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Como destruir a cultura política democrática manipulando as mídias sociais

A política sempre foi feita a partir de nuvens de reverberação. Os políticos profissionais – nos parlamentos e governos – mantêm entre si conversações com circularidades. O mesmo ocorre com os jornalistas. Nos partidos, nas corporações e nas universidades é a mesma coisa. É por isso que, conversando com algumas pessoas desses meios, acabamos sabendo o que pensam as demais.

Um exemplo claro disso é a chamada mídia (tradicional): os jornalistas repetem o que eles mesmos falam criando uma nuvem de reverberação, como se vê agora no caso da reforma da Previdência, apontada por 11 em cada 10 articulistas brasileiros como a salvação da pátria (embora quem reflita um pouco saiba que essa reforma, absolutamente necessária, não pode salvar o governo da inépcia, nem resolver todos os problemas do país). Mas a reverberação consegue estabelecer de tal modo uma versão (às vezes, metafísica) tão influente, que as pessoas do mesmo meio não conseguem pensar alternativamente.

Com o advento das mídias sociais (interativas) esperava-se que novas visões surgissem em profusão, mas essas mídias, em sua maioria, revelaram-se vulneráveis à manipulação centralizada e perderam seu potencial de ferramenta de netweaving (ou seja, de articulação e animação de redes: e fala-se aqui das verdadeiras redes sociais, não das mídias, que são apenas ferramentas; quer dizer, fala-se das ‘entidades coletivas’ que se formam quando as pessoas interagem enquanto interagem).

Algumas mídias, em especial, revelaram-se como ferramentas capazes de conspirar contra as redes distribuídas. É o caso, por exemplo, do WhatsApp, que permite a formação de clusters sem atalhos horizontais entre si e favorece sua condução vertical, a partir de centros que atuam na base do broadcasting privado, numa topologia mais de árvore do que de rede. Numa topologia de rede (mais distribuída do que centralizada) isso, como se sabe, não seria possível (como não é possível no caso de um cérebro ou de um formigueiro – que não admitem qualquer administração).

É claro que se as circularidades inerentes às conversações recorrentes nos diversos clusters forem quebradas, desconstitui-se em parte a identidade dos atores coletivos (que é importante para seu reconhecimento pelos demais). Mas, a despeito desse efeito colateral, essa é a única maneira de inovar, mudando a chamada cultura política. As culturas, como modos de transmissão (não-genética) de comportamentos, são por natureza conservadoras. Para mudá-las é necessário alterar seus processos de repetição. Isso vale – não teria por que não – também para a cultura política.

Entretanto, se as mídias sociais são usadas instrumentalmente – a partir da sua vulnerabilidade à intervenção hierárquica – para reforçar preconceitos contra a política (democrática), a cultura política não só pode não mudar como até retrogradar.

A cultura política democrática é um dos usuais indicadores de democracia. O Democracy Index da The Economist Intelligence Unit define esse indicador (um dos cinco usados para compor o seu índice) a partir de oito perguntas básicas:

1) Existe um grau suficiente de consenso e coesão social para sustentar uma democracia estável e funcional?

2) Percepções de liderança: qual a proporção da população que deseja um líder forte que se sobreponha ao parlamento e às eleições? Qual a porcentagem de pessoas que pensam que seria bom ou razoavelmente bom ter um líder forte que não se preocupe com o parlamento e as eleições?

3) Percepções de governo militar: qual a proporção da população que preferiria o regime militar? Qual a porcentagem de pessoas que acham que seria muito bom ou razoavelmente bom ter um governo militar?

4) Percepções de governo de especialistas ou governo tecnocrático: qual a proporção da população que preferiria ser governada por especialistas ou tecnocratas? Qual a porcentagem de pessoas que acham que seria muito bom ou razoavelmente bom que especialistas, e não o governo [por meio dos representantes legitimamente eleitos], tomem decisões para o país?

5) Percepção da democracia e ordem pública: qual a proporção da população que acredita que as democracias não são boas em manter a ordem pública? Qual a porcentagem de pessoas que não concordam com a visão de que as democracias não são boas para manter a ordem? Alternativamente, qual a porcentagem de pessoas que pensam que punir criminosos é uma característica essencial da democracia?

6) Percepção da democracia e do sistema econômico: qual a proporção da população que acredita que a democracia beneficia o desempenho econômico? Qual a porcentagem de pessoas que não concordam com a visão de que o sistema econômico é mal administrado nas democracias?

7) Grau de apoio popular à democracia: qual a porcentagem de pessoas que concordam ou concordam fortemente que a democracia é melhor do que qualquer outra forma de governo?

8) Existe uma forte tradição de separação entre Igreja e o Estado? [Acrescente-se: qual a porcentagem de pessoas que acredita que o Estado não deve ser laico e sim religioso, respondendo às tradições da maioria da população?]

Pois bem. Se as mídias sociais são usadas para reforçar ideias:

1) de que o país não está preparado para a democracia (pervertendo a ideia basilar de que todos os países se preparam através da democracia);

2) de que precisamos de um líder forte que não fique refém do parlamento (coalhado de políticos sujos, fisiológicos e corruptos);

3) de que um governo militar (com dirigentes competentes, patriotas e honestos) é melhor do que um governo coalhado de políticos ineptos, fisiológicos e corruptos;

4) de que é preferível entregar o governo nas mãos de quem sabe em vez de deixá-lo ser conduzido por ignorantes (que só foram eleitos em razão de demagogia);

5) de que fazer uma guerra contra o crime e punir criminosos é a principal (ou uma das principais) tarefas de um governo (e que a democracia seria uma espécie de regime sem corrupção e sem bandidos);

6) de que a democracia não funciona direito porque não entrega o que promete em termos econômicos (ou que a democracia falha ao não poder dar “casa, comida e roupa lavada” para todos); e que, portanto,

7) a democracia não pode ser considerada a melhor forma de governo (sendo preferível, por exemplo, uma autocracia, como a que vige no sultanato de Brunei, que satisfaz as necessidades básicas de toda população); e, por último,

8) que – em países de forte tradição cristã (como o Brasil) – não faz nenhum sentido afirmar que o Estado é laico;

em suma, se ideias como essas são marteladas diariamente nas mídias sociais gerando conversações recorrentes, com circularidades inerentes capazes de configurar múltiplas nuvens de reverberação, é grande a chance de haver um retrocesso na cultura política democrática.

E com isso acabamos de revelar uma fórmula para destruir a cultura política democrática usando as mídias sociais. Mas não a inventamos. Como sabemos, ela já foi usada, aqui em em outros países (como o Reino Unido durante a campanha do Brexit e os USA na campanha de Trump).


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