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Clipping de 23/01/2019 – Caso Bolsonaros-Milícias

Não há mais como esconder as relações da família Bolsonaro com as milícias. É gravíssimo porque o pai é o presidente da República, um dos filhos senador, outro deputado federal e outro, ainda, vereador. Sabia-se que viviam, todos, há muito tempo, do dinheiro público legal. Mas agora há suspeitas de que não só.

Quando alguém começa a mexer muito com armas e se exibir em estandes de tiro, fazer negócios imobiliários envolvendo dinheiro vivo pra lá e pra cá, se misturar com policiais e ex-policiais, alguns envolvidos com o crime, elogiar milícias (e até condecorar milicianos e contratar seus familiares e agregados), declarar que os direitos humanos só devem valer para os humanos direitos (para os humanos tortos, o remédio é uma bala na cabeça – já que bandido bom é bandido morto), tentar desacreditar a imprensa e acusar todos os críticos de estarem conspirando para derrubar o governo, convém ligar o alerta.

Agora o alerta disparou em relação às movimentações do clã dos Bolsonaro. Não adianta tentar desligar o alarme. É normal que as pessoas se perguntem: estamos diante de bandidos?

Vamos aos fatos, começando pelas declarações documentadas de Jair Bolsonaro:

Em 2003 ele discursou na Câmara dos Deputados:

Em 2008 ele voltou a falar na Câmara:

Seu filho, Flávio Bolsonaro, foi na mesma linha:

Leiam agora o clipping temático de hoje:

Tal pai, tal filho

Ricardo Noblat, Blog do Noblat, Veja (23/01/2019)

Aperta o cerco

Quem disse?

“Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo.”

“Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência.”

“A milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”.

“[Eu mesmo] gostaria de pagar R$ 20, R$ 30, R$ 40 para não ter o carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, ver um filho empurrado para as drogas.”

Antes de revelar quem disse o quê: milícia é uma organização criminosa formada por policiais e ex-policiais que extorquem dinheiro de moradores em troca de proteção contra bandidos. Muitas vezes, mata ou manda matar.

De volta ao passado: as duas primeiras afirmações foram feitas por Jair Bolsonaro em agosto de 2003 e em fevereiro do ano passado já como candidato a presidente. As duas seguintes por seu filho Flávio como deputado estadual.

Faz-se de conta que as declarações mais explosivas, chocantes e bizarras feitas por Bolsonaro pai foram coisas de um político apenas à caça de votos. De preferência, deveriam ser esquecidas uma vez que ele se elegeu presidente.

O que disse o Bolsonaro, de nome Flávio, ganhou o relevo que não mereceu à época desde que dois milicianos foram alvo, ontem, no Rio, de uma operação policial que investiga extorsões, assassinatos e outros tipos de crimes.

O major Ronald Paulo Pereira é acusado de ter participado de uma chacina em 2003 onde foram mortos quatro jovens. Quatro policiais militares já foram condenados pelo crime. Pereira é o único que ainda não foi julgado.

Três meses depois da chacina, Flávio aprovou uma moção de louvor ao major na Assembleia Legislativa do Rio. Pereira foi homenageado pelos” importantes serviços prestados ao estado do Rio de Janeiro”.

Desde ontem, Pereira está preso, apontado como um dos principais integrantes da milícia da Muzema, na Zona Oeste do Rio. Segue foragido e caçado o ex-tenente da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de ser chefe de milícia.

Ele também já foi homenageado por Flávio na Assembleia Legislativa por ser um policial que “desenvolvia sua função com dedicação e brilhantismo”. A mãe e a mulher do ex-tenente foram funcionárias do gabinete de Flávio.

No caso de Magalhães da Nóbrega, Flavio o homenageou mais uma vez. Conseguiu que a Assembleia Legislativa lhe concedesse a Medalha Tiradentes, a maior honraria do Estado. Magalhães da Nóbrega foi expulso da PM em 2014.

Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-tenente, está na lista dos funcionários do gabinete de Flávio que fizeram depósitos na conta do ex-assessor Fabrício Queiroz. Flávio disse que ela foi contratada por Queiroz. O ex-assessor confirmou.

Flávio voltou a repetir que é vítima de uma campanha de difamação por ser filho de quem é. E Queiroz explicou que contratou a mãe e a mulher de Magalhães da Nóbrega só porque ele estava preso. Quis apenas ajudá-lo.

Toda vez que Queiroz sai em socorro de Flávio só faz cavar ainda mais o buraco onde os dois correm o risco de ser enterrados. Toda vez que Flávio tenta se proteger à sombra do pai presidente ameaça enterrar o clã dos Bolsonaro.

Aula de Brasil

Idelber Avelar, perfil do Facebook (22/01/2019)

E eis que se entroncaram, muito antes do que qualquer um poderia imaginar, as duas principais investigações político-policiais do Brasil dos tempos recentes, uma dos últimos meses, a outra das últimas semanas: o enriquecimento ilícito da família Bolsonaro e o assassinato de Marielle Franco.

Como sempre, a coisa começa com o laranja: Queiroz, o inacreditável motorista que movimenta R$ 7 milhões em três anos, mas precisa pegar R$ 40 mil emprestados com o Presidente da República e pagá-los de volta na conta da Primeira-Dama. Acredite quem quiser. Ato contínuo, Queiroz fica doente, desaparece, e se abriga em uma favela de Rio das Pedras, que até a Pedra do Arpoador, do outro lado da cidade, sabe que é dominada por milícias.

Paralelamente, começa a desmoronar o castelo de corrupção de Flavinho Bolsonaro, aquele que ganhou milhões e milhões, em menos de dois anos, com uma lojinha de chocolate – e que já havia movimentado milhões de reais antes de sequer ter qualquer atividade empresarial, só com o salário de Deputado Estadual. E que deposita R$ 96 mil mangos em 48 prestações de R$ 2 mil, em um caixa eletrônico situado em uma das agências bancárias mais tranquilas que há.

Na mesma Rio das Pedras em que se escondeu Queiroz, a polícia executa vários mandados de prisão preventiva e eis que … trabalhavam no gabinete de Flavinho Bolsonaro a mãe e a esposa de um dos suspeitos, um ex-capitão do BOPE já acusado há mais de uma década por envolvimento em homicídios.

Não há episódio que revele as entranhas do poder no Rio de Janeiro como este, não só o poder político propriamente dito (Executivo, Legislativo, Judiciário) como também o poder para-político (milícias, tráfico, igrejas, rádios). Está tudo ali, desenhadinho. No centro do furacão, uma família que certamente deu um passo maior do que as pernas, e agora terá que decidir se estanca a sangria rifando um dos filhos.

Quer uma aula de Brasil? Siga o fio de Queiroz e Flavinho, e entenda por que Jair Bolsonaro, que é um burro inteligente – ou seja, um burro que sabe que é burro – dizia, ainda em 2016: “se eu tiver 10% [dos votos], já tá bom”. Os moleques, mimados e criados a leite com pera, evidentemente se deslumbraram e não fizeram o cálculo do perigo. Acharam que Brasília era a Alerj.

Ah, o Moro continua caladinho.

Mais uma na conta do Queiroz

Bernardo Mello Franco, O Globo (23/01/2019)

A simpatia da família Bolsonaro pelas milícias já era conhecida. O fato novo é a proximidade de Flávio com o chefão do Escritório do Crime

Primeiro foram os 48 depósitos em dinheiro vivo. Depois, os R$ 7 milhões na conta do motorista. Era difícil imaginar outra notícia capaz de piorar a situação de Flávio Bolsonaro. Aí veio a Operação Os Intocáveis.

O Ministério Público deu um passo importante para desmontar o Escritório do Crime, principal grupo de extermínio em atividade no Rio. A Justiça ordenou a prisão do ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe da gangue. Ele conseguiu fugir, mas não apagou os vínculos com o senador eleito.

Como deputado estadual, Flávio propôs uma moção de louvor ao miliciano por sua “dedicação, brilhantismo e galhardia”. “É com sentimento de orgulho e satisfação que presto esta homenagem”, escreveu. Dois anos depois, ele premiou o ex-PM com a Medalha Tiradentes, a maior honraria do Estado.

O reconhecimento não se limitou às palavras. O filho do presidente também empregou a mãe e a mulher do foragido em seu gabinete. As duas ficaram penduradas até dezembro. Quando largaram a boquinha, o deputado já havia sido promovido a senador.

A simpatia da família Bolsonaro pelas milícias já era conhecida. Pai e filho usaram seus mandatos para defender os grupos paramilitares. “Não se pode simplesmente estigmatizar as milícias”, discursou Flávio, em 2007. “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”, elogiou Jair, em 2018.

O fato novo é a proximidade do primeiro-filho com um chefão do Escritório do Crime, cuja lista de vítimas pode incluir Marielle Franco. Em tempo: Flávio foi o único deputado a votar contra a concessão da Medalha Tiradentes à vereadora assassinada.

Ontem o senador eleito adotou uma tática pouco original para se defender. Jogou a contratação da mãe e da mulher do miliciano na conta do motorista. Nessa toada, Flávio ainda vai tentar nos convencer de que ele era o assessor do Queiroz —e não o contrário.

É cada vez mais barulhento o silêncio de Sergio Moro sobre as suspeitas que envolvem o filho do chefe.

Esqueleto em cova rasa

Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo (23/01/2019)

Relação amigável com milícias abre caminho para segunda crise em 22 dias de governo

A família Bolsonaro nunca fez questão de esconder sua relação amistosa com as milícias. Os integrantes do clã tratavam publicamente esses grupos de policiais e ex-policiais como generosos prestadores de serviços de segurança, ignorando os crimes de extorsão e assassinato cometidos por muitos deles.

Os vínculos não se restringiam aos discursos. Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete duas parentes de um ex-PM suspeito de chefiar uma facção de matadores que agia a serviço de milicianos.

Quase todo político com uma longa trajetória sabe que episódios do passado reaparecem como assombrações. Alguns, bem escondidos, caem no esquecimento. Os esqueletos da família presidencial, porém, parecem estar enterrados em cova rasa.

Até novembro, trabalharam para Flávio na Assembleia Legislativa a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, um ex-capitão do Bope acusado de comandar uma milícia na zona oeste do Rio.

O filho do presidente diz que seu ex-assessor Fabrício Queiroz foi o responsável pelas nomeações.

Se Queiroz tinha carta branca para contratar e demitir, suspeita-se que ele não era um auxiliar qualquer de Flávio. A coisa fica mais esquisita quando se destaca que a mãe de Adriano apareceu num relatório do Coaf por ter repassado R$ 4.600 para a conta do fiel amigo do ex-assessor.

Queiroz assumiu a responsabilidade, mas não fez qualquer menção ao envolvimento de Adriano com os matadores. A família também nunca demonstrou preocupação com o assunto. Tanto Flávio quanto Jair já enalteceram a atuação das milícias.

Em 2007, o filho votou contra a instalação de uma CPI para investigar os bandos no Rio. O pai disse que esses grupos apenas “organizam a segurança na sua comunidade”.

Por décadas, o clã Bolsonaro fez política aplaudindo essas associações e se recusando a tratá-las como criminosas. Em apenas 22 dias, essas ligações foram desenterradas e abriram caminho para a segunda crise do novo governo.

Escândalo precoce

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo (23/01/2019)

Caso do clã Bolsonaro torna mais realistas as expectativas dos eleitores

Gosto de escândalos de corrupção pelo que eles têm de didático. Até acredito que o padrão ético de indivíduos varie. Há alguns mais comprometidos com a moralidade administrativa, outros menos. Mas isso vale para indivíduos. Se reunirmos sem seleção específica mais do que três dezenas de pessoas, seja num partido, seja num governo, as diferenças individuais tendem a anular-se, e a resultante do grupo vai se aproximar da moralidade média da humanidade.

É um fenômeno que independe de ideologia. Afeta tanto grupos à direita, como o clã Bolsonaro, quanto à esquerda. Assim como o atual presidente foi eleito proclamando-se um arauto da moralidade, os petistas, no final dos anos 90, vendiam-se como incorruptíveis, o que ajudou Lula a vencer o pleito de 2002.

Muitos eleitores acreditaram na suposta pureza do PT porque o partido era o que menos frequentava as listas de agremiações metidas em escândalos. Mas, agora que sabemos como a história termina, é lícito concluir que a aparente correção petista se devia mais à falta de oportunidade para grandes negociatas do que à qualidade intrínseca de seus quadros. De modo análogo, os Bolsonaros passaram os últimos anos abaixo do radar porque só se envolviam nas mutretas típicas do baixo clero legislativo, que não chamam atenção.

É legal que o primeiro escândalo do clã Bolsonaro tenha aparecido de forma assim precoce porque isso torna mais realistas as expectativas dos eleitores. Precipitam-se, porém, os que veem nas estripulias de Flávio o ocaso do governo.

Normalmente, líderes só caem quando se junta um pretexto plausível com uma bela crise econômica. Bolsonaro ainda não afundou a economia e, se for capaz de promover uma reforma da Previdência razoável e tiver um mínimo de sorte, poderá entregar um crescimento de mais de 2,5%, o que será percebido como grande alívio para quem respira com dificuldade desde 2015.

Os Bolsonaro e as milícias

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV (23/01/2019)

1 – Flávio insiste em levar o escândalo que o atinge para dentro do Palácio. E está conseguindo…

A cúpula do governo Bolsonaro, de que o presidente da República é mero coadjuvante, tenta se distanciar do “Flaviogate”, mas o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), o Primeiro Filho, insiste em ficar no colo do pai e sai pregando pelos quatro ventos que o escândalo no qual está envolvido é só uma tentativa de atingir o governo. Onyx Lorenzoni, aquele que compara pistola a liquidificador, também vocifera que querem disputar o terceiro turno das eleições, como se as lambanças que envolvem Flávio estivessem sendo turbinadas pela oposição. Aliás, seria isso o correto. As forças que se opõem a Bolsonaro estão sendo omissas. Não! Os monstros que saem do porão não têm origem em partidos adversários. E a temperatura aumenta a cada dia. Agora, Flávio aparece perigosamente perto das milícias. E não há inimigo seu que tenha movido uma palha por isso. Foi o filho de Bolsonaro que fez essas escolhas. As coisas pioram muito quando a gente lembra que os quatro Bolsonaros que são políticos formam um clã.

2 – Em perigosa vizinhança, mesma conta que recebeu dinheiro de mãe de miliciano abasteceu primeira-dama

O gabinete de Flávio contratou a mulher e a mãe do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, chefão do “Escritório do Crime”, uma das organizações milicianas que aterrorizam o Rio. Trata-se de um ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), que preferiu a vida de chefe do crime organizado. Adriano, também conhecido como Gordinho, foi um dos alvos de operação deflagrada nesta terça-feira pelo Ministério Público do Rio e pela Polícia Civil para prender milicianos suspeitos de grilagem de terras e de envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco (PSOL). Nóbrega encontra-se foragido. Entre os presos, estão o tenente reformado Maurício Silva da Costa; o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira; Laerte Silva, de Lima, Manoel de Brito Batista e Benedito Aurélio Ferreira de Carvalho. Ah, sim: a mãe de Nóbrega é uma das depositantes da conta de Fabrício Queiroz, o ex-assessor de Flávio que está enrolado. Assim, em matéria de vizinhanças perigosas, temos um prato cheio: a mesma conta que recebeu depósito oriundo da mãe de um miliciano abasteceu a conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Se você acha que estão forçando a mão para emprestar gravidade ao que não tem, faça o seguinte: finja que são todos petistas… A mãe e a mãe do miliciano ficaram lotadas no gabinete de Flávio até novembro do ano passado.

3 – Flávio fez moção de louvor a major já acusado de chacina e condecorou ora chefe do Escritório do Crime

Flávio nunca poupou elogios a esses patriotas. E noção de limites não é o forte dos Bolsonaros. Querem ver? O tal Major Ronald já foi homenageado pelo agora senador eleito com uma moção de louvor por “importantes serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro”. Aconteceu em março de 2004. Pouco antes, em dezembro de 2003, Ronald havia participado de uma chacina. Quatro jovens que saíam de uma casa de shows, na Baixada Fluminense, desapareceram e foram encontrados mortos. Com tiros de fuzil. Quatro PMs já foram condenados. Ronald será julgado em abril. Quando Flávio exaltou a sua bravura, ele já era um investigado. Mas há mais. Nóbrega já foi homenageado duas vezes pelo Primeiro Filho presidencial: em 2003, com uma moção de louvor. Para o deputado, o então policial militar e agora miliciano “desenvolvia sua função com dedicação e brilhantismo, desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades”. Nem diga! Em 2005, Flávio conseguiu aprovar na Assembleia Legislativa do Rio a condecoração máxima dada pela casa, agraciando Nóbrega com a Medalha Tiradentes.

4 – Em discurso na Assembleia, Flavio elogia as milícias e diz que ele mesmo pagaria pelos seus serviços

O senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), então deputado estadual, fez um discurso na Alerj elogiado a ação das milícias. Afirmou:

“A milícia nada mais é do que um grupo de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia ou disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos.”

Foi além:

“Há uma série de benefícios nisso”.

E emendou:

“Eu, por exemplo, gostaria de pagar 20 reais, 30 reais, 40 reais, para não ter meu carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, de ver um filho empurrado para as drogas.

As milícias são hoje o principal problema de segurança pública no Rio, superando mesmo o narcotráfico. Até porque as fronteiras desapareceram. E aquelas forças exaltadas por Flávio atuam hoje também no narcotráfico.

5 – Jair já elogiou grupo de extermínio que agia na Bahia e o convidou a atuar no Rio, com o seu apoio

Flávio Bolsonaro teve um bom professor em matéria de elogio a milícias: seu pai, o agora presidente Jair Bolsonaro. Ele fez discursos inesquecíveis a respeito. Em 2003, numa fala inflamada, o então deputado federal tomou a palavra para exaltar um grupo de extermínio que atuava na Bahia. Disse esta preciosidade:

“Desde que a política de direitos humanos chegou em nosso país, cresceu, se avolumou e passou a ocupar grande espaço nos jornais, a violência só aumentou. A marginalidade cada vez mais tem se visto mais à vontade, tendo em vista esses neoadvogados para defendê-los. Dizer aos companheiros da Bahia que agora há pouco veio um parlamentar criticar os grupos de extermínio. Enquanto o Estado não tiver coragem para adotar a pena de morte, esses grupos de extermínio, no meu entender, são muito bem-vindos. Se não tiver espaço na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o apoio. No Rio de Janeiro, só as pessoas de bem são dizimadas. Na Bahia, as informações que eu tenho — Lógico! São grupos ilegais, mas, meus parabéns! —, a marginalidade tem decrescido.”

Só uma nota: de 2003 a esta data, a violência na Bahia teve um crescimento exponencial.

6 – O agora presidente cantou as glórias dos milicianos no Rio, que, em discurso, apareciam como vítimas

O agora presidente Jair Bolsonaro não se contentou em exaltar grupos de extermínio em 2003. Em 2008, ele cantou as glórias das milícias do Rio:

“Querem atacar o miliciano, que passou a ser o símbolo da maldade e pior do que os traficantes. Existe miliciano que não tem nada a ver com gatonet, com venda de gás. Como ele ganha R$ 850 por mês, que é quanto ganha um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade. Nada a ver com milícia ou exploração de gatonet, venda de gás ou transporte alternativo”.

7 – Fabrício, o homem de Flávio, não depõe, mas assume em nota contratação de parentes de miliciano

Nesta terça, aconteceu o verdadeiramente fantástico, além da linha surrealismo. Fabrício Queiroz, o enrolado assessor de Flávio — aquele que movimentou R$ 7 milhões em três anos — emitiu uma nota, por meio de seu advogado, em que assume a responsabilidade por ter contratado a mãe e a mulher do miliciano foragido, já homenageado duas vezes pelo agora senador eleito. Diz o texto:

“Vale frisar que o Sr. Fabrício solicitou a nomeação da esposa e mãe do Sr. Adriano para exercerem atividade de assessoria no gabinete em que trabalhava, uma vez que se solidarizou com a família que passava por grande dificuldade, pois à época ele estava injustamente preso, em razão de um auto de resistência que foi, posteriormente, tipificado como homicídio, caso este que já foi julgado e todos os envolvidos devidamente inocentados”.

Que coisa! Aquele que era, para todos os efeitos, um motorista tinha, então, autonomia para contratar assessores. E sem o conhecimento do chefe? Em matéria de “eu não sabia”, Flávio supera todos os limites, não é mesmo?

O senador ainda tem a ousadia de vir a público para reclamar do que chama “ilações”.

Ilações?

Seu gabinete contratou a mãe a mulher do chefe de uma organização criminosa. Onde está a ilação?

Ele, Flávio, já condecorou o criminoso. Onde está a ilação.

Ele, Flávio, já elogiou as milícias. Onde está a ilação?

8 – Moro, em Davos, já fala como pato manco. E se métodos da Lava Jato fossem empregados nesse caso?

Em Davos, Sérgio Moro levou o seu charme de grande paladino do combate ao crime. Negou-se a tratar do “Flaviogate” porque afirmou que as instituições estão funcionando. Pois é… O ministro até pode disfarçar um tanto, mas sabe que, daqui a pouco, ele estará entrando no “Modo Vexame”. A propósito: por que não empregar também nesse caso os métodos empregados na Lava Jato? Prisão preventiva, oferta de delação etc…? E encerro: curioso mesmo esse Fabrício Queiroz. Descobre-se que movimentou R$ 7 milhões em três anos, e nada de nota de advogados. Vem a público que mãe de mulher de miliciano estavam lotadas no gabinete de Flávio, e lá vem ele a assumir a responsabilidade. Certo, certo… Deveríamos entender que Flávio nada tem a ver com as milícias, certo, ainda que elogiadas e condecoradas… Então, por contrato, Fabrício tem a ver?


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Clipping de 21/01/2019 – Caso Flávio Bolsonaro

O governo brasileiro está certo em relação à Venezuela