A greve dos pneus Dagobah

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Bloqueio de fluxos e manipulação de massas

Uma análise da falsa “greve geral” de 28 de abril do ponto de vista das redes: uma manifestação antissocial

Chamaram a manifestação de 28 de abril de 2017 de greve. Não foi uma greve. Impedir as pessoas de ir trabalhar não tem nada a ver com a decisão de trabalhadores de fazer uma greve.

Pode-se impedir as pessoas de comparecer ao trabalho bloqueando fluxos: por exemplo, queimando pneus nas estradas, ruas, vias de acesso aos locais de trabalho (como mostra a foto que ilustra este post).

Pode-se impedir as pessoas de comparecer ao trabalho inviabilizando o funcionamento dos meios de transporte (por exemplo, enviando comandos para bloquear a saída dos ônibus das garagens, sabotando o funcionamento dos metrôs, colocando objetos pesados sobre as linhas férreas).

Isso é muito diferente de aprovar em assembléia, em cada categoria de trabalhadores, a paralisação das atividades (a greve propriamente dita). O ato de cruzar os braços para fazer alguma reivindicação ou protesto é voluntário, não forçado. As pessoas aderem ou não aderem a uma manifestação: é seu direito.

Nos grandes protestos de junho de 2013, março, abril e agosto de 2015 e março de 2016 (que culminaram com o impeachment do governo do PT) não houve bloqueio de fluxos: foi quem quis. E milhões quiseram, saíram de casa com suas próprias pernas, em geral fazendo seus próprios cartazes e se expressando da sua própria maneira. Não houve qualquer violência. Não houve nem mesmo arrebanhamento feito centralizadamente por lideranças. Não houve acarreamento (carregamento de pessoas em ônibus ou caminhões). Não houve recrutamento e aluguel de manifestantes com pagamento de diárias, nem distribuição de lanches (a tal tubaína com sanduíche de mortadela), camisetas e bonés (da CUT ou do MST).

Forçar a adesão – seja obstruindo o fluxo, seja recrutando e conduzindo gente, seja distribuindo dinheiro (alugando manifestantes) ou brindes – é sempre violência ou manipulação. A interatividade é um gradiente: interação-participação-adesão. Quando a adesão predomina, temos baixa interatividade. Por isso, pode-se dizer, que a falsa “greve geral” do dia 28 de abril foi um ato de violência e manipulação de massas, não a expressão de um protesto emergente de pessoas (que exigiria níveis compatíveis de interatividade).

Do ponto de vista das redes, a movimentação orquestrada do dia 28 de abril não apresentou as características de interatividade e emergência necessárias para definir uma manifestação social autêntica, bottom up, da mesma natureza daquelas que estamos assistindo neste dealbar do século 21: como o 11M espanhol (2004), o 14J na Tunísia, o 2F no Iêmen, o 11F no Egito (na Praça Tahir), o 14F no Bahrein, o 17F na Líbia, o 9M no Marrocos, o 18M na Síria, o 15M (novamente na Espanha: a revolta dos Indignados) e o 17S no Zuccotti Park em New York (todos em 2011). As manifestações do dia 28 de abril não apresentaram nenhuma das características do que aconteceu no memorável Junho de 2013 no Brasil e na Turquia ou no 30J (a maior manifestação da história humana, também no Egito); e, ainda, do que aconteceu na passagem de 2013 para 2014 na Praça Maidan (em Kiev), do fevereiro de 2014 na Venezuela, do setembro-outubro em Hong Kong (a chamada Revolução dos Guarda-Chuvas, em 2014); e, para finalizar a série, nem mesmo se assemelharam às manifestações de 2015 e 2016 no Brasil (os maiores atos políticos da nossa história). Por isso, não constelou multidões (em nenhum lugar se observou – no último 28 de abril – multidões enxameadas nas ruas e praças). Porque não foi mesmo um swarming e sim uma manifestação antissocial. Em alguns lugares pareceu mais com toque de recolher – daqueles decretados pelo narcotráfico em favelas, obrigando os comerciantes a fecharem as portas – do que com uma greve ou, mesmo, com uma manifestação social.

Uma manifestação é antissocial quando converte pessoas em rebanho, em unidades indiferenciadas de uma massa informe, submetendo-as ao comando de direções centralizadas e, não raro, escondendo dessas próprias pessoas os verdadeiros objetivos do movimento (criando falsos pretextos). Assim, pessoas podem ser recrutadas sob o pretexto de que estão garantindo a sua aposentadoria (que estaria ameaçada pelo aumento da idade mínima) ou o seu emprego (supostamente ameaçado pela terceirização). Mutatis mutandis, é a mesma coisa que dizer às pessoas que elas vão perder o Bolsa Família se não votarem no PT: é pura manipulação, mentira sórdida para enganar desavisados.

Outro exemplo de manifestações antissociais são aquelas decretadas por toques de recolher, do narcotráfico, da máfia ou do Hamas na Faixa de Gaza. Sim, a “máfia sindical” no Brasil – alimentada anualmente com bilhões do imposto sindical e comandada pelo PT e outros partidos aliados de esquerda – quis decretar uma espécie de toque de recolher no último 28 de abril. O PT deu um Salve, uma Fatwa para acionar suas milícias sindicais e universitárias. Não tem nada a ver com o que chamamos propriamente de social e, a rigor, nem mesmo com o que é considerado legítimo em termos sindicais em todas as full democracies do mundo.

O que ocorreu em 28 de abril de 2017, não foi nem uma greve geral, nem uma manifestação social autêntica. Foi um movimento político centralizado e organizado top down, típico do neopopulismo, da mesma natureza daqueles que são industriados pelo bolivarianismo contra a vontade da maioria das populações da Venezuela, da Nicarágua, da Bolívia, do Equador e de outros países assolados pela praga do populismo latino-americano reflorescente.

Foi um ato praticado à revelia dos desejos da população, estranho à dinâmica própria da sociedade, restritor da liberdade de ir e vir das pessoas. E, pelos seus objetivos de instalar o caos para salvar Lula da prisão e lançar sua candidatura para 2018 visando a retomada do projeto lulopetista de autocratização do nosso regime político, foi um ato contra a democracia.


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