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Bolsonaro está apenas nos enganando

Circula pelas mídias sociais um PrtScn de uma entrevista concedida por Jair Bolsonaro ao Estadão (em 04/09/1999) elogiando Hugo Chávez. O debate sobre o tema está revelando quem é o capitão Bolsonaro, cujo mote principal é combater os corruptos apresentando-se como o único candidato honesto.

Comecemos com os antecedentes.

O PRIMEIRO GOLPE DE CHÁVEZ TINHA COMO MOTIVO PRINCIPAL COMBATER A CORRUPÇÃO

O “Movimiento Bolivariano Revolucionario 200” (MBR-200) foi fundado pelo tenente-coronel Hugo Chávez Frías.

Ele usou a imagem do herói revolucionário venezuelano Simón Bolívar como seu símbolo.

Sua principal crítica era sobre a corrupção do governo de Carlos Andrés Pérez.

Chávez preparou-se por um longo tempo para um golpe de Estado cívico-militar. Inicialmente planejado para dezembro, Chávez adiou o golpe do MBR-200 até as primeiras horas do crepúsculo de 4 de fevereiro de 1992.

O golpe fracassou, Pérez escapou e Chávez foi preso.

Assim começou o chavismo, vertente fundadora do bolivarianismo.

Isso tudo se sabe. Mas aqui dois detalhes são importantes:

1) Chávez politizou a luta contra a corrupção.

2) O papel do ditador Fidel Castro nisso tudo.

Sobre esse segundo ponto, leiam o relato do guarda-costas de Fidel:

“Juntos, Castro e Chávez, graças ao gênio político de um e ao petróleo do outro, conseguiram relançar o internacionalismo — projeto do século XIX, inspirado em Simón Bolívar e no cubano José Martí (1853-95), grande teórico do anti-imperialismo que pregava a solidariedade internacional —, criando a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), organização esquerdista que reunia essencialmente Bolívia, Equador e Nicarágua.”

Continuemos.

Depois de sair da cadeia em razão da tentativa frustrada de golpe de Estado de 1992, contra o governo de Carlos Andrés Perez, Chávez fundou, em 1997, o Movimento Quinta República (um partido de esquerda que se dissolveu em 2007 para integrar o PSUV – atual partido oficial da ditadura venezuelana de Maduro). Chávez foi eleito presidente da República nas eleições de 1998 e ficou no poder até sua morte em 2013.

Quando tentou derrubar pela força o governo constitucional (pretextando combater a corrupção) e quando concorreu às eleições Chávez já era um militar (tenente-coronel) golpista.

Todo mundo sabia disso. Até o capitão Bolsonaro no Brasil. Vejam o que ele declarou em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em 2 de setembro de 1999, sete meses depois de Chávez assumir a presidência.

Questionado ontem (11/12/2017) por essas autocráticas afirmações, Bolsonaro assim se explicou a O Antagonista:

“Ora, 90% do povo venezuelano vibrou com a eleição de Chávez, assim como o Brasil vibrou com Lula. Eu gostei de ver um coronel paraquedista no governo. Seu discurso era outro. A gente se ilude com as pessoas.”

Sobre a frase “não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar”, reproduzida naquela época pelo Estadão, o deputado diz que foi retirada de contexto.

“Eu disse que, no meio militar, nós nos aproximamos do comunismo na maneira como somos tratados — e não na defesa da liberdade. Todos somos iguais, usamos o mesmo uniforme. Comparados com qualquer classe, o militar se aproxima do comunismo. Mas o espírito é completamente diferente.”

A explicação conseguiu ficar pior do que a entrevista de quase vinte anos atrás. Vejamos as incongruências e as desculpas-esfarrapadas:

1) O discurso de Chávez não era outro em 1999 (quando ele assumiu o poder pelo voto), nem em 1992 (quando ele tentou tomar o poder pela força). Sempre foi o mesmo discurso: contra o neoliberalismo, contra o imperialismo dos USA, contra a corrupção.

2) No comunismo (a imaginária sociedade igualitária, sem classes) não são todos iguais aos militares (porque usam o mesmo uniforme). Aliás, nas FFAA, todos são diferentes, distribuídos em degraus diversos de uma escada hierárquica: há oficiais superiores e inferiores, há oficiais, sargentos, cabos e soldados – todos diferentes em poder, proventos e privilégios.

Bolsonaro não conseguiu se explicar simplesmente porque ele estava (e ainda está) convencido do que disse.

Ele acha que militares devem intervir na política, se for possível devem dar um golpe (tendo como pretexto acabar com a corrupção dos civis). Ele repete que os militares golpistas de 1964 no Brasil estavam certos. Ele compara Chávez ao general Castelo Branco, primeiro ditador que assumiu o comando do país após o golpe militar. Se não fosse assim não elogiaria tanto as declarações intervencionistas do recentemente exonerado General Mourão.

Claro que ele não concordava e não concorda com a ideologia comunista de Chávez (que nem comunista era, a rigor, pois nunca pertenceu à tradição dos movimentos e organizações marxistas-leninistas), mas concordava e concorda com o seu comportamento antidemocrático – que é o que importa para a democracia. Além disso, tal como Chávez, Bolsonaro era e continua sendo um estatista (agora disfarçado de liberal para papar votos).

Não, Bolsonaro não se iludiu com Chávez porque ele foi um protoditador. Chávez sempre foi um autocrata e Bolsonaro o aprovou justamente por isso. Não foi um mal-entendido, mas um bem-entendido.

Bolsonaro só não continua defendendo abertamente isso hoje porque sabe que não conta com o apoio dos comandantes militares e, tal como Chávez (que qualificou como “uma esperança para a América Latina”), escolheu a via eleitoral para autocratizar a democracia e agora tem que mudar o discurso para não perder votos. Como tática eleitoral, está fazendo o mesmo que Lula, em 2002, com a “Carta aos Brasileiros” e a imagem construída do “Lulinha paz e amor”.

Ou seja, ele está apenas nos enganando. E está repetindo o mesmo papo-furado contra a corrupção usado pelo tenente-coronel Hugo Chávez no seu primeiro golpe contra a democracia.

Reflitamos pois como o combate à corrupção pode ser instrumentalizado politicamente pelos adversários da democracia e pelos analfabetos democrático que lhes seguem como tontos.

Querer construir uma plataforma política a partir do combate à corrupção é um desserviço à democracia. Claro que qualquer corrupção que caracterize violação do Estado democrático de direito deve ser coibida e punida de acordo com as leis. Mas a aplicação das leis é uma obrigação de estado, não um projeto político comprometido com a continuidade do processo de democratização.

Estabelecer uma polarização entre honestos e corruptos despolitiza e, inevitavelmente, autocratiza. Se fosse assim, no século 5 antes de Cristo, deveríamos ficar do lado dos (autocratas) espartanos contra os (democratas) atenienses. Mas os espartanos estimularam e financiaram dois golpes sangrentos contra a democracia ateniense, estabelecendo a ditadura dos 400 e a ditadura do 30 (que matou, em 8 meses, tanta gente ou mais quanto toda a primeira fase da Guerra do Peloponeso). Sim, eles eram honestos, mas se tivessem obtido o apoio da opinião pública, jamais teria sido aberta a brecha democrática nos sistemas patriarcais de dominação.

Por isso que, no Brasil de hoje, o autocrata Bolsonaro gosta tanto de um movimento com esse tipo de pauta e que fabrica uma polarização apolítica (ou antipolítica: a antipolítica robespierriana da pureza). É uma oportunidade de ouro para ele dizer: sou honesto contra todos os corruptos. Ora, ser honesto não basta. Castelo Branco, o primeiro ditador após golpe de 1964 – comparado por Bolsonaro, não por acaso, a Hugo Chávez – também era honesto.


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