Cartografando

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Cartografando a chamada direita

Comecei a tentar fazer um mapa da tal direita do ponto de vista da democracia. Antes que me acusem de rotular alguém, aviso que faço exatamente o oposto. Só considero de direita os que se dizem de direita. Ademais, não acredito nessa história de direita x esquerda, quer dizer, não compro o esquema da divisão do mundo em dois lados (que, para mim, é um malware).

Nunca diria, por exemplo, que liberais são “de direita” (mesmo que alguns deles, tolamente, queiram assim se considerar). Muito menos os libertários (não no sentido em que a esquerda marxista atribuiu ao termo ao se apropriar dele, mas no sentido lato do conceito segundo o qual todo democrata é um libertário na medida em que o sentido da política democrática é a liberdade – e não a ordem).

Quando a esquerda inventou a esquerda, no mesmo ato inventou a direita. Os que caíram no truque e aceitaram essa divisão herdaram também um modo simétrico de interagir com o mundo e passaram a ser militantes (adotando, por enantiodromia, modos tão autocráticos quanto os dos que combatiam). Resultado: independentemente do conteúdo do que professa – em termos de modo, que é o que interessa à democracia (um modo não-guerreiro de regulação de conflitos) – a direita passou a ser uma espécie de esquerda com o sinal trocado (reduzindo a política a uma questão de lado).

Dito isto, prossigamos.

Dentre os que se dizem de direita fiz um levantamento de grupos e páginas no Facebook que colocaram no nome do grupo ou da página a palavra ‘direita’. Recolhi cerca de 100 iniciativas e elas estão listadas e linkadas no artigo Os que se dizem de direita não são a direita?

Após examinar a lista, concluí que não era possível dizer que a verdadeira direita não era composta pelos que se declaram de direita. Assim, considerei que a direita realmente existente é composta (entre outros) pelos que se declaram de direita (a despeito de alguns, que querem ser reconhecidos como a verdadeira direita, dizerem que a maioria dos grupos que se declaram de direita são de extrema-direita).

A direita realmente existente é aquela que se configura como um par enantiodronômico da esquerda realmente existente. Vá alguém dizer que o PT não é esquerda ou que o PSOL é a verdadeira esquerda e que o PSTU ou o PCO são extrema-esquerda. Tudo isso é irrelevante: é apenas uma disputa dentro de um campo que, por sua vez, é caracterizado por um tipo de comportamento político geral (sendo que um dos sinais mais importante desse comportamento da esquerda é dividir tudo em esquerda x direita, por isso se afirma que foi a esquerda que inventou a esquerda).

Mas voltando ao assunto. Quem é a direita – que se declara direita (a despeito de outros direitistas dizerem que alguns desses, que se declaram de direita, não são a verdadeira direita ou que são a extrema-direita ou a direita xucra ou a direita fascista) – e o que ela defende?

A DIREITA LIBERAL EM TERMOS ECONÔMICOS, MAS NÃO TÃO LIBERAL ASSIM EM TERMOS POLÍTICOS

Em primeiro lugar temos os liberais que, mesmo se declarando de direita, não deveriam – se fossem realmente liberais – ser considerados de direita (como já foi dito acima) e, muito menos, autocratas. O pessoal do Instituto von Mises Brasil, do Instituto Liberal e do Instituto Liberal de São Paulo (ILISP) deveriam se enquadrar nessa categoria? Em princípio, sim, mas na prática não se sabe bem. Ocorre que, examinando o que publicam – sobretudo ultimamente, os seus babosos elogios a Donald Trump -, chegamos à conclusão de que eles, ainda que possam ser liberais em termos econômicos, não são tão liberais assim em termos políticos, compartilhando uma parte de suas ideias com os chamados conservadores ou liberais-conservadores e, outra parte, com os autocratas que se dizem de direita (como é o caso do Rodrigo Constantino, para não falar do Flávio Morgenstern e, talvez, em um ou outro aspecto, do Denis Rosenfield).

Aqui talvez se deva colocar também (pelo menos em atenção ao que ele próprio declara) o legalista Reinaldo Azevedo, que embora reduza a democracia ao Estado de direito (o que revela um viés conservador), tem o bom senso de não ser trumpista: sim, liberais não poderiam ser trumpistas na medida em que o trumpismo é um populismo nacionalista e autoritário (e, portanto, anti-liberal, pelo menos em termos políticos).

E se situaria na mesma região do mapa, quem sabe, o pessoal do MBL (ou alguns de seus expoentes, como Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Renan Santos e Arthur do Val).

Do ponto de vista da democracia – que é o que realmente interessa – liberais não são autocratas e sim democratas. Desgraçadamente, nem todos os liberais em termos econômicos o são em termos políticos.

A DIREITA LIBERAL-CONSERVADORA

Em segundo lugar temos os conservadores e os liberais-conservadores que se declaram de direita. Cabe aqui uma distinção importante. É preciso distinguir o conservadorismo em termos culturais do conservadorismo como corrente de pensamento político. Toda cultura é conservadora, pois seu papel é conservar comportamentos por meios de reprodução não-genética. Assim, várias ideias que fazem parte de conversações conservadoras e que, a rigor, dificultam a apreensão da democracia, são compartilhadas também em conversações entre pessoas que abraçam diferentes narrativas marxistas e que se dizem “de esquerda” ou revolucionárias – o que é um sinal de que o pensamento conservador está presente em todo espectro ideológico ou filosófico-político.

Só para dar alguns exemplos: declarem ou não explicitamente o que pensam, não raro muitos reacionários (ditos de direita) e revolucionários (ditos de esquerda) compartilham as ideias de que o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo, de que as pessoas (tomadas como indivíduos) se movem buscando sempre maximizar a satisfação de seus interesses (que são, ao fim e ao cabo, egotistas), de que não é possível organizar nada sem (uma boa dose de) hierarquia (e de que a hierarquia seria natural) e de que não é possível mobilizar a ação coletiva a não ser a partir de lideranças destacadas. São, todas essas, ideias conservadoras. Vá-se lá dizer-lhes que não há qualquer evidência de que a competição seja inerente à natureza humana (seja o que for) e sim, pelo contrário, que o que humanizou o animal Homo Sapiens foi justamente a interação colaborativa (a carícia, o sexo frontal, o linguagear e o conversar, o compartilhamento de alimentos et coetera), que não existe nenhum Homo Hostilis primordial (uma besta-fera a ser domada pela civilização), que não há rigorosamente falando nenhuma hierarquia na natureza (ou nos cinco reinos de seres vivos), que a auto-organização (dos humanos e dos seres vivos em geral) não é só possível, mas acontece o tempo todo e que é possível que a ação coletiva se organize sem ser pelo seguimento de líderes destacados da “massa” (como assistimos numerosas vezes neste século, desde o março de 2004 em Madri até as grandes manifestações do impeachment no Brasil de 2015 e 2016).

Para a cultura dominante (e isso se revela no senso comum – que é conservador) todas as ideias acima são inovadoras. O que nos faz pensar que o contrário de conservador (que se diz de direita) é inovador, não “revolucionário” ou “progressista” (quer dizer, conservador que se diz de esquerda).

Cabe ressaltar que as multidões que foram às ruas em 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto de 2015 e em 13 de março de 2016 no Brasil, ainda que possam ter sofrido alguma influência dos atores que se declaram conservadores, não têm – em sua imensa maioria – nenhuma afinidade com o pensamento da chamada direita. As pessoas não foram às ruas seguindo ninguém, nem foram acarreadas por alguém. Foram com suas próprias pernas, fizeram os seus próprios cartazes e expressaram, cada qual do seu modo, o seu descontentamento com o governo do PT.

Mas as pessoas não são de direita ou de esquerda. Do fato de serem conservadoras (em qualquer lugar do mundo é assim, na medida em que – é bom repetir – as culturas são conservadoras, no sentido de que conservam modos de vida) e do fato das pessoas tenderem a manter as disposições pretéritas de pensamento e ação a que estão acostumadas, não se pode derivar que elas sejam de direita (só porque a chamada direita, em alguns casos, defende pontos de vista congruentes com o senso comum ou com a cultura predominante, como, por exemplo, a valorização da família, da tradição, da propriedade, da escola, da igreja, da pátria ou, em alguns casos, a pena de morte, a redução da maioridade penal, o direito de portar armas para se defender de bandidos, contra o casamento gay e o chamado gayzismo nas escolas ou pela criminalização do aborto e das drogas). São os agentes políticos que se declaram de direita ou de esquerda, não os atores sociais.

Os atores sociais podem ser conservadores, no sentido explicitado nos parágrafos acima, mas os agentes políticos que se dizem conservadores são os liberais-conservadores (que constituem uma corrente propriamente dita de pensamento). Pessoas como Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho deveriam ser alocadas nessa região do mapa. É a turma que lê alguma coisa e também pensa alguma coisa, inspirada em autores como Edmund Burke, Michael Oakeshott, Roger Scruton, Russell Kirk, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler.

Na verdade, aos democratas interessa pouco a discussão sobre a caracterização de correntes de pensamento que almejam definir uma identidade e conquistar seguidores. No plano teórico o que interessa aos democratas é saber quais são, substantivamente, as ideias que favorecem ou dificultam o processo de democratização. Sobre isso, vamos ouvir o que diz Pondé:

“O pensamento “liberal-conservative” se caracteriza por defender a sociedade de livre mercado, a propriedade privada, a liberdade de expressão e religiosa, pluralismo moral, a democracia representativa com “corpos médios” locais atuantes, uma educação meritocrática, emancipação feminina, tributação alta para grandes heranças, desoneração da classe trabalhadora, profissionais liberais e pequenos e médios empresários, Estado mínimo necessário (inclusive porque isso diminui a corrupção), saúde eficaz para a população. E, não esqueçamos: opção liberal quanto à vida moral, cada um faz o que quiser na vida privada contanto que respeite a lei, e esta deve levar em conta esta liberdade privada”.

Nota-se que, a despeito do que dizem os liberais-conservadores sobre suas propostas – enfatizando, como no caso acima, a ideia de liberdade – o que prevalece mesmo é a ideia de ordem. Vejamos por que.

Ao falar da liberdade de expressão religiosa, por exemplo, às vezes eles não explicitam a ideia subjacente de que as religiões têm um papel civilizatório, de domar uma suposta besta-fera humana (já que sem um deus – onisciente e onipotente – tudo seria permitido).

O mesmo ocorre quando falam de educação meritocrática: em geral eles, os liberais-conservadores, não afirmam diretamente a ideia (meritocrática) – platônica e antidemocrática – de que quem deve governar (dirigir o Estado, o país, a cidade e, por decorrência, a sociedade) é quem sabe mais. E tampouco dizem, mas tudo indica que pensam, que só pode haver aprendizagem se houver ensino e que cabe às escolas (ou às famílias) – por meio do ensino (escolar ou homeschooling) – preparar as crianças e os jovens para o mundo, incutindo-lhes as noções de ordem, hierarquia, disciplina e obediência.

E quando falam em democracia representativa, aí sim, deixam claro que tomam a democracia apenas como um modo de administração política do Estado (nem sempre, porém, deixando tão claro que acham um disparate tentar democratizar a família, a escola e a universidade, a igreja, as corporações e os partidos, as organizações sociais, empresariais e estatais). E, definitivamente, também não deixam claro que não tomam a democracia no sentido forte do conceito, como processo de desconstituição de autocracia (originalmente contra a tirania dos psistrátidas na Atenas da passagem do século 6 para o século 5 e, depois, quando foi reinventada pelos modernos, contra o poder despótico de Carlos I, na Inglaterra do século 17); ou, ainda, que não tomam a democracia pelo seu genos, que é não viver sob o jugo de um senhor, como reza a primeira definição escrita de democracia, de Esquilo (472 AEC), em Os Persas, ao falar dos atenienses: “Não são escravos nem súditos de ninguém”.

Observando o seu comportamento político pode-se concluir que é irrelevante que eles confessem tudo isso, explicitando as subjacências mencionadas. Eles são liberais-conservadores porque pensam assim. Ora, tais ideias estão sintonizadas com visões da sociedade e do ser humano que inspiram práticas, se não anti-democráticas, pelo menos não democratizantes.

É preciso ver que a democracia nasceu de uma inovação social (a rede social distribuída de conversações que se articulou na praça do mercado de Atenas) e não de uma manutenção das tradições políticas dos antigos gregos. Não foi um movimento de conservação e sim de inovação.

Mesmo assim, todas as correntes que se enquadram na categoria de direita mencionadas acima – os liberais em termos econômicos e não tão liberais em termos políticos e os liberais-conservadores – são vertentes legítimas de pensamento e comportamento político numa democracia. Os democratas não podem pretender conviver apenas com democratas.

A DIREITA AUTOCRÁTICA ANTICOMUNISTA, NA VIBE DA GUERRA FRIA

A partir daqui, porém, há uma degeneração. E surgem os anacrônicos grupos anticomunistas (ainda na vibe da guerra fria dos anos 1960-90). Esclareça-se, em tempo, que democratas são contra o comunismo, mas isso é muito diferente de ser um militante anticomunista.

Temos então os antiglobalistas e, dentre estes, os conspiracionistas (a turma pirada que combate o suposto projeto de uma Nova Ordem Mundial) e os localistas não-cosmopolitas que militam contra a globalização (a pretexto de combater o globalismo).

Aí vêm, por ordem de degeneração decrescente, o Olavo de Carvalho e seus fanáticos (incluindo um autocrata de sacristia chamado padre Paulo Ricardo), o Jair Bolsonaro (que parece ser mais um oportunista eleitoreiro) e a turbamulta vil composta por seus seguidores, o Marcello Reis e sua turma do Revoltados Online.

Mas temos também, entre os anticomunistas, os monarquistas que lembram um pouco os antigos tefepistas (como os membros da casa real Dom Luiz, Dom Bertrand, Dom Antonio e até o jovem Luiz Philippe de Orleans e Bragança, do grupo Acorda Brasil).

E os militaristas nacionalistas que pontificam nas FFAA (ainda que só possam se manifestar quando na reserva), incluindo até arapongas do ex-SNI, como o coronel Enio Fontenelle e seus admiradores (como Marta Serrat).

E, por último, uma turma que – com menos experiência política, pouca reflexão e alta dose de moralismo – gravita mais ou menos em torno das ideias conspiracionistas e nacionalistas, como a Carla Zambelli (do Nas Ruas), a Bia Kicis e a Joice Hasselmann. Posso estar sendo impreciso ou até injusto na classificação destas últimas pessoas (citadas neste parágrafo), pois como elas não formulam nada ou quase nada, conheço muito pouco do seu pensamento.

Todos esses grupos, embora se oponham aos comunistas, à esquerda e ao PT, militam contra a democracia. O diabo é que a direita que aparece realmente na cena pública – como revela o rápido levantamento feito nos grupos e páginas do Facebook – é a representada por esses clusters autocráticos, o que só favorece a esquerda na sua caracterização da direita como uma corrente hidrófoba e fascista.

É óbvio que este esforço cartográfico que faço aqui é limitado. Identifiquei apenas pessoas e coletivos que atuaram mais destacadamente na cena pública no período político em que vivemos, da bancarrota do governo do PT aos dias que correm (o que abarca os dois, no máximo três, últimos anos).

O esforço não se pode dar como satisfatório e ainda está longe de ser concluído.

 

 

 

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