Caravleas

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As caravelas de Cabral

Incrível a perda de foco dos moralistas. Ficam escandalizados com as jóias compradas pela mulher de Sérgio Cabral. E nem percebem que, enquanto isso, Dirceu está solto e no comando da organização política criminosa. E que Lula, além de não ter sido condenado e de não ter sido preso (e não o será, no curto prazo), se prepara para ser candidato e voltar ao poder. A vontade que dá é a de dizer: Ah! Perdi a paciência. Vocês – que acham que todo problema é a corrupção, enquanto o PT nada de braçada – são muito burros.

Mas não, não é propriamente burrice, na maior parte dos casos.

As pessoas não veem o perigo da existência de uma organização política criminosa, agindo para bolivarianizar nossa democracia, pela mesma razão que os índios não viam as caravelas chegando (só se deram conta de que aquilo era real quando os marujos desembarcaram na praia). Se não faz parte do mundo mental, logo não existe. É por isso que muita gente fica horrorizada com notícias sobre os carros de luxo, os relógios de marca e os ternos de grife de Sérgio Cabral, mas nem se toca com a militância de Dirceu dentro e fora da cadeia, nem com a absolvição de Vaccari ou com a campanha de Lula. Não é deficiência cognitiva, assim como com os índios não era deficiência visual. Como nossos indígenas, eles não veem as caravelas de Cabral (o original).

O moralismo é o túmulo da democracia. Os moralistas – açulados pelos jacobinos (analfabetos democráticos e irresponsáveis) e pelos patifes que tiraram Lula e o PT do foco para colocar no lugar Temer, Aécio e… de novo? Cunha – imaginam que se possa reformar a política sem política, a partir de uma posição de poder em algum aparelho do Estado.

E é dificílimo combater os moralistas. Como disse em outro post:

É quase inútil argumentar que cruzadas moralistas para limpar o mundo são incompatíveis com a democracia. As pessoas se agarram ao moralismo em legítima defesa. Elas acham que não são muito boas (ou que não são boas o bastante) e precisam desesperadamente dos bandidos para deslocar para eles a culpa que introjetaram depois de milênios de inculcamento de ideologias desumanizantes e perversas como a do pecado original e de uma perfeição edênica anterior (que supostamente teriam violado).

Todo moralismo é essencialmente imoral. Mas ele só viceja porque o inimigo que quer combater não está lá fora e sim no coração mesmo do ser que precisa se limpar de uma sujeira que imagina possuir (ou trazer de algum lugar no passado). As religiões judaico-cristãs, efluentes da tradição patriarcal, ajudaram a reforçar o mito (e não só elas, mas também o platonismo com aquela história de que no início dos tempos havia um Estado perfeito – uma forma ideal – que foi se corrompendo: leiam Popper: o primeiro volume de A sociedade aberta e seus inimigos, escrito ainda em 1945 ou antes).

Os irresponsáveis que manipulam os moralistas não estão nem aí. Se o PT voltar ao poder, eles continuarão nos seus empregos e nas suas empresas, ganhando dinheiro com a militância disfarçada de análise política. Protestarão que sempre foram a favor do impeachment de Dilma. E que, infelizmente, aconteceu o que aconteceu graças a constelação de uma série de fatores imprevistos. Eles não sabem que o PT pode voltar ao poder de conspirar contra nossa democracia mesmo que não chegue à presidência da República.

Tempos sombrios nos aguardam. Se Lula for candidato e fizer campanha, isso será sinal de que nossa democracia foi gravemente atingida, mesmo se ele perder a eleição. O PT, recuperado e recomposto, penderá como uma ameaça sobre nossas cabeças durante mais uma década.


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