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Bolsonaro é tão ruim que até os hierarcas militares que estão lhe servindo de babá parecem bons, mas só parecem

Tudo errado com a fala de Bolsonaro na cerimônia do 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, hoje (07/03/2019). Ele disse que a democracia só existe se as Forças Armadas quiserem. Existe um vídeo para quem quiser ouvir a declaração antidemocrática do presidente da República:

“A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer.”

Há vários erros na declaração. A missão de chefe de Estado não deve ser cumprida apenas “ao lado das pessoas de bem”. Ela deve ser cumprida para todos os brasileiros.

Outro erro. Bolsonaro não foi escolhido para governar apenas para as pessoas “que respeitam a família… [e] que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa”. Qual família? A família monogâmica patriarcal, do pai patrão, que dominava os filhos e a mulher (e a enganava)? E que história é essa de “ideologia semelhante à nossa”? “Nossa” de quem? A diplomacia brasileira não pode ter um critério ideológico (seja de esquerda ou de direita). Não foi isso que ele criticou na política externa petista? A diplomacia deve estar sujeita aos interesses do país, não à uma visão de mundo (muito menos uma crença conspiracionista reacionária como a do bolsonarismo).

Mais um erro. Forças Armadas não são a condição para haver democracia (inclusive existem países democráticos sem forças armadas). Em democracias as forças armadas não têm qualquer papel político e estão subordinadas ao poder civil, que deve controlá-las.

As tentativas de correção dos Generais Heleno e Mourão da fala de Bolsonaro foram emendas piores que o soneto.

Heleno chegou a dizer o disparate de que em todos os países do mundo as forças armadas são a garantia da democracia e da liberdade. Ora… as 61 ditaduras (sob as quais ainda vive mais da metade da população do planeta) são, em boa parte, ditaduras militares. Quem vai agora corrigir Heleno? O pior é que ele não se enganou. Ele pensa isso mesmo. É um analfabeto democrático, um hierarca de mentalidade i-liberal. Não, não há nada fora de contexto. Ele disse, literalmente: “As Forças Armadas são o baluarte da democracia e da liberdade. Historicamente, em todos os países do mundo”. Confiram.

Quanto à correção de Mourão, Reinaldo Azevedo foi no ponto:

“O general Hamilton Mourão, vice-presidente também eleito, tentou dourar a pílula, assegurando que a fala foi mal interpretada. E empregou a Venezuela como exemplo. Como, naquele país, as Forças Armadas ainda garantem o apoio a Nicolás Maduro, então vige uma ditadura. O general é inteligente o bastante para saber que sua frase pode ser desconstruída sem muito esforço. Então ficamos assim, senhor vice-presidente: a democracia existe por vontade do povo; as ditaduras, por vontade dos militares. O que lhes parece? Há uma diferença que distingue a civilização da barbárie entre estas duas frases de sentidos semelhantes apenas na aparência: 1: Nas democracias, as Forças Armadas garantem os Poderes Constituídos; 2: só existem democracia e Poderes Constituídos se as Forças Armadas quiserem. Na primeira, elas se subordinam à ordem democrática; na segunda, elas a tutelam. Os países que vivem a circunstância nº 1 são democracias; os que experimentam a nº 2 são ditaduras”.

A que ponto chegamos. Dezenas de generais – além de Mourão e Heleno – se colocaram no papel ridículo de babá de Bolsonaro. Seu principal papel no governo está se reduzindo a trocar as fraldas do governante inepto, limpar as sujeiras expelidas pelo capitão.

Bolsonaro é tão ruim que até os hierarcas militares que estão lhe servindo de babá parecem bons. Só parecem. Porque, na verdade, são ruins. São, como estamos vendo, analfabetos democráticos de mentalidade i-liberal.


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