in ,

As democracias vão acabar no século 21?

Esta é a grande pergunta que todos os democratas se fazem na última década.

Na última década (com o fim da terceira onda de democratização: 1974-2007) (Huntington: 1991) (1), muitos (quase todos) os investigadores da democracia passaram a falar dos problemas e impasses da transição para a democracia (e. g., Diamond, Fukuyama, Horowitz, Plattner: 2013) (2), de recessão democrática (novamente Diamond: 2015) (3), de desconexão (4) e desconsolidação (5) democrática (Mounk e Foa: 2016-2017), de como as democracias morrem (Levitsky e Ziblat: 2018) (6) e de como as democracias chegam ao fim (Runciman: 2018) (7). Eles tomam a democracia como, para usar as palavras de Fukuyama (2014), “um conjunto complexo de instituições que envolve responsabilização, Estado de direito, e um Estado adequado” e que, além disso, “têm que trabalhar em conjunto um com o outro” (8).

Desse ponto de vista, não há dúvida, há mesmo diminuição e descontinuidade das transições para a democracia, recessão, desconexão e desconsolidação e as democracias tendem a fenecer no plano internacional.

No entanto, se não encararmos a democracia apenas como modo político de administração do Estado-nação, a coisa muda de figura. Se tomarmos a democracia como modo-de-vida (ou de convivência social) – o que ela é originalmente do ponto de vista social – que, ao se exercer, desconstitui autocracia, não somente no Estado, mas também em todos os lugares em que for possível desconstituir autocracia ou cultura (comportamento) autocrática (nas famílias, nos grupos de amigos, nas escolas e universidades, nas igrejas, nas organizações da sociedade, nas empresas e, o que é mais importante, nas redes ou comunidades de vizinhança, de prática, de aprendizagem, de projeto) nada indica que ela não possa continuar sendo experimentada apesar do seu declínio na forma de Estado remanescente.

O problema é que a democracia (representativa) passou a valer apenas para as formen Estado-nação, surgidas da guerra, da paz de Vestfália e, muito provavelmente, o que se qualifica como crise da democracia é uma crise da democracia em Estados-nações, os quais têm estruturas e dinâmicas avessas à continuidade do processo de democratização. Assim, o que parece estar em crise é o casamento da democracia representativa com essa forma (o Estado-nação). Esse conúbio, confessemos, nunca foi muito bem-sucedido no plano global. Não há e nunca houve democracia representativa plena (ou, pelo menos, satisfatória) em mais do que cerca de 30 países e a maioria da população mundial não vive e jamais viveu sob regimes democráticos, sejam considerados plenos ou defeituosos (flaweds).

Mas o problema com a pergunta de se a democracia vai acabar no século 21 é que ainda não sabemos: porque ainda não entramos no século 21.

AINDA ESTAMOS NO SÉCULO 20

Para entrar no século 21 teríamos de passar pela década de 1990 (considerando que ela fosse a última). Mas a década de 1990 foi apenas uma interrupção num século que ainda não acabou. Entre a queda do muro de Berlim (1989) e a derrocada da URSS (1991) e o atentado ao World Trade Center (2001) tivemos um interregno no trágico século 20. Uma janela se abriu, uma brisa fresca soprou e pudemos experimentar, entre outras coisas, o fim (temporário) da guerra fria e da política de blocos, a expansão das democracias liberais, a ascensão de um chamado terceiro setor, a World Wide Web, o florescimento da blogosfera, a introdução da noção de capital social como variável sistêmica nas equações do desenvolvimento, o surgimento das teorias dos sistemas dinâmicos complexos adaptativos e a fundação da nova ciência das redes. Depois, quando todos esperávamos o nascimento de uma nova era, com o início do terceiro milênio, o que aconteceu foi o contrário. O século 20 continuou como um pesadelo persistente (ou recorrente), prolongando-se nas duas primeiras décadas do que deveria ser o século 21.

O que tivemos então? Tivemos recessão e desconsolidação democrática (a partir de 2005-2007), ascensão dos populismos (de esquerda e direita) (Kyle e Mounk: 2018) (9), retomada do unilateralismo na política internacional, ressurgimento do nacionalismo, tentativas de erigir novos muros, surgimento de mídias sociais que acabaram servindo de meios de broadcasting e não de ferramentas de netweaving (e de mídias privadas contra as redes, com topologia descentralizada, de árvore – como o WhatsApp – e não distribuída) (10), prevalência do sharp power das grandes potências autocráticas (como Rússia e China) (11), enfim, brutal reação do Estado-nação surgido no século 17 e das formas de governança e convivência (ou coexistência competitiva) hierárquicas à emergência da sociedade-em-rede.

Há quase 40 anos Edgar Morin (1981) publicou um livro intitulado “Para sair do século 20” (que devoramos na época) (12). Depois alguns escreveram alguns livros com lições para o século 21. Recentemente, Timothy Snyder (2017) fez um intitulado “20 lições do século 20” (13). Yuval Harari (2018) fez outro, em parte de ficção – do tipo do filme Elysium, de Blomkamp (2013) -, intitulado “21 lições para o século 21” (14). Mas talvez seja o caso de pensar nas lições do século 21 para o século 20. Pois, apesar dos esforços de Morin, a maioria das pessoas ainda não conseguiu sair do século 20.

PARA ENTRAR NO SÉCULO 21

Ao que tudo indica, a transição democrática exigida pela emergência de uma sociedade-em-rede não vai se realizar a partir do planalto e sim, somente, se houver múltiplas movimentações (e fermentações) na planície. Quanto a isso, porém, podemos (e devemos) desesperar.

É meio inútil ficar esperando aparecer, em qualquer lugar, um candidato honesto e convertido à democracia ou um partido ético para arrumar a casa. Simplesmente porque não há mais (uma) casa. Não será uma pessoa boa (quem?), um novo líder extraordinário (ainda bem) que vai consertar a política. Não será um partido que se diga novo (posto que a forma-partido já é velha) ou chamado de “rede” (posto que partido já é hierárquico) que vai nos dar de mão-beijada uma nova política mais limpa (ainda bem também), uma sociedade mais harmônica e um outro mundo melhor (simplesmente porque não há mais um – único – mundo em termos sociais). Agora serão muitos mundos (no plural).

Estamos nos aproximando rapidamente daquele cenário imaginado por Bruce Sterling (1989) no romance Islands in the Net (15). Estamos vagando num grande oceano, ora aportando em uma ilha, ora evitando se acercar de outra, ora fugindo mesmo dos seus belicosos habitantes. Ademais, essas ilhas não serão fixas, algumas serão como bolhas e só poderemos ficar nelas durante um tempo, antes que espoquem. As ilhas são clusters de pessoas: alguns serão democráticos e inovadores, outros conservadores, e outros, ainda, retrógrados, autocráticos, quando não perversos (ninhos de jihadistas, religiosos ou laicos, de esquerda ou de direita).

Mas – eis uma (possível) nova esperança – ninguém (nenhum cluster) terá mais a hegemonia (sobre outros clusters) de suas visões (ainda bem), nem supremacia conquistada pela força, nem arrebanhamento pelo convencimento.

E não adiantará para nada debater: não é assim que a coisa funciona agora. Nos desculpem Joahannah e Jürgen, mas John (Dewey) tinha razão (16). As pessoas se sintonizarão num glance, num blink. Ou não se sintonizarão. Quando se sintonizarem, podem conseguir sinergias para serem carregadas juntas por um tempo pelo fluxo interativo da sua convivência social e podem lograr reconfigurar seus ambientes (e “é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia”: obrigado Marshall) (17). Ou não se sinergizarão. É até possível que, assim, se produzam simbioses que deem origem a novas pessoalidades (e daí nasçam novos mundos-bebês). Ou não. E dizer ‘ou não’ significa dizer: o futuro está aberto.

Vamos ter que aprender a abrir mão de buscar qualquer consenso: ou aprendemos a trabalhar com ‘ecologias de diferenças coligadas’, ou as democracias vão estacionar, afundar e desparecer.  A transição democrática não vai acontecer quando elegermos um novo chefe bacana para nossa tribo nacional. Não há mais esse chefe e, se houvesse, como chefe, ele só poderia fazer mais do mesmo: tentar administrar um sistema que faliu.

Enquanto a gente não parar de ficar de boca aberta olhando para cima, nada feito. Vamos ter que olhar para o nosso vizinho e começar!

Para quem se interessa pelo assunto, sugere-se a leitura dos textos linkados (ou indicados) nas notas abaixo.

Notas

(1) Segundo Huntington (1991), a primeira onda de democratização ocorreu no período de 1828 à 1926. Ela teria sido seguida por uma onda reversa, de 1922 à 1942, com o surgimento do fascismo, do nazismo (e, ainda que nem todos apontem isso, do stalinismo). A segunda onda de democratização ocorreu de 1943 à 1962. Também esta foi seguida por uma onda reversa entre 1958 e 1975 (durante parte da guerra fria e o ciclo de ditaduras militares). A terceira onda de democratização começou em 1974, com a Revolução dos Cravos em Portugal e a conversão de diversos regimes à democracia (em especial na América Latina e na África). Samuel Huntington morreu em 2008 e não teve tempo de perceber e analisar a terceira onda reversa, que começou entre 2005 e 2007. Cf. Samuel-P-Huntington-Democracy-Third-Wave

(2) Cf. http://dagobah.com.br/repensando-o-paradigma-da-transicao/

(3) Cf. http://dagobah.com.br/facing-up-to-the-democratic-recession-o-artigo-historico-de-larry-diamond/ Cf. também uma sinopse (em português): http://dagobah.com.br/uma-sinopse-do-artigo-de-larry-diamond-enfrentando-a-recessao-democratica/

(4) Cf. http://dagobah.com.br/a-desconexao-democratica/

(5) Cf. http://dagobah.com.br/a-corrosao-das-normas-e-a-desconsolidacao-democratica/ e também: http://dagobah.com.br/os-sinais-de-desconsolidacao/

(6) Cf. Como as Democracias Morrem

(7) Runciman, David (2018). Como a democracia chega ao fim. São Paulo: Todavia, 2018.

(8) Cf. http://dagobah.com.br/repensando-o-paradigma-da-transicao/

(9) Cf. http://dagobah.com.br/o-estrago-que-o-populismo-faz-na-democracia-uma-avaliacao-empirica/

(10) Cf. http://dagobah.com.br/vivemos-hoje-mais-netwar-do-que-politica-democratica-mas-o-problema-e-a-guerra-nao-o-whatsapp/ e cf também: http://dagobah.com.br/as-midias-sociais-contra-as-redes-sociais/ e ainda: http://dagobah.com.br/da-libertacao-a-desordem-redes-sociais-leia-se-midias-sociais-e-democracia/ e, por último: http://dagobah.com.br/as-midias-sociais-ameacam-a-democracia/

(11) Cf. http://dagobah.com.br/o-que-e-sharp-power-e-como-ele-perfura-as-instituicoes-democraticas/

(12) Cf. Morin, Edgar (1981). Para sair do século 20. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

(13) Cf. http://dagobah.com.br/sobre-a-tirania-de-timothy-snyder-e-os-livrinhos-que-ele-pode-inspirar/

(14) Cf. 21-licoes-para-o-seculo-21-Yuval-Noah-Harari

(15) Cf. http://dagobah.com.br/wp-content/uploads/2016/10/STERLING-Bruce.-Piratas-de-dados.pdf

(16) As referências são à Hannah Arendt e Jürgen Habermas. Novas formas de democracia, assim como não poderão se basear em von Humbolt (para não ficar aprisionadas na fórmula dos modernos), deverão se apoiar menos em Arendt ou Habermas e mais em Dewey. Porque para Dewey uma prática democrática radicalizada – tomando-se a democracia no sentido “forte” do conceito – deveria ser, necessariamente, cooperativa. Numa democracia mais cooperativa, a formação democrática da vontade política terá mais como fonte originária a cooperação voluntária, com a convergência comunal de desejos pessoais para contender com um problema ou realizar um projeto, do que a liberdade individual de opinar protegida da interferência do Estado (segundo a visão liberal) ou do que o reino público constituído pela argumentação discursiva (segundo as visões do republicanismo político e do procedimentalismo democrático). Sobre Dewey cf. http://dagobah.com.br/democracia-cooperativa-uma-introducao-ao-pensamento-politico-de-john-dewey/

(17) A referência é a Marshall McLuhan.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Steve Bannon – o delinquente ideológico por trás do trumpismo – passa recibo

Foi um suicídio – O Julgamento de Sócrates de I. F. Stone – 12