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Como as democracias morrem – 2. Guardiões da América

Estamos publicando, em capítulos, a tradução em português do livro How Democracies Die, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018), dois cientistas políticos da Universidade de Harvard, sobre como os líderes eleitos podem subverter gradualmente o processo democrático para aumentar seu poder. O livro estava na lista de bestsellers do The New York Times. A tradução – Como as democracias morrem – é de Renato Aguiar e foi publicada pela Zahar (Rio de Janeiro, 2018).

Já foram publicados:

Introdução

Capítulo 1

Segue abaixo o Capítulo 2.

2. Guardiões da América

EM Complô contra a América, o romancista Philip Roth se baseia em acontecimentos históricos reais para imaginar como poderia ter sido o fascismo nos Estados Unidos pré-guerra.

Um antigo herói dos meios de comunicação de massa, Charles Lindbergh, é a figura central do romance. Ele surge vertiginosamente para a fama com seu voo solo através do Atlântico em 1927 e, depois, se torna um eloquente isolacionista e simpatizante nazista. Contudo, é aqui que a história toma um rumo fantástico nas mãos de Roth: em vez de se dissipar na obscuridade, Lindbergh chega de avião à convenção do Partido Republicano em 1940 às 15h14, quando o salão lotado se encontra em impasse já na vigésima votação. Gritos de “Lindy! Lindy! Lindy!” irrompem durante trinta incontidos minutos no plenário da convenção, e, num momento de fervor coletivo, seu nome é proposto, formalmente indicado e aprovado por aclamação como candidato do partido à Presidência. Lindbergh, um homem sem experiência política, mas com um faro sem paralelo para a mídia, ignora seus conselheiros e faz campanha pilotando o seu icônico avião, Spirit of St. Louis, de estado em estado, com seus óculos, botas de cano alto e macacão de aviador.

Naquele mundo virado de cabeça para baixo, Lindbergh derrota Franklin Delano Roosevelt, o presidente em exercício, e se torna presidente. E Lindbergh, cuja campanha, revela-se mais tarde, era ligada a Hitler, segue adiante e assina tratados de paz com os inimigos da América. Uma onda de antissemitismo e violência é desencadeada em todo o país.

Muitos norte-americanos viram paralelos entre a eleição presidencial de 2016 e o trabalho de ficção de Roth. A premissa – um outsider com credenciais democráticas dúbias chega ao poder com a ajuda de uma nação estrangeira – não poderia deixar de repercutir. Porém, a comparação levanta uma questão adicional impressionante: considerando a gravidade da crise econômica dos anos 1930 no país, por que isso realmente não aconteceu aqui?

A RAZÃO POR QUE nenhum demagogo extremista conquistou a Presidência antes de 2016 não é a ausência de competidores para o papel. Tampouco é a falta de apoio público. Ao contrário, figuras extremistas há muito pontilham a paisagem da política norte- americana. Só nos anos 1930, havia não menos que oitocentos grupos extremistas nos Estados Unidos (1). Entre as figuras mais importantes a surgirem nesse período esteve o padre Charles Coughlin, um sacerdote católico antissemita cujo veemente programa de rádio nacionalista alcançava até 40 milhões de ouvintes por semana. O padre Coughlin era abertamente antidemocrático, reclamando a abolição dos partidos políticos e questionando o valor de eleições. Seu jornal, Social Justice, adotava posições fascistas nos anos 1930, tendo declarado Mussolini seu “Homem da Semana” (2), e defendia com frequência o regime nazista. Apesar de seu extremismo, o padre Coughlin era imensamente popular. A revista Fortune disse que “ele era praticamente a maior coisa que jamais acontecera no rádio” (3). Ele fazia discursos para estádios e auditórios lotados em todo o país (4); ao viajar de cidade em cidade, seus fãs se portavam nas estradas para vê-lo passar (5). Alguns comentaristas da época o caracterizavam como a figura mais influente dos Estados Unidos depois de Roosevelt.

A Depressão também deu lugar ao governador da Louisiana e senador Huey Long, que se autodenominava o “Kingfish”, o chefão.

Long foi descrito pelo historiador Arthur M. Schlesinger Jr. como “o grande demagogo do momento, um homem que parece… um ditador da América Latina, um Vargas ou um Perón” (6). O Kingfish era um talentoso orador de palanque e com frequência zombava do estado de direito (7). Como governador, Long construiu o que Schlesinger descreveu como “o mais perto que a república norte-americana já chegou de um Estado totalitário”, usando uma mistura de suborno e ameaças para submeter o Legislativo do estado, juízes e a imprensa (8). Perguntado por um deputado de oposição se ele já ouvira falar da Constituição do estado, Long respondeu: “Neste exato momento, eu sou a Constituição” (9). O editor de jornal Hodding Carter chamou Long de “o primeiro verdadeiro ditador oriundo do solo norte-americano” (10). Ao encontrar-se com Mussolini em Roma em 1933, o administrador da campanha de Franklin Roosevelt, James A. Farley, escreveu que o ditador italiano “me fez lembrar Huey Long” (11).

Long construiu um grupo maciço de seguidores com sua reivindicação pela redistribuição da riqueza. Em 1934, dizia-se que ele tinha “recebido mais correspondência do que todos os outros senadores juntos, até mesmo mais que o presidente” (12). O seu movimento Share Our Wealth [Compartilhar nossa riqueza] tinha então mais de 27 mil células em todo o país e uma mala direta de quase 8 milhões de nomes (13). Long planejava disputar a Presidência (14), dizendo a um repórter do New York Times: “Eu posso pegar esse Roosevelt… Posso prometer mais do que ele. E ele sabe disso” (15). Roosevelt via o adversário como uma ameaça séria, mas foi poupado com o assassinato de Long em setembro de 1935 (16).

A tendência autoritária dos Estados Unid os persistiu através da era de ouro do período pós-Segunda Guerra Mundial. O senador Joseph McCarthy, que usou o medo da subversão comunista que marcava a Guerra Fria para promover listas negras, censura e proibição de livros, desfrutava de amplo apoio entre a população (17). No apogeu do poder político de McCarthy, as pesquisas mostravam que quase a metade dos norte-americanos o apoiava. Mesmo depois da censura do Senado contra ele em 1954, McCarthy tinha 40% de apoio nas pesquisas do Gallup (18).

Uma década depois, a postura segregacionista desafiadora do governador do Alabama George Wallace o fez saltar para a proeminência nacional, levando-o a candidaturas surpreendentemente vigorosas à Presidência em 1968 e 1972. Wallace se engajou no que o jornalista Arthur Hadley chamou de “a velha e honrada tradição norte- americana de odiar os poderosos” (19). Ele era, escreveu Hadley, um mestre ao explorar “o velho e manifesto ódio americano”. Wallace muitas vezes incitava a violência e exibia uma desconsideração casual pelas normas constitucionais, declarando:

Há uma coisa mais poderosa do que a Constituição… É a vontade do povo. Ora, o que é uma Constituição? É produto do povo, o povo é a primeira fonte de poder e o povo pode abolir a Constituição se quiser (20).

A mensagem de Wallace, que misturava racismo com apelos populistas e o sentimento de vitimização e ódio econômico da classe trabalhadora branca, o ajudou a fazer incursões na base operária tradicional do Partido Democrata (21). As pesquisas mostravam que, grosso modo, 40% dos norte-americanos aprovavam Wallace em sua candidatura de terceiro partido em 1968; em 1972, ele chocou o establishment ao surgir como um concorrente sério nas primárias do Partido Democrata (22). Quando a campanha de Wallace foi atropelada por uma tentativa de assassinato em maio de 1972 (23) ele estava à frente de George McGovern nas primárias por mais de 1 milhão de votos.

Em resumo, os norte-americanos têm há muito uma veia autoritária. Não era incomum figuras como Coughlin, Long, McCarthy e Wallace ganharem apoio de uma minoria considerável – de 30% ou mesmo 40% – do país. Costumamos dizer a nós mesmos que a cultura política nacional norte-americana de algum modo nos imuniza contra esses apelos, mas isso exige que leiamos a história com óculos cor-de-rosa. A verdadeira proteção contra autoritários em potencial não foi o firme comprometimento da população com a democracia, mas, antes, os guardiões da democracia – os nossos partidos.

EM 8 DE JUNHO DE 1920, quando a presidência de Woodrow Wilson estava no fim, os delegados republicanos se reuniram para escolher sua indicação no Chicago Coliseum, cheio de bandeiras mas malventilado, onde o calor abrasador chegava a mais de 38 graus. Depois de nove votações ao longo de quatro dias, a convenção continuava indecisa. Na noite de sexta-feira, na suíte 404 do 13o andar do Blackstone Hotel, o presidente do Comitê Nacional Republicano, Will Hays, e George Harvey, o poderoso editor do semanário Harvey’s Weekly, recebiam um grupo de senadores e líderes partidários dos Estados Unidos que se alternavam para conversas de bastidores na “sala enfumaçada” original (24). A Velha Guarda, como os jornalistas os chamavam, se servia drinques, fumava charutos e negociava até tarde da noite sobre como romper o impasse e arranjar o candidato de que os 493 delegados precisavam para a indicação.

O competidor que liderava no plenário da convenção era o major- general Leonard Wood, um velho aliado de Theodore Roosevelt, que provocara entusiasmo popular nas primárias e dominava as votações no começo da semana, com 287 delegados. Depois dele vinham o governador de Illinois, Frank Lowden, o senador da Califórnia, Hiram Johnson, e o senador de Ohio, Warren G. Harding, num distante quarto lugar, com apenas 65½ delegados. No plenário da convenção, os repórteres escreveram: “Ninguém está falando de Harding… [Ele não é] sequer considerado entre os azarões mais promissores” (25). Contudo, como os repórteres ouviam rumores sobre as discussões que aconteciam no Blackstone, os mais motivados entre eles conseguiram abrir caminho até o 13o andar do hotel e se reunir silenciosamente nos corredores do lado de fora da suíte 404, para observar brevemente enquanto os senadores mais importantes – incluindo Henry Cabot Lodge, de Massachusetts, McCormick, de Illinois, Phipps, do Colorado, Calder, de Nova York, o ex-senador Crane, de Massachusetts, e outros – iam e vinham.

No interior da suíte 404, as desvantagens de cada candidato eram cuidadosamente examinadas e debatidas (Knox era velho demais; Lodge não gostava de Coolidge). À uma da manhã, sete membros da Velha Guarda permaneciam no aposento e procederam à votação, cada um deles se levantando na sua vez de dar seu voto. Chamado às 2h11 da manhã por George Harvey, um atônito Harding foi informado de que havia sido escolhido. A notícia se espalhou. Na noite seguinte, na cabine de votação e para grande alívio dos suarentos delegados, Warren G. Harding conquistou esmagadores 692½ delegados da convenção, em meio a saudações entusiásticas. Embora só tenha recebido 4% da votação inicial, ele agora era o candidato presidencial indicado em 1920 pelo Partido Republicano.

Ninguém gosta de bastidores enfumaçados hoje em dia – e por boas razões. Eles não eram muito democráticos. Os candidatos eram escolhidos por um pequeno grupo de figuras influentes que não prestava contas nem às bases do partido nem aos cidadãos comuns. E salas fumacentas nem sempre produziram bons presidentes – o mandato de Harding, afinal, foi marcado por escândalos. No entanto, a seleção de candidatos em bastidores enfumaçados tinha uma virtude que hoje costuma ser esquecida: prestava-se a uma função guardiã, mantendo figuras comprovadamente impróprias fora da votação e longe do cargo. Com toda certeza, a razão para isso não era o espírito elevado dos líderes partidários. Antes, os “chefes”, como seus oponentes os chamavam, estavam mais interessados em escolher candidatos capazes de vencer. Era, antes de tudo, a sua aversão a riscos que os levava a evitar extremistas.

As instituições guardiãs remontam à fundação da república norte- americana. A Constituição de 1787 criou o primeiro sistema presidencial do mundo. O presidencialismo propõe desafios distintos para a guarda bem-sucedida dos portões. Em democracias parlamentares, o primeiro-ministro é membro do Parlamento e selecionado pelos principais partidos do Parlamento mesmo, o que praticamente assegura que ele ou ela seja aceitável para os insiders da política (26). O próprio processo de formação do governo serve como um filtro. Presidentes, em contraste, não são membros do Congresso e tampouco são eleitos pelo Congresso. Pelo menos em teoria, eles são eleitos pelo povo, qualquer um pode concorrer à Presidência e – se obtiver apoio bastante – vencer.

Nossos fundadores estavam profundamente preocupados com a salvaguarda da democracia. Ao projetarem a Constituição e o sistema eleitoral, eles se debateram com um dilema que, em muitos aspectos, nos acompanha até hoje. Por um lado, eles não procuravam um monarca, mas um presidente eleito – alguém que se alinhasse às suas ideias de um governo popular republicano, refletindo a vontade do povo. Por outro, não confiavam plenamente na capacidade do povo de avaliar a aptidão de candidatos para o cargo. Alexander Hamilton se preocupava com a possibilidade de que uma presidência eleita pelo voto popular pudesse ser muito facilmente capturada por aqueles que jogassem com o medo e a ignorância para ganhar as eleições e, depois, governar como tiranos (27). “A história nos ensinará”, escreveu Hamilton em O federalista, que, “entre os homens que subverteram a liberdade de repúblicas, a maioria começou carreira cortejando obsequiosamente o povo; começaram demagogos e terminaram tiranos.” Para Hamilton e seus colegas, eleições exigiam algum tipo de dispositivo integrado de triagem (28).

O dispositivo que os fundadores propuseram foi o Colégio Eleitoral. O artigo II da Constituição criou um sistema de eleição indireta que refletia o pensamento de Hamilton no artigo 68 de O federalista.

A eleição imediata deve ser feita pelos homens mais capazes de analisar as qualidades propícias ao cargo e agir sob circunstâncias favoráveis à deliberação e à combinação judiciosa de razões e estímulos que sejam adequados para governá-los (29).

O Colégio Eleitoral, formado em cada estado por homens proeminentes da região, seria, assim, responsável por escolher o presidente. Sob esse arranjo, raciocinou Hamilton, “o cargo de presidente raramente caberá a homens que não sejam dotados em grau eminente das qualificações necessárias”. Homens com talento para “intrigas baixas e as pequenas artes de popularidade” seriam removidos por filtragem. O Colégio Eleitoral tornou-se assim o guardião original de nossa democracia.

Esse sistema, contudo, revelou-se de vida curta, devido a duas insuficiências do projeto original dos fundadores. Primeiro, a Constituição silencia sobre a questão de como devem ser selecionados os candidatos presidenciais. O Colégio Eleitoral entra em operação depois que o povo vota, não desempenhando nenhum papel no que diz respeito a quem busca a Presidência. Segundo, a Constituição jamais menciona partidos políticos. Embora Thomas Jefferson e James Madison tenham mais tarde aberto as trilhas do nosso sistema de dois partidos, os fundadores não contemplaram seriamente a sua existência.

A ascensão de partidos no começo dos anos 1800 mudou a maneira como nosso sistema eleitoral funcionava. Em vez de eleger notáveis locais como delegados para o Colégio Eleitoral, como os fundadores haviam imaginado, cada estado começou e eleger seguidores partidários. Os eleitores se tornaram agentes partidários, o que significa que o Colégio Eleitoral cedeu a autoridade de guardião aos partidos. E os partidos a mantiveram desde então.

Os partidos se tornaram, então, os administradores da democracia norte-americana. Uma vez que selecionam os candidatos presidenciais, os partidos têm a capacidade – e, nós acrescentaríamos, a responsabilidade – de manter figuras perigosas longe da Casa Branca. Eles precisam, portanto, encontrar um equilíbrio satisfatório entre dois papéis: um papel democrático, em que escolhem o candidato que melhor representa os eleitores do partido, e o que o cientista político James Ceaser chama de um papel de “filtragem” (30) no qual removem aqueles que representam uma ameaça para a democracia ou de algum outro modo sejam inadequados para assumir o cargo.

Esses imperativos duais – escolher um candidato popular e obstar demagogos – podem, às vezes, entrar em conflito. E se o povo escolher um demagogo? Esta é a tensão recorrente no núcleo do processo de indicação presidencial, desde a época dos fundadores até hoje. Em si mesmo, o excesso de confiança em guardiões é antidemocrático – pode criar um mundo de chefes partidários que ignoram as bases e não logram representar o povo. Porém, um excesso de confiança na “vontade popular” também pode ser perigoso, pois arrisca levar à eleição de um demagogo que ameace a própria democracia. Não há escapatória dessa tensão. Há sempre compromissos.

DURANTE A MAIOR PARTE da história dos Estados Unidos, os partidos políticos priorizaram a guarda dos portões em detrimento da abertura. Sempre havia algum tipo de sala enfumaçada. No começo do século XIX, os candidatos presidenciais eram escolhidos por grupos de congressistas em Washington, num sistema conhecido como Convenção Congressional. O sistema foi logo criticado por ser fechado demais, de modo que, a partir dos anos 1830, os candidatos passaram a ser indicados em convenções partidárias nacionais compostas por delegados de cada estado. Os delegados não eram eleitos pelo voto popular; eram escolhidos por comitês partidários estaduais e locais e não eram obrigados a apoiar candidatos específicos. De modo geral, eles seguiam as instruções dos líderes partidários estaduais que os enviavam para as convenções (31). Dessa forma, o sistema favorecia os insiders, ou os candidatos apoiados pelos líderes partidários que controlavam os delegados. Candidatos sem apoio entre os membros da rede partidária de políticos estaduais e locais não tinham nenhuma chance de sucesso.

O sistema de convenções também foi criticado por ser fechado e antidemocrático, e não faltaram esforços para reformá-lo. Eleições primárias foram introduzidas durante a era progressista: a primeira teve lugar em Wisconsin em 1901, e, em 1916, primárias foram realizadas em duas dezenas de estados. Contudo, isso trouxe poucas mudanças – em parte porque muitos estados não as empregaram, mas sobretudo porque não se exigia que os delegados eleitos apoiassem o candidato que vencera a primária (32). Eles permaneciam “desobrigados”, livres para negociar no plenário da convenção. Os líderes partidários – com seu controle sobre empregos públicos, prerrogativas e outros benefícios – estavam bem posicionados para agenciar essas negociações, de modo que assumiram o papel de guardiões da Presidência (33). Como não tinham força vinculante sobre as indicações para a corrida presidencial, as primárias representavam pouco mais que concursos de beleza. O poder real permanecia nas mãos de insiders dos partidos, ou de “homens da organização”, como os contemporâneos os chamavam. Para candidatos em potencial, assegurar o apoio dos homens da organização era o único caminho viável para a indicação.

O velho sistema de convenções salienta os compromissos inerentes à guarda bem-sucedida dos portões. Por um lado, não era muito democrático. Os homens da organização não eram propriamente representativos da sociedade norte-americana. Com efeito, eles seriam a própria definição de uma rede de “velhos amigos”. A maioria dos membros da base partidária, sobretudo os pobres e sem conexões políticas, as mulheres e as minorias, não era representada nas salas enfumaçadas e, assim, era excluída do processo de indicação para a corrida presidencial.

Por outro lado, o sistema de convenções era um guardião eficiente, pois filtrava de maneira sistemática candidatos perigosos. Os insiders partidários proviam o que os cientistas políticos chamam de “revisão por pares” (34). Prefeitos, senadores e representantes parlamentares conheciam os candidatos pessoalmente. Tinham trabalhado com eles, sob diversas circunstâncias, ao longo de anos, estando, por isso, bem posicionados para avaliar seu caráter, discernimento e capacidade de operar sob pressão (35). As conversas de bastidores em salas enfumaçadas serviam como um mecanismo de triagem, ajudando a manter de fora o tipo de demagogos e extremistas que descarrilaram a democracia em outras partes do mundo. A guarda dos portões pelo partido era tão eficiente que outsiders simplesmente não podiam ganhar. Em consequência, a maioria deles nem mesmo tentava.

Pensemos em Henry Ford, o fundador da Ford Motor Company. Um dos homens mais ricos do mundo no século XX, Ford era uma versão moderna do tipo de demagogo extremista contra o qual Hamilton advertira. Usando o seu semanário Dearborn Independent como um megafone, ele vociferava contra banqueiros, judeus e bolcheviques, publicando artigos que afirmavam que os interesses bancários judaicos estavam conspirando contra os Estados Unidos. Suas opiniões atraíram elogios de racistas em todo o mundo (36). Ele foi mencionado com admiração por Adolf Hitler em Minha luta e descrito pelo futuro líder nazista Himmler como “um dos nossos combatentes mais valorosos, importantes e engenhosos” (37). Em 1938, o governo nazista o condecorou com a Ordem de Mérito da Águia Alemã.

Contudo, Ford também era uma figura amplamente admirada, até amada, nos Estados Unidos, sobretudo no Meio-Oeste (38). Um “menino pobre de fazenda que soube prosperar” (39), o homem de negócios sem papas na língua era reverenciado por muitos norte-americanos do campo como um herói popular, lado a lado com presidentes como Washington e Lincoln.

A impetuosidade agitada de Ford o levou enfim para a política. Ele começou fazendo oposição à Primeira Guerra Mundial, enviando à Europa uma “missão de paz” amadorística, mas que chamou muita atenção. Frequentou a política depois da guerra, quase conquistando uma cadeira no Senado em 1918 e, depois, flertando com a possibilidade de concorrer à Presidência (pelo Partido Democrata, em 1924). A ideia logo gerou entusiasmo, especialmente nas partes rurais do país. Clubes “Ford para Presidente” surgiram em 1923, e a imprensa começou a falar em uma “Ford Mania” (40).

Naquele verão, a popular revista Collier’s deu início a uma pesquisa nacional semanal com seus leitores, que sugeriram que a celebridade de Ford, sua reputação para os negócios e a atenção incessante da mídia poderiam se traduzir numa candidatura presidencial popular. Os resultados saíam toda semana e eram acompanhados por manchetes cada vez mais reverentes: “Caos na política com o crescimento dos votos em Ford” e “Ford lidera na dura disputa presidencial” (41). Ao final da votação de dois meses com a participação de mais de 250 mil leitores, Henry Ford deixou a competição, superando todos os doze competidores, inclusive o presidente Warren Harding e o futuro presidente Herbert Hoover. Com esses resultados, o editor da Collier’s concluiu: “Henry Ford passou a ser a questão da política americana” (42).

Porém, se Ford nutria ambições presidenciais sérias, nasceu um século antes da hora. O que importava muito mais do que a opinião pública, então, era a opinião dos líderes partidários, e os líderes partidários o rejeitaram categoricamente. Uma semana depois de publicar os resultados da pesquisa entre seus leitores, numa série de artigos, um deles intitulado “Os políticos escolhem o presidente”, a Collier’s reportou os resultados de sua pesquisa entre os insiders mais significativos – um grupo de 116 líderes de ambos os partidos, inclusive todos os membros do Comitê Nacional tanto do Partido Republicano quanto do Democrata, quatorze governadores de peso e senadores e deputados de ambos os partidos. Entre essas eminências pardas, Ford ficava para trás, num distante quinto lugar. O editor da Collier’s observou naquele outono:

Quando perguntam aos caciques do [Partido] Democrata: “E quanto a Ford?”, todos eles dão de ombros. Quase sem uma única exceção, os homens que constituem o que em geral é conhecido como a “organização” se opõem a Ford em todos os estados. Em todos os estados, exceto naqueles onde há primárias presidenciais, esses homens praticamente escolhem a dedo os delegados para as convenções nacionais… Ninguém nega a importância do sentimento pró- Ford entre as massas populares – democratas e republicanas. Todo líder democrata sabe que seu estado está repleto desse sentimento – e ele tem medo disso. Entretanto, ele pensa que, por causa da máquina de seleção de delegados, é baixa a probabilidade de que Ford tenha bom desempenho (43).

A despeito do entusiasmo popular por sua candidatura, Ford foi efetivamente impedido de disputar. O senador James Couzens chamou a ideia da candidatura dele de absurda. “Como pode um homem de mais de sessenta anos, que… não tem nenhuma preparação, nenhuma experiência, aspirar a tal cargo?”, perguntou ele. “Isso é um grande absurdo” (44).

Portanto, não é de surpreender que, ao ser entrevistado pela Collier’s no final daquele longo verão, as ambições presidenciais de Ford fossem moderadas:

Não sou capaz de me imaginar aceitando hoje qualquer indicação. É claro, não posso dizer… o que vou fazer amanhã. Pode acontecer uma guerra ou alguma crise do tipo, uma situação em que legalismo, constitucionalismo e tudo o mais não figurem, e a nação queira uma pessoa capaz de fazer coisas e de fazê-las rápido (45).

O que Ford estava dizendo, para todos os efeitos, é que só ia considerar a possibilidade de concorrer se o sistema de guardiões que estava bloqueando seu caminho fosse de algum modo removido. Então, na realidade, ele nunca teve uma chance.

Huey Long não viveu o bastante para experimentar as águas presidenciais, mas, apesar de suas extraordinárias habilidades, popularidade e ambição políticas, há boas razões para se pensar que também teria sido barrado pelos guardiões do partido. Ao ser eleito para o Senado em 1932, sua postura de desrespeito às normas rapidamente o isolou de seus pares (46). Sem apoio entre os líderes do Partido Democrata, Long não teria tido nenhuma chance de derrotar Roosevelt na convenção de 1936, a menos que preparasse uma campanha presidencial independente, o que teria sido extraordinariamente difícil. As pesquisas sugerem que a candidatura de Long podia dividir a votação no Partido Democrata e jogar a corrida de 1936 no colo do Partido Republicano, mas que o próprio Long tinha poucas chances de vencer (47).

Os guardiões do partido ajudaram a limitar George Wallace às margens da política. O governador segregacionista participou de algumas poucas rodadas nas primárias do Partido Democrata em 1964, com desempenho surpreendentemente bom. Concorrendo contra direitos civis e com o slogan “Defenda a América”, Wallace chocou as autoridades no assunto ao ganhar quase um terço dos votos em Wisconsin e Indiana e impressionantes 43% em Maryland (48). Contudo, as primárias tinham pouca importância em 1964, e Wallace logo renunciou em face da inevitável candidatura de Lyndon Johnson. Ao longo dos quatro anos seguintes, contudo, Wallace fez campanha pelo país em antecipação à corrida presidencial de 1968. Sua combinação de populismo com nacionalismo branco ganhou forte apoio entre alguns eleitores brancos da classe trabalhadora. Em 1968, cerca de 40% dos norte-americanos o aprovavam (49). Em outras palavras, Wallace tinha um apelo semelhante ao de Trump, e gozava de níveis similares de apoio público.

Contudo, Wallace operava num mundo político diferente. Sabendo que o establishment do Partido Democrata jamais apoiaria a sua candidatura, ele concorreu como candidato do Partido da Independência Americana, o que foi sua ruína (50). Seu desempenho – 13,5% dos votos – foi robusto para um candidato de terceiro partido, mas o deixou longe da Casa Branca.

Agora podemos compreender plenamente o salto imaginativo de Philip Roth em Complô contra a América. O fenômeno Lindbergh não chegava a ser uma invenção da imaginação de Roth. Lindbergh, um defensor da “pureza racial” (51) que excursionou pela Alemanha nazista em 1936 e foi condecorado com uma medalha de honra por Hermann Göring, surgiu como um dos isolacionistas mais proeminentes dos Estados Unidos em 1939 e 1940, falando nacionalmente em nome do comitê America First. Gozava de extraordinária popularidade. Seus discursos atraíam grandes multidões (52), e, em 1939, segundo o editor Paul Palmer, da Reader’s Digest, suas falas no rádio geravam mais correspondência do que as de qualquer outra pessoa no país. Como formula um historiador: “A sabedoria popular entendera que Lindbergh finalmente concorreria a um cargo público” (53), e, em 1939, o senador William Borah, de Idaho, sugeriu que Lindbergh daria um bom candidato presidencial (54). Porém, aqui é onde nós retornamos à realidade. A convenção de 1940 do Partido Republicano não foi nem sequer remotamente parecida com a convenção ficcional descrita em Complô contra a América. Não apenas Lindbergh não apareceu na convenção, como seu nome não foi nem mesmo aventado. A guarda dos portões funcionou.

Na conclusão de sua história da política da direita radical nos Estados Unidos, The Politics of Unreason, Seymour Martin Lipset e Earl Raab descrevem os partidos norte-americanos como o “principal bastião prático” contra extremistas. Eles estavam certos. Mas Lipset e Raab publicaram seu livro em 1970, no momento em que os partidos iniciavam a mais dramática reforma dos seus sistemas de indicação em bem mais de um século. Tudo estava prestes a mudar, com consequências que iriam muito além do que qualquer um poderia ter imaginado.

O PONTO CRÍTICO SE DEU em 1968. Foi um ano dilacerante para os norte- americanos. O presidente Lyndon Johnson promovera uma intensificação da guerra no Vietnã, que estava saindo de controle – 16.592 norte-americanos morreram no Vietnã só em 1968, mais do que em qualquer ano anterior. As famílias americanas se sentavam em suas salas de estar a cada anoitecer para assistir aos noticiários, agredidas por cenas cada vez mais explícitas de combate. Em abril de 1968, um assassino atirou em Martin Luther King Jr. Então, em junho, horas depois de sua vitória nas primárias presidenciais da Califórnia, a campanha de Robert Kennedy foi abruptamente interrompida pela arma de um segundo assassino. Os gritos de desespero no salão de baile do Ambassador Hotel em Los Angeles naquela noite foram sintetizados pelas palavras do romancista John Updike: era como se “Deus talvez tivesse retirado Sua bênção da América” (55).

Nesse ínterim, os democratas se dividiram cada vez mais entre apoiadores da política externa de Johnson e os que haviam adotado a posição antiguerra de Robert Kennedy. A divisão se desenvolveu de maneira particularmente disruptiva na Convenção do Partido Democrata em Chicago. Com Kennedy tragicamente morto, a organização tradicional do partido tratou de substituí-lo. Os insiders do partido, que dominavam o plenário da convenção, favoreciam o vice-presidente Hubert Humphrey, mas Humphrey era profundamente impopular entre os delegados antiguerra, por conta de sua associação com as políticas do presidente Johnson no Vietnã. Além disso, ele não tinha concorrido numa única primária sequer. Sua campanha, como disse um dos analistas, se limitou a “líderes partidários, chefes de sindicatos e outros insiders” (56). Todavia, com o apoio da militância do partido, inclusive da máquina do poderoso prefeito de Chicago, Richard Daley, ele ganhou a nomeação na primeira votação.

Humphrey não foi propriamente o primeiro candidato a conquistar uma indicação sem competir em primárias. Entretanto, seria o último. Os acontecimentos que se desdobraram em Chicago – exibidos em telas de tv em todo o país – feriram de morte o sistema de seleção presidencial por insiders do partido. Mesmo antes do início da convenção, o golpe esmagador do assassinato de Robert Kennedy, a escalada do conflito no Vietnã e a energia dos manifestantes antiguerra no Grand Park de Chicago solaparam qualquer fé pública remanescente no velho sistema. Em 28 de agosto, os manifestantes marcharam para a convenção: policiais de capacetes azuis atacaram manifestantes e espectadores, e homens, mulheres e crianças ensanguentados buscaram refúgio em hotéis próximos. A assim chamada Batalha da Avenida Michigan transbordou para o próprio salão da convenção. O senador Abraham Ribicoff, de Connecticut, em seu discurso de indicação do candidato antiguerra George McGovern, censurou as “táticas ao estilo Gestapo” da polícia de Chicago, encarando diretamente – ao vivo na televisão – o prefeito Daley. Quando a confrontação explodiu no plenário da convenção, policiais uniformizados arrastaram vários delegados, tirando-os do auditório. Assistindo em choque, o âncora da NBC Chet Huntley observou: “Esta é sem dúvida a primeira vez em todos os tempos que policiais entraram no plenário de uma convenção.” O seu coâncora, David Brinkeley, acrescentou ironicamente: “Nos Estados Unidos” (57).

A calamidade de Chicago desencadeou reformas de longo alcance. Na sequência da derrota de Humphrey na eleição de 1968, o Partido Democrata criou a Comissão McGovern-Fraser, encarregando-a de repensar o sistema de indicação. O relatório final da comissão, publicado em 1971, citava o velho adágio: “A cura para os males da democracia é mais democracia” (58). Com a legitimidade do sistema político em jogo, os líderes partidários sofreram imensa pressão para abrir o processo de indicação presidencial (59). Como formulou George McGovern, “a menos que mudanças sejam feitas, a próxima convenção vai fazer a última parecer um piquenique de escola no domingo”. Se não obtiver poder real de decidir, advertia sombriamente o relatório McGovern-Fraser, o povo se voltará para “a antipolítica das ruas” (60).

A Comissão McGovern-Fraser emitiu um conjunto de recomendações que os dois partidos adotaram antes da eleição de 1972. O que emergiu foi um sistema de primárias presidenciais vinculantes. A partir de 1972, a vasta maioria dos delegados das convenções democrata e republicana seria eleita em primárias e assembleias no âmbito estadual. Os delegados seriam pré- selecionados pelos próprios candidatos para garantir sua lealdade. Isso significava que, pela primeira vez, as pessoas que escolhiam os candidatos presidenciais dos partidos não estariam nem submetidas a líderes partidários nem livres para fazer acordos de bastidores na convenção; em vez disso, elas refletiriam fielmente a vontade dos eleitores nas primárias dos seus estados. Havia diferenças entre os partidos, como a adoção pelos democratas de regras proporcionais em muitos estados e de mecanismos para aumentar a representação de mulheres e minorias (61). Porém, ao adotarem primárias vinculantes, ambos os partidos afrouxaram de maneira substancial o controle de seus líderes sobre o processo de seleção dos candidatos – abrindo-o, alternativamente, para os eleitores. O presidente do Comitê Nacional Democrata, Larry O’Brien, caracterizou as reformas como “as mais formidáveis mudanças desde o sistema partidário”. George McGovern, que inesperadamente ganhou a indicação democrata em 1972, qualificou o novo sistema de primárias de “o mais aberto processo político da história do país” (62).

McGovern estava certo. O caminho para a indicação não tinha mais que passar pelo establishment do partido. Pela primeira vez, os guardiões dos portões da democracia podiam ser contornados e derrotados.

Os democratas, cujas primárias iniciais foram voláteis e desagregadoras (63), retrocederam um tanto no começo dos anos 1980, estipulando que uma parcela dos delegados nacionais fosse de mandatários eleitos – governadores, prefeitos de grandes cidades, senadores e representantes parlamentares – nomeados pelo partido nos estados, em vez de eleitos em primárias. Esses “superdelegados”, representando entre 15% e 20% dos delegados nacionais, serviriam como um contrapeso aos eleitores nas primárias – e como um mecanismo para os líderes partidários afastarem candidatos que desaprovassem. Os republicanos, em contraste, estavam voando alto sob Reagan no começo dos anos 1980. Sem ver a necessidade de superdelegados, o GOP [Abreviatura de Grand Old Party, Grande Partido Antigo, como costuma ser referido o Partido Republicano dos Estados Unidos] optou, fatidicamente, por manter um sistema de indicação mais democrático.

Alguns cientistas políticos se mostraram preocupados com o novo sistema. Primárias vinculantes eram certamente mais democráticas. Mas não seriam democráticas demais? Ao colocar as indicações presidenciais nas mãos dos eleitores, as primárias vinculantes enfraqueceram a função dos partidos como guardiões da democracia, eliminando potencialmente o processo de revisão por pares e abrindo a porta para outsiders. Pouco antes do início dos trabalhos da Comissão McGovern-Fraser, dois proeminentes cientistas políticos advertiram que as primárias poderiam “levar ao surgimento de candidatos extremistas e demagogos”, que, livres de obediências partidárias, “pouco teriam a perder incitando ódios de massa ou fazendo promessas absurdas” (64).

Inicialmente, esses medos pareceram exagerados. Outsiders de fato surgiram: Jesse Jackson, um líder na luta por direitos civis, concorreu à indicação do Partido Democrata em 1984 e 1988, enquanto o líder batista sulista Pat Robertson (1988), o comentarista de televisão Pat Buchanan (1992, 1996, 2000) e o editor executivo da revista Forbes Steve Forbes (1996) concorreram à indicação pelo Partido Republicano. Não obstante, todos perderam.

Contornar o establishment do partido era, conforme se revelou, mais fácil em teoria do que na prática. Capturar a maioria dos delegados exigia vencer as primárias em todo o país, o que, por sua vez, exigia dinheiro, cobertura de mídia favorável e, de maneira crucial, gente trabalhando em campo em todos os estados. Qualquer candidato em busca de completar a exaustiva corrida de obstáculos das primárias nos Estados Unidos precisava conquistar aliados entre doadores, editores de jornais, grupos de interesse e políticos de âmbito estadual, como governadores, prefeitos, senadores e congressistas (65). Em 1976, Arthur Hadley descreveu esse árduo processo como a “primária invisível” (66). Ele afirmou que essa fase, que ocorria antes da abertura das primárias, era “onde o candidato vencedor era realmente selecionado” (67). Membros do establishment do partido – mandatários eleitos, ativistas, grupos de interesse aliados – não eram, assim, necessariamente impedidos de entrar no jogo. Sem eles, argumentava Hadley, era quase impossível conquistar a indicação em ambos os partidos.

Durante um quarto de século, Hadley esteve certo.

Notas

1. Seymour Martin Lipset e Earl Raab, The Politics of Unreason: Right-Wing Extremism in America, 1790-1970 (Nova York: Harper & Row, 1970), p.152.

2. Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.170-71.

3. Citado em Alan Brinkley, Voices of Protest: Huey Long, Father Coughlin & the Great Depression (Nova York: Vintage Books, 1983), p.119.

4. Ibid., p.83, 175-77.

5. Ibid., p.119. Ainda em 1938, uma pesquisa de opinião do Gallup verificou que 27% dos norte-americanos aprovavam o padre Coughlin, enquanto 32% o desaprovavam (Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.171-73).

6. Arthur Schlesinger, The Age of Roosevelt: The Politics of Upheaval, 1935-1936 (Boston: Houghton Mifflin, [1960] 2003), p.viii, 68.

7. Richard D. White Jr., Kingfish: The Reign of Huey P. Long (Nova York: Random House, 2006), p.45, 99, 171; Brinkley, Voices of Protest, p.69.

8. Schlesinger, The Age of Roosevelt, p.62; White, Kingfish, p.248-53; William Ivy Hair, The Kingfish and His Realm: The Life and Times of Huey P. Long (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1991), p.276-80.

9. White, Kingfish, p.45.

10. Citado em ibid., p.253.

11. Ibid., p.352.

12. Ibid., p.198.

13. Robert E. Snyder, “Huey Long and the Presidential Election of 1936”, Louisiana History 16, n.2 (primavera de 1975), p.123; White, Kingfish, p.198.

14. Brinkley, Voices of Protest, p.81; Hair, The Kingfish and His Realm, p.306-7.

15. Snyder, “Huey Long and the Presidential Election of 1936”, p.128.

16. Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.209, 224.

17. Ibid., p.21.

18. Ibid., p.237.

19. Arthur T. Hadley, The Invisible Primary (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1976), p.238; Jody Carlson, George C. Wallace and the Politics of Powerlessness:

The Wallace Campaigns for the Presidency, 1964-1976 (New Brunswick, NJ: Transaction Books, 1981), p.6.

20. Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.355-56.

21. Dan T. Carter, The Politics of Rage: George Wallace, the Origins of the New Conservatism, and the Transformation of American Politics, 2.ed. (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 2000), p.344-52; Stephan Lesher, George Wallace: American Populist (Reading, MA: Addison-Wesley, 1994), p.276-78; Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.345-57.

22. Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.21.

23. Carlson, George C. Wallace and the Politics of Powerlessness, p.149.

24. Este relato da convenção de 1920 se baseia em duas fontes: Francis Russell, The Shadow of Blooming Grove: Warren G. Harding in His Times (Nova York: McGraw-Hill, 1968), p.379-81; e John Morello, Selling the President, 1920: Albert D. Lasker, Advertising, and the Election of Warren G. Harding (Westport, CT: Praeger, 2001), p.41-3.

25. Russell, The Shadow of Blooming Grove, p.376.

26. Ver David Samuels e Matthew Shugart, Presidents, Parties, and Prime Ministers: How the Separation of Powers Affects Party Organization and Behavior (Nova York: Cambridge University Press, 2010).

27. Alexander Hamilton, Federalist 1.

28. James W. Ceaser, Presidential Selection: Theory and Development (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1979), p.64.

29. Citado em Robert Dahl, How Democratic Is the American Constitution?, 2.ed. (New Haven, CT: Yale University Press, 2003), p.76.

30. James W. Ceaser, Reforming the Reforms: A Critical Analysis of the Presidential Selection Process (Cambridge, MA: Ballinger Publishing Company, 1982), p.84-7.

31. Ibid., p.19-21.

32. Ibid., p.23.

33. Ibid., p.27.

34. Ver, por exemplo, Nelson W. Polsby, Consequences of Party Reform (Nova York: Oxford University Press, 1983), p.169-70.

35. Austin Ranney, testemunho perante o Comitê do Senado sobre Regras e Administração, 10 set 1980. Citado em Ceaser, Reforming the Reforms, p.96.

36. Lipset e Raab, The Politics of Unreason, p.111.

37. Para mais informações sobre a relação entre Henry Ford e o regime nazista, ver Neil Baldwin, Henry Ford and the Jews: The Mass Production of Hatred (Nova York: Public Affairs, 2002).

38. Ver Reynold M. Wik, Henry Ford and Grass-roots America (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1972).

39. Ibid., p.8-10, 42, 167.

40. Ibid., p.162, 172-73.

41. “Ford Leads in Presidential Free-for-All”, Collier’s, 26 mai 1923, p.7; “Politics in Chaos as Ford Vote Grows”, Collier’s, 23 jun 1923, p.8.

42. “Ford First in Final Returns”, Collier’s, 14 jul 1923, p.5.

43. Edward Lowry, “Dark Horses and Dim Hopes”, Collier’s, 10 nov 1923, p.12.

44. Citado em Wik, Henry Ford and Grass-roots America, p.162.

45. “If I Were President”, Collier’s, 4 ago 1923, p.29.

46. Brinkley, Voices of Protest, p.75-7; Hair, The Kingfish and His Realm, p.268-69; White, Kingfish, p.191.

47. Robert E. Snyder, “Huey Long and the Presidential Election of 1936”, Louisiana History 16, n.2 (primavera de 1975), p.131-33.

48. Carlson, George C. Wallace and the Politics of Powerlessness, p.33-6.

49. Lipset and Raab, The Politics of Unreason, p.21.

50. Stephen Lesher, George Wallace: American Populist (Reading, MA: Addison- Wesley, 1994), p.387-88; Carlson, George C. Wallace and the Politics of Powerlessness, p.71.

51. Lynne Olson, Those Angry Days: Roosevelt, Lindbergh, and America’s Fight over World War II, 1931-1941 (Nova York: Random House, 2014), p.18-20, 72.

52. A. Scott Berg, Lindbergh (Nova York: G.P. Putnam’s Sons, 1998), p.410.

53. Olson, Those Angry Days, p.442.

54. Berg, Lindbergh, p.398.

55. Citado em Norman Mailer, Miami and the Siege of Chicago (Nova York: Random House, 1968), p.7.

56. Marty Cohen, David Karol, Hans Noel e John Zaller, The Party Decides: Presidential Nominations Before and After Reform (Chicago: University of Chicago Press, 2008), p.1.

57. “A Look Back at the 1968 Democratic Convention”. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=aUKzSsVmnpY>. Acesso em: 11 mai 2017.

58. Democratic National Committee, Mandate for Reform (Washington, DC: Democratic National Committee, abr 1970), p.14.

59. Citado em James W. Ceaser, Presidential Selection: Theory and Development (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1979), p.273.

60. Democratic National Committee, Mandate for Reform, p.49.

61. Ceaser, Presidential Selection, p.237.

62. Ambas as citações são tiradas de David E. Price, Bringing Back the Parties (Washington, DC: Congressional Quarterly, 1984), p.149-50.

63. Em 1972, a indicação democrata quase foi capturada por George Wallace, e o futuro indicado, George McGovern, sofreu uma derrota esmagadora para Richard Nixon. Em 1976, a indicação foi para Jimmy Carter, um relativo outsider, e em 1980 o presidente Carter enfrentou uma dura campanha nas primárias contra o senador Edward Kennedy.

64. Nelson W. Polsby e Aaron Wildavsky, Presidential Elections (Nova York: The Free Press, 1968), p.230.

65. Cohen, Karol, Noel e Zaller, The Party Decides, p.175-79.

66. Arthur Hadley, The Invisible Primary (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1976).

67. Ibid., p.xiii

Continua no Capítulo 3


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Como as democracias morrem – 3. A grande abdicação republicana