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Bolsonaro será domesticado pela institucionalidade democrática?

Sobre os candidatos a amansadores de Bolsonaro e os adeptos da teoria da camisa de força

Marcos Nobre, na revista Piauí de dezembro de 2018, fez uma boa análise dos que têm fé na domesticação de Bolsonaro. Reproduzo abaixo alguns trechos do artigo, intitulado “A revolta conservadora”.

Preliminarmente, só um reparo quanto ao título: não há bem, no Brasil e no mundo, uma revolta ou uma reação conservadora e sim uma ofensiva reacionária. É diferente. Se estivesse havendo uma revalorização do comportamento político de estadistas conservadores, como Winston Churchill, Margaret Thatcher e Ronald Reagan, não teríamos tantos motivos para preocupação. Conservadores que respeitam o Estado democrático de direito não são i-liberais. O que está havendo é uma investida populista-autoritária, i-liberal e majoritarista, contra a democracia liberal.

Excertos do artigo:

“Quem acha que o capitão-presidente vai acabar se adaptando à institucionalidade democrática se divide em dois grupos.

O primeiro grupo é o dos amansadores. Salvo engano, quem lançou a metáfora foi Paulo Guedes. Na edição de setembro da piauí, Malu Gaspar registrou a fala do futuro superministro da economia: “‘Aí chega um sujeito completamente tosco, bruto e consegue voto como o Lula conseguiu. A elite brasileira, em vez de entender e falar assim, pô, nós temos a oportunidade de mudar a política brasileira para melhor…’ Guedes fez uma pausa e prosseguiu, parafraseando as críticas ao seu candidato: ‘Ah, mas ele xinga isso, xinga aquilo… Amansa o cara!’ Pergunto se é possível amansar Bolsonaro. ‘Acho que sim, já é outro animal.’”

O segundo grupo não acredita na tese de que o adestramento será suficiente. Quem acha que pessoas serão incapazes de executar essa tarefa, aposta que as instituições e a realidade farão o serviço. O Congresso, o Supremo Tribunal Federal, as exigências da economia e da gestão de governo, a ordem internacional. Foi o Sensacionalista quem primeiro levantou a hipótese de uma faixa presidencial em versão camisa de força. Mas o fato é que essa metáfora está na cabeça de muita gente…

Também não parece lá muito convincente a ideia de que uma fera será adestrada por alguém que lhe é subordinado, como é o caso da relação do ministro Paulo Guedes com o presidente a que servirá. Guedes parece mais alguém que quer levar o crédito por um adestramento que vai muito além das suas capacidades de domador.

As estranhezas dessas duas visões talvez tenham fortalecido a convicção de que a fera não será domada, de que não tem camisa de força institucional que segure esse presidente. Isso e mais o medo que o capitão-candidato conseguiu produzir e disseminar pelo que disse e fez nos últimos trinta anos, a campanha eleitoral incluída. Tem muita gente achando que a sociedade e o Estado serão vítimas de uma barbarização conservadora, de uma selvageria política legitimada pelo voto.

Quem acredita na tese do adestramento ou da camisa de força institucional acha que a hipótese da selvageria de Estado ignora os fatos: é preciso lidar com a fera e a fera terá de lidar com a realidade. Adotar outra premissa seria precipitado e irresponsável, e só serviria para estimular o pânico e a ansiedade. O mínimo que se deve fazer é aguardar ações concretas do novo governo para calibrar as interpretações e as ações correspondentes.

Cabe a cada pessoa decidir por si mesma o que pensar e o que fazer, evidentemente. Mas o que se tem até agora são apenas essas interpretações difusas, essas versões mais ou menos irrealistas do que pode acontecer. Faltam aqueles sinais luminosos que indicam a saída mais próxima em caso de emergência. O que restou do sistema político não anda capaz de produzir interpretação, muito menos orientação para a ação. Quem tem feito isso com exclusividade é o presidente eleito…

Pode parecer razoável esperar que o novo governo se instale e comece a agir oficialmente para só então reagir concretamente às suas medidas. Mas isso só faz sentido deixando de lado o caráter revolucionário do projeto conservador que Bolsonaro representa. Ou superestimando a capacidade de um sistema político destroçado de resistir a um projeto que pretende tirar o pouco de chão que ainda lhe resta para se apoiar. Superestimando a capacidade de instituições debilitadas de resistir a trombadas violentas.

No fundo, candidatos a adestradores e adeptos da teoria da camisa de força pensam que Bolsonaro será obrigado mais cedo ou mais tarde a se render – à realidade, à situação fiscal, às dificuldades de produzir um governo funcional. Guardadas as proporções históricas, esperam que aconteça com Bolsonaro o que aconteceu com Collor em 1992, quando caiu nos braços do PFL de Jorge Bornhausen para tentar salvar seu governo. Guardado o abismo ideológico, esperam que aconteça com Bolsonaro o que aconteceu com Lula, que caiu nos braços do PMDB em 2005, após o mensalão.

Só que não. O capitão está disposto a perder tudo se for necessário, mas nunca se renderá. É isso o que parece incompreensível para quem pensa em amansá-lo ou espera que a camisa de força venha a lhe tolher os movimentos. Incompreensível porque é revolucionário, justamente. O mesmo velho sistema político que se horrorizou com as pretensões hegemonistas do PT vai descobrir que o partido de Lula era um partido tucano em comparação com o projeto hegemonista que Bolsonaro representa. Vai descobrir que o “nós contra eles” petista, que tanto horror provocou, era brincadeira infantil perto do que fará o capitão-presidente. Agora é “nós contra a rapa”.

Bolsonaro faz parte de um projeto de pretensões globais de construção de uma nova internacional conservadora. O presidente eleito se alinha às novas direitas (e são muitas) que tomam como norte governos como os do Chile, dos Estados Unidos, da Itália, da Hungria. O futuro chefe do Itamaraty, o embaixador Ernesto Araújo, foi posto lá para participar dessa construção.

O capitão-presidente tem bem pouco a ver com Donald Trump, assim como a democracia brasileira tem pouco a ver com a institucionalidade democrática dos Estados Unidos. Bolsonaro imita Trump antes de tudo como tática para se normalizar. Mas não só. A maneira de operar de Trump não é uma exclusividade do presidente americano; é um modus operandi comum aos expoentes da nova internacional conservadora.

A tática geral é simples. Não há pretensão de governar para todo mundo. Esse discurso e essa prática seriam típicos do velho mundo da velha política, que era pura enganação. Trata-se, agora, de governar para uma base social e eleitoral que não é maioria, mas que é grande o suficiente para sustentar um governo. Algo entre 30% e 40% do eleitorado. Tornar essa base fiel é fundamental para manter o poder. Em momentos críticos, como, por exemplo, as disputas eleitorais, a tática consiste em produzir inimigos odientos o suficiente para conseguir uma ampliação forçada dessa base e assim conquistar a maioria.”

O restante do artigo não vale a pena reproduzir. Nobre insinua que as oposições devam compor uma frente contra Bolsonaro, o que é uma maneira oblíqua de dizer que devem ser lideradas e hegemonizadas pelo PT, preparando a volta da esquerda ao poder em 2022. É claro que isso é errado. Já que, como reconhece Marcos Nobre, as velhas instituições políticas (inclusive os velhos partidos) estão derruídas, do que se trata hoje é de uma espécie de “aliança rebelde” dos democratas, pacífica e legal, distribuída (não centralizada), contra o avanço dos populismos na sociedade (sejam ditos “de esquerda”, como o neopopulismo lulopetista ou “de direita”, como o populismo-autoritário bolsonarista). Do contrário os democratas é que se converterão em conservadores.


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