). Quer vencer eleições sucessivamente, por tempo indeterminado e ir conquistando hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. Essa é a estratégia do neopopulismo, adotada pelo lulopetismo (que continuará vivo mesmo sem Lula).

A volta do PT ao governo não significa a volta da mera corrupção (que nunca deixou de existir endemicamente na nossa política) e sim a volta do banditismo de Estado. E, convenhamos, a organização política criminosa (que comanda o PT) não foi desbaratada. Lula continua dirigindo essa organização (e o PT) de dentro da cadeia. Dirceu está (inexplicavelmente, posto que condenado em segunda instância a mais de 30 anos) solto e cumprindo o seu papel (de “capitão do time”, que nunca deixou de cumprir, nem quando estava preso). E dos cerca de trinta outros dirigentes do núcleo duro do “Partido Interno” (ver Orwell: 1984) só um está preso (João Vaccari). Todos os demais foram pouquíssimo incomodados pelo ministério público, pela polícia e pela justiça.

Lula e Dirceu, os principais dirigentes da organização política criminosa que comanda o PT, continuam militando e organizando, diretamente e por meio de seus sequazes. Ou alguém acha que esses festivais Lula Livre, como o do Rio, acontecem espontaneamente ou são articulados por Chico Buarque e meia dúzia de dondocas da MPB? Ou alguém acha que essas iniciativas internacionais de intelectuais (incluindo gente que ganhou prêmio Nobel) em defesa de Lula não são arquitetadas por assessores do Instituto Lula (que é um nome fantasia para outra coisa)? Ou alguém acha que esse alinhamento de entidades como CNBB e OAB é promovido por bispos e simples advogados sindicalistas? Ou alguém acha que o tempo que a OEA levou para criticar o governo da Venezuela se deveu à indigência (ou ao sono) de seus dirigentes?

É preciso tomar cuidado com o auto-engano: o PT não está morto. Os democratas terão de resistir a ele durante uma geração ou mais.

Sim, diante da anemia analítica dos democratas, é necessário repetir: Lula e Dirceu continuam chefiando a organização política criminosa que dirige o PT: o primeiro de dentro da cadeia (de luxo) e o segundo de fora da cadeia. Por que o mesmo não vale para Cunha? É simples responder: porque Cunha formou uma organização criminosa compostas por políticos para roubar, mas não uma organização política criminosa (que fez e continua fazendo muito mais do que roubar).

Se, ainda assim, você não entendeu a diferença, fique tranquilo: a Lava Jato também não entendeu. Não custa repisar. Por que Cabral não pode receber diariamente dez advogados e, através deles, dirigir sua organização política criminosa? Ora… porque ele nunca teve uma. Teve organização criminosa composta por políticos. Entendeu a diferença? Não? Relaxe mais uma vez. A Lava Jato também não.

Vejamos agora o que ocorre na outra ponta do espectro.

O BOLSONARISMO NÃO MORRERÁ COM A DERROTA DE BOLSONARO

Na outra ponta do espectro político há a candidatura Bolsonaro. Bolsonaro não passa de um oportunista-eleitoreiro com conteúdo populista-autoritário. Embora alguns tipos de populismo (como o neopopulismo dito de esquerda e os populismos-autoritários ditos de direita) sejam hoje os principais adversários da democracia no mundo e no Brasil, Bolsonaro, se eleito, seguindo o padrão de sobrevivência de sua famiglia, não hesitaria em transigir no que fosse preciso para não sofrer impeachment. É um malandro que fez carreira quando descobriu que, no Rio de Janeiro, dizer que “bandido bom é bandido morto” dava voto.

A questão é que formaram-se obscuras correntes de opinião, estas sim, francamente antidemocráticas, que o apoiam e sobre as quais ele não tem controle. Bolsonaro é apenas uma garganta estridente encaixada numa cabeça que jamais foi violada por uma ideia. Em si, ele não é um perigo para a democracia comparável ao perigo do bolsonarismo. O grande problema é que será uma catástrofe a eleição de Bolsonaro, pela sua incompetência administrativa aliada à total indigência política. E quando ele quiser transigir, como exige o jogo político, será chantageado pela seitas autocráticas que pegaram uma carona no seu discurso e na sua candidatura. Essas correntes de opinião, antidemocráticas (e movidas por valores anti-humanos) ameaçarão abandoná-lo quando virem que ele não poderá cumprir nem 10% do que prometeu.

Qualquer candidato petista será mais perigoso do que Bolsonaro, mas os petistas são tão perigosos quanto os bolsonaristas.

O ESTRAGO, EM PARTE, JÁ ESTÁ FEITO

Bolsonaro escolheu para vice o general Mourão. Como tuitou jocosamente o delinquente político Guilherme Boulos, é uma chapa “puro sangue”. Trata-se do mesmo Mourão que defendeu recentemente uma intervenção militar no Brasil e que elogia o torturador Brilhante Ustra (como, aliás, faz o capitão que lhe está acima na chapa). Agora o general diz que não é bem assim, que foi mal compreendido, que não quis dizer aquilo que disse (e que todo mundo entendeu que ele disse). Não cola. Ao escolhê-lo para vice, Bolsonaro passa a impressão de que avaliou que não pode conquistar mais votos fora do seu campo. Decidiu partir para o vai ou racha com o contingente que acha que já tem.

Ao que tudo indica, não vai. Mas na medida em que existe uma corrente de opinião emergente a seu favor, é possível avaliar que parte do estrago já está feito. Ou seja, mesmo que Bolsonaro não vença, a configuração do ambiente político no Brasil já está alterada de um modo que não é favorável à democracia. Se um candidato do campo democrático ganhar a eleição, não terá apenas que enfrentar a oposição destrutiva do PT, mas também a guerrilha insana das falanges bolsonaristas.

Isso para não falar das deteriorações no tecido social, na deformação do campo ou dos fluxos interativos da convivência social que ampliará o clima adversarial. Teremos mais açulamento da vontade de revanche, do desejo de vingança e do ressentimento social. E mais deslegitimação do governo eleito, com a esquerda dizendo que foi golpe (porque Lula não pode concorrer) e a direita dizendo que foi golpe (porque Bolsonaro, se perder, terá sido fraude em razão das urnas eletrônicas). Os discursos já estão prontos e não apostam na estabilidade democrática e sim na desestabilização. Pode-se prever, sem qualquer alarmismo ou catastrofismo, uma década de guerra civil fria pela frente.

UMA PERIGOSA ALTERAÇÃO NO EMOCIONAR SOCIAL ESTÁ EM CURSO NESTE MOMENTO

Eugênio Bucci seguiu, no último 2 de agosto, no Estadão a mesma linha de análise. O problema não é o desfecho eleitoral e sim a campanha eleitoral e o emocionar adversarial e destrutivo que ela instala na sociedade. Mas as consequências, ao contrário do que ele diz, não virão somente daqui a 4 anos. Agora, neste exato momento, elas estão deformando perigosamente o campo social. Sobretudo – o pior dos mundos – se se instalar uma polarização PT x Bolsonaro. Destaca-se um trecho do artigo:

“A primeira ilusão [em relação a Bolsonaro] é achar que, dissolvida a candidatura do referido, tudo ficará bem. Não ficará. A cultura antipolítica e antidemocrática mobilizada por essa candidatura voltará com mais força daqui a quatro anos. Há multidões crescentes no Brasil que aprenderam a se jactar de desprezar a política, sem saber que, sem política, não teriam direito sequer de expressar o seu desprezo pela política. Essas multidões não sabem o que desfazem. Não terão perdão. Elas são a prova material de que o mal está posto, está instalado, mesmo que Bolsonaro não chegue ao segundo turno”.

Mas mesmo que não se instale uma polarização PT (ou Ciro) x Bolsonaro, e mesmo que nenhum deles vença a eleição de outubro, mesmo assim o lulopetismo e o bolsonarismo já traçaram sua estratégia. Não vão aceitar o resultado do pleito e vão deslegitimar o próximo governo eleito. Se estivéssemos tratando de forças marginais, minorias insignificantes, tudo bem: a democracia é capaz de metabolizar os extremos antidemocráticos. Mas, infelizmente, não é o caso.


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