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Brexit: os prejuízos causados pelo populismo

Os populistas, sobretudo os de extrema-direita, são antiglobalistas.

Os antiglobalistas odeiam a União Europeia. Na verdade, odeiam qualquer união, até mesmo a ONU e os organismos multilaterais. Gostam mesmo é da guerra fria que acompanha o sistema de equilíbrio competitivo entre as nações. É o regime hobbesiano do “todos contra todos”: cada país competindo com todos os demais para levar o máximo de vantagem.

São nacionalistas: mas como a nação moderna só se traduz politicamente na forma Estado-nação (ela própria um fruto da guerra, da paz de Westfália), são, ao fim e ao cabo, estatistas (no sentido político do termo).

Segundo eles as nações não deveriam entrar em acordos que restringissem sua soberania. Como se isso fosse possível num mundo cada vez mais interligado.

Na verdade, a pretexto de combater o globalismo (uma ideologia) o que eles querem é voltar atrás no processo de globalização (um fenômeno objetivo). Um dos seus obscuros teóricos, o malfeitor ideológico Michael Minnicino (1992) – no artigo The Frankfurt School and ‘Political Correctness’ – publicado pelo Schiller Institute, em que aparecem os fundamentos do pensamento olavista adotado por Ernesto Araújo, Vélez-Rodrigues e outros bolsonaristas que ocupam o governo Bolsonaro, deixa claro que eles querem que voltemos centenas, milhares de anos para reconstruir a civilização destruída pelo globalismo comunista:

“Os princípios pelos quais a Civilização Judaico-Cristã Ocidental foi construída agora não são mais dominantes em nossa sociedade; eles existem apenas como um tipo de movimento de resistência clandestina. Se essa resistência for finalmente submergida, a civilização não sobreviverá – e, em nossa era incurável de doenças pandêmicas e armas nucleares, o colapso da civilização ocidental muito provavelmente levará o resto do mundo para o inferno. A saída é criar um Renascimento. Se isso soa grandioso, não deixa de ser o necessário. Um Renascimento significa, começar de novo; descartar o mal, e desumano, e simplesmente estúpido, e voltar, centenas ou milhares de anos, às idéias que permitem à humanidade crescer em liberdade e bondade. Uma vez que tenhamos identificado essas crenças básicas, podemos começar a reconstruir a civilização. Em última análise, um novo Renascimento dependerá de cientistas, artistas e compositores, mas no primeiro momento, depende de pessoas aparentemente comuns que defenderão a centelha divina da razão em si mesmas e não tolerarão menos em outras. Dados os sucessos da Escola de Frankfurt e de seus patrocinadores da Nova Era das Trevas, esses indivíduos comuns, com sua crença na razão e na diferença entre certo e errado, serão “impopulares”. Mas, nenhuma ideia realmente boa foi popular, no começo.”

Os conspiracionista-antiglobalistas pensam que a nação é o veículo usado por Deus para a salvação das almas (sim, alguns olavistas-bolsonaristas dizem literalmente isso, inclusive Olavo de Carvalho e seu discípulo Ernesto Araújo, além da famiglia Bolsonaro): como se a genética já não tivesse descoberto a “grande família”, ou seja, que nós – os Homo Sapiens – somos quase todos primos (até o grau 50 de parentesco).

Não duvide. Leia o que escreveu o autocrata religioso Olavo de Carvalho, em 14/11/2017, na sua página do Facebook:

“O Catecismo da Igreja Católica ensina que a divisão da humanidade em nações e povos é parte essencial do plano divino para a salvação das almas, e que o amor à pátria é uma decorrência lógica do dever de honrar pai e mãe. Deus ODEIA todo globalismo”.

Vejam agora a besteira que fizeram com o tal Brexit: não há solução para o caso. A realização do plebiscito (ou referendo, a distinção é confusa na Inglaterra), abriu um campo imenso para populistas – como Arron Fraser Andrew Banks e Nigel Farage (na foto, ao lado de Trump) – manipularem a opinião pública (inclusive com a “ajuda” dos russos e dos bannonistas-trumpistas que estavam em campanha eleitoral nos Estado Unidos).

Ativistas (de direita) como Stephen Bannon e teóricos (de esquerda) como Chantal Mouffe argumentam que o populismo é uma correção necessária… a longo prazo, ajudará a lidar com as queixas populares, reduzir o poder das elites políticas e financeiras e até mesmo tornar os sistemas políticos mais completamente democráticos. No entanto, um importante e robusto estudo empírico de Jordan Kyle e Yascha Mounk (2018) mostra que um governo populista – seja da direita ou da esquerda – tem um impacto altamente negativo nos sistemas políticos e leva a um risco significativo de erosão democrática, além de sempre causar severos prejuízos econômicos nos médio e longo prazos.

Se a consulta fosse refeita hoje, a saída da União Européia seria rejeitada por ampla maioria. Assim como a permanência (na CEE), em plebiscito anterior, de 1975, também foi aprovada por ampla maioria (de 2/3). A Wikipedia, neste caso, faz um bom resumo:

“Em 1975, foi realizado um referendo sobre a permanência ou não do país na Comunidade Econômica Europeia (CEE). O resultado da votação foi favorável à permanência. O eleitorado britânico foi novamente chamado a decidir sobre a questão da permanência ou não do país no bloco comum, em novo referendo, realizado no dia 23 de junho de 2016. Esse referendo foi organizado após a aprovação do European Union Referendum Act de 2015 pelo Parlamento britânico. O resultado da segunda consulta foi o oposto à primeira, foi favorável à saída. Analistas dizem que esta foi a decisão mais importante para os britânicos desde 1975, quando dois terços do eleitorado optaram por ingressar na então Comunidade Econômica Europeia.

Em 16 de junho de 2016, a parlamentar trabalhista britânica Jo Cox, partidária da permanência do Reino Unido na União Europeia, foi assassinada após ter sido atingida por dois tiros em um ataque, em Birstall (norte da Inglaterra). Por conta desse ataque, tanto a campanha pela permanência na UE como a favorável à saída suspenderam todos os atos do dia. Várias testemunhas relataram que o agressor gritou Britain First! (“Grã-Bretanha primeiro!”), nome de um partido de extrema-direita contrário à imigração. No dia da votação do referendo, um jornal alemão trouxe como notícia de capa uma matéria no mínimo curiosa: ele prometeu “acabar com as piadas sobre as orelhas do príncipe Charles” e “reconhecer o gol de Wembley”, na final da Copa do Mundo de 1966 se o Brexit não for aceito. Em 13 de março de 2017 ambas as câmaras do Parlamento do Reino Unido rejeitaram emendas que poderiam prolongar o processo de retirada do país do bloco, permitindo assim que a primeira-ministra Theresa May a denuncie formalmente o Tratado da União Europeia e inicie as negociações”.

E agora May (que, aliás, votou contra o Brexit, coitada) não tem muito mais o que fazer.

O Reino Unido entrou numa fria desnecessariamente e sua população arcará com os inevitáveis prejuízos. Eis aí no que dá o populismo.


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