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Como funciona a corrupção nas ditaduras

Relato de Juan Reinaldo Sánchez, que foi guarda-costas pessoal de Fidel, no seu livro A vida secreta de Fidel (2014), disponível em PDF no link para download. É paradigmático. Lendo o relato podemos entender as diferenças entre a corrupção de um ator político em um regime democrático e a corrupção de um senhor de gente em uma autocracia.

O CASO OCHOA

Final de 1988. Um dia como qualquer outro em Havana. Em poucos minutos, minha vida iria mudar.

Fidel tinha passado a tarde lendo e trabalhando no gabinete quando colocou a cabeça na antessala onde eu estava para me avisar que Abrantes estava chegando. O general José Abrantes, quinquagenário, era o ministro do Interior desde 1985, depois de ter sido chefe da segurança do comandante em chefe por vinte anos. Fiel entre os fiéis, fazia parte do grupo que via el jefe diariamente. Ele pertencia ao círculo das pessoas mais próximas do poder supremo, ao lado de Raúl Castro e daqueles que o leitor já conhece, mas cujos nomes e funções me permito relembrar: José Miguel Miyar Barruecos, o Chomy, secretário particular de Fidel; seu médico pessoal Eugenio Selman; o diplomata Carlos Rafael Rodríguez; o mestre-espião Manuel Piñeiro, o Barbarroja; e ainda dois amigos — o escritor colombiano Gabriel García Márquez, apelidado “Gabo”, e o geógrafo Antonio Núñez Jiménez. Outra coisa diferenciava Abrantes: ao lado de Raúl, era um dos raros a poder entrar no gabinete de Fidel sem passar pela entrada principal do Palacio de la Revolución, utilizando, pelos fundos, o estacionamento no subsolo e o elevador que conduzia diretamente ao terceiro andar.

Naquele dia, portanto, por volta das cinco horas da tarde, depois de estacionar nesse subsolo, José Abrantes se apresentou à antessala de Fidel. Anunciei sua chegada: “Comandante, aquí está el ministro!”. Pois é claro que ninguém, nem mesmo seu irmão Raúl, entrava no gabinete de Fidel sem ser anunciado. Fechei a porta dupla e me instalei em meu gabinete (anexo à antessala), onde ficavam as telas de monitoramento do estacionamento, do elevador e dos corredores, e o armário com as três fechaduras que permitiam abrir os microfones dissimulados no gabinete de Fidel. No instante seguinte, el comandante voltou, abriu a porta novamente e me passou a seguinte instrução: “Sánchez, no grabes!”, “Sánchez, não grave!”.

Enquanto os dois homens conversavam em privado, tratei das minhas coisas, lendo o Granma do dia, arrumando os papéis, registrando as últimas atividades do líder máximo na libreta.

A conversa se eternizava… Uma hora se passou, depois duas. Coisa estranha, Fidel não me pediu para lhe servir um whiskycito nem para oferecer um cortadito a seu interlocutor, que em geral consumia uísque e café em altas quantidades. O ministro do Interior nunca tinha ficado tanto tempo no gabinete do líder máximo. Assim, tanto por curiosidade quanto para matar o tempo, pus o fone de ouvido e girei a chave no 1 para ouvir o que se dizia do outro lado da parede.

E acabei surpreendendo uma discussão que nunca deveria ter ouvido.

A conversa girava em torno de um lanchero* cubano que vivia nos Estados Unidos e que aparentemente tinha negócios com o regime. E que negócios! Nada menos que um enorme tráfico de drogas era praticado no topo do Estado!

Abrantes pedia a Fidel autorização para acolher temporariamente em Cuba esse traficante que desejava tirar uma semana de férias no país natal com os pais, em Santa Maria del Mar — uma praia localizada dezenove quilômetros a leste de Havana, onde as águas são azul-turquesa e a areia é fina como farinha. Por esse recesso, especificou Abrantes, o lanchero pagaria 75 mil dólares. O que em tempos de crise econômica era sempre bom aceitar… Fidel não se opôs. Mas expressou uma preocupação: como fazer para ter certeza de que os pais do lanchero guardariam o segredo e não iriam contar a todo mundo que tinham passado uma semana de férias perto de Havana com o filho que supostamente morava nos Estados Unidos? O ministro tinha a solução: bastaria fazer com que acreditassem que o filho era um agente de informação cubana infiltrado nos Estados Unidos e que sua vida seria gravemente posta em perigo se eles não mantivessem um segredo absoluto em torno de sua visita a Cuba. “Muito bem…”, concluiu Fidel, que deu seu aval. Por fim, Abrantes sugeriu ao comandante que Antonio de la Guardia, chamado Tony, acostumado a missões especiais e herói das lutas de libertação no Terceiro Mundo, se responsabilizasse pela organização das particularidades da estada. Mais uma vez, el comandante não fez nenhuma objeção…

Foi como se o céu caísse em cima da minha cabeça. Estupefato, incrédulo, petrificado, eu preferiria acreditar que tinha ouvido mal ou que estava sonhando, mas infelizmente era verdade. Em poucos segundos, todo o meu mundo, todos os meus ideais ruíram. Entendi que o homem a quem eu sacrificava minha vida desde sempre, el líder que eu venerava como um deus e que, a meus olhos, era mais importante que minha própria família, estava envolvido no tráfico de cocaína a ponto de comandar operações ilegais como um verdadeiro mafioso. Aterrado, coloquei o fone no lugar e girei a chave para cortar o microfone no 1, de repente sentindo uma imensa solidão…

Abrantes acabou saindo do gabinete e, quando fechou a porta, não deixei transparecer nem um pouco de minha perturbação. Mas a partir daquele momento não consegui mais olhar para Fidel da mesma maneira. Decidi, no entanto, guardar para mim aquele terrível segredo de Estado, sem falar com ninguém a respeito, nem mesmo com minha mulher. Mas por mais que eu tentasse manter o profissionalismo e expulsar aquela revelação da mente, a decepção continuava. Querendo ou não, minha vida foi completamente posta em causa. Ela o seria mais ainda, em pouco menos de um ano, quando Fidel sacrificasse o devotado Abrantes, enviando-o para a prisão, para melhor demonstrar ao mundo que ele mesmo ignorava todo aquele tráfico de drogas que teria arruinado sua reputação.

Enquanto isso, el comandante, que tinha a arte da dissimulação como um de seus maiores talentos, voltava ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Sua lógica precisa ser entendida. Para ele, o narcotráfico era uma arma de luta revolucionária antes de ser um meio de enriquecimento ilícito. Seu raciocínio era o seguinte: se os ianques são estúpidos o suficiente para consumir a droga vinda da Colômbia, além de aquilo não ser problema seu — enquanto não fosse descoberto —, podia servir a seus objetivos revolucionários na medida em que corrompia e desestabilizava a sociedade americana. Cereja do bolo: era um meio de armazenar dinheiro em espécie para financiar a subversão. Assim, à medida que o tráfico de cocaína se desenvolvia na América Latina, as fronteiras entre a guerrilha e o narcotráfico desapareciam. O que era verdade no caso da Colômbia valia também para Cuba. De minha parte, nunca consegui aceitar essa total distorção das coisas, em contradição absoluta com minha ética revolucionária.

O ano de 1989 começou com a celebração do trigésimo aniversário do Triunfo da Revolução, acontecido, lembremos, num 1o de janeiro. Para o comunismo mundial, no entanto, aquele foi o ano de todas as ameaças. Na China, manifestantes se preparavam para desafiar os tanques na Praça da Paz Celestial. Na Europa, o muro de Berlim estava prestes a ser derrubado. A ilha de Cuba, por sua vez, a partir de então privada das subvenções soviéticas, passaria por uma crise existencial inaudita: em julho, no fim de um processo staliniano, o glorioso general Arnaldo Ochoa seria fuzilado com três outros acusados, todos julgados culpados de ter “maculado a Revolução” e “traído Fidel” com um tráfico supostamente ignorado pelo comandante em chefe. “O caso Ochoa” causou um verdadeiro trauma nacional e varreu para longe as últimas ilusões do castrismo: em Cuba, há um pré- e um pós – 1989.

Para compreender o “caso”, é preciso voltar no tempo até a criação do Departamento MC, em 1986, ano em que a ajuda econômica de Moscou começou a secar. Colocado sob a autoridade do MININT, isto é, do ministro José Abrantes, e dirigido pelo coronel Tony de la Guardia, el Departamento MC tinha justamente como razão de ser a obtenção de dólares por meio de sociedades de fachada com sede no Panamá, no México e na Nicarágua. Daí o apelido de Departamento “Moeda Convertível”, apesar da denominação MC não ter, no início, nenhum significado específico — ela apenas correspondia a uma nomenclatura militar alfabética estúpida e ruim.

Herdeiro do Departamento Z, criado no início dos anos 1980, o Departamento MC empregava qualquer meio à disposição e comercializava qualquer coisa: tabaco, lagostas e charutos introduzidos nos Estados Unidos por contrabando, roupas e eletrodomésticos exportados para a África; obras de arte e antiguidades escoadas para a Espanha; sem esquecer os diamantes e o marfim trazidos da África e revendidos na América Latina ou alhures. Alguns comércios eram legais, outros não. Mas a existência do departamento em si nada tinha de secreta. Pelo contrário, o jornal oficial Granma um dia explicou sua missão nos seguintes termos: “Trata-se de lutar contra o bloqueio — ou embargo — econômico dos Estados Unidos, em vigor desde 1962, para que haja meios de se conseguir produtos como material médico, medicamentos, computadores etc.”.

Sigiloso, em contrapartida, era o seu funcionamento, seus circuitos financeiros, sua contabilidade.

Gerenciado com opacidade, desordem e improvisação, o Departamento MC tinha uma única regra obrigatória: receber em dólares e em espécie em países estrangeiros, especialmente no Panamá, que sempre foi a primeira base das atividades comerciais ilícitas cubanas sob o reinado de Fidel. Era inevitável que, naqueles anos e naquela região, a rota dos “piratas” dos departamentos Z e depois MC cruzasse com a dos narcotraficantes colombianos, também à procura de dinheiro fácil. Não foi totalmente por acaso, portanto, que entre seus funcionários, o Departamento MC logo recebeu o apelido de “Maconha e Cocaína”!

As primeiras suspeitas dos americanos em relação a Cuba nesse setor dataram do início dos anos 1980. Elas foram alimentadas por testemunhos de desertores dos diferentes serviços de espionagem cubanos, de altos funcionários do governo panamenho que trabalharam em estreita colaboração com o presidente Manuel Noriega** e dos traficantes de drogas presos na Flórida, que afirmaram que o regime cubano estava ligado a Pablo Escobar e a seu Cartel de Medellín. Em meados dos anos 1980, artigos publicados na imprensa americana mencionaram o aumento do tráfico de drogas em Cuba, que servia de plataforma de trânsito para o pó branco colombiano, e a possibilidade de que os narcotraficantes estivessem ligados ao topo do poder cubano.

Percebendo a ameaça de um escândalo e provavelmente alertado a esse respeito pelos serviços de informação infiltrados nos Estados Unidos, el líder máximo decidiu se adiantar e dar um fim às eventuais suspeitas a seu respeito. Buscando se redimir, Fidel utilizou o jornal oficial Granma para informar seus leitores de que uma investigação havia sido iniciada em abril. Depois, como um experiente jogador de xadrez, inverteu os papéis fazendo um roque.*** Sabendo muito bem quem eram os oficiais cubanos envolvidos com o narcotráfico, ele mandou prender, em 12 de junho, os gêmeos “Tony” e Patricio de la Guardia, do Departamento MC, o general Arnaldo Ochoa, recém- chegado de Angola, bem como outros nove oficiais superiores do MININT e dois do MINFAR. Uma segunda onda de prisões, algumas semanas depois, incluiu o ministro do Interior José Abrantes e, no círculo deste último, dois generais e quatro coronéis.

Três semanas mais tarde iniciou-se o duplo processo do general Ochoa. Primeiro, no dia 25 de junho, o acusado se apresentou sozinho, de uniforme, diante de um “tribunal militar de honra” no quarto andar do MINFAR, onde foi rebaixado ao posto de simples soldado na presença de todo o estado-maior, ou seja, 47 generais. Depois, a partir do dia 30 de junho, o acusado foi apresentado ao “tribunal militar especial” na companhia de treze coacusados, vestidos como ele em trajes civis, dessa vez no térreo do prédio, na Sala Universal, a sala de projeção do MINFAR transformada em tribunal. O procedimento todo foi chamado de “Causa no 1/1989”, enquanto o processo contra o ministro do Interior José Abrantes, que veio a seguir, se chamou “Causa no 2/1989”. Rápido, o processo contra Ochoa durou quatro dias. Ficará para sempre gravado na memória coletiva dos cubanos como uma das maiores ignomínias do reinado sem fim de Fidel Castro Ruz.

Na época, porém, na imprensa oficial e na rádio, o governo se parabenizou por ter empreendido aquela ação com “justiça”! “O mundo inteiro observa, estupefato, essa extraordinária prova de coragem e moralidade. Ele não está acostumado a isso. Somente uma Revolução autêntica, forte, inabalável e profunda é capaz disso.” Mestre em cinismo, Fidel, dizendo-se “consternado” pelo que fingia acabar de descobrir, afirmou inclusive que se tratava “do processo político e judiciário mais limpo que se possa imaginar”.

A realidade, é claro, foi muito diferente. Confortavelmente instalado no gabinete de Raúl, no quarto andar do MINFAR, Fidel Castro seguiu ao vivo, ao lado do irmão, todo o desenrolar da Causa no 1 e da Causa no 2 pelos monitores de um circuito interno de vídeo. Os dois processos foram de fato filmados — razão pela qual hoje podemos ver grandes trechos deles no YouTube — e difundidos em todos os lares cubanos, embora não fosse ao vivo, de modo que o regime pudesse praticar a censura caso algumas passagens fossem comprometedoras.

Fidel dispunha inclusive de um sistema que lhe permitia discretamente passar um alerta ao presidente do tribunal, por meio de um aviso luminoso, nos momentos em que fosse conveniente interromper a sessão. Vi tudo isso com meus próprios olhos, pois estava presente, ora diante da porta aberta do gabinete de Raúl, ora dentro da sala. Quando havia uma interrupção, Raúl me dava a seguinte instrução: “Avise o chefe da escolta que os compañeros do processo vão subir a qualquer momento”. De fato, cinco minutos depois, o presidente do tribunal, o procurador e os jurados chegavam ao quarto andar do ministério para tomar instruções de Fidel, que, como sempre, orientava e dirigia tudo, absolutamente tudo. Mais tarde, por duas vezes el comandante admitiu em público que havia estado, na época, em contato com os membros do tribunal, mas que, cioso da separação dos poderes, abstivera-se de influenciá-los! Para quem conhecia o modo de agir de Fidel, era evidente que a afirmação não se sustentava por um segundo e, pelo contrário, revelava um humor negro terrível.

Ao longo da Causa no 1 (o processo Ochoa) e da Causa no 2 (o processo Abrantes), os procuradores facilmente demonstraram o envolvimento dos acusados com o narcotráfico, que de fato existia. Eu poderia ter ficado chocado com o fato de Ochoa, herói da Revolução Cubana, estar envolvido com o tráfico de drogas. Mas o que ele poderia fazer, se o próprio chefe de Estado estava na origem desse tráfico, da mesma forma que presidia as outras operações de contrabando — tabaco, eletrodomésticos, marfim etc.? E isso, segundo sua lógica, sempre para o bem da Revolução!

Em dado momento, a acusação se deteve na questão de um hangar situado no aeroporto de Varadero, onde a droga e outras mercadorias de contrabando eram estacionadas a caminho dos Estados Unidos.

Aquilo imediatamente me fez ter um estalo! Lembrei de ter acompanhado Fidel, Abrantes, Tony de la Guardia e alguns outros oficiais do Departamento MC até aquele hangar dois anos antes. Tínhamos saído do Palacio num comboio de três carros e, depois de uma boa hora de estrada, chegamos ao local, que ficava do lado direito da estrada Panamericana. Naquele dia, fiquei do lado de fora, enquanto Abrantes e Tony de la Guardia mostravam a Fidel um suposto estoque de garrafas de rum e charutos para exportação. Depois de apenas quinze minutos, voltamos ao Palácio presidencial.

Naquele instante do processo, entendi que, dois anos antes, Fidel não tinha ido visitar um estoque de rum e charutos — por que, de fato, um chefe de Estado perderia três horas para inspecionar uma coisa tão banal e desinteressante? —, mas um estoque de pó branco esperando para ser enviado à Flórida. Pois, como de costume, o comandante em chefe, desconfiado de seus subordinados e prudente ao extremo, queria verificar tudo pessoalmente, até os mínimos detalhes, para se assegurar de que as melhores disposições tinham sido tomadas para dissimular a mercadoria de contrabando.

Tudo isso explica a brevidade dos veredictos das Causas no 1 e no 2. No fim daquele simulacro de justiça, o general Ochoa e seu assistente, o capitão Jorge Martínez (ambos membros do MINFAR), o coronel Tony de la Guardia e seu subordinado, o major Amado Padrón (ambos do MININT) foram condenados à morte, em 4 de julho de 1989, por terem organizado o transporte de seis toneladas de cocaína do Cartel de Medellín aos Estados Unidos e por terem recebido em troca 3,4 milhões de dólares. Três semanas depois, José Abrantes recebeu uma pena de vinte anos de prisão, e os demais acusados, penas inferiores. Seguiu-se o maior expurgo jamais feito dentro do ministério: todos os dirigentes do MININT, ou quase todos, foram destituídos e substituídos.

Sem sombra de dúvida foi Fidel — e mais ninguém — quem tomou a decisão de enviar Ochoa ao pelotão de fuzilamento e Abrantes para trás das grades por vinte anos. Foi ali que este último, apesar de sua excelente forma física, morreu de ataque cardíaco em 1991, de maneira no mínimo suspeita, depois de apenas dois anos de detenção. Livrando-se deles, el líder máximo eliminou dois homens que sabiam demais, pessoas com quem tinha discutido a delicada questão do narcotráfico. Com a morte de Ochoa e Abrantes, a ligação com o comando foi cortada e junto com ela todos os laços orgânicos que pudessem ligá-lo àquele tenebroso negócio.

Poderia causar espanto o fato de que, ao longo do processo transmitido pela televisão, oficiais tão valorosos quanto os quatro condenados à morte não tenham se rebelado em nenhum momento para dizer a verdade ao mundo. Isso significaria não conhecer o maquiavelismo de Fidel e a maneira como o sistema cubano manipula as consciências. Nos bastidores, é evidente que os acusados receberam a mensagem de que, “em consideração aos serviços prestados no passado, a Revolução se mostraria reconhecida para com eles: ela não abandonava seus filhos e, mesmo que o tribunal exigisse a pena máxima, ela seria misericordiosa com eles e suas famílias”… Ou seja, prometeram àqueles homens que eles não seriam executados, mas perdoados. Isso se admitissem seus erros e confirmassem que, sim, mereciam a pena máxima. Foi o que fizeram… porque homens na posição deles não poderiam fazer outra coisa.

No dia 9 de julho, porém, ou seja, cinco dias depois da condenação, Fidel convocou o Conselho de Estado para “bloquear” o processo Ochoa, compartilhando assim a responsabilidade com todos os dirigentes da instância mais alta do regime, composta por 29 membros, civis e militares, ministros, membros do Partido Comunista, presidentes de organizações de massa etc. Eles deveriam ratificar a decisão do tribunal ou, pelo contrário, agraciar os condenados à morte com a comutação da pena. Cada um deles deveria se pronunciar individualmente. Todos confirmaram a sentença. Vilma Espín, fazendo pouco da amizade que ela e o marido Raúl Castro tinham com Ochoa e sua mulher, disse a terrível frase: “Que a sentença seja confirmada e executada!”. Na quinta-feira, dia 13 de julho, por volta das duas horas da manhã, os quatro condenados à morte foram fuzilados. Pouco menos de um mês depois da prisão.

A seguir veio o episódio mais difícil de minha carreira. Fidel pedira que a execução de Ochoa e dos três outros condenados fosse filmada. Assim, dois dias depois — num sábado — um motorista se apresentou na casa de Punto Cero, onde eu estava, para entregar um envelope kraft com uma fita de vídeo no formato Betamax. O chefe da escolta José Delgado (que substituía Domingo Mainet havia dois anos), me disse: “Leve isso para Dalia, ela está esperando, é um filme para el jefe”. Levei o envelope para a compañera sem por um instante pensar que poderia ser o vídeo da morte de Ochoa e menos ainda que Fidel, como um Drácula, teria prazer em ver tal “espetáculo”. Trinta minutos se passaram e Dalia voltou com a fita na mão: “El jefe disse que los compañeros devem ver este vídeo”, ela disse, o que significava uma ordem. Transmiti então sua mensagem ao chefe da escolta, que, por sua vez, reuniu todos, umas quinze pessoas, dentre as quais os motoristas e o médico pessoal de Fidel, Eugenio Selman. Alguém pôs a fita no videocassete.

O vídeo não tinha som, o que tornava ainda mais sinistra a sequência que começamos a acompanhar. Vimos apenas alguns carros chegando à noite a um campo iluminado por projetores: mais tarde fiquei sabendo que era o aeródromo de Baracoa, reservado aos dirigentes do regime, no oeste de Havana, no mesmo lugar onde alguns anos antes eu tinha visto duas vezes o embarque de cargas de armas clandestinas para a Nicarágua, na presença de Fidel e Raúl.

Muitos me perguntaram como Ochoa se comportou diante da morte. A resposta é simples e categórica: foi de uma dignidade excepcional. Ao sair do veículo, manteve-se ereto. Quando um dos algozes lhe ofereceu uma venda para os olhos, ele virou a cabeça em sinal de recusa. E quando se viu diante do pelotão de fuzilamento, encarou a morte de frente. Apesar da ausência de som, toda a sequência revelava sua coragem. Aos algozes, que não víamos na imagem, ele disse alguma coisa que não ouvimos, mas adivinhamos. Com o peito inflado e o queixo alto, provavelmente gritou algo do tipo: “Vamos, vocês não me assustam!”. No instante seguinte, caiu sob os disparos de sete atiradores.

Os quatro condenados foram executados em poucos minutos. Nenhum outro, é claro, teve a mesma coragem de Ochoa. Tony de la Guardia, porém, que também tinha uma enorme experiência (depois de ter sido membro da escolta do presidente Allende no Chile, de participar da campanha de Angola, da tomada do bunker de Somoza na Nicarágua e de centenas de missões secretas), mostrou-se corajoso. Menos que Ochoa, mas ainda assim corajoso. Percebíamos sua aflição, sua resignação. Porém em nenhum momento de seus últimos minutos de vida ele se entregou.

A execução de meus dois outros colegas foi mais difícil de suportar. No trajeto entre os veículos e o pelotão de fuzilamento, o capitão Jorge Martínez e o major Amado Padrón caíram várias vezes. Os guardas precisavam levantá-los a cada vez. Víamos que choravam, imploravam, suplicavam. Em suas calças, percebiam-se marcas de urina. Foi difícil, patético, assistir àquilo. Era preciso ter estômago para acompanhar a cena. Um silêncio pesado invadiu a sala onde estávamos. Ninguém ousou falar. Eu preferiria não ter visto aquilo. Longe de mim fazer o menor julgamento sobre aqueles subalternos que, no fundo, estavam pagando pelos erros de Fidel. Mas tenho um compromisso com a verdade. Todos precisam saber do que el comandante é capaz para se manter no poder: não apenas matar, mas também humilhar e reduzir a menos que nada homens que sempre o serviram com devoção.

Depois da morte de Ochoa, Raúl Castro entrou no maior período de alcoolismo de sua vida. Além de não ter conseguido salvar a pele do amigo, ainda precisou aprovar publicamente a condenação à morte do “herói da república de Cuba”, junto com os outros membros do Conselho de Estado e do estado-maior militar. Incapaz de resolver essa contradição — pois participou do assassinato do amigo —, voltou-se para a vodca, que sempre foi sua bebida preferida. Outro fator sem dúvida contou: tendo assistido à eliminação do colega Abrantes (condenado a vinte anos de prisão), Raúl logicamente podia temer ser expulso do poder enquanto ministro da Defesa. Se Abrantes, que era o superior hierárquico de Tony, havia sido punido, não seria lógico que ele, o superior de Ochoa, também fosse?

O número dois do regime começou a beber como uma esponja. Estava sempre tão bêbado que era impossível os ministros e os generais não perceberem. Sua mulher Vilma ficou preocupada. Ela se abriu com o chefe da escolta de Raúl, o coronel Fonseca, explicando-lhe a situação. Vilma temia que o estado depressivo de Raúl favorecesse impulsos suicidas. Fonseca falou a respeito com o colega José Delgado, o novo chefe da escolta de Fidel, isto é, meu superior. E el comandante decidiu conversar com o irmão mais novo.

Num domingo de manhã, fomos a La Rinconada, a casa de Raúl e Vilma, que ficava a cerca de um quilômetro da de Fidel e Dalia. Entramos pela porta dos fundos. Raúl nos recebeu vestindo uma guayabera branca, a tradicional camisa cubana, e uma calça de sarja. Depois de nos cumprimentar, o ministro da Defesa se dirigiu com o irmão para um espaço coberto de madeira que ficava no jardim, no meio de um pequeno local cercado pela vegetação. Chegando ao abrigo, típico da cultura ameríndia, Fidel me fez um sinal para não segui-lo dali em diante. Mas de onde estava, pude ouvir toda a conversa dos dois. Eles não me viam, pois eu estava protegido pelas árvores. Porém ouvi Fidel admoestar o irmão, num longo monólogo moralizador:

— Como você pôde descer tão baixo? Está dando o pior exemplo à família e à escolta — começou el comandante. — Se o que o preocupa é que lhe aconteça o mesmo que aconteceu com Abrantes, deixe-me dizer que Abrantes nos es mi hermano! Você e eu, desde a infância, estamos juntos para o melhor e para o pior. Portanto, não, você não terá o destino de Abrantes, a não ser… que continue com essa atitude deplorável. Ouça, estou falando como irmão. Jure sair desse estado lamentável e prometo que nada lhe acontecerá. Farei mesmo um discurso para lembrar que é um dirigente íntegro e explicarei que sofreu muito com o erro de Ochoa, que o decepcionou imensamente. E se alguém continuar achando que você está envolvido nessa história toda, não passará de um hijo de puta!

Pouco depois, de fato, Fidel tomou a palavra para fazer o elogio de Raúl, de sua integridade e de seu devotamento à Revolução. Raúl, por sua vez, continuou bebendo vodca, mas em quantidades bem mais sensatas.

De minha parte, fiz como milhares de militares: esforcei-me para vencer as dúvidas que o caso Ochoa plantou dentro de mim.

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(*) Passador de droga em barcos.

(**) Condenado em 1992, nos Estados Unidos, por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

(***) No xadrez, o roque consiste numa jogada em que o rei e a torre são movimentados ao mesmo tempo para surpreender o adversário.


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