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Aprendendo política com os erros de Eduardo Cunha

Cunha imaginou que bastava ter uma grande base parlamentar fisiológica para desafiar os demais poderes da República. Assim, aliou-se aos esquemas de corrupção, que não foi ele que inventou e montou (como o petrolão, por exemplo, articulado por Lula, Dirceu e o PT), para obter recursos ilícitos. Com esses recursos, ofereceu a quem quisesse (qualquer deputado federal sabe disso) ajuda para campanhas eleitorais e outras necessidades dos mandatos parlamentares. O esquema ia muito bem, obrigado, até que Cunha achou que – somando uns duzentos deputados que lhe deviam favores – já estava com força suficiente para peitar os chefes. Como já era o líder do PMDB, o maior partido do Congresso (contando-se os seus tradicionais aliados fisiológicos, como o PP e outros), avaliou então que podia bancar a sua candidatura para a presidência da Câmara. Contrariando as orientações do grande chefe (Lula), o governo Dilma resolveu dar uma lição ao desobediente e apoiou outra candidatura (a de Chinaglia) contra a do seu, até então, fiel aliado (Cunha). Isso foi no início de 2015, quando o governo petista já ia mal das pernas. E aconteceu o esperado por Cunha e o inesperado pelos maus articuladores políticos de Dilma: o esperto líder do PMDB, Eduardo Cunha, venceu a disputa para o comando da Casa, com 267 votos, enquanto que Arlindo Chinaglia ficou em segundo lugar com 136 votos (e perdeu no primeiro turno, o que foi uma humilhação para o governo).

Dilma, contrariada, retaliou, o que desarranjou sua base de apoio na Câmara. A partir daí o governo perdeu liderança e comando no parlamento. Começou a perder votações importantes e foi obrigada a pedir a benção ao seu antigo aliado, que – sentindo-se ainda mais forte – resolveu romper com o governo. O gesto mais significativo foi a aceitação, pela mesa da Câmara, de um dos (dentre mais de 50) pedidos de impeachment de Dilma, protocolado por Hélio Bicudo, Miguel Reale Junior e Janaína Paschoal. A partir daí as relações de Cunha com o governo estavam rompidas e ele, um ex-aliado, passou a fazer oposição aberta à Dilma (com uma contundência jamais demonstrada pelos antigos partidos de oposição: PSDB, DEM e PPS).

Diante do leite derramado, o PT não viu alternativa senão demonizar Cunha. Construiu Cunha como inimigo universal, como uma espécie de Emmanuel Goldstein do romance 1984 de George Orwell. Fez isso, em primeiro lugar, porque avaliou que não havia mais jeito de reconquistar o antigo aliado, agora ferrenho adversário. E, em segundo lugar, porque – sob a avalanche de denúncias da Lava Jato – precisava de um boi-de-piranha, de alguém que, para a militância, pudesse ser inculpado por todo o mal que assolava o país. A urdidura colou. O Fora Cunha funcionou, até certo ponto, como fator diversivo. Quando os milhões nas ruas já gritavam Fora Dilma, a militância, os intelectuais universitários, os artistas que viviam da Lei Rouanet, os ongueiros beneficiados com dinheiro governamental, a rede suja de sites e blogs financiados por estatais, os ditos movimentos sociais bancados pelo governo, os juristas engajados nas defesas milionárias dos acusados petistas (desde o mensalão), retrucavam a plenos pulmões: Fora Cunha.

Era uma farsa, claro. Cunha não era o responsável pelo mensalão, pelo petrolão, pelo assalto aos fundos de pensão, pela partidarização do BNDES e pelo quadrilhão. Era apenas um bandido menor associado, que se aproveitou das contradições entre o governo claudicante e sua base de apoio. Ele, Cunha, não teve a menor dificuldade de mostrar aos seus seguidores que o PT fazia alianças para matar seus aliados ao final. Todos entenderam isso de pronto e esta foi a razão pela qual o PMDB, o PP e outros partidos fisiológicos da base do governo passaram para a oposição, inviabilizando o governo Dilma. Dilma não sofreu impeachment em 31 de agosto de 2016, senão ali, naquele exato momento em que perdeu sua maioria congressual, quando ficou reduzida a menos de 1/3 do parlamento.

O governo tentou usar toda a sua influência para destruir Cunha, apostando que ainda poderia se salvar se conseguisse mostrar que os verdadeiros responsáveis pelo maior esquema de corrupção já visto na história das democracias eram os partidos das elites que nos dominam e nos roubam “desde Cabral”, em especial o PMDB chefiado por Cunha. Contou, para tanto, com a providencial ajuda do Procurador Geral da República e com vários dos ministros que indicou para o STF. Com efeito, Janot atuou com uma desenvoltura ímpar, investigando e denunciando Cunha à Suprema Corte (como jamais foi feito em relação a qualquer parlamentar). O tribunal também foi inusitadamente célere nos processos, chegando até a cometer uma violação dos procedimentos constitucionais ao praticar uma inadmissível justiça preemptiva para afastar Cunha da presidência da Câmara, por via da suspensão do seu mandato e até proibiu a presença do parlamentar no prédio onde se realizam as sessões legislativas. Tudo isso fez o STF, a pedido de Janot, ignorando a soberania do plenário da casa, o que configurou uma violação da independência dos poderes da República. E só o fez porque, àquela altura, Cunha já não tinha mais a força que imaginava, acossado que estava pelas ruas e pelas instituições. Foi naquele exato momento que Cunha perdeu, não em 12 de setembro de 2016, quando foi cassado por 450 x 10 votos. A derrota tão fragorosa foi apenas consequência de seus erros.

Pois bem. Quais foram os principais erros de Cunha? O erro básico foi imaginar que se pode construir uma força política para afrontar os poderes do Estado (principalmente o Executivo, mas também o Ministério Público e o Judiciário, vulneráveis à sua influência em regimes presidencialistas imperiais) distribuindo dinheiro. Foi quase o mesmo erro do PT com o mensalão. Comprar ou alugar pessoas pode dar certo durante um tempo, mas não por todo o tempo. Sobretudo se a origem do dinheiro for ilegal. Uma vez descoberto o esquema, ele torna-se insustentável nas democracias (se houver liberdade de imprensa). Para se confrontar com o PT seria necessário ter uma organização política mais estruturada, socialmente enraizada, com projeto de poder formulado e narrativa ideológica consolidada e coerente. Cunha não tinha nada disso. Queimado perante a opinião pública, como se fosse portador de uma doença moral infecciosa, Cunha foi posto numa espécie de quarentena. Seus antigos aliados passaram a evitá-lo por medo de contrair uma enfermidade terminal.

Na política autocrática – a realpolitik (pois é disso que estamos falando) – não se pode chegar ao poder por escaramuças que ferem, mas não são capazes de matar ou neutralizar os inimigos. E uma força capaz de fazer isso precisa mais do que de dinheiro para executar todas as ações exigidas pela política praticada como continuação da guerra por outros meios. Nem a Máfia conseguiria se estruturar sem um cimento ideológico, um conjunto de valores (ou contra-valores, do ponto de vista democrático) que fossem capazes de dar sentido à vida dos combatentes e impor-lhes, a partir de uma ordem e de uma hierarquia, a disciplina e a obediência. O PT tem tudo isso que Cunha não tinha e é por isso que é tão difícil eliminar sua influência do Estado e desenraizá-lo da sociedade para evitar sua volta ao poder.

Cunha era esperto e preparado para a luta política tática, no varejo, mas lhe faltavam visão e expertise organizacional para conduzir a grande política. Além disso, não parecia muito convencido do que fazia e nem por que fazia o que fazia (além de se defender). Se defendia atacando (porque tinha coragem pessoal), reagia sempre, mas não via – ao contrário daquele agente inglês do filme Queimada, de Gillo Pontecorvo (1969), interpretado por Marlon Brando – a trajetória futura dos seus atos. Esta é a ausência de visão que inabilita qualquer operador para a política como estratégia.

É claro que tudo isso vale para a velha política, a política pervertida como arte da guerra, a política autocrática que se reduz a um conjunto de artimanhas para chegar ao poder e nele se manter pelo maior tempo possível, não para a política democrática.

Os que querem praticar a política como continuação da guerra por outros meios, podem aprender muito com Eduardo Cunha (aprendendo o que não fazer). Os que querem aprender política democrática podem aprender mais, todavia, com os que aprenderão com os erros de Cunha para aperfeiçoar suas perversões. Afinal, aprender democracia não é nada mais do que desaprender autocracia.


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