Bolsonaro et caterva

,

Como o PT matou a inovação social

A atuação do PT na sociedade brasileira nos últimos 30 anos e no Estado nos últimos 13 anos, teve como consequência negativa – e até certo ponto paradoxal – a depressão da inovação social. Sim, o PT não matou os conservadores. Pelo contrário, confundiu, desativou e matou os inovadores.

Este foi, talvez, o resultado mais cruel da tentativa de captura do Estado por um grupo privado, organizado segundo padrões hierárquicos e regido por dinâmicas autocráticas, com uma narrativa ideológica (anticapitalista) estruturada e uma prática política operada como continuação da guerra por outros meios. Os militantes que compõem esse grupo nunca foram inovadores em termos sociais. Mas os inovadores sociais se deixaram colonizar pela ideologia de esquerda que esses militantes vendiam em ampla escala (sobretudo nas escolas e universidades, nas corporações sindicais e nos movimentos sociais, nas ONGs e na chamada mídia alternativa). Os inovadores sociais – aqueles dispostos a pensar e experimentar novas formas de vida e convivência social – eram (mesmo sem se declarar) de esquerda, progressistas, politicamente corretos, ecológicos, sustentáveis, apoiadores de movimentos de minorias, feministas, ativistas LGBT, contra as discriminações de cor. E eles eram considerados (ou se consideravam simpatizantes) de esquerda, não propriamente porque estivessem imbuídos de crenças marxistas, marxistas-leninistas, marxistas-gramscistas, chavistas ou bolivarianas e sim porque não se sintonizavam com as bandeiras que eram qualificadas como de direita: nacionalistas, em defesa da pátria, da ordem, da hierarquia, da disciplina, da obediência, da tradição, da família, da propriedade privada, contra o casamento gay, pela pena de morte, pela redução da maioridade penal, contra o consumo da maconha et coetera. Os inovadores queriam mudança, não manutenção: estavam inconformados com o sistema (embora não soubessem explicar – ou não tivessem sempre a mesma explicação – para o que seria “o sistema”).

Foi esse povo – e não os que apareceram depois se declarando de direita, conservadores ou liberal-conservadores – que, a partir de 2010, começou a organizar startups, festivais de ideias, casas colaborativas, laboratórios de inovação tecnológica e social, ocupação e publicização de espaços públicos (do tipo “vou prá praça”), eventos de cocriação interativa, open spaces, implantação de processos de rede em organizações, experimentação de novos sistemas alternativos ao controle de hierárquico: financeiros (fintechs) e em todas as outras áreas ou dimensões da vida social, como alimentação, saúde, educação (e aqui entra uma ampla gama de iniciativas de homeschooling, communityschooling ou arranjos educativos locais e de aprendizagem sem ensino), moradia, vestuário, transporte, viagens e hospedagens, comunidade e vizinhança, relacionamentos, entretenimento, comunicação, empreendimentos em rede, nova política, filosofia, ciência e tecnologia, arte e novas formas pós-religiosas de espiritualidade. Foi esse mesmo pessoal que vibrou com o 15M dos Indignados de Espanha e com o 17S (o Occupy Wall Street) em 2011, com o Gezi Park na Turquia e que enxameou no Brasil em junho de 2013, com a Revolução dos Guarda-Chuvas dos H-Kongers em setembro e outubro de 2014 e com outros movimentos análogos de alta interatividade que emergiram no dealbar do terceiro milênio.

Pois bem. Toda essa gente ficou atônita com a derrocada do PT. Sinceramente, depois que tudo veio a tona (e ainda não veio tudo, mas o que veio já foi mais do que suficiente) não queriam continuar apoiando o banditismo de Estado praticado pelo partido no governo, mas também não queriam se confundir com boa parte dos que denunciavam seus crimes a partir de uma perspectiva da ordem, seja pedindo uma intervenção militar, seja querendo implementar uma solução centrada na obediência às leis e na valorização das instituições atuais. Eles sabiam, que havia algo de muito errado no legalismo dos liberais-conservadores, baseado na ideia de que basta obedecer as leis que tudo irá bem. Eles não queriam manter o arcabouço legal e as velhas instituições do Estado de direito (e nem confinar o Estado e a sociedade democráticos dentro dos limites estreitos do Estado de direito), queriam mudá-las (as leis e as instituições) no sentido de ampliar a esfera das liberdades, queriam – mesmo que não soubessem explicá-lo da forma como aqui se explica – a continuidade do processo de democratização da sociedade, a democratização ou radicalização da democracia que temos em direção à novas formas de democracia, mais conformes à emergente sociedade-em-rede em que já vivemos.

Como o que aconteceu foi algo inimaginável no seu mundo mental, os inovadores sociais, carregando suas crenças de mudança (em geral confundidas pelos conservadores com as crenças da esquerda no poder), ficaram meio perdidos e sem ter em que se apoiar. Isso levou-os para uma espécie de limbo e eles ficaram ineptos socialmente na medida em que suas conversações pararam de reverberar. Tudo isso pode ser objetivamente verificado: aquelas experimentações inovadoras que começaram a florescer no início da segunda década deste século foram abruptamente interrompidas a partir de meados de 2014. De lá para cá, além dos protestos de rua de 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto de 2015 e de 13 de março de 2016, pouco se viu de inovador em termos sociais. E mesmo essas manifestações – as maiores manifestações políticas de nossa história – foram inovadoras do ponto de vista dos processos distribuídos e interativos de convocação e realização, mas não no tocante a todas as suas pautas. Foram manifestações corretas do ponto de vista político-conjuntural, mas animadas por ideias, em boa parte, conservadoras (e até retrógradas). Foi correto pedir o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a extinção do registro partidário do PT, mas não porque Dilma fosse terrorista, porque Lula fosse um marxista-revolucionário (ou não tivesse curso superior) ou porque o PT (juntamente com outros integrantes do Foro de São Paulo) fizesse parte de um plano comunista internacional para destruir a família, introduzir o gayzismo nas escolas, liberar as drogas e subverter a civilização ocidental cristã – como verbalizavam um número considerável de manifestantes e alguns grupos que se meteram a convocar os protestos (inspirados em Bolsonaro ou em Olavo de Carvalho). É claro que os principais dirigentes do PT carregam uma cultura comunista (foram e em boa medida ainda são marxistas-leninistas ou marxistas-gramscistas, apoiadores do castrismo, do chavismo e do bolivarianismo e até do putinismo). Também é claro que o PT foi um dos articuladores do Foro de São Paulo (arquitetado por Fidel e Lula, com a assessoria de Marco Aurélio Garcia), mas o problema real não era esse (a implantação do comunismo no Brasil, na AL, no globo e na galáxia – coisa que todos sabiam ser impossível) e sim que o projeto do PT – de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo – era contra a democracia. Não era bem socialismo stricto sensu que eles (Lula e Dirceu, os verdadeiros chefes) queriam e sim permanecer no poder pelo maior tempo possível e sua estratégia era menos a clássica via marxista-leninista ou marxista-gramscista e sim o caminho do neopopulismo, que é mais o resultado de uma fusão heterodoxa, porém perversa, entre maquiavelismo e gramscismo. Assim, o perigo representado pelo PT não era, realmente, nos levar para o comunismo e sim autocratizar a nossa democracia (o que poderia até desembocar, no limite, em uma espécie de venezuelização à brasileira, nunca chegando, porém – em razão da complexidade da nossa sociedade -, a alcançar os patamares de descalabro do regime do neoditador Maduro).

Assim, o grande problema é que uma parte considerável dos que se opunham ao PT não o fazia em nome da democracia. Tal como os petistas, estavam pouco ligando para a democracia e aceitariam de bom grado uma saída autocrática que removesse de uma vez por todas o PT do Estado e da sociedade brasileira.

Ora, isso foi de alguma forma sentido pelos inovadores sociais, que não tiveram também muita dificuldade de perceber que uma alternativa autocrática ao PT empestearia a atmosfera social de liberdade que, mal ou bem, ainda respiramos. Não que a maioria das pessoas que foram às ruas contra o PT quisesse isso: reduzir nossas liberdades e autocratizar o regime. Nada disso! Mas os novos atores que apareceram na convocação dos protestos ou não tinham convicções políticas democráticas suficientemente claras ou, em alguns casos, deixavam transparecer algumas visões ideológicas anacrônicas ou passadistas, conformistas e – isso é definitivo – muito pouco inovadoras no que tange a novos modos de interação política e de experimentação de formas inéditas de vida e convivência social. Por isso os inovadores sociais não aderiram tão entusiasticamente aos protestos de 2015 e 2016 como aderiram aos de 2013. Intuíram que não era bem sua turma ou, como se diz jocosamente nestes dias, que esse pessoal (que se destacava na convocação dos protestos contra o governo e o PT) pertencia a outra enfermaria…

A questão é que enquanto os inovadores foram para uma espécie de limbo, floresceram conservadores na nova arena pública. Foi assim que o PT contribuiu para quebrar a onda de inovação social que estava vindo. Criou-se um estranhamento. Uma separação de turmas. Reeditou-se uma disputa ideológica segundo padrões antigos (de meados do século passado, que já se supunha enterrada) entre liberais e socialistas, conservadores e progressistas, mercadocentristas e estadocentristas, criando ambientes nos quais os inovadores sociais não se sentiam bem. Um depoimento de um amigo no Facebook (Willame Leal, em 12 de agosto de 2016), ilustra bem o clima avesso à inovação que se instalou:

“Falando por mim, e pelos círculos que me cercam e que pelos quais eu transito, vejo um esgarçamento muito ruim. Ruim mesmo. Quando falo da necessidade de maior liberdade econômica, o pessoal que se chama de Esquerda fala que isso é coisa de liberal. Quando critico essa neura por controlar a sexualidade alheia, os que se chamam de Direita dizem que isso é um ataque ao Ocidente e que isso é coisa de esquerdista. O pior é essa vibe de torcida. O critério para as nossas convivências, que deveria ser o da liberdade, passa a ser o da adesão a essas narrativas que apodrecem as relações sociais. É um movimento de idiotização que não esperava ver tão cedo na minha vida. É um teste de resiliência, tanto pessoal como para as nossas redes que respiram nesse [ambiente] compactador castrador”.

O diabo é que os conservadores que se opõem ao PT estavam e estão certos politicamente, em termos conjunturais. Mas parecem – aos olhos dos inovadores – estar errados socialmente, em termos culturais.

E agora aparece gente que está certa ao criticar o PT, mas vomitando dejetos conservadores. Aqui também pode-se tomar como exemplo outro depoimento recente no Facebook (de Claudia Wild, em 11 de agosto de 2016):

“Anotem aí a próxima bandeira que será em breve discutida no ocidente. Após o casamento homossexual teremos a liberação da poligamia. Alguns países europeus de governos esquerdistas já estão preparando o terreno e o debate, para depois enfiarem a legalização da poligamia goela abaixo, como sempre fazem com tudo. O motivo? A islamização da Europa avançou muito e precisam legitimar o primitivo e bizarro costume dos filhos de Allah”.

E o diálogo que se seguiu com outra pessoa, que replicou o post acima no grupo público Dagobah, também é revelador:

Augusto de Franco: “Eu fico aqui pensando: onde vocês estão com cabeça? Qual é o problema da livre sexualidade, da livre associação para qualquer fim lícito (que não prejudique terceiros)? Qual é o problema da imaginação criadora? Vocês não estão entendendo que se opor às mudanças nas formas de sociabilidade nada tem a ver com esquerda ou com fundamentalismos islâmicos ou de qualquer outro tipo? Eu tenho vergonha em estar num grupo com pessoas tão conservadoras. O ser humano caminha sobre a Terra há mais de 200 mil anos. A família monogâmica só existe há 6 mil anos. Visitem tribos paleolíticas remanescentes e vocês verão que a forma de família realizada nada tem a ver com a monogâmica. E não há nada de esquerda, nem de indecente nisso”.

Helena Ferreira: “Ah… a direita na sua grande maioria é formada por cristãos (católicos/crentes) que têm dentre [seus] princípios a família tradicional. Vergonha tenho eu em verificar que pessoas seguem caminhos em que [sic] Marx queria justamente atacar (a família/cristã) e chegar a conclusão que direita e esquerda e cerceamento de instintos primitivos não tolerados nos dias de hoje, como exemplo, também, o bestialismo e a pedofilia, não fazem [parte da] pauta da direita e esquerda e podem ser consideradas formas de sociabilidade pré existentes! Logo, não tem essa de livre sexualidade! A democracia pode estar até longe desses conceitos, mas direita e esquerda não!”

Augusto de Franco: “A democracia é um modo de regulação que tem como fim a liberdade. Pare com esse negócio de cristão ou de qualquer religião. Você pode ter a crença que quiser. Não pode, todavia, exigir que os outros tenham a sua crença. Marx nada tem a ver com isso, Helena Ferreira. E que tolice é essa de “instintos primitivos”?”

Helena Ferreira: “Regulação/liberdade?! Você que não pode exigir dos outros que conceitos tão abrangentes e móveis como direita e esquerda podem [sic] ficar circunscritos dentro do teu conceito “verdadeiro” de democracia. E falar que Marx não tem nada haver com isso é não considerar que a guerra contra quaisquer cristãos é sua meta. E mais patético do mundo colocar o materialismo dialético (não pedi pra ninguém ser cristão) como verdade absoluta, colocando o homem como um primata evoluído e como verdade absoluta dejetos de livre sexualidade…”

Ora, um jovem conservador – defendendo a família monogâmica, a tradição e os valores da civilização cristã – é a coisa mais patética do mundo. Não havia muitos que ousassem fazê-lo nas últimas décadas. Mas agora há. Basta uma pequena pesquisa nas mídias sociais para revelar os numerosos grupos que floresceram intitulando-se – para se opor ao PT e à esquerda – como “direita”, “direito”, “retrógrado” e outras bobagens semelhantes.

Surgiram também vários grupos anticomunistas, sem muito medo do ridículo. Porque não há nada tão ridículo quanto um comunista do que um anticomunista em plena segunda década do terceiro milênio. É claro que não estou falando dos que são contra o comunismo (como eu mesmo sou, tal como o comunismo foi apropriado pelas narrativas socialistas, estatistas, em geral de base marxista) e sim dos que assumem a ideologia e o comportamento de cruzados anticomunistas (ou de militantes anacrônicos da guerra fria). Se você critica a tal civilização ocidental cristã (que tanto prezam, saiba-se lá o que seja tal construção), eles acusam: “- Comunismo!” Se você adverte para a privatização de capital social operada pela família monogâmica, eles retrucam: ” – Comunismo!” Se você argumenta para mostrar que as religiões são engendramentos sacerdotais para proteger as pessoas da experiência de deus, eles vituperam: “- Comunismo!” Se você cita Samuel Johnson, para mostrar que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, eles ficam loucos e gritam: “- Comunismo!” E vá-se lá dizer-lhes de erotismo homossensual, de poliamor ou de poligamia! Eles então se enfurecem acusando-o de… “- Comunista, destruidor dos valores, da civilização ocidental cristã, da família, da tradição, da propriedade, da decência, dos bons costumes, da ordem, da pátria, de Deus…”

Fala sério! De que tumba se levantaram de repente essas pessoas?

Mas elas estão aí. E a democracia terá de conviver com elas. Não vejo muito problema nisso. O problema é: onde foram parar os inovadores? Se a ocupação da nova esfera pública por anticomunistas, bolsonaristas, olavistas ou mesmo por conservadores ajuizados e inteligentes como Reinaldo Azevedo, significar um constrangimento para aqueles que querem experimentar novos modos de vida e convivência social e novas formas de interação política democrática (que não se reduzam a obedecer as leis, defender e manter as velhas instituições e imaginar que o Estado de direito é o máximo possível em termos de democracia, que deva ser prorrogado pelos milênios adiante) então temos um problema. Um problema, entenda-se bem, não para os conservadores e sim para os inovadores. Enquanto estes últimos não se desvencilharem da metafísica que lhes foi inculcada e não desvestirem as explicações de suas iniciativas das narrativas de esquerda, continuarão – continuaremos! – intimidados, acuados e inoperantes.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário