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Caindo na real: a democracia brasileira crucificada por dois autoritarismos

O resultado eleitoral continua indefinido. Seja qual for, no entanto, não será muito bom para a democracia. No máximo poderá ser “menos pior”.

Há um critério democrático chamado “aceitabilidade da derrota”. Quem não adota tal critério não é um player válido da democracia. Os dois mais bem colocados na disputa, até agora, não respeitam tal critério. O PT dirá que perdeu porque Lula foi impedido de concorrer, logo a eleição fez parte do mesmo golpe do impeachment. Bolsonaro (ou os bolsonaristas) dirá que as urnas eletrônicas foram fraudadas, tanto é assim que barraram o voto impresso.

O PT é problema para a democracia brasileira ganhando ou perdendo as eleições. Se ganhar, retomará seu projeto autocratizante interrompido pelo impeachment. Se perder, investirá na desestabilização do governo eleito (seja ele qual for). Recorrerá diariamente ao STF e, em menos de 100 dias, pedirá o impeachment do eleito (como fez desde Sarney com todos os presidentes que não eram petistas).

Bolsonaro também é problema para a democracia brasileira ganhando ou perdendo. Se ganhar, sem base congressual suficiente para aprovar qualquer mudança significativa, estimulará tendências intervencionistas ao dizer que o parlamento corrupto está contrariando a vontade popular que o elegeu. Se perder, pode voltar à sua vida fisiológica anterior, mas não conseguirá conter a fúria dos seus fanáticos, que concluirão que pela via eleitoral o Brasil não será capaz de mudar. Verifiquem o que repetem os bolsonaristas diariamente: “Bolsonaro é a última chance” (isso tem um significado).

Já analisei as diretrizes (chamadas de ideias-força) do programa de governo do PT para 2018 (chamado de “Plano Lula” num evidente deboche com a justiça e com a nossa cara). Agora estou concluindo a análise da íntegra do plano. É um programa tão insano quanto corajoso. Eles não tiveram nenhum receio, nenhuma reserva, nenhuma vergonha de dizer o que vão fazer: revanche, retaliação contra os que lhes fizeram oposição, desmantelamento das reformas a duras penas aprovadas, retrocesso dilmista na política econômica e retomada do caminho da autocratização interrompido pelo impeachment. Está tudo lá, inclusive o controle partidário-governamental dos meios de comunicação e do judiciário. Leiam, porque vale a pena para dimensionar as ameaças que pairam sobre nós se o cavalo de Lula subir a rampa do Planalto. Não é o Plano Lula, o plano do presidiário, mas será o “Plano do Cavalo”.

Também já analisei a Proposta de Plano de Governo de Bolsonaro, que – como tudo em que ele toca – é um horror.

O PT e Bolsonaro estão deixando claro o que querem fazer. E não é bom para a democracia o que eles pretendem.

Assim, ao que tudo indica, as urnas de 2018 não pacificarão o país. Independentemente de quem for eleito, o petismo e o bolsonarismo continuarão existindo e atuando. Não vão se dissolver. A democracia brasileira está crucificada por dois autoritarismos: o neopopulismo lulopetista (dito de esquerda), mais horizontal, e o populismo-autoritário bolsonarista (dito de direita), mais vertical. Ambos estão usando a democracia contra a democracia. Bolsonaro é apenas um oportunista eleitoreiro (que tende a se conformar com qualquer resultado), mas o bolsonarismo não: com a derrota de Bolsonaro (“a última chance” de mudar pelas vias legais), os fanáticos da nova direita autocrática tendem a sair completamente fora do campo da democracia, rejeitando inclusive o caminho eleitoral.

Vários fatores influíram para que chegássemos a tal situação. A vacilação, a leniência e a conivência do PSDB, que se omitiu de fazer oposição de verdade, durante mais de uma década, ao projeto neopopulista do PT. A carona que pegaram, nas grandes manifestações pelo impeachment, malfeitores ideológicos como o autocrata Olavo de Carvalho, ofertando uma narrativa estruturada para o crescimento da militância bolsonarista. E a instrumentalização política da operação Lava Jato.

Que fique claro. A Lava Jato enquanto operação jurídico-policial do Estado de direito, está correta e deve ser apoiada. Mas não a moralina-protestante dos que instrumentalizaram a operação para fazer a política mais sórdida e mais burra, que imprensou os democratas entre dois horrores: o PT e Bolsonaro. E não é despropositado perguntar: de que adiantou tanto carnaval punitivista da Lava Jato se o chefe da maior organização política criminosa de nossa história está batendo nos 40% de intenção de voto e com chances reais de colocar sua quadrilha de volta no governo?

Não foi por falta de aviso. Cansou-se de alertar que o moralismo lavajatista – estimulado por analfabetos democráticos, sobretudo pela direita olavista e bolsonarista – ia nos jogar nesta situação dificílima. O PT se prepara para voltar ao governo e retaliar. Vai perseguir os democratas. Quando The Empire Strikes Back, a saída é fugir para Dagobah. Os democratas devem se preparar para mais uma década de resistência democrática. Não é certo que vai acontecer, em política as coisas podem mudar da noite para o dia, mas o PT se recuperou, manipulou a opinião pública com a conversa de que só fez “o que todo mundo faz” (o que é mentira) e está a um passo de voltar ao poder. E mesmo que não volte, acumulou força suficiente para inviabilizar qualquer governo saído das urnas de 2018: em vez de política (democrática) teremos guerra de baixa intensidade, uma guerra civil fria de longa duração.

Não há nada de muito significativo que os democratas possamos fazer. Restou-nos, por ora, a dedicação às especulações eleitorais. Mas esta atividade é altamente incerta. Para se ter uma ideia, examinemos as perguntas abaixo:

AS PERGUNTAS QUE MANTÊM INDEFINIDO O RESULTADO ELEITORAL

1 – Qual a elasticidade do voto Bolsonaro (ele já bateu no teto ou pode ainda crescer)? O piso sólido (de cerca de 15%) já conquistado por Bolsonaro será suficiente para levá-lo ao segundo turno?

2 – Qual será a taxa real de transferência de votos de Lula (ele conseguirá transferir o número de votos necessários para, em três semanas, levar Haddad ao segundo turno)? Quais as porcentagens desses votos que irão para Marina, Ciro ou mesmo Bolsonaro? Quando se conseguirá captar, com maior probabilidade de acerto, essas porcentagens de transferência?

3 – Qual o potencial de votos de Alckmin (quanto sua campanha pode crescer a partir do início do horário eleitoral a ponto de levá-lo para o segundo turno)? Qual a probabilidade de se formar uma vigorosa corrente de opinião, com força para se transformar em onda eleitoral, a favor de Alckmin? Se isso não acontecer até meados de setembro, qual a probabilidade de vir a acontecer na reta final (nas duas ou três últimas semanas) do primeiro turno?

4 – As pesquisas de intenção de voto da última quinzena de agosto são convergentes e como não é razoável supor que todos os principais institutos que fazem levantamentos eleitorais (Datafolha, Ibope, MDA, Poder 360, Ideia Big Data e Ipespe) tenham sido comprados por Lula, qual a relevância dessas pesquisas (ou a sua probabilidade de acerto) para antecipar resultados eleitorais quando feitas antes do início da campanha? Qual seria a porcentagem de votos não declarados (envergonhados) em Bolsonaro? Qual a porcentagem de recall nas intenções de voto de Lula? Qual a porcentagem de recall nas intenções de voto de Marina? O não-voto (brancos, nulos e abstenções) já bateu no teto? Qual o seu piso?

Convenhamos. São muitas perguntas que não podem ser respondidas nas próximas duas semanas. E talvez depois, nas duas ou três últimas semanas, não adiante mais respondê-las. Eis o ponto!

A única coisa que poderia modificar o cenário futuro, que tenebrosamente se delineia no horizonte visível, seria as ruas voltarem a falar. Por certo a dinâmica eleitoral é diferente da dinâmica das ruas, ainda que possa ser influenciada (em geral negativamente) por esta última. Mas ocorre que não há, no Brasil, nenhuma movimentação social expressiva desde que as pessoas depositaram suas esperanças de renovação na Lava Jato, ou seja, terceirizaram para o Estado (para estamentos corporativos de funcionários: procuradores e juízes) uma tarefa que deveria ser da sociedade.

Não, não foi a Lava Jato que provocou o impeachment: foram as ruas, enxameadas em 15 de março, em 12 de abril e em 16 de agosto de 2015 e em 13 de março de 2016. Depois desses memoráveis swarmings civis, não houve mais nenhuma manifestação massiva comparável. Depois disso tivemos o protagonismo de estamentos do Estado que queriam fazer uma limpeza na política (e resolveram priorizar a demonização de Michel Temer).

Vejamos, porém, no que deu a avalanche de investigações, vazamentos, delações e prisões. Não custa repetir: o chefe da maior organização política criminosa da nossa história está batendo nos 40% de intenções de votos (e não importa que ele não possa ser candidato: o relevante aqui é que segundo os olhos de boa parte da população, ele não é culpado de nada – e, se for, não estão dando tanto peso a isso, já que todo mundo é ladrão mesmo, melhor Lula que, pelo menos, está do lado do povo – e deveria voltar ao governo). Seu sub-chefe (o “capitão do time”), Dirceu, está escandalosamente solto e atuando (e quase ninguém está ligando). Cerca de 30 (trinta) dirigentes do núcleo duro da organização política criminosa que dirige o PT também continuam atuando e praticamente não foram incomodados (com exceção de João Vaccari) pela justiça ou pela polícia.

Por outro lado, também é significativo que a imensa maioria dos grupos que se formaram com o objetivo de combater à corrupção e de apoiar à Lava Jato esteja hoje fazendo abertamente a campanha de Jair Bolsonaro (sempre em segundo lugar, em todos os levantamentos). Há razões fundadas para o pessimismo na medida em que não se vê no horizonte uma retomada da movimentação social. As ruas estão caladas e, ao que tudo indica, assim permanecerão até outubro de 2018. Tirem suas conclusões (sem wishful thinking, por favor).

É hora de cair na real.


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