in

Confundir Mussolini com Berlusconi é letal para a democracia

Durante mais de uma década alguns de nós – que prezamos a democracia e conhecemos o PT – estamos dizendo: sigam os doleiros, investiguem os fundos de pensão, as empresas estatais, os bancos públicos (BB, Caixa, BNDES), as empreiteiras e outras firmas amigas do rei e, sobretudo, as relações do governo petista com ditaduras marxistas-leninistas e protoditaduras bolivarianas. Mas é desconcertante ver que, até agora, muitas pessoas não entenderam ainda o que aconteceu no Brasil sob o comando do PT.

Quando se dizia isso, na segunda metade da década passada, as pessoas nos olhavam com espanto. Depois pegaram alguns doleiros (como Youssef): elas não acordaram.

Depois veio o mensalão e o petrolão: elas permaneceram dormindo.

Depois vieram as delações das empreiteiras: elas continuaram ferradas no sono.

Depois veio a delação de João Santana e Mônica, revelando que Lula no governo financiou a reeleição de Chávez e de outros autocratas na América Latina, além de ter transferido dinheiro roubado de nós para as ditaduras angolana e cubana: a turma continuou roncando.

Agora vieram as delações de outras empresas envolvendo o BNDES: nada de despertar.

Para os adormecidos é como se tudo isso tivesse ocorrido pela ganância dos corruptos. Elas custam a acreditar que exista uma organização política criminosa que planejou e executou todos esses crimes com objetivos estratégicos de poder (além de roubar também para se locupletar, que ninguém é de ferro).

Aí vieram os sonâmbulos antagonistas dizendo que todos os que operaram e se beneficiaram dos esquemas de corrupção fazem parte da… organização criminosa. Banalizou-se tudo sob o nome genérico de Orcrim.

Quer dizer, quando tudo passa a ser organização criminosa, a verdadeira organização política criminosa, com um projeto de poder, se dilui na corrupção geral. Iguala-se tudo. A organização política vira apenas mais uma quadrilha de assaltantes em causa própria, cujos integrantes roubam para se dar bem na vida, comprar relógios e carros de luxo e ternos caros. Lula vira Cabral, Dirceu vira Cunha, Delúbio vira Jacinto Lamas, Vaccari vira Genu. É mais ou menos como dizer que Salazar é José Sócrates e que Mussolini é Berlusconi.

Conseguir tecer e difundir essa confusão não é fácil: é preciso um alto grau de analfabetismo democrático e muita irresponsabilidade política. Porque põe em risco a democracia. Se todos são iguais, se do que se trata é de limpar a política dos maus, dos corruptos, então é óbvio que o núcleo duro do PT – a verdadeira organização política criminosa – escapará no meio de um festival de processos contra dois mil políticos corruptos aglomerados em suas grandes e pequenas quadrilhas de ocasião.

E transfere as tarefas políticas da democratização para o judiciário, que não vai poder fazer a distinção (até porque nosso arcabouço legal não permite), entre quem apenas roubou para se dar bem e quem (além de também roubar) atuou para alterar a DNA da nossa democracia. Com isso, tira o foco da resistência democrática, reduzindo-a a uma cruzada moralista contra os corruptos – o que também é um risco seriíssimo para a democracia: movimentos de limpeza da política acabam, não raro, desembocando em saídas autocráticas, na escolha de um salvador da pátria ou pior.

Vamos à Venezuela. Uma cruzada moralista contra todos os corruptos na Venezuela acabaria atingindo parte da oposição ao neoditador Maduro (sim, porque os políticos agem mais ou menos da mesma forma em qualquer país, na medida inversa do estoque de capital social disponível: a corrupção endêmica é isso e esta é a razão pela qual o sistema político na Noruega é menos corrupto do que na Nigéria). E tiraria o foco da ameaça à democracia representada pelo chavismo-bolivarianismo, o PSUV e seus aparatos. Mas os corruptos fisiológicos venezuelanos, mesmo que se multiplicassem por mil, não iriam transformar a Venezuela numa ditadura, como fez a organização política criminosa de Chávez ou Maduro.

Examinemos a Rússia. O sistema político conduzido por Boris Iéltsin era corrupto. Mas Iéltsin jamais conseguiria fazer o que fez Putin: transformar a Federação Russa na maior ditadura nascente (excetuando a China) do planeta. Quem fez isso? As quadrilhas, ligadas à máfia russa, estruturadas para cometer crimes comuns, que pontificavam no governo de Iéltsin, ou a organização política criminosa chamada FSB (ex-KGB) de Putin?

Examinemos agora a Turquia. Quem foi capaz de autocratizar o regime político turco, senão a organização político-religiosa criminosa (o Adalet ve Kalkınma Partisi), dirigida por Erdogan?

Não há na história nenhum exemplo de regime político que se autocratizou em razão do aumento do número de corruptos por metro quadrado. Mas há fartos exemplos de países que viraram ditaduras ou protoditaduras quando o poder foi alcançado, por meios eleitorais ou não, por um grupo composto por agentes (até mais honestos do que a média dos políticos) com um projeto autocrático de poder.

Por isso é tão letal, para a democracia, confundir Mussolini com Berlusconi.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

A tirania é o mal

A hora é de resistência democrática