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Bon Voyage

Quantos desses antipetistas fanáticos de undécima hora criticavam Lula em 2003, 2004, 2005… ou mesmo em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010? Quantos jornalistas e analistas políticos desvelavam o projeto autocratizante de poder do PT nos primórdios dos seus dois primeiros governos? Conto o seu número nos dedos de uma mão.

Eu já criticava o PT, na grande imprensa, em sites e blogs, em livros e nas incipientes mídias sociais. Agora é a mesma coisa em relação a Bolsonaro e ao bolsonarismo. Daqui a alguns anos vou estar fazendo – mutatis mutandis – a mesma pergunta. “E aí, inteligente? Você não leu o memo?”

Entendo que pessoas pouco afeitas à democracia, incluindo os jornalistas e analistas que temos, padeçam de severas dificuldades de compreensão. E entendo também a necessidade das pessoas infectadas com as ideias-implante da cultura patriarcal, de querer acreditar, desesperadamente, em algum líder providencial, extraordinário, capaz de salvá-las dos males reais ou imaginários que as afligem.

Só peço uma coisa. Não venham me dar lições de democracia: vocês não têm a menor noção do que se trata. Quem não é capaz de perceber que está diante, agora, de um projeto populista-autoritário, assim como não foi capaz de perceber, antes, que estava diante de um projeto neopopulista – e que ambos são subversores da democracia – melhor seria se ficasse de boca fechada.

Os mesmos que não viram os perigos do lulopetismo também tendem a não ver os perigos do bolsonarismo. É apenas um nota para um futuro ensaio sobre a cegueira dos democratas de baixa intensidade.

BON VOYAGE

Os tucanos, por exemplo, nunca entenderam o que significava o PT. Eles sempre pensaram que o PT era um partido igual aos outros, um player normal do jogo democrático. Eles achavam (e provavelmente continuam achando) que poderiam compor com o PT uma espécie de condomínio tácito, onde todos pudessem exercer a velha política para satisfazer, cada qual, seus próprios interesses, respeitando as regras do jogo, como se estivessem num clube de cavalheiros.

Lembra uma cena do filme Bon Voyage de Jean-Paul Rappeneau (2003): as elites francesas se refugiam no hotel Splendide, em Bourdeaux – cidade ainda livre dos nazistas, que já haviam ocupado Paris – e enquanto tomam champanhe no saguão conversam animadamente: “Oh! Não pode ser tão difícil. Nós aprenderemos a conviver com eles”.

O mesmo vale agora para nossos analistas políticos em relação a Bolsonaro. É considerável o esforço que fazem para ver tudo com tranquilidade, descartar os sinais de perigo, fechar os olhos para não perceber os indícios. Estão parecendo aquelas vaporosas damas parisienses do Bon Voyage, fazendo prognósticos otimistas entre goles de Dom Pérignon no saguão do Splendide.

MEUS PROGNÓSTICOS

É com tristeza que revelo que meus prognósticos não são nada animadores. No meio desta guerra entre bolsonaristas (que não se darão por satisfeitos até que os comunistas, os globalistas, os esquerdistas sejam varridos da face da Terra) e lulopetistas (que roubaram a expressão ‘resistência democrática’ para deturpá-la), os democratas (imprensados entre dois populismos (um dito “de direita”, o populismo-autoritário e outro dito “de esquerda”, o neopopulismo: ambos subversores da democracia) serão os que mais sofrerão. Se não forem capazes de perceber a tempo os preocupantes sinais que já foram emitidos de todo lado, os democratas correm o risco de ser excluídos da cena pública e a ficar meio irrelevantes (e isso na melhor das hipóteses…).

É bom ficar vigilante. Voltarei a falar de cada um desses sinais, alguns fortes, outros fracos. O fato é que todos esses sinais indicam que caminhamos para um período de escuridão. Isso poderá acontecer mesmo que Jair Bolsonaro faça um governo rigorosamente dentro das leis (e, é claro, das novas leis que ele pretende criar).

DAQUI A 10 ANOS VOLTAMOS A CONVERSAR

Sei que não adianta muito tentar convencer as pessoas que têm dificuldades de compreender a democracia. Quando, em 2003 e 2004, – eu e mais meia dúzia de pessoas (se tanto) – avisávamos, na grande imprensa e em todo lugar, que o projeto neopopulista lulopetista usava a democracia contra a democracia, as pessoas nem ouviam, se ouviam não entendiam, as que entendiam riam (e pensavam: “mais um delirante”, “um mau perdedor”, “um radical que não sabe reconhecer a vontade da maioria esmagadora do povo”).

Muitos dos que riam já eram os analistas políticos que hoje pontificam nos nossos jornais e TVs e viraram críticos do PT na undécima hora, depois do impeachment (eles pensam que a gente esqueceu?).

Pois bem. Agora é a mesma coisa. Eu digo que o neopopulismo lulopetista (dito de esquerda) continua sendo uma ameaça à democracia. E que o populismo-autoritário bolsonarista (dito de direita) também é uma ameaça à democracia. Não que essas duas forças políticas vão acabar com a democracia, mas vão conseguir torná-la i-liberal ou menos liberal e majoritarista. Podem não ouvir. Podem não querer entender. E podem rir à vontade. Daqui a 10 anos voltamos a conversar. Talvez antes.


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