Facebook tiro

, ,

As mídias sociais ameaçam a democracia?

Escândalo, indignação e política

As mídias sociais ameaçam a democracia?

Facebook, Google e Twitter deveriam salvar a política, pois uma boa informação evitaria preconceitos e falsidades. Algo muito errado aconteceu.

The Economist, Edição impressa | Leaders, Nov 4th 2017

Tradução livre de Renato Jannuzzi Cecchettini

Em 1962, um cientista político britânico, Bernard Crick, publicou “In Defence of Politics”. Ele argumentou que a arte do balcão político, longe de ser desgastada, permite que pessoas de diferentes crenças vivam juntas em uma sociedade pacífica e próspera. Em uma democracia liberal, ninguém obtém exatamente o que quer, mas todos têm a liberdade de liderar a vida que escolhe. No entanto, sem informação decente, civilizada e conciliada, as sociedades resolvem suas diferenças recorrendo à coerção.

Como Crick teria ficado assustado com a falsidade e o partidarismo exibidos nas audiências do comitê do Senado desta semana em Washington! Não há muito tempo, as mídias sociais sustentavam a promessa de uma política mais esclarecida, uma vez que informações precisas e uma fácil comunicação ajudaram as pessoas boas a expulsar corrupção, fanatismo e mentiras. No entanto, o Facebook reconheceu que, antes e depois das eleições americanas do ano passado, entre janeiro de 2015 e agosto deste ano, 146 milhões de usuários podem ter visto notícias falsas provenientes da Russia em sua plataforma. O YouTube, do Google, admitiu a 1.108 vídeos ligados aos russos e o Twitter 36.746 contas. Longe de trazer a iluminação, as mídias sociais estão espalhando veneno.

O problema da Rússia é apenas o começo. Da África do Sul à Espanha, a política está ficando mais feia. Parte do motivo é que, ao espalhar a falsidade e a indignação, corromper o julgamento dos eleitores e agravar o partidarismo, as mídias sociais corroem as condições para o balcão político que Crick pensava promover a liberdade.

Preste bastante atenção… Oh! Veja aquilo!

O uso das mídias sociais não causa divisões, mas as amplia. A crise financeira de 2007-2008 provocou raiva na população contra uma elite rica que havia deixado todos os outros para trás. As guerras culturais dividiram os eleitores pela identidade e não pela classe. Tampouco as mídias sociais sozinhas estão em capacidade para polarizar – basta olhar para a TV a cabo e as rádios de notícias. Mas, enquanto a Fox News é familiar, as plataformas das mídias sociais são novas e ainda pouco compreendidas. E, por causa de como elas funcionam, exercem uma influência extraordinária.

Elas ganham dinheiro, colocando fotos, postagens pessoais, notícias e anúncios na sua frente. Porque eles podem medir a forma como você reage, eles sabem como entrar sob sua pele. Eles coletam dados sobre você, a fim de ter algoritmos para determinar o que irá chamar sua atenção, em uma “economia de atenção” que mantém os usuários correndo a tela, clicando e compartilhando, compartilhando e compartilhando. Qualquer pessoa que estabeleça a forma de opinião pode produzir dezenas de anúncios, analisá-los e ver qual é o mais difícil de resistir. O resultado é convincente: um estudo descobriu que usuários em países ricos tocam seus telefones 2.600 vezes por dia.

Seria maravilhoso se esse sistema ajudasse a trazer a sabedoria e a verdade à superfície. Mas, o que quer que tenha dito Keats, a verdade não é beleza tanto quanto é trabalho árduo – especialmente quando você não concorda com isso. Todo mundo que correu a tela do Facebook sabe como, ao invés de transmitir sabedoria, o sistema entrega materiais compulsivos que tendem a reforçar as inclinações das pessoas.

Isso agrava a política de desprezo que grassa, nos Estados Unidos pelo menos, desde a década de 1990. Como diferentes lados vêem fatos diferentes, eles não compartilham nenhuma base empírica para chegar a um consenso. Porque cada lado ouve várias vezes que o outro lado não é bom, a não ser para mentir, tem má fé e calunia. Então o sistema tem ainda menos espaço para a empatia. Como as pessoas são sugadas para um turbilhão de mesquinhez, escândalo e indignação, eles perdem de vista o que interessa para a sociedade que compartilham.

Isso tende a desacreditar os compromissos e as sutilezas da democracia liberal e a impulsionar os políticos que se alimentam da conspiração e do nativismo. Considere as investigações do Congresso no processo de influência da Rússia na eleição e o promotor especial, Robert Mueller, que acaba de emitir suas primeiras acusações. Depois que a Rússia atacou a América, os americanos acabaram atacando-se um ao outro. Como os autores da constituição queriam deter os tiranos e as multidões, as mídias sociais agravam o gargalo de Washington. Na Hungria e na Polônia, sem tais constrangimentos, eles ajudam a sustentar um estilo de democracia iliberal, um estilo de democracia “o vencedor leva tudo”. Em Myanmar, onde o Facebook é a principal fonte de notícias para muitos, se aprofundou o ódio aos Rohingya, vítimas da limpeza étnica.

Mídia social, responsabilidade social

O que deve ser feito? As pessoas se adaptarão, como sempre fazem. Uma pesquisa realizada nesta semana descobriu que apenas 37% dos americanos confiam no que recebem das mídias sociais, metade dos entrevistados diz que confia nos jornais e revistas impressos. No entanto, no tempo que leva para se adaptar, os governos ruins com políticas ruins podem causar muitos danos.

A sociedade criou dispositivos, como o libelo e as leis de propriedade, para controlar a mídia antiga. Alguns estão pedindo que empresas de mídias sociais, como editores, sejam igualmente responsáveis pelo que aparece em suas plataformas; para ser mais transparente; e ser tratados como monopólios que precisam ser divididos. Todas essas idéias têm mérito, mas elas vêm com escolhas, com opções. Quando o Facebook terceiriza para empresas independentes a verificação de fatos, a evidência de que modera o comportamento é confundida. Além disso, a política não é como outros tipos de discurso; é perigoso pedir a um punhado de grandes empresas que decidam o que é saudável para a sociedade. O Congresso quer transparência sobre quem paga por anúncios políticos, mas muita influência maligna vem através de pessoas que compartilham descuidadamente mensagens de notícias pouco críveis. Dividir os gigantes das mídias sociais pode ter sentido em termos antitruste, mas não ajudaria com o discurso político – de fato, multiplicando o número de plataformas, poderia tornar a indústria mais difícil de gerenciar.

Existem outros remédios. As empresas de mídias sociais deveriam ajustar seus sites para tornar mais claro se uma publicação vem de um amigo ou de uma fonte confiável. Elas poderiam acompanhar o compartilhamento de postagens com lembretes dos danos causados por informação incorreta. Bots costumam ser usados para amplificar as mensagens políticas. O Twitter poderia desautorizar os piores – ou marcá-los como tal. Com mais eficácia, eles poderiam adaptar seus algoritmos para colocar o título chamativo destes posts mais baixo no feed de notícias. Elas podem muito bem ter que ser obrigadas por lei ou por um regulador, porque essas mudanças atuariam contra um modelo de negócios projetado para monopolizar a atenção.

As mídias sociais estão sendo atrevidas. Mas, com vontade, a sociedade pode usá-las e reviver esse sonho inicial de iluminação. As apostas para a democracia liberal dificilmente poderiam ser mais elevadas.

Segue abaixo a versão original (com todos os links).

Scandal, outrage and politics

Do social media threaten democracy?

Facebook, Google and Twitter were supposed to save politics as good information drove out prejudice and falsehood. Something has gone very wrong

The Economist, Print edition | Leaders, Nov 4th 2017

IN 1962 a British political scientist, Bernard Crick, published “In Defence of Politics”. He argued that the art of political horse-trading, far from being shabby, lets people of different beliefs live together in a peaceful, thriving society. In a liberal democracy, nobody gets exactly what he wants, but everyone broadly has the freedom to lead the life he chooses. However, without decent information, civility and conciliation, societies resolve their differences by resorting to coercion.

How Crick would have been dismayed by the falsehood and partisanship on display in this week’s Senate committee hearings in Washington. Not long ago social media held out the promise of a more enlightened politics, as accurate information and effortless communication helped good people drive out corruption, bigotry and lies. Yet Facebook acknowledged that before and after last year’s American election, between January 2015 and August this year, 146m users may have seen Russian misinformation on its platform. Google’s YouTube admitted to 1,108 Russian-linked videos and Twitter to 36,746 accounts. Far from bringing enlightenment, social media have been spreading poison.

Russia’s trouble-making is only the start. From South Africa to Spain, politics is getting uglier. Part of the reason is that, by spreading untruth and outrage, corroding voters’ judgment and aggravating partisanship, social media erode the conditions for the horse-trading that Crick thought fosters liberty.

A shorter attention spa… oh, look at that!

The use of social media does not cause division so much as amplify it. The financial crisis of 2007-08 stoked popular anger at a wealthy elite that had left everyone else behind. The culture wars have split voters by identity rather than class. Nor are social media alone in their power to polarise—just look at cable TV and talk radio. But, whereas Fox News is familiar, social-media platforms are new and still poorly understood. And, because of how they work, they wield extraordinary influence.

They make their money by putting photos, personal posts, news stories and ads in front of you. Because they can measure how you react, they know just how to get under your skin (see article). They collect data about you in order to have algorithms to determine what will catch your eye, in an “attention economy” that keeps users scrolling, clicking and sharing—again and again and again. Anyone setting out to shape opinion can produce dozens of ads, analyse them and see which is hardest to resist. The result is compelling: one study found that users in rich countries touch their phones 2,600 times a day.

It would be wonderful if such a system helped wisdom and truth rise to the surface. But, whatever Keats said, truth is not beauty so much as it is hard work—especially when you disagree with it. Everyone who has scrolled through Facebook knows how, instead of imparting wisdom, the system dishes out compulsive stuff that tends to reinforce people’s biases.

This aggravates the politics of contempt that took hold, in the United States at least, in the 1990s. Because different sides see different facts, they share no empirical basis for reaching a compromise. Because each side hears time and again that the other lot are good for nothing but lying, bad faith and slander, the system has even less room for empathy. Because people are sucked into a maelstrom of pettiness, scandal and outrage, they lose sight of what matters for the society they share.

This tends to discredit the compromises and subtleties of liberal democracy, and to boost the politicians who feed off conspiracy and nativism. Consider the probes into Russia’s election hack by Congress and the special prosecutor, Robert Mueller, who has just issued his first indictments. After Russia attacked America, Americans ended up attacking each other (see article). Because the framers of the constitution wanted to hold back tyrants and mobs, social media aggravate Washington gridlock. In Hungary and Poland, without such constraints, they help sustain an illiberal, winner-takes-all style of democracy. In Myanmar, where Facebook is the main source of news for many, it has deepened the hatred of the Rohingya, victims of ethnic cleansing.

Social media, social responsibility

What is to be done? People will adapt, as they always do. A survey this week found that only 37% of Americans trust what they get from social media, half the share that trust printed newspapers and magazines. Yet in the time it takes to adapt, bad governments with bad politics could do a lot of harm.

Society has created devices, such as libel, and ownership laws, to rein in old media. Some are calling for social-media companies, like publishers, to be similarly accountable for what appears on their platforms; to be more transparent; and to be treated as monopolies that need breaking up. All these ideas have merit, but they come with trade-offs. When Facebook farms out items to independent outfits for fact-checking, the evidence that it moderates behaviour is mixed. Moreover, politics is not like other kinds of speech; it is dangerous to ask a handful of big firms to deem what is healthy for society. Congress wants transparency about who pays for political ads, but a lot of malign influence comes through people carelessly sharing barely credible news posts. Breaking up social-media giants might make sense in antitrust terms, but it would not help with political speech—indeed, by multiplying the number of platforms, it could make the industry harder to manage.

There are other remedies. The social-media companies should adjust their sites to make clearer if a post comes from a friend or a trusted source. They could accompany the sharing of posts with reminders of the harm from misinformation. Bots are often used to amplify political messages. Twitter could disallow the worst—or mark them as such. Most powerfully, they could adapt their algorithms to put clickbait lower down the feed. Because these changes cut against a business-model designed to monopolise attention, they may well have to be imposed by law or by a regulator.

Social media are being abused. But, with a will, society can harness them and revive that early dream of enlightenment. The stakes for liberal democracy could hardly be higher.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário