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Bolsonaro toma posse, mas continua no palanque, apostando na guerra

Bolsonaro fez ontem (01/01/2019) dois discursos de posse: um no Congresso e outro no parlatório do Planalto.

O QUE É FALSO NO PRIMEIRO DISCURSO DE BOLSONARO

Leiam algumas frases proferidas pelo novo presidente da República falando aos congressistas e convidados:

1) Bolsonaro disse:

“Quando os inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida, milhões de brasileiros foram às ruas”.

É falso. Todas as informações até agora apontam que a facada em Bolsonaro foi dada por um sujeito desequilibrado, foi um ataque de uma pessoa a um candidato, não um atentado político. Falso porque o agressor, ao que se saiba, é apenas um doido e um criminoso, não um inimigo da pátria, da ordem e da liberdade.

Falso ainda porque não foi a facada que fez milhões de brasileiros irem às ruas e sim o descontentamento com a situação, a vontade de renovação, o repúdio ao PT e a preocupação com o descalabro da segurança pública.

2) Bolsonaro disse:

“Aproveito este momento solene e convoco, cada um dos congressistas, para me ajudarem na missão de restaurar e de reerguer nossa pátria, libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”.

Falso. Não tinha submissão ideológica nenhuma no Brasil. O PT saiu do governo em 2016 e o governo Temer não subordinou o Brasil a nenhuma ideologia (comunista, como ele não explicitou mas deu a entender).

3) Bolsonaro disse:

“Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e as nossas tradições judaico-cristãs, combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas”.

Falso. Não há nenhum tipo de “amarra ideológica” no governo que Bolsonaro herdará de Temer. Estranha também essa história de valorizar a família: qual a família que Bolsonaro quer valorizar? Aquela em que a mulher era submissa ao marido? Aquela em que ocorriam a maior parte dos molestamentos de menores (pelos próprios familiares)? E qual a ideologia de gênero que Bolsonaro quer combater? Aquela que diz que mulheres e homens são iguais e têm os mesmos direitos e que é livre a orientação sexual que qualquer pessoa queira adotar? Por último, que história é essa de “tradições judaico-cristãs”? O cristianismo nascente, se tem alguma coisa a ver com a vida de Jesus de Nazaré, foi condenado pelo judaísmo.

MAIS FALSIFICAÇÕES NO SEGUNDO DISCURSO DE BOLSONARO

Tudo fake. Uma vergonha. No seu discurso ao público, no púlpito do palácio do Planalto, depois de já ter feito várias alegações falsas na sua fala ao Congresso Nacional, Bolsonaro começa dizendo:

“Me coloco diante de toda nação neste dia, como o dia que a nação começou a se libertar do socialismo”.

Como assim? Quer dizer que Temer era um governo socialista? Quando é que houve socialismo no Brasil? O fato dos petistas se declararem socialistas não significa que houve no Brasil um governo (muito menos um regime) socialista. E o PT foi apeado do governo em 2016, pelo impeachment. É uma alegação inverídica, que aposta nas narrativas urdidas por malfeitores ideológicos como Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo e Steve Bannon. Além de tudo é um desrespeito com o presidente que acabou de lhe passar a faixa presidencial.

Bolsonaro e os bolsonaristas dizem que tudo isso é a vontade da maioria do povo brasileiro. Falso novamente. Eliane Cantanhêde, no Estadão de ontem, fez uma lembrança oportuna:

“Dos 147,3 milhões de eleitores, 57,7 milhões (39,2%) votaram no novo presidente e 89,3 milhões (60,8%), não. Entre estes, 42,5 milhões, quase um terço, não votaram nem em Bolsonaro nem em seu adversário do segundo turno, Fernando Haddad, do PT. Somam-se aí ausentes, votos nulos e brancos. Esses números dizem muito da situação política. Assim como seus opositores têm de reconhecer a sua legitimidade, Bolsonaro precisa admitir que teve o voto de menos de 40% e vai governar para 100% dos eleitores – e da população. Vai ter de avançar, ceder e buscar o consenso, sempre negociando com o Congresso e prestando contas à opinião pública. A mídia, por mais agredida, continuará no seu papel de apurar e cobrar”.

Bolsonaro finaliza o discurso erguendo uma bandeira do Brasil:

“Essa é nossa bandeira e jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela!”.

Qual a necessidade desse tipo de discurso para governar? Parece que não é bem de governo que Bolsonaro está tratando e sim da continuidade da guerra direita x esquerda.

Ou seja, temos um militante da guerra fria no governo. Vai governar, ao que tudo indica, trepado no palanque, investindo na construção e manutenção de inimigos como pretexto para tornar a nossa democracia menos liberal.

Leia o texto mais completo: Análise dos discursos de posse de Jair Bolsonaro.


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Análise dos discursos de posse de Jair Bolsonaro