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As diferenças entre filosofia e ciência e a democracia

Por que os filósofos não eram democratas

Humberto Maturana Romesin tem uma visão muito particular das diferenças entre ciência e filosofia. Ele escreveu um tópico sobre isso justamente no capítulo dedicado à democracia do seu texto seminal Conversações Matrísticas e Patriarcais, que compõe a primeira parte do livro, em coautoria com Gerda Verden-Zoller (1993), intitulado Amar e Brincar: Fundamentos esquecidos do humano, traduzido e publicado no Brasil pela Palas Athena Editora (São Paulo: 2009).

Para Maturana, ciência e filosofia são “duas formas diferentes de pensar e lidar com o mundo da experiência”. Vale a pena prestar atenção ao seu argumento (ainda que, para tanto, seja necessário ler o texto todo e não apenas o trecho reproduzido abaixo).

O ponto de vista de Maturana reforça a visão de que os sofistas não eram filósofos, mas não no sentido negativo, platônico, com que tal alegação foi feita e sim num sentido positivo, posto que eles – como democratas (ou intelectuais que se desenvolveram num ambiente democrático) – não eram scholars, escolásticos, juízes epistemológicos, validadores de alguma doutrina (como Platão, seu Sócrates ou, até mesmo, Aristóteles).

Com efeito, segundo Maturana “a prática do pensamento objetivo surgiu com a democracia, inicialmente imerso no caráter autoritário de nossa cultura patriarcal europeia ainda presente. E tanto permaneceu assim, normativo, que ainda se mantém normativo na política, no seio da vida democrática e em muitos outros aspectos da vida fora dela. Constitui o modo de pensar ideológico e a forma filosófica de explicar. Como resultado, o que predomina desde o começo do pensamento europeu moderno, com a origem da democracia grega, é o uso normativo de teorias filosóficas que dão conta da experiência humana por meio de princípios explicativos. Estes são julgados como transcendentalmente válidos a priori, ou pelo uso da razão sob a forma de teorias filosóficas de caráter político, moral ou religioso, fundamentadas em verdades aceitas a priori como evidentes e inegáveis”.

Mas, acrescenta ele, “embora a possibilidade da ciência como uma forma relacional de reflexão e explicação surja com a democracia, ela não se desenvolve propriamente até muito mais tarde, na história da cultura patriarcal europeia. E quando a ciência de fato se desenvolve, ela o faz de uma maneira fundamentalmente contraditória com o pensamento patriarcal, que sempre pretende ou usá-la de maneira normativa ou subordiná-la à filosofia“.

Resta a questão de se pode haver um pensamento livre de doutrina que não seja, portanto, filosofia, mas também não seja propriamente ciência. Mas saindo do terreno da episteme (filosófica ou científica) e da techné, caímos no reino da doxa (opinião). A doxa, entretanto, foi desvalorizada tanto pela filosofia quanto, de certo modo, pela ciência. Maturana, ao que se sabe, não se colocou tal questão. Já havia feito essa pergunta no artigo Os sofistas estão voltando:

Imaginem agora o que seria uma “ciência” protagoriana, quer dizer, sofista. Uma “ciência” que não tivesse nascido como efluxo de um organismo social autocrático e sim democrático. Uma “ciência” que não desvalorizasse a opinião (doxa) em relação ao saber (episteme). Seria possível uma ciência (sem as aspas) assim? Ou o que chamamos de ciência tem que ser necessariamente closed science (e não open science), conforme à academia (um tipo de organismo social fechado, um cluster de sábios, separado do vulgo, do não-sábio)?

Os sofistas, porém, tinham uma opinião muito particular sobre a doxa. Eles não eram avalizadores da fidelidade de reproduções autorais e sim miscigenadores, livres porque podiam ser infiéis às origens da matéria com que trabalhavam. Os sofistas foram novos pensadores, não-filosóficos, para desespero de Platão. Há um problema epistemológico de fundo aqui: quando alguém se entrega ao fluxo do pensamento presente não consegue separar a doxa da episteme, nem subordinar a primeira à segunda.

A possibilidade de criar tem a ver com kairos, não com kronos. Quando um emaranhado de opiniões (atenção: não uma sistematização de conhecimentos) se conforma segundo determinadas configurações favoráveis à inovação, os novos pensadores aproveitam a oportunidade que se oferece naquele momento, pois sabem que as janelas se fecham rapidamente. Pois tudo é fluxo.

No que tange aos diferentes tipos de logos, os sofistas, como se sabe (ou melhor, não se sabe), estavam preocupados com o kairos ou a escolha do tempo adequado. E o kairos não é algo a ser alcançado pelo conhecimento (episteme) — é mais próprio da opinião (doxa).

Bem, a reflexão está apenas começando. Mas já coloca uma pulga atrás da orelha que, talvez, ajude a dar uma nova resposta para a questão de por que os filósofos, em geral, não eram democratas.

Abaixo reproduzimos o pequeno tópico, quase uma nota, de Maturana.

Ciência e Filosofia

Quando os assuntos da comunidade passaram a ser públicos nas cidades-estado gregas, e quando falar deles se tornou parte do viver cotidiano, o emocionar que torna possível o pensamento objetivo – isto é, o modo de pensar que trata os objetos que surgem na experiência do observador como se eles fossem entidades e processos com existência independente de suas ações – transformou-se no ponto de partida para duas formas diferentes de pensar e lidar com o mundo da experiência: a ciência e a filosofia, especificamente. Essas duas maneiras de pensar e lidar com os fenômenos da experiência diferem segundo aquilo que alguém pretende fazer, em suas relações, ao falar delas.

Na cultura matrística – na qual a ordem das relações humanas não se fundamenta em relacionamentos de autoridade e obediência -, os objetos são o que são na relação em que surgem ao ser percebidos. Na cultura patriarcal – em que a ordem nas relações humanas se baseia na autoridade e na obediência -, os objetos são o que são segundo a autoridade de seu criador, ou seja, existem por si mesmos. Em nenhuma dessas duas culturas, todavia, as conversações objetivadoras são parte da maneira normal de viver. Com a objetivação dos assuntos da comunidade, que faz surgir a democracia na praça do mercado das cidade-estado gregas, a prática da objetivação chega a ser uma característica de muitas conversações diferentes, pelo menos entre os cidadãos. Ela abre a possibilidade de argumentar sobre outros aspectos da vida cotidiana em termos de objetos. Mas não é só isso que acontece.

As duas maneiras de relacionar-se na ação, próprias dos aspectos matrísticos e patriarcais de nossa cultura patriarcal europeia, começam a participar de modo diferente na objetivação. Assim, na disposição matrística os objetos e processos existem na relação que os constitui na distinção – eles são o que são segundo o modo como são usados. Nessa disposição, os objetos não têm identidade própria a impor. Como eles surgem como distinções numa comunidade não centrada na autoridade, é o acordo – ou o consenso comunitário em relação a algum propósito comum, ou à alguma dimensão da convivência – que decide de fato o que será o processo ou o objeto distinguido, não estes em si mesmos.

Isto é, segundo o pensar matrístico – que se origina ao surgir a objetivação que leva à democracia -, as propriedades e características dos objetos e processos aparecem como relações constituintes que surgem em sua distinção. Nesse modo de pensar, é a participação no conviver que confere aos objetos e processos a sua existência. Isso leva a uma validação operacional, que possibilita que a reflexão e a explicação científica sejam vistas como formas sistêmicas de dar conta da vida cotidiana.

Por outro lado, segundo o aspecto patriarcal do modo objetivo de pensar que surge com a democracia, é a autoridade que manda e determina. Os objetos e processos distinguidos são o que são por si mesmos e constituem uma autoridade para tudo o que tenha a ver com eles, com base no funcionamento de suas propriedades e características intrínsecas.

Como resultado, segundo esse modo de pensar, o controle, o poder e a obediência devem prevalecer a qualquer custo. E assim surgem princípios explicativos transcendentais, que, como meios de dominação pela razão, dão origem ao modo filosófico linear de explicar, fundamentado em verdades inegáveis. Na disposição matrística – e, portanto, na democracia como um domínio neomatrístico – conserva-se o respeito mútuo; na disposição patriarcal – e, portanto, na conservação da hierarquia e da autoridade – mantêm-se o poder, a subordinação e a obediência.

Creio que os cidadãos gregos faziam entre si estas reflexões, quando a democracia começou a acontecer em seu cotidiano. Afirmo que seu emocionar se movia dessa maneira e que, como resultado dele, surgiram as duas maneiras de argumentar que hoje ainda verificamos entre os homens de ciência e filosofia. Além disso, também sustento que, como conseqüência do emocionar diferente que implicam essas duas formas de argumentar, resultou o estabelecimento dos dois domínios basicamente diversos que são a ciência e a filosofia como âmbitos explicativos. Ou seja: o domínio das ações da ciência como âmbito de explicações válidas pela coerência das experiências do cientista, e o domínio das ações da filosofia como âmbito de explicações validadas por sua coerência, com a conservação dos princípios básicos sustentados pelo filósofo.

Diante do exposto, é evidente que acredito que a prática do pensamento objetivo surgiu com a democracia, inicialmente imerso no caráter autoritário de nossa cultura patriarcal europeia ainda presente. E tanto permaneceu assim, normativo, que ainda se mantém normativo na política, no seio da vida democrática e em muitos outros aspectos da vida fora dela. Constitui o modo de pensar ideológico e a forma filosófica de explicar. Como resultado, o que predomina desde o começo do pensamento europeu moderno, com a origem da democracia grega, é o uso normativo de teorias filosóficas que dão conta da experiência humana por meio de princípios explicativos. Estes são julgados como transcendentalmente válidos a priori, ou pelo uso da razão sob a forma de teorias filosóficas de caráter político, moral ou religioso, fundamentadas em verdades aceitas a priori como evidentes e inegáveis.

Desde então, são múltiplas as noções básicas e os princípios explicativos distintos que têm sido usados em muitas teorias filosóficas diferentes, como noções e princípios que são tratados como se revelassem características cognoscíveis, objetivas e inegáveis de uma realidade transcendente. É como se elas existissem independentemente do que faz o observador e fossem usadas como fundamento para tudo. A água, o fogo, o movimento, a matéria, a mente, a consciência… e muitas outras noções têm sido utilizadas dessa maneira, ao longo da história do patriarcado europeu.

O pensamento matrístico está na base da objetivação não normativa que constitui o fundamento do modo científico de explicar. Não se desenvolveu inicialmente nesta história, ou só o fez de maneira parcial, formando pequenas áreas isoladas de sistemas explicativos de validação operacional, que permaneceram subordinadas às normas de doutrinas filosóficas que pretenderam incluí-las e validá-las. Com efeito, embora a possibilidade da ciência como uma forma relacional de reflexão e explicação surja com a democracia, ela não se desenvolve propriamente até muito mais tarde, na história da cultura patriarcal europeia. E quando a ciência de fato se desenvolve, ela o faz de uma maneira fundamentalmente contraditória com o pensamento patriarcal, que sempre pretende ou usá-la de maneira normativa ou subordiná-la à filosofia.

Em outras palavras, a ciência e a filosofia como modos diversos de lidar com o objeto surgem junto com a democracia, no processo que dá origem ao emocionar da objetivação. Contudo, como tanto a democracia quanto a ciência são rupturas matristicas da rede de conversações patriarcais, ambas enfrentam uma contínua oposição patriarcal. Esta as destrói totalmente, ou as distorce, submergindo-as numa classe de formalismo filosófico hierárquico.


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