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Autoritário e errado em quase tudo

Bebianno, bolsonarista de alto calão, revela o pensamento autoritário e equivocado do núcleo do novo governo

Gustavo Bebianno um dos homens-fortes de Bolsonaro, considerado seu braço direito e seu porta-voz de facto (cogitado até para ser ministro da Justiça) deu ontem uma entrevista à Folha de São Paulo que merece ser lida. Ela revela o modelo mental do bolsonarismo das altas esferas, mais próximo do capitão. Confira aqui.

Em suma, ele afirma:

1 – Que não haverá nenhum diálogo, nenhuma simples conversa, do novo governo com a esquerda (posto que a esquerda é corrupta e representa “a mentalidade mais atrasada da face da Terra” que quer “aniquilar com qualquer sociedade organizada”).

Comentário 1 | Ora, se não haverá conversa com a oposição, não haverá política e não poderá haver democracia. Na democracia, os eleitores escolhem a situação e a oposição, que devem conviver mediando seus conflitos de modo não-guerreiro. O vencedor não pode esmagar o perdedor. Isso não é política e sim guerra. Um regime em que o vencedor leva tudo e, pior, aniquila o perdedor, não reconhece a oposição como legítima. Isso não é democracia e sim majoritarismo. As maiorias não estão sempre certas do ponto de vista da democracia. A democracia não é o regime da maioria e sim o das múltiplas minorias.

2 – Que se a polícia for encarada com respeito e houver dura punição para os criminosos, 80% do problema da segurança será resolvido, pois, a verdade “é aquilo que o Jair fala: o homem só respeita aquilo que teme”.

Comentário 2 | Para a polícia passar a ser encarada com respeito é preciso, antes, que ela trate a população com respeito, desvencilhando-se – em muitos casos (não todos) – de sua associação com o crime. A credibilidade da polícia não virá da sua truculência, da sua capacidade de matar bandidos e sim da confiança que a população nela deposita. As pessoas não desconfiam da polícia porque ela mata bandidos e sim porque, frequentemente, trata mal a população, extorque, ameaça e amedronta quem não é bandido. A frase final é uma volta a Hobbes (1651): não, o ser humano não respeita só o que teme, respeita também aquilo que ama e no que confia. O governo bolsonarista aposta no medo.

3 – Que os problemas de falta de recursos para programas governamentais são consequência da corrupção.

Comentário 3 | Esta é a maior lorota espalhada pelos instrumentalizadores políticos da Lava Jato (como os bolsonaristas). Há um problema econômico de fundo, não apenas de desvio de recursos. Não foi o roubo dos políticos que tirou o leite das criancinhas. Há crise econômica e há o tamanho limitado do PIB per capita. O dinheiro não é pouco porque os políticos roubaram. Sim, os políticos roubaram muito, mas dez anos de roubos não chegam nem perto de algumas semanas de adoção de uma política desastrosa de preços para a Petrobrás.

4 – Que o país precisa, por razões morais, de “um presidente da República forte, gostemos ou não: o Brasil vem sendo governado por homens frouxos, fracos e corruptos. Jair Bolsonaro é um homem forte e honesto”.

Comentário 4 | Este argumento do “homem forte” é exatamente o mesmo de todos os governos autoritários que chegaram ao governo pelo voto (ou tomaram o poder) para, supostamente, acabar com a corrupção. Esta era a plataforma de Chávez, quando se elegeu pela primeira vez. Esta foi a justificativa para vários golpes militares (inclusive no Brasil). Bons governos – vigentes nos países onde os graus de corrupção são os menores do mundo (como a Nova Zelândia e a Noruega) – não são conduzidos por “homens fortes” e sim por representantes (aliás, atualmente, mulheres) que respeitam as leis, dialogam com as oposições e têm compromisso com a democracia. E não são governados por líderes pop stars – super-conhecidos e seguidos por multidões de fás (ou fanáticos) – e sim por simples funcionários, às vezes até meio desconhecidos. Vamos pegar, como exemplos, alguns países considerados mais democráticos (e onde os níveis de corrupção na política e violência nas ruas são baixíssimos). Quem sabe o nome dos chefes de governo da Suíça (lá é um Conselho Federal – mas alguma pessoa já ouviu falar de Doris Leuthard ou Alain Berset)? E da Islândia (quem conhece Katrín Jakobsdóttir)? E da Nova Zelândia (alguém tem alguma informação sobre Jacinda Ardern)? E da Noruega (viu-se por acaso uma pessoa chamada Erna Solberg fazendo discurso em algum palanque por lá)?

Pela entrevista de Bebbiano, bolsonarista de alto calão, ficamos sabendo como pensa o núcleo novo governo. É um pensamento autoritário – além, é claro, de errado em quase tudo.

Esta entrevista, por si só, já seria motivos suficiente para não votar em Bolsonaro. Mesmo que ele desminta Bebianno por razões eleitorais, está claro como pensam os bolsonaristas mais próximos do futuro presidente. É óbvio que ele também pensa assim. Essas ideias são constitutivas do populismo-autoritário: elas são esposadas, em maior ou menor grau, por Viktor Orban (na Hungria), por Jaroslaw e Lech Kaczynski (na Polônia), por Recep Erdogan (na Turquia), por Salvini (na Itália), por Le Pen (na França) e até por Duterte (nas Filipinas). Ainda que o fenômeno do bolsonarismo tenha características próprias, brasileiras, não se pode deixar de notar isomorfismos entre o comportamento político que o caracteriza e o comportamento político das forças i-liberais e majoritaristas que florescem hoje como principais adversárias da democracia.

Ao ler um texto como este, muitos leitores perguntam. Qual é então a alternativa? Por acaso deveremos votar em Haddad, que representa o neopopulismo lulopetista, que já mostrou a que veio e o estrago que é capaz de fazer?

Claro que não. Mesmo porque a vitória de Bolsonaro (salvo uma catástrofe – e ela já aconteceu) está praticamente garantida. A esta altura do campeonato nosso voto (dos que conseguem ler e entender o presente artigo) não tem mais tanta importância.

Há circunstâncias em que há escolha democrática e circunstâncias em que não há. Agora não há. Merval Pereira, no final do seu artigo de hoje em O Globo (17/10/2018) já equacionou a questão:

“A possibilidade cada vez maior de que um candidato como Bolsonaro chegue ao poder não é razão para que votar no candidato do PT vire uma obrigação moral, mesmo porque o PT não representa uma opção moral superior. À alternativa de escolher o “menos ruim”, há a opção de anular o voto, votar em branco, ou simplesmente se abster, para os que consideram ambos indignos de seu voto. Decisão política tão expressiva e respeitável quanto outra qualquer.”


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